A CAVERNA
Jos Saramago

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Jos Saramago Prmio NOBEL
A Caverna
Romance
Novembro de 2000
Editorial Caminho o Campo da Palavra


O homem que conduz a camioneta chama-se Cipriano Algor,  oleiro de profisso e tem sessenta e quatro anos, posto que  vista parea menos idoso. O homem que est sentado ao lado dele  o genro, chama-se Maral Gacho, e ainda no chegou aos trinta. De todo o modo, com a cara que tem, ningum lhe daria tantos. Como j se ter reparado, tanto um como outro levam colados ao nome prprio uns apelidos inslitos cuja origem, significado e motivo desconhecem. O mais provvel ser sentirem-se desgostosos se alguma vez vierem a saber que aquele algor significa frio intenso do corpo, prenunciador de febre, e que o gacho  nada mais nada menos que a parte do pescoo do boi em que assenta a canga. O mais novo veste uniforme, mas no est armado. O mais velho traja um casaco civil e umas calas mais ou menos a condizer, leva a camisa sobriamente fechada no colarinho, sem gravata. As mos que manejam o volante so grandes e fortes, de campons, e, no obstante talvez por efeito do quotidiano contacto com as maciezas da argila a que o ofcio obriga, prometem sensibilidade. Na mo direita de Maral Gacho no h nada de particular, mas as costas da mo esquerda apresentam uma cicatriz com aspecto de queimadura, uma marca em diagonal que vai da base do polegar  base do dedo mnimo. A camioneta no merece esse nome,  apenas uma furgoneta de tamanho mdio, de um modelo fora de moda, e vai carregada de loua. Quando os dois homens saram de casa, vinte quilmetros atrs, o


cu ainda mal comeara a clarear, agora a manh j ps no mundo luz bastante para que se possa observar a cicatriz de Maral Gacho e adivinhar a sensibilidade das mos de Cipriano Algor. Vm viajando a velocidade reduzida por causa da fra gilidade da carga e tambm pela irregularidade do pavimento da estrada. A entrega de mercadorias no consideradas de pri meira ou segunda necessidades, como  o caso das louas rs ticas, faz-se, de acordo com os horrios fixados, a meio da manh, e se estes dois homens madrugaram tanto foi porque Maral Gacho tem de marcar o ponto pelo menos meia hora antes de as portas do Centro serem abertas ao pblico. Nos dias em que no traz o genro, mas tem louas para transportar, Cipriano Algor no precisa de se levantar to cedo. Contudo, de dez em dez dias,  sempre ele quem se encarrega de ir buscar Maral Gacho ao trabalho para passar com a familia as quarenta horas de folga a que tem direito, e quem, depois, com loua ou sem loua na caixa da furgoneta, pontualmente o reconduz s suas responsabilidades e obrigaes de guarda interno. A filha de Cipriano Algor, que se chama Marta, de apelidos Isasca, por parte da me j falecida, e Algor, por parte do pai, s goza da presena do marido em casa e na cama seis noites e trs dias em cada ms. na noite antes desta ficou grvida, mas ainda no o sabe.
A regio  fosca, suja, no merece que a olhemos duas vezes. Algum deu a estas enormes extenses de aparncia nada campestre o nome tcnico de Cintura Agrcola, e tambm, por analogia potica, o de Cintura Verde, mas a nica paisagem que os olhos conseguem alcanar nos dois lados da estrada, cobrindo sem soluo de continuidade perceptvel muitos milhares de hectares, so grandes armaes de tecto plano, rectangulares, feitas de plsticos de uma cor neutra que o tempo e as poeiras, aos poucos, foram desviando ao cinzento e ao pardo. Debaixo delas, fora dos olhares de quem passa, crescem plantas. Por caminhos secundrios que vm dar  estrada, saem,

aqui e alm, camies e tractores com atrelados carregados de vegetais, mas o grosso do transporte j se efectuou durante a noite, estes de agora, ou tm autorizao expressa e excepcional para fazer a entrega mais tarde, ou deixaram-se dormir. Maral Gacho afastou discretamente a manga esquerda do casaco para olhar o relgio, est preocupado porque o trnsito se torna pouco a pouco mais denso e porque sabe que de aqui para diante, quando entrarem na Cintura Industrial, as dificuldades aumentaro. O sogro deu pelo gesto, mas deixou-se ficar calado, este seu genro  um moo simptico, sem dvida, mas  nervoso, da raa dos desassossegados de nascena, sempre inquieto com a passagem do tempo, mesmo se o tem de sobra, caso em que nunca parece saber o que lhe h-de pr dentro, dentro do tempo, entenda-se, Como ser quando chegar  minha idade, pensou. Deixaram a Cintura Agrcola para trs, a estrada, agora mais suja, atravessa a Cintura Industrial rompendo pelo meio de instalaes fabris de todos os tamanhos, actividades e feitios, com depsitos esfricos e cilndricos de combustvel, estaes elctricas, redes de canalizaes, condutas de ar, pontes suspensas, tubos de todas as grossuras, uns vermelhos, outros pretos, chamins lanando para a atmosfera rolos de fumos txicos, gruas de longos braos, laboratrios qumicos, refinarias de petrleo, cheiros ftidos, amargos ou adocicados, rudos estridentes de brocas, zumbidos de serras mecnicas, pancadas brutais de martelos de pilo, de vez em quando uma zona de silncio, ningum sabe o que se estar produzindo ali. Foi ento que Cipriano Algor disse, No te preocupes, chegaremos a tempo, No estou preocupado, respondeu o genro, disfarando mal a inquietao, Bem sei, era uma maneira de falar, disse Cipriano Algor. Fez virar a forgoneta para uma rua paralela reservada  circulao local, Vamos atalhar caminho por aqui, disse, se a polcia nos perguntar por que samos da estrada, recorda-te da combinao, temos um assunto a tratar numa destas fbricas antes de chegarmos  ci


dade. Maral Gacho respirou fundo, quando o trfego se complicava na estrada, o sogro, mais tarde ou mais cedo, acabava por tomar um desvio. O que o afligia era a possibilidade de que ele se distrasse e tomasse a deciso tarde de mais. Felizmente, apesar dos temores e dos avisos, nunca tinham sido mandados parar pela polcia, Alguma vez se haver de convencer de que j no sou um rapaz, pensou Maral, de que no tem de estar a lembrar-me todas as vezes isto dos assuntos a tratar nas fbricas. No imaginavam, um e outro, que fosse precisamente o uniforme de guarda do Centro que Maral Gacho envergava o motivo da continuada tolerncia ou da benvola indiferena da polcia de trnsito, que no era simples resul tado de acasos mltiplos ou de teimosa sorte, como provavel mente teria sido a sua resposta se lhes perguntassem a razo por que achavam eles que no tinham sido multados at a. Conhecesse-a Maral Gacho, que talvez fizesse valer perante o sogro o peso da autoridade que a farda lhe conferia, conhecesse-a Cipriano Algor, que talvez passasse a falar ao genro com menos irnica condescendncia.  bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe .Depois da Cintura Industrial principia a cidade, enfim, no a cidade propriamente dita, essa avista-se l adiante, tocada como uma carcia pela primeira e rosada luz do sol, o que aqui se v so aglomeraes caticas de barracas feitas de quantos materiais, na sua maioria precrios, pudessem ajudar a defen der das intempries, sobretudo da chuva e do frio, os seus mal abrigados moradores. , no dizer dos habitantes da cidade, um lugar assustador. De tempos a tempos, por estas paragens, e em nome do axioma clssico que prega que a necessidade tambn legisla, um camio carregado de alimentos  assaltado e esvaziado em menos tempo do que leva a cont-lo. O mtodo operativo, exemplarmente eficaz, foi elaborado e desenvolvido depois de uma aturada reflexo colectiva sobre o resultado dos primeiros intentos, malogrados, como logo se tornou bvio, por


uma total ausncia de estratgia, por uma tctica, se assim se lhe poderia chamar, antiquada, e, finalmente, por uma deficiente e errtica coordenao de esforos, na prtica entregues a si mesmos. Sendo quase contnuo durante a noite o fluxo de trfego, bloquear a estrada para reter um camio, como tinha sido primeira ideia, significou carem os assaltantes na sua prpria armadilha, uma vez que atrs desse camio logo outros camies vinham, portanto reforos e socorro imediato para o condutor em apuros. A soluo do problema, efectivamente genial, como  boca pequena foi reconhecido pelas prprias autoridades policiais, consistiu em dividirem-se os assaltantes em dois grupos, um tctico, outro estratgico, e em estabelecer duas barragens em lugar de uma, comeando o grupo tctico por cortar rapidamente a estrada depois da passagem de um camio suficientemente separado dos outros, e logo o grupo estratgico, umas centenas de metros mais adiante, informado adrede por um sinal luminoso, com ligeireza igual montava a segunda barragem, onde o veculo condenado pelo destino no tinha outro remdio que deter-se e deixar-se roubar. Para os veculos que vinham em direco contrria no era necessrio nenhum corte de estrada, os prprios condutores deles se encarregavam de parar ao perceberem o que se passava l adiante. Um terceiro grupo, designado de interveno rpida, se encarregaria de dissuadir com uma chuva de pedras qualquer solidrio atrevido. As barragens eram feitas com grandes pedregulhos transportados em padiolas, que alguns dos prprios assaltantes, jurando e trejurando que no tinham nada que ver com o sucedido, vinham depois ajudar a retirar para a berma da estrada, Essa gente  que d m fama ao nosso bairro, ns somos pessoas honestas, diziam, e os condutores dos outros camies, ansiosos por que lhes limpassem o caminho para no chegarem tarde ao Centro, s respondiam, Pois, pois. A tais acidentes de percurso, sobretudo porque circula quase sempre por estes stios  luz do dia, tem sido poupada a furgoneta de Ci


priano Algor. Pelo menos, at hoje. De facto, porque as louas de barro so as que mais geralmente vo  mesa do pobre e mais facilmente se partem, o oleiro no est livre de que uma mulher, das muitas que mal-vivem nestas barracas, se lembre de dizer um dia destes ao chefe da famlia, Estamos a precisar de pratos novos, ao que ele de certeza responder, Vou tratar disso, passa por a s vezes uma furgoneta que tem escrito por fora Olaria,  impossvel que no leve pratos, E pcaros, acrescentar a mulher, aproveitando a mar favorvel, E pcaros, no me esquecerei.
Entre as barracas e os primeiros prdios da cidade, como uma terra-de-ningum separando duas faces enfrentadas, h um largo espao despejado de construes, porm, olhando com um pouco mais de ateno, percebe-se no solo uma rede entrecruzada de rastos de tractores, certos alisamentos que s podem ter sido causados por grandes ps mecnicas, essas implacveis lminas curvas que, sem d nem piedade, levam tudo por diante, a casa antiga, a raiz nova, o muro que amparava, o lugar de uma sombra que nunca mais voltar a estar. No entanto, tal como sucede nas vidas, quando julgvamos que tambm nos tinham levado tudo por diante e depois reparmos que afinal nos ficara alguma coisa, igualmente aqui uns fragmentos dispersos, uns farrapos emporcalhados, uns restos de materiais de refugo, umas latas enferrujadas, umas tbuas apodrecidas, um plstico que o vento traz e leva, mostram-nos que este territrio havia estado ocupado antes pelos bairros de excludos. No tardar muito que os edifcios da cidade avancem em linha de atiradores e venham assenhorear-se do terreno, deixando entre os mais adiantados deles e as primeiras barracas apenas uma faixa estreita, uma nova terra-de-ningum, que assim ficar enquanto no chegar a altura de se passar  terceira fase.
A estrada principal, a que haviam regressado, passara a ser mais larga, com uma faixa exclusivamente reservada  circulao de veculos pesados, e embora a furgoneta s por desva-



rio de imaginao possa ser includa nessa categoria superior, o facto de se tratar indiscutivelmente de um carro para transporte de cargas d ao seu condutor o direito de concorrer em p de igualdade com as lentas e mastodnticas mquinas que roncam, mugem e cospem nuvens sufocantes pelos tubos de escape, e ultrapass-las rapidamente, com uma sinuosa agilidade que faz tilintar as louas l atrs. Maral Gacho olhou outra vez o relgio e respirou. Chegaria a tempo. J estavam na periferia da cidade, haveria ainda que percorrer umas quantas ruas de traado confuso, virar  esquerda, virar  direita, outra vez  esquerda, outra vez  direita, agora  direita,  direita, esquerda, esquerda, direita, em frente, finalmente desembocariam numa praa a partir da qual se acabavam as dificuldades, uma avenida em linha recta levava-os aos seus destinos, ali onde era esperado o guarda interno Maral Gacho, alm onde deixaria a sua carga o oleiro Cipriano Algor. Ao fundo, um muro altssimo, escuro, muito mais alto que o mais alto dos prdios que ladeavam a avenida, cortava abruptamente o caminho. Na realidade, no o cortava, sup-lo era o efeito de uma iluso de ptica, havia ruas que, para um lado e para o outro, prosseguiam ao longo do muro, o qual, por sua vez, muro no era, mas sim a parede de uma construo enorme, um edifcio gigantesco, quadrangular, sem janelas na fachada lisa, igual em toda a sua extenso. C estamos, disse Cipriano Algor, como vs chegmos a tempo, ainda faltam dez minutos para a tua hora de entrada, Sabe to bem como eu por que no devo atrasar-me, prejudicaria a minha posio na lista dos candidatos a guarda residente, No  uma ideia que entusiasme por a alm a tua mulher, essa de quereres passar a guarda residente,  melhor para ns, teremos mais comodidades, melhores condies de vida. Cipriano Algor parou a furgoneta em frente  esquina do edifcio, pareceu que ia responder ao genro, mas o que fez foi perguntar, Por que  que esto a deitar abaixo aquele quarteiro de prdios, Afinal sempre se confirmou, Confirmou o qu,



H semanas que se andava a falar de uma ampliao, respondeu Maral Gacho ao mesmo tempo que saa da furgoneta, Tinham parado em frente de uma porta por cima da qual havia um letreiro com as palavras Entrada Reservada ao Pessoal de Segurana. Cipriano Algor disse, Talvez, Talvez, no, a prova est a  vista, a demolio j comeou, No me referia  ampliao, mas ao que disseste antes sobre as condies de vida, acerca das comodidades no discuto, em todo o caso no nos podemos queixar, no somos dos mais desafortunados, Respeito a sua opinio, mas eu tenho a minha, e vai ver que Marta, quando chegar a altura, estar de acordo comigo. Deu dois passos, parou, decerto tinha pensado que esta no era a maneira correcta de despedir-se um genro do sogro que o levou ao trabalho, e disse, Obrigado, desejo-lhe uma boa viagem de volta, At daqui a dez dias, disse o oleiro, At daqui a dez dias, disse o guarda interno, ao mesmo tempo que acenava a um colega que vinha chegando. Foram juntos, entraram, a porta fechou-se.
Cipriano Algor ps o motor em marcha, mas no arrancou logo. Olhou para os prdios que estavam a ser arrasados. Desta vez, provavelmente por causa da pouca altura dos edifcios a deitar abaixo, no estavam a ser utilizados explosivos, esse moderno, expeditivo e espectacular processo que em trs segundos  capaz de transformar uma estrutura slida e organizada num catico monto de cacos. Como seria de esperar, a rua que formava ngulo recto com esta estava vedada ao trnsito. Para fazer entrega da mercadoria, o oleiro ia ser obrigado a passar por trs do quarteiro em demolio, rode-lo. seguir depois em frente, a porta a que teria de ir bater estava na esquina mais distante, precisamente, em relao ao ponto em que se encontrava, no outro extremo de uma recta imaginria que atravessasse obliquamente o edifcio onde Maral Gacho entrara, Em diagonal, precisou mentalmente o oleiro para abreviar a explicao. Quando daqui a dez dias vier recolher o genro no haver qualquer vestgio destes prdios, ter as



sentado a poeira da destruio que agora paira no ar, e poder at suceder que j esteja a ser escavado o grande fosso onde sero abertos os cavoucos e implantados os fundamentos da nova construo. Depois levantar-se-o as trs paredes, uma que lindar com a rua por onde Cipriano Algor ter de dar a volta daqui a pouco, duas que cerraro de um lado e do outro o terreno ganho  custa da rua intermdia e da demolio dos prdios, fazendo desaparecer a fachada do edifcio por enquanto visvel, a porta de acesso do pessoal de segurana mudar de stio, no sero precisos muitos dias para que nem a pessoa mais perspicaz seja capaz de distinguir, olhando de fora, e muito menos o perceber se estiver no interior do edifcio, entre a construo recente e a construo anterior. O oleiro olhou o relgio, ainda era cedo, nos dias em que trazia o genro era inevitvel ter de aguardar duas horas que abrisse o servio de recepo a que ia destinado, e depois mais todo o tempo que a sua vez tardasse a chegar, Mas tenho a vantagem de ocupar um bom lugar na fila, posso at ser o primeiro, pensou. Nunca o tinha sido, havia sempre gente mais madrugadora do que ele, o mais certo era que alguns daqueles condutores tivessem passado parte da noite na cabina dos seus camies. Subiam  rua quando o dia aclarava para tomar um caf, po e algum conduto, uma aguardente nas manhs hmidas e frias, depois deixavam-se ficar por ali, praticando uns com os outros, at dez minutos antes de se abrirem as portas, ento os mais novos, nervosos como aprendizes, precipitavam-se pela rampa abaixo para ocuparem os seus postos, enquanto os mais velhos, sobretudo se estavam nos ltimos lugares da fila, desciam conversando sossegadamente, chupando a derradeira fumaa do cigarro, porque no subterrneo, havendo motores ligados, no era permitido fumar. O fim do mundo, achavam eles, no era para j, correr no adiantava nada.
Cipriano Algor ps a furgoneta em andamento. Distrara-se com a demolio dos prdios e agora queria recuperar o



tempo perdido, palavras estas insensatas entre as que mais o forem, expresso absurda com a qual supomos enganar a dura realidade de que nenhum tempo perdido  recupervel, como se acreditssemos, ao contrrio desta verdade, que o tempo que cramos para sempre perdido teria, afinal, resolvido ficar parado l atrs, esperando, com a pacincia de quem dispe do tempo todo, que dssemos pela falta dele. Estimulado pela urgencia nascida dos pensamentos sobre quem chegou primeiro e sobre quem depois chegar, o oleiro deu rapidamente a volta ao quarteiro e meteu a direito pela rua que limitava a outra fachada do edifcio. Como era invarivel costume, j havia gente  espera de que se abrissem as portas destinadas ao pblico. Passou para a faixa esquerda de circulao, para o desvio de acesso  rampa que descia ao pavimento subterrneo, mostrou ao guarda o seu carto de fornecedor e foi tomar lugar na fila de veculos, atrs de uma camioneta carregada de caixas que, a julgar pelos rtulos das embalagens, continham peas de vidro. Saiu da furgoneta para ver quantos outros fornecedores tinha  sua frente e assim calcular, com maior ou menor aproximao, o tempo que teria de esperar. Estava em nmero treze. Contou novamente, no havia dvidas. Embora no fosse pessoa supersticiosa, no ignorava a m reputao deste numeral, em qualquer conversa sobre o acaso, a fatalidade e o destino sempre algum toma a palavra para relatar casos vividos da influncia negativa, e s vezes funesta, do treze. Tentou recordar se em alguma outra ocasio lhe calhara este lugar na fila, mas, de duas uma, ou nunca tal acontecera, ou simplesmente no se lembrava. Ralhou consigo mesmo, que era um despropsito, um disparate preocupar-se com algo que no tem existncia na realidade, sim, era certo, nunca tinha pensado nisso antes, de facto os nmeros no existem na realidade, s coisas  indiferente o nmero que lhes dermos, tanto faz dizermos delas que so o treze como o quarenta e quatro, o Mnimo que se pode concluir  que no tomam conhecimento do


lugar em que calhou ficarem. As pessoas no so coisas, as pessoas querem estar sempre nos primeiros lugares, pensou o oleiro, E no s querem estar neles, como querem que se diga e que os demaiS o notem, murmurou. Com excepo dos dois guardas que fiscalizavam, um em cada extremo, a entrada e a sada, o subterrneo estava deserto. Era sempre assim, os condutores largavam o veculo na fila  medida que iam chegando e subiam para a rua, para o caf. Esto muito enganados se julgam que vou ficar aqui, disse Cipriano Algor em voz alta. Fez recuar a furgoneta como se afinal de contas no tivesse nada para descarregar e saiu do alinhamento, Assim j no serei o dcimo terceiro, pensou. Passados poucos momentos um camio desceu a rampa e foi parar no stio que a furgoneta tinha deixado livre. O condutor desceu da cabina, olhou o relgio, Ainda tenho tempo, deve ter pensado. Quando desapareceu no alto da rampa, o oleiro manobrou rapidamente e foi colocar-se atrs do camio, Agora sou o catorze, disse, satisfeito com a sua astcia. Recostou-se no assento, suspirou, por cima da sua cabea ouvia o zumbido do trfego na rua, em geral tambm subia como os outros para beber um caf e comprar o jornal, mas hoje no lhe apetecia. Fechou os olhos como se recuasse para o interior de si mesmo e entrou logo no sonho, era o genro que lhe estava a explicar que quando fosse nomeado guarda residente a situao mudaria como da noite para o dia, que a Marta e ele deixariam de morar na olaria, j era tempo de comearem uma vida independente da familia, Seja cOMpreensivo, o que tem de ser, diz o ditado, tem muita fora, o mundo no pra, se as pessoas de quem dependes te promovem, o que tens a fazer  levantar as mos ao cu e agradecer, seria uma estupidez virar as costas  sorte quando ela se pe dO nOsso lado, alm disso estou certo de que o seu maior desejo  que a Marta seja feliz, portanto dever estar contente. Cipriano Algor ouvia o genro e sorria para dentro, Dizes tudo isso porque julgas que sou o treze, no sabes que passei a ser


o catorze. Acordou em sobressalto com o bater das portas dos carros, sinal de que a descarga ia comear. Ento, ainda no completamente regressado do sonho, pensou, No mudei nmero, sou o treze que est no lugar do catorze.
Assim era. Quase uma hora depois, chegou a sua vez. Desceu da furgoneta e aproximou-se do balco de atendimento com os papis do costume, a guia de entrega em triplicado, a factura respeitante s vendas efectivas do ltimo fornecimento a declarao de qualidade industrial que acompanhava cada partida e na qual a olaria assumia a responsabilidade de qualquer defeito de fabrico detectado na inspeco a que as louas seriam sujeitas, a confirmao de exclusividade, igualmente obrigatria em todos os fornecimentos, em que a olaria se comprometia, submetendo-se a sanes no caso de infraco, a no ter relaes comerciais com outro estabelecimento para a colocao dos seus artigos. Como era habitual, um empregado aproximou-se para auxiliar a descarga, mas o subchefe da recepo chamou-o e ordenou, Descarrega metade do que a vier, verifica pela guia. Cipriano Algor, surpreendido, alarmado, perguntou, Metade, porqu, As vendas baixaram muito nas ltimas semanas, provavelmente iremos ter de devolver-lhe por falta de escoamento o que est em armazm, Devolver o que tm em armazm, Sim, est no contrato, Bem sei que est no contrato, mas como tambm l est que no me autorizam a ter outros clientes, diga-me a quem  que vou vender a outra metade, Isso no  comigo, eu s cumpro as ordens que recebi, Posso falar com o chefe do departamento, No, no vale a pena, ele no o atenderia. Cipriano Algor tinha as mos a tremer, olhava em redor, perplexo, a pedir ajuda, mas s leu desinteresse nas caras dos trs condutores que haviam chegado depois dele. Apesar disso, tentou apelar  solidariedade de classe, Vejam esta situao, um homem traz aqui o produto do seu trabalho, cavou o barro, amassou-o, modelou a loua que lhe encomendaram, cozeu-a no forno, e agora dizem-lhe que s fi


cam com metade do que fez e que lhe vo devolver o que est no armazm, qUero saber se h justia neste procedimento. os condutores olharam uns para os outros, encolheram os ombros, no tinham a certeza do que seria melhor responder nem a quem conviria mais a resposta, um deles puxou mesmo de um cigarro para tornar claro que se desligava do assunto, logo lembrou-se de que no podia fumar ali, ento virou as costas e foi acolher-se  cabina do camio, longe dos acontecimentos. O oleiro compreendeu que teria tudo a perder se continuasse a protestar, quis deitar gua na fervura que ele prprio havia levantado, de todo o modo vender metade era melhor do que nada, as coisas acabaro com certeza por compor-se, pensou. Submisso, dirigiu-se ao subchefe da recepo, Pode dizer-me o que  que fez que as vendas tivessem baixado tanto, Acho que foi o aparecimento a de umas louas de plstico a imitar o barro, imitam-no to bem que parecem autnticas, com a vantagem de que pesam muito menos e so muito mais baratas, No  razo para que se deixe de comprar as minhas, o barro sempre  o barro,  autntico,  natural, V dizer isso aos clientes, no quero afligi-lo, mas creio que a partir de agora a sua loua s interessar a coleccionadores, e esses so cada vez menos. A contagem estava terminada, o subchefe escreveu na guia, Recebi metade, e disse, No traga mais nada enquanto no tiver notcias nossas, Acha que poderei continuar a fabricar, perguntou o oleiro, A deciso ser sua, eu no me responsabilizo, E a devoluo, sempre me iro devolver o que c tm, as palavras tremiam de desespero e com tal amargura que o outro quis ser conciliador, Veremos. O oleiro entrou na furgoneta, arrancou com brusquido, algumas caixas, mal escoradas depois da meia descarga, deslizaram e foram bater violentamente contra a porta de trs, Que se parta tudo de uma vez, gritou irritado. Teve de parar no princpio da rampa de sada, o regulamento manda que o carto seja apresentado tambm a este guarda, so coisas da burocracia, ningum sabe porqu,


em princpio quem entrou fornecedor, fornecedor sair, mas pelos vistos h excepes, aqui temos o caso de Cipriano Algor que ainda o era quando entrou, e agora, se se confirmarem as ameaas, est em vias de deixar de s-lo. A culpa deveria ter sido do treze, ao destino no o enganam artimanhas de pr depois o que estava antes. A furgoneta subiu a rampa, saiu  luz do dia, no h mais nada a fazer seno voltar para casa. O oleiro sorriu com tristeza, No foi o treze, o treze no existe, tivesse eu sido o primeiro a chegar e a sentena seria igual, por agora metade, depois se ver, merda de vida.
A mulher das barracas, aquela que precisava de pratos e pcaros novos, perguntou ao marido, Ento, viste a furgoneta da olaria, e o marido respondeu, sim, obriguei-a a parar, depois deixei-a seguir, Porqu, Tivesses olhado tu para a cara do homem que l ia dentro, e aposto que terias feito o que eu fiz.


O oleiro parou a furgoneta, desceu os vidros de um lado e do outro, e esperou que algum aparecesse para o roubar. No  raro suceder que certas desesperaes de esprito, certos encontres da vida empurrem a vtima a decises to dramticas como esta, quando no piores. Chega um momento em que a pessoa transtornada ou injuriada ouve uma voz a gritar dentro da sua cabea, Perdido por dez, perdido por cem, e ento  consoante as particularidades da situao em que se encontre e o lugar onde ela o encontrou, ou gasta o ltimo dinheiro que lhe restava num bilhete de lotaria, ou atira para a mesa de jogo o relgio que havia herdado do pai e a cigarreira de prata que a me lhe deu, ou aposta quanto tem no vermelho apesar de ter visto que a cor saiu cinco vezes seguidas, ou sobe sozinho da trincheira e corre de baioneta calada contra a metralhadora do inimigo, ou pra esta furgoneta, desce os vidros, abre depois as portas, e pe-se  espera de que, com os porretes do costume, as navalhas de sempre e as necessidades da ocasio, o venha saquear a gente das barracas, Se no o quiseram aqueles, ento que o levem estes, foi o ltimo pensamento de Cipriano Algor. Passaram dez minutos sem que algum se aproximasse para cometer o ansiado latrocinio, um quarto de hora se foi sem que ao menos um co vadio tivesse subido  estrada para mijar numa roda e farejar o recheio da furgoneta, e j ia vencida meia hora quando finalmente se aproximou um homem sujo e mal-encarado que perguntou ao oleiro,


H algum problema, quer ajuda, dou-lhe um empurrozinho, pode ser coisa da bateria. Ora, se at mesmo os nimos mais fortes tm momentos de irresistvel fraqueza, que  quando o corpo no consegue comportar-se com a reserva e a discrio que o esprito levou anos a ensinar-lhe, no deveremos estranhar que a oferta de auxilio, ainda por cima vinda de um homem com toda a pinta de assaltante habitual, tivesse tocado a corda mais sensvel de Cipriano Algor ao ponto de lhe fazer subir uma lgrima ao canto do olho, No, muito obrigado, disse, mas logo a seguir, quando o prestimoso cireneu j se afastava, saltou da furgoneta, correu a abrir a porta traseira, ao mesmo tempo que ia chamando,  senhor,  senhor, venha c.
O homem parou, Sempre quer que o ajude, perguntou, No, no  isso, Ento, qu, Venha aqui, faa-me esse favor. O homem veio e Cipriano Algor disse, Tome esta meia dzia de pratos, leve-os  sua mulher,  um presente, e tome mais estes seis, que so de sopa, Mas eu no fiz nada, duvidou o homem, Tanto d,  o mesmo que se tivesse feito, e se est precisado de uma bilha para a gua, aqui a tem, Realmente, uma bilha fazia-me jeito l em casa, Pois ento leve-a, leve-a. O oleiro empilhou os pratos, primeiro os rasos, depois os covos, depois estes sobre aqueles, acomodou-os  curva do brao esquerdo do homem, e, como a bilha para a gua j estava suspensa da mo direita dele, no teve o beneficiado muito de si com que agradecer, s a vulgar palavra obrigado, que tanto  sincera como no, e a surpresa de uma inclinao de cabea nada de harmonia com a classe social a que pertence, o que isto quer dizer  que saberamos muito mais das complexidades da vida se nos aplicssemos a estudar com afinco as suas contradies em vez de perdermos tanto tempo com as identidades e as coerncias, que essas tm obrigao de explicar-se por si mesmas.
Quando o homem que tinha pinta de salteador, mas que afinal no o era, ou que simplesmente no tinha querido s-lo


desta vez, se sumiu, meio perplexo, entre as barracas, Cipriano Algor ps a furgoneta em movimento. Obviamente, nem a viso mais aguda seria capaz de notar qualquer diferena na presso exercida sobre as molas e os pneumticos da furgoneta, em questes de peso doze pratos e uma bilha de barro significam tanto num veculo de transporte, ainda que de tamanho mdio, como significariam na feliz cabea de uma noiva doze ptalas de rosa branca e uma ptala de rosa encarnada. No foi por casualidade que a palavra feliz surgiu a atrs, de facto  o mnimo que podemos dizer da expresso de Cipriano Algor, que, olhando-o agora, ningum acreditaria que s lhe compraram metade da carga que tinha levado ao Centro. Mau foi ter-lhe voltado outra vez  lembrana, quando dois quilmetros adiante penetrou na Cintura Industrial, o bruto revs comercial sofrido. A ominosa viso das chamins a vomitar rolos de fumo deu-lhe para se perguntar em que estupor de fbrica daquelas estariam a ser produzidos os estupores das mentiras de plstico, maliciosamente fingidas  imitao de barro,  impossvel, murmurou, nem o som nem o peso se lhe podem igualar, e h ainda a relao entre a vista e o tacto que li j no sei onde, a vista que  capaz de ver pelos dedos que esto a tocar o barro, os dedos que, sem lhe tocarem, conseguem sentir o que os olhos esto a ver. E, como se isto no fosse j tormento bastante, tambm se interrogou Cipriano Algor, pensando no velho forno da olaria, quantos pratos, pcaros, canecas e jarros por minuto ejectariam as malditas mquinas, quantas coisas a fazer as vezes de bilhas e quartes. O resultado destas e outras perguntas que no ficaram registadas foi ensombrar-se outra vez o semblante do oleiro e, a partir da, o resto do caminho foi todo ele um contnuo cogitar sobre o futuro difcil que esperava a famlia Algor se o Centro persistisse na nova avaliao de produtos de que a olaria fora talvez a primeira vtima. Honra seja feita, porm, a quem a leva amplamente merecida, em nenhum momento Cipriano Algor permitiu que o


seu esprito fosse tomado pelo arrependimento de haver sido generoso com o homem que o deveria ter roubado, se fosse verdade tudo quanto se tem andado a dizer a respeito da gente das barracas. Na orla da Cintura Industrial havia umas quantas modestas manufacturas que no se percebia como tinham podido sobreviver  gula de espao e  mltipla variedade de produo dos modernos gigantes fabris, mas o facto era que ali estavam, e olh-las  passagem sempre tinha sido uma consolao para Cipriano Algor quando, em algumas horas mais inquietas da vida, lhe dava para futurar sobre os destinos da sua profisso. No vo durar muito, pensou, desta vez referia-se s manufacturas, no ao futuro da actividade oleira, mas foi s porque no se deu ao trabalho de reflectir durante tempo suficiente, sucede isto muitas vezes, achamos que j se pode afirmar que no vale a pena esperar concluses s porque resolvemos parar no meio do caminho que nos levaria a elas.
Cipriano Algor atravessou a Cintura Verde rapidamente, no olhou nem uma vez para os campos, o espectculo montono das extenses de plstico, baas de natureza e soturnas de sujidade, causava-lhe sempre um efeito depressivo, imagine-se o que seria hoje, no estado de nimo em que vai, se se pusesse a contemplar este deserto. Como quem alguma vez tivesse erguido a tnica benzida de uma santa de altar para saber se o que a sustentava por baixo eram pernas de gente ou um par de estacas mal desbastadas, j h muito tempo que o oleiro no precisava de resistir  tentao de parar a furgoneta e ir espreitar se era mesmo certo que no interior daquelas coberturas e daqueles painis havia plantas reais, com frutos que se pudessem cheirar, palpar e morder, com folhas, tubrculos e rebentos que se pudessem cozer, temperar e pr no prato, ou se a melancolia abrumadora do que por fora se expunha contaminava de incurvel artifcio o que l dentro crescia, fosse o que fosse. Depois da Cintura Verde o oleiro tomou por uma estrada secundria, havia uns restos esqulidos de bosque, uns campos mal ama


nhados, uma ribeira de guas escuras e ftidas, depois apareceram numa curva as runas de trs casas j sem janelas nem portas, com os telhados meio cados e os espaos interiores quase devorados pela vegetao que sempre irrompe dos escombros, como se ali tivesse estado,  espera da sua hora, desde a abertura dos cavoucos. A povoao comeava uns cem metros alm, era pouco mais que a estrada que lhe passava ao meio, umas quantas ruas que a ela vinham desembocar, uma praa irregular que fazia barriga para um lado s, ai um poo fechado, com a sua bomba de tirar gua e a grande roda de ferro,  sombra de dois altos pltanos. Cipriano Algor acenou a uns homens que conversavam, mas, contra o que era costume quando regressava de levar as louas ao Centro, no parou, num momento destes no imaginava o que lhe poderia apetecer, mas no de certeza uma conversa, mesmo tratando-se de pessoas que conhecia. A olaria e a morada em que vivia com a filha e o genro ficavam no outro extremo da povoao, metidas para dentro do campo, apartadas dos ltimos prdios. Ao entrar na aldeia, Cipriano Algor havia reduzido a velocidade da furgoneta, mas agora avanava ainda mais devagar, a filha devia de estar a acabar de preparar o almoo, eram horas disso, Que fao, digo-lho j, ou depois de termos comido, perguntava a si mesmo,  prefervel depois, deixo a furgoneta no alpendre da lenha, ela no pensar em ir ver se trago alguma coisa, hoje no era dia de compras, assim poderemos comer tranquilos, isto , comer ela tranquila, eu no, e no fim conto-lhe o que sucedeu, ou ento talvez l mais para o meio da tarde, quando estivermos a trabalhar, to mau seria ficar a sab-lo antes de termos almoado como logo a seguir. A estrada fazia uma curva larga onde terminava a povoao, depois do ltimo prdio via-se  distncia uma grande amoreira-preta que no deveria ter menos de uns dez metros de altura, ali estava a olaria. O vinho foi servido, vai ser preciso beb-lo, disse Cipriano Algor com um sorriso cansado, e pensou que muito me


lhor seria se o pudesse vomitar. Virou a furgoneta  esquerda, para um caminho em subida pouco pronunciada que conduzia  casa, a meio dele deu trs avisos sonoros a anunciar que chegava, sempre o fazia, a filha estranharia se hoje no o fizesse.
A morada e a olaria tinham sido construdas neste amplo terreiro, provavelmente uma antiga eira, ou um calcadoiro, no centro do qual o av oleiro de Cipriano Algor, que tambm usara o mesmo nome, decidiu, num dia remoto de que no ficou registo nem memria, plantar a amoreira. O forno, um pouco apartado, j havia sido obra modernizadora do pai de Cipriano Algor, a quem tambm idntico nome fora dado, e substitura um outro forno, velhssimo, para no dizer arcaico, que, olhado de fora, tinha a forma de dois troncos de cone sobrepostos, o de cima mais pequeno que o de baixo, e de cujas origens to-pouco havia ficado lembrana. Sobre os vetustos alicerces dele tinha-se construdo o forno actual, este que cozeu a carga de que o Centro s quis receber metade, e agora, j frio, espera que o carreguem de novo. Com uma ateno exagerada Cipriano Algor arrumou a furgoneta debaixo do alpendre, entre duas pargas de lenha seca, depois pensou que ainda poderia passar pelo forno e ganhar alguns minutos, mas faltava-lhe o motivo, faltava-lhe a justificao, no era como de outras vezes, quando regressava da cidade e o forno se encontrava a funcionar, nesses dias ia olhar para dentro da mufla e calcular a temperatura pela cor dos barros incandescentes, se o vermelho-escuro j se teria convertido em vermelho-cereja, ou este em laranja. Ficou ali parado, como se o nimo de que precisava se tivesse atrasado no caminho, mas foi a voz da filha que o obrigou a mover-se, Por que  que no entra, o almoo est pronto. Intrigada com a demora, Marta aparecera entreportas, Venha, venha, que a comida esfria. Cipriano Algor entrou, deu um beijo  filha e fechou-se na casa de banho, comodidade domstica instalada quando j era adolescente e, desde h muito


tempo, a necessitar ampliao e melhorias. Observou-se no espelho, no encontrou nenhuma ruga a mais na cara, Tenho-a dentro, de certeza, pensou, depois verteu guas, lavou as mos e saiu. Comiam na cozinha, sentados a uma grande mesa que havia conhecido dias mais felizes e assembleias mais numerosas. Agora, depois da morte da me, Justa Isasca, de quem talvez no se venha a falar muito mais neste relato, mas de quem se deixa escrito aqui o nome prprio, que o apelido j o conhecamos, agora os dois comem num extremo, o pai  cabeceira, Marta no lugar que a me deixou vago, e em frente dela Maral, quando est. Como lhe correu a manh, perguntou Marta, Bem, o costume, respondeu o pai baixando a cabea para o prato, Maral telefonou, Ah sim, e que queria ele, Que tinha estado a falar consigo sobre irmos viver para o Centro quando for promovido a guarda residente, Sim, falmos nesse assunto, Estava aborrecido porque o pai tornou a dizer que no concorda, Entretanto pensei melhor, acho que vai ser uma boa soluo para ambos. O que  que o fez, de repente, mudar de ideias, No querers continuar a trabalhar de oleira para o resto da tua vida, No, embora goste do que fao, Deves acompanhar o teu marido, amanh ters filhos, trs geraes a comer barro  mais do que suficiente, E o pai est de acordo em ir connosco para o Centro, deixar a olaria, perguntou Marta, Deixar isto, nunca, est fora de questo, Quer dizer que passar a fazer tudo sozinho, cavar o barro, amass-lo, trabalhar  bancada e ao torno, acender o forno, carreg-lo, desenforn-lo, limp-lo, depois meter tudo na furgoneta e ir vender, recordo-lhe que as coisas j vo sendo bastante difceis apesar da ajuda que nos d Maral no pouco tempo que c est, Hei-de encontrar quem me auxilie, no faltam rapazes na povoao, Sabe perfeitamente que j ningum quer ser oleiro, aqueles que se fartam do campo vo para as fbricas da Cintura, no deixam a terra para vir para o barro, Mais uma razo para que largues isto, No est a pensar que o vou dei


xar aqui sozinho, Vens ver-me de vez em quando, Pai, por favor, estou a falar a srio, Eu tambm, minha filha.
Marta levantou-se para mudar os pratos e servir a sopa, que era costume da familia comer depois. O pai seguia-a com os olhos e pensava, Estou a deixar complicar tudo com esta conversa, melhor seria contar-lhe j. No o fez, subitamente a filha passara a ter oito anos, e ele dizia-lhe, Repara bem,  como quando a tua me amassa o po. Fazia rolar o bloco de argila para a frente e para trs, comprimia-o e alongava-o com a parte posterior da palma das mos, batia-o com fora sobre a mesa, calcava, apertava, voltava ao princpio, repetia toda a operao, uma vez, outra vez, outra ainda, Por que  que faz isso, perguntara-lhe a filha, Para no deixar ficar dentro do barro grumos e bolhas de ar, seria mau para o trabalho, No po tambm, No po s os grumos, as bolhas no tm importncia. Punha de lado o cilindro compacto em que transformara a argila e comeava a amassar outro bloco, J vai sendo tempo de aprenderes, dissera, mas depois arrependeu-se, Que estupidez, s tem oito anos, e emendou, Vai brincar l para fora, vai, aqui est frio, mas a filha respondeu que no queria ir, estava a tentar modelar um boneco numa apara de barro que se lhe pegava aos dedos por ser demasiado mole, Esse no serve, experimenta antes com este, vais ver que conseguirs, disse o pai. Marta olhava-o inquieta, no eram maneiras de ele baixar assim a cabea para comer, como se pretendesse que, escondendo a cara, tambm as preocupaes ficassem escondidas, talvez seja da conversa que teve com Maral, mas disso falmos e ele no mostrou esta cara, ou ento estar doente, vejo-o decado, murcho, naquele dia a me disse-me, Tem cuidado, no puxes demasiado por ti, e eu respondi-lhe, Isto s quer fora de braos e manejo de ombros, o resto do corpo assiste de palanque, No mo venhas dizer a mim, que at o cabelo da cabea me fica a doer depois de uma hora a amassar,  s porque tem andado um pouco mais cansada nestes ltimos tempos, Ou ser porque estou a comear a ficar velha, Faa o favor de deixar-se dessas ideias, minha me, a senhora no tem nada de velha, mas, quem tal imaginaria, ainda sobre esta conversa no tinham decorrido duas semanas, e j estava morta e enterrada, so as surpresas que a morte faz  vida, Em que pensa, meu pai. Cipriano Algor limpou a boca ao guardanapo, pegou no copo como se fosse beber, mas pousou-o sem o levar aos lbios. Diga, fale, insistiu a filha, e para abrir-lhe caminho ao desabafo perguntou, Ainda est preocupado por causa de Maral, ou tem algum outro motivo de cuidado. Cipriano Algor deitou a mo ao copo, bebeu de um trago o resto do vinho, e respondeu rapidamente, como se as palavras lhe queimassem a lngua, S me ficaram com metade do carregamento, dizem que passou a haver menos compradores para o barro, que apareceram  venda umas louas de plstico a imitar e que  isso que os clientes preferem, No  nada que no devssemos esperar, mais tarde ou mais cedo teria de suceder, o barro racha-se, esboicela-se, parte-se ao menor golpe, ao passo que o plstico resiste a tudo e no se queixa, A diferena est em que o barro  como as pessoas, precisa de que o tratem bem, O plstico tambm, mas  certo que menos, E o pior  terem-me dito que no lhes leve mais loua enquanto no a encomendarem, Ento vamos parar de trabalhar, Parar no, quando o pedido vier j teremos de dispor de loua pronta para entregar nesse mesmo dia, no seria depois da encomenda que iramos a correr acender o forno, E entretanto que fazemos, Esperar, ter pacincia, amanh irei dar uma volta por a, alguma coisa hei-de vender, Lembre-se de que j deu essa volta h dois meses, no encontrar muitas pessoas a precisar de comprar, No queiras desanimar-me, S procuro ver as coisas como so, foi o pai quem disse, ainda agora, que trs geraes de oleiros na famlia  mais do que suficiente, No chegars a ser a quarta gerao, irs viver para o Centro com o teu marido, Deverei ir, sim, mas o pai ir comigo, J te disse que nunca me hs-de ver a viver


no Centro, Foi o Centro quem nos alimentou at hoje comprando o produto do nosso trabalho, continuar a alimentar-nos quando l morarmos e no tivermos nada para lhe vender, Graas ao salrio de Maral, No  ofensa nenhuma que o genro sustente o sogro, Depende de quem o sogro seja, Pai, no  bom ser-se orgulhoso a esse ponto, No se trata de orgulho, De que se trata, ento, No te posso explicar,  mais complicado do que o orgulho,  outra coisa, uma espcie de vergonha, mas desculpa-me, reconheo que no devia ter dito o que disse, O que eu no quero  que passe necessidades, Poderei comear a vender aos comerciantes da cidade,  questo de o Centro autorizar, se compram menos no tm o direito de proibir-me de vender a outros, Sabe melhor do que eu que os comerciantes da cidade lutam com grandes dificuldades para manter a cabea fora de gua, toda a gente vai comprar ao Centro, cada vez h mais gente a querer viver no Centro, Eu no quero, Que vai fazer se o Centro deixar de nos comprar louas e se as pessoas daqui comearem a usar utensilios de plstico, Espero morrer antes disso, A me morreu antes disto, Morreu ao torno, a trabalhar, oxal pudesse eu acabar da mesma maneira, No fale da morte, pai,  enquanto estamos vivos que podemos falar da morte, no depois. Cipriano Algor serviu-se de um pouco mais de vinho, levantou-se, limpou a boca s costas da mo como se as regras de educao  mesa caducassem ao retirar-se, e disse, Tenho de ir partir barro, o que temos est a acabar. J ia a sair quando a filha o chamou, Pai, ocorreu-me uma ideia, Uma ideia, Sim, telefonar ao Maral para que fale com o chefe do departamento de compras e tente descobrir quais so as intenes do Centro, se  por pouco tempo esta reduo nas encomendas ou se ser para durar, o pai sabe que o Maral  estimado pelos superiores, Pelo menos  o que ele nos diz, Se o diz  porque  certo, retorquiu Marta, impaciente, e acrescentou, Mas se no quiser, no telefonarei, Telefona, sim, telefona,  uma boa ideia,  a nica que pode servir agora, ainda que eu duvide de que um chefe de departamento do Centro esteja disposto, assim sem mais nem menos, a dar satisfaes acerca do seu servio a um guarda de segunda classe, conheo-os melhor do que ele, no  preciso estar l dentro para perceber de que massa  feita aquela gente, julgam que tm o rei na barriga, alm disso um chefe de departamento no  mais do que um mandado, cumpre ordens que lhe vm de cima, pode at suceder que nos engane com explicaes sem fundamento, s para se dar ares de figura importante. Marta ouviu a extensa tirada at ao fim, mas no respondeu. Se, como parecia manifesto, o pai fazia questo de ter a ltima palavra, no seria ela quem lhe roubaria o gosto. S pensou, quando ele saiu, Devo ser mais compreensiva, devo pr-me no seu lugar, imaginar o que ser ficar de repente sem trabalho, separar-se da casa, da olaria, do forno, da vida. Repetiu as ltimas palavras em voz alta, Da vida, ao mesmo tempo que subitamente a vista se lhe turvou, tinha-se posto no lugar do pai e sofreu como ele estava sofrendo. Olhou em redor e reparou pela primeira vez que tudo ali estava como coberto de barro, no sujo de barro, somente da cor que ele tem, da cor de todas as cores com que saiu da barreira, o que foi sendo deixado por trs geraes que todos os dias mancharam as mos no p e na gua do barro, e tambm, l fora, a cor de cinza viva do forno, a derradeira e esmorecente mornido de quando o deixavam vazio, como uma casa donde saram os donos e que se deixa ficar, paciente,  espera, e amanh, se tudo isto no se acabou j para sempre, outra vez a primeira chama da lenha, o primeiro bafo quente que vai rodear como uma carcia a argila seca, e depois, aos poucos e poucos, a tremulina do ar, uma cintilao rpida de brasa, o alvorecer do esplendor, a Irrupo deslumbrante do fogo pleno. Nunca mais verei isto quando nos formos daqui, disse Marta, e angustiou-se-lhe o corao como se estivesse a despedir-se da pessoa a quem mais amasse, que neste momento no saberia dizer qual delas fosse,


se a me j morta, se o pai amargurado, ou at o marido, sim, poderia ser o marido,  o mais lgico, sendo mulher dele como . Ouvia, como se subisse de debaixo do cho, o rudo surdo do mao rompendo o barro, porm o som das pancadas parecia-lhe hoje diferente, talvez porque no as impelisse a necessidade simples do trabalho, mas a ira impotente de o perder. Vou telefonar, murmurou Marta consigo mesma, a pensar estas coisas ainda acabarei por ficar to triste como ele. Saiu da cozinha e dirigiu-se ao quarto do pai. Ali, em cima da pequena mesa onde Cipriano Algor fazia a escriturao das despesas e receitas da olaria, estava um telefone de modelo antiquado. Marcou um dos nmeros da central e pediu que a pusessem em comunicao com a segurana. Quase no mesmo instante soou uma voz seca de homem, Servio de Segurana, a rapidez do atendimento no a surpreendeu, toda a gente sabe que quando se trata de questes de segurana at o mais insignificante dos segundos conta, Desejo falar com o guarda de segunda classe Maral Gacho, disse Marta, Da parte de quem, Sou a mulher dele, estou a falar de casa, O guarda de segunda classe Maral Gacho encontra-se de servio neste momento, no pode ser deslocado, Nesse caso peo o favor de lhe transmitirem um recado,  a mulher dele, Sou, chamo-me Marta Algor Gacho, poder verificar a, Ento no ignora que no recebemos recados, apenas tomamos nota de quem telefonou, Seria s dizer-lhe que telefone para casa assim que puder,  urgente, perguntou a voz. Marta pensou duas vezes, ser urgente, urgente no ser, sangria desatada no era, problemas graves no forno tambm no, parto prematuro muito menos, mas acabou por responder, Sim, realmente tem uma certa urgncia, Tomei nota, disse o homem, e desligou. Com um suspiro de cansada resignao Marta pousou o auscultador no descanso, no havia nada a fazer, era mais forte do que eles, a segurana no podia viver sem atirar a sua autoridade  cara das pessoas, mesmo num caso to trivial como tinha sido este de agora, to banal, to de todos os dias, uma mulher que telefonou para o Centro porque precisava de falar com o seu marido.no foi ela a primeira nem de certeza ser a ltima. Quando Marta saiu para o terreiro, o som do mao deixou subitamente de parecer que subia do cho, vinha de onde tinha de vir, do recanto escuro da olaria onde se guardava a argila extrada da barreira. Chegou-se  porta, mas no passou do limiar, J telefonei, disse, ficaram de lhe dar o recado, Esperemos que o faam, respondeu o pai, e sem outra palavra atacou com o mao o maior dos blocos que tinha  sua frente. Marta virou as costas porque sabia que no deveria penetrar num espao escolhido de propsito pelo pai para estar sozinho, mas tambm porque tinha, ela prpria, trabalho a fazer, algumas dzias de pcaros grandes e pequenos  espera de que lhes colassem as asas. Entrou pela porta ao lado.


Maral Gacho telefonou ao fim da tarde, depois de sair do seu turno de servio. Respondeu  mulher em breves e mal ligadas palavras, sem dar mostras de lstima, inquietao ou enfado pela descortesia comercial de que o sogro fora vtima. Falou com uma voz ausente, uma voz que parecia estar a pensar noutra coisa, disse Sim, ah sim, compreendo,  conforme, suponho que  normal, irei logo que puder, s vezes no, sem dvida, pois sim, j compreendi, no precisas de repetir, e rematou a conversa com uma frase finalmente completa, mas sem relao com o assunto, Fica descansada, no me esquecerei das compras. Marta percebeu que o marido tinha estado a falar diante de testemunhas, colegas de trabalho, talvez um superior que viera inspeccionar a camarata, e por isso teve de disfarar, a fim de evitar curiosidades incmodas, ou mesmo perigosas. A Organizao do Centro fora concebida e montada segundo um modelo de estrita compartimentao das diversas actividades e funes, as quais, embora no fossem nem pudessem ser totalmente estanques, s por canais nicos, no raro difceis de destrinar e identificar, podiam comunicar entre si.  claro que um simples guarda de segunda classe, tanto pela natureza esPecfica do seu cargo como pelo seu diminuto valimento no quadro do pessoal subalterno, uma coisa derivada da outra por inaPelvel consequncia, no est apetrechado, geralmente falando, de discernimento e perceptibilidade suficientes para captar subtilezas e matizes desse carcter, na verdade quase


volteis, mas Maral Gacho, apesar de no ser o mais astuto da sua categoria, conta a seu favor com um certo fermento de ambio que, tendo como meta conhecida a passagem a guarda residente e, num segundo tempo, naturalmente, a promoo a guarda de primeira classe, no sabemos aonde poder lev-lo no futuro prximo e, menos ainda, num futuro distante, se o tiver. Foi por andar de olhos bem abertos e ter os ouvidos afinados logo desde o dia em que comeou a trabalhar no Centro que pde aprender, em pouco tempo, quando e como era mais conveniente falar, ou calar, ou fazer de conta. Depois de dois anos de casamento, Marta julga conhecer bem o marido que lhe calhou nesse jogo de pr e tirar a que quase sempre se reduz a vida conjugal, dedica-lhe todo o seu afecto de esposa, no teria mesmo relutncia, supondo que o interesse do relato exigisse aprofundar a sua intimidade, em usar de extrema veemncia ao responder que o ama, mas no  pessoa para enganar-se a si mesma, sendo mesmo provvel, se levssemos to longe a insistncia, que acabasse por confessar que s vezes ele lhe parece demasiado prudente, para no dizer calculador, imaginando que a rea to negativa da personalidade ousaramos levar a indagao. Tinha a certeza de que o marido se retirara contrariado da conversa, de que estaria j a preocup-lo a perspectiva de um encontro com o chefe do departamento de compras, e no por timidez ou modstia de inferior, na verdade Maral Gacho sempre fez gala em proclamar que no gosta de chamar sobre si as atenes desde que no se trate de assuntos de servio, sobretudo, acrescentar quem pensa conhec-lo, quando se d o caso de elas no lhe trazerem benefcio. Afinal, a tal boa ideia que Marta julgara ter s boa tinha parecido porque, naquele momento, como disse o pai, era a nica possvel. Cipriano Algor estava na cozinha, no podia ter ouvido os fragmentos de discurso, soltos e desconexos, emitidos pelo genro, mas foi como se os tivesse lido todos, e preenchido as faltas, no rosto abatido da filha, quando, um largo minuto depois, ela saiu do quarto. E porque no valia a pena dar trabalho  lngua por to pouco, no perdeu tempo a perguntar-lhe Ento. foi ela quem teve de comunicar o bvio, Falar com o chefe do departamento, que tambm s para dizer isto no precisava Marta de cansar-se, dois olhares bastariam. A vida  assim, est cheia de palavras que no valem a pena, ou que valeram e j no valem, cada uma que ainda formos dizendo tirar o lugar a outra mais merecedora, que o seria no tanto por si mesma, mas pelas consequncias de t-la dito. O jantar decorreu em silncio, silenciosas foram tambm as duas horas passadas depois diante da televiso indiferente, em certa altura, como vem sucedendo com frequncia nos ltimos meses, Cipriano Algor adormeceu. Tinha o sobrolho franzido, com uma expresso de zanga, como se, ao mesmo tempo que dormia, estivesse a recriminar-se por ter cedido to facilmente ao sono, quando o justo e equitativo seria que a irritao e o desgosto o mantivessem acordado de noite e de dia, o desgosto para que sofresse plenamente a injria, a irritao para lhe tornar suportvel o sofrimento. Exposto assim, desarmado, com a cabea cada para trs, a boca meio aberta, perdido de si mesmo, apresentava a imagem pungente de um abandono sem salvao, como um saco que se tivesse rompido e deixado escoar pelo caminho o que levava dentro. Marta olhava o pai com fervor, com uma intensidade apaixonada, e pensava, Este  o meu velho pai, so exageros desculpveis de quem ainda est nos primeiros alvores da idade adulta, a um homem de sessenta e quatro anos, embora de nimo um pouco emurchecido como neste se est observando, no se deveria, com to inconsciente leviandade, chamar-lhe velho, teria sido esse o costume nas pocas em que os dentes comeavam a cair aos trinta anos e as primeiras rugas apareciam aos vinte e cinco, actualmente a velhice, a autntica, a insofismvel, aquela de que no poder haver retorno, nem sequer fingimento dele, s a partir dos oitenta anos  que principiar, de facto e sem desculpas, a merecer


o nome que damos ao tempo da despedida. Que ir ser de ns se o Centro deixa de comprar, para quem passaremos a fabricar loua se so os gostos do Centro que determinam os gostos de toda a gente, perguntava-se Marta, no foi o chefe do departamento quem decidiu reduzir as compras a metade, a ordem veio-lhe de cima, dos superiores, de algum para quem  indiferente que haja um oleiro a mais ou a menos no mundo, isto que sucedeu poder ter sido apenas o primeiro passo, o segundo ser deixarem definitivamente de comprar, teremos de estar preparados para esse desastre, sim, preparados, mas bem gostaria eu de saber como  que uma pessoa se prepara para levar uma martelada na cabea, e quando Maral for promovido a guarda residente, que farei com o pai, deix-lo-ei ficar sozinho nesta casa e sem trabalho, impossvel, impossvel, filha desnaturada, diriam de mim os vizinhos, pior do que isso, diria eu de mim mesma, as coisas seriam diferentes se a me ainda fosse viva, porque, ao contrrio do que  costume dizer-se, duas fraquezas no fazem uma fraqueza maior, fazem uma fora nova, provavelmente no  assim nem nunca o foi, mas h ocasies em que conviria que o fosse, no, meu pai, no, Cipriano Algor, quando eu daqui sair irs comigo, ainda que te tenha de levar  fora, no duvido de que um homem seja capaz de viver s, mas estou convencida de que comea a finar-se no mesmo instante em que feche atrs de si a porta da sua casa Como se o tivessem sacudido bruscamente por um brao, ou como se tivesse percebido que falavam da sua pessoa, Cipriano Algor abriu os olhos de repente e endireitou-se na cadeira. Passou as mos pela cara e, com a expresso meio confusa de uma criana apanhada em falta, murmurou, Deixei-me dormir. Dizia sempre estas palavras, Deixei-me dormir, quando acordava dos seus breves sonos diante da televiso. Mas esta noite no era igual s outras, por isso teve de acrescentar, Seria muito melhor que no tivesse acordado, murmurou, ao menos, enquanto dormi, fui um oleiro com trabalho, Com a grande diferena de que o trabalho que se faz sonhando nunca deixou obra feita, disse Marta, Exactamente como na vida desperta, trabalhas, trabalhas e trabalhas, e um dia sais desse sonho ou dessa pesadeira e dizem-te que o que fizeste no serviu para nada, Serviu, sim, pai,  como se no tivesse servido, Hoje tivemos um Mau dia, amanh pensaremos com mais sossego, veremos como encontrar sada para este problema que nos arranjaram, Pois sim, veremos, pois sim, pensaremos. Marta chegou-se ao pai, deu-lhe um beijo carinhoso, V-se deitar, v, e durma bem, descanse-me essa cabea.  entrada do quarto, Cipriano Algor parou, virou-se para trs, pareceu hesitar um momento e acabou por dizer, como se decidisse convencer-se a si mesmo, Talvez o Maral telefone amanh, talvez nos traga uma boa noticia, Quem sabe, pai, quem sabe, respondeu Marta, ele disse-me que tomaria a questo muito a peito, era essa a sua disposio.
Maral no telefonou no dia seguinte. Passou-se todo esse dia, que era quarta-feira, passou quinta e passou sexta, passaram sbado e domingo, e s na segunda-feira, quase uma semana depois do desaire das louas,  que o telefone voltaria a tocar em casa de Cipriano Algor. Apesar do que tinha anunciado, o oleiro no saiu para dar uma volta pelos arredores  procura de compradores. Ocupou as suas arrastadas horas em pequenos trabalhos, alguns deles desnecessrios, como foi o de inspeccionar e limpar meticulosamente o forno, de alto a baixo, por dentro e por fora, junta ajunta, tijolo a tijolo, como se estivesse a prepar-lo para a maior cozedura da sua histria. Amassou uma poro de barro de que a filha precisava, mas, ao contrrio da ateno escrupulosa com que havia tratado o forno, f-lo com pouqussimo zelo, tanto assim que Marta, s escondidas, se viu obrigada a amass-lo outra vez para lhe reduzir os grumos. Rachou lenha, varreu o terreiro, e na tarde em que, durante mais de trs horas, caiu uma dessas chuvas finas e montonas a que dantes se dava o nome de moinhas, esteve todo o tempo sentado num tronco debaixo do alpendre, umas vezes olhando em frente


com a fixidez de um cego que sabe que no passar a ver se virar a cabea noutra direco, outras vezes contemplando as prprias mos abertas, como se nas linhas delas, nas suas encruzilhadas, procurasse um caminho, o mais curto ou o mais longo, em geral ir por um ou por outro depende da muita ou pouca pressa que se tenha de chegar, sem esquecer, contudo, aqueles casos em que algum ou alguma coisa nos andam a empurrar pelas costas, sem que saibamos porqu nem para onde. Nessa tarde, quando a chuva parou, Cipriano Algor desceu o caminho que levava  estrada, no se apercebera de que a filha o olhava da porta da olaria, mas nem ele tinha preciso de dizer aonde ia, nem ela de que ele lho dissesse. Homem teimoso, pensou Marta, deveria ter levado a furgoneta, de um momento para o outro pode recomear a chover. Era natural, era o que se devia esperar de uma filha, a preocupao de Marta, porque, na verdade, por mais que historicamente se tenha exagerado em declaraes contrrias, o cu nunca foi muito de fiar. Desta vez, porm, mesmo que o chuvisco torne a escorregar do cinzento uniforme que cobre e rodeia a terra, a molha no ser das de ensopar, o cemitrio da povoao  muito perto, est a no fim de uma destas ruas transversais  estrada, e Cipriano Algor, apesar da idade entre c e l, ainda conserva o passo largo e rpido de que os mais novos se servem para as pressas. Velho ou novo, que ningum lhas pea hoje. Como no seria de bom juzo aconselhar-lhe Marta que viesse na furgoneta, porque aos cemitrios, sobretudo a estes de aldeia, campestres, buclicos, sempre deveremos ir andando p-terra, no por efeito de qualquer imperativo categrico ou imposio do transcendente, mas por respeito s convenincias simplesmente humanas, afinal de contas tm sido tantos os que vo em pedestres peregrinaes a venerar a tbia de um santo, que no se entende como se poderia ir de outra maneira aonde de antemo sabemos que nos esperam a nossa prpria memria e talvez uma lgrima. Cipriano Algor ir estar alguns minutosdiante da campa da mulher, no para rezar umas oraes que j esqueceu, nem para pedir-lhe que, l na emprea morada, se a to alto a levaram as suas virtudes, interceda por ele junto de quem alguns dizem que pode tudo, apenas protestar que no  justo, Justa, o que me fizeram, rirem-se do meu trabalho e do trabalho da nossa filha, dizem eles que as loias de barro deixaram de interessar, que j ningum as quer, portanto tambm ns deixmos de ser precisos, somos uma malga rachada em que j no vale a pena perder tempo a deitar gatos, tu tiveste mais sorte enquanto viveste. Nos estreitos caminhos de saibro do cemitrio h pequenas poas de gua, a erva cresce por toda a parte, no levar cem anos para que deixe de se saber quem foi metido debaixo destes montculos de lama, e mesmo que ainda o saibam ento  duvidoso que sab-lo lhes interesse verdadeiramente, os mortos, algum o disse j, so como pratos rachados em que no vale a pena enganchar aqueles tambm desusados grampos de ferro que uniam o que se tinha rompido e separado, ou, no caso vertente, explicando o smile por outras palavras, os gatos da memria e da saudade. Cipriano Algor aproximou-se da sepultura da mulher, trs anos so j os que ela leva ali em baixo, trs anos sem aparecer em parte nenhuma, nem na casa, nem na olaria, nem na cama, nem  sombra da amoreira-preta, nem sob o sol esbraseado da barreira, no voltou a sentar-se  mesa nem ao torno, no retira as cinzas cadas da grelha nem vira as peas que esto a secar, no descasca as batatas, no amassa o barro, no diz, Assim so as coisas, Cipriano, a vida no tem mais do que dois dias para dar, e tanta gente houve que s viveu dia e meio, e outros nem tanto, j vs que no nos podemos queixar. Cipriano Algor no ficou mais de trs mnutos, tinha inteligncia bastante para no precisar que lhe dissessem que o importante no era estar ali parado, com rezos ou sem rezos, a olhar uma sepultura, o imPortante foi ter vindo, o importante  o caminho que se fez a jornada que se andou, se tens conscincia de que ests a pro


longar a contemplao  porque te observas a ti mesmo ou, pior ainda,  porque esperas que te observem. Comparando com a velocidade instantnea do pensamento, que segue em linha recta at quando parece ter perdido o norte, cremo-lo porque no percebemos que ele, ao correr numa direco, est a avanar em todas as direces, comparando, dizamos, a pobre da palavra est sempre a precisar de pedir licena a um p para fazer andar o outro, e mesmo assim tropea constantemente, duvida, entretm-se a dar voltas a um adjectivo, a um tempo verbal que lhe surgiu sem se fazer anunciar pelo sujeito, essa deve de ser a razo por que Cipriano Algor no teve tempo para dizer  mulher tudo quanto viera pensando, aquilo de no ser justo, Justa, o que me fizeram, mas  bem possvel que os murmrios que estamos a ouvir-lhe agora, enquanto vai caminhando para a sada do cemitrio, sejam precisamente o que tinha ficado por dizer. J ia calado quando se cruzou com uma mulher vestida de luto que entrava, sempre assim tem sido, uns que chegam, outros que partem, ela disse, Boas tardes, senhor Cipriano, o tratamento de respeito justifica-se tanto pela diferena de geraes como por ser costume do campo, e ele retribuiu, Boas tardes, se no disse o nome dela no foi porque no o conhecesse, mas por pensar que esta mulher, de luto carregado por um marido, no ter parte nos sombrios acontecimentos futuros que se anunciam nem na relao que deles se faa, sendo contudo certo que ela, pelo menos, tenciona ir amanh  olaria a comprar um cntaro, conforme est anunciando, Amanh l vou comprar um cntaro, mas oxal seja melhor do que este, que se me ficou a asa dele na mo quando o levantei, desfez-se em cacos e alagou-me a cozinha toda, pode imaginar o que foi aquilo, tambm  certo, manda a verdade que se diga, que o coitado j tinha uma idade, e Cipriano Algor respondeu, Escusa de ir  olaria, eu levo-lhe um cntaro novo para substituir esse que se partiu, no tem de pagar,  oferta da fbrica, Diz isso por eu estar viva, perguntou a mulher, No. que ideia,  apenas um oferecimento, nada mais, temos uma quantidade de cntaros que se calhar nunca chegaremos a vender, Sendo assim fico-lhe muito agradecida, senhor Cipriano. No tem de qu, Um cntaro novo  alguma coisa, Sim, mas  unicamente isso, s alguma coisa, Ento at amanh, l o espero, e mais uma vez muito agradecida, At amanh. Ora, correndo o pensamento simultaneamente em todas as direces, como antes se deixou bem explicado, e avanando ao mesmo tempo com ele os sentimentos, no dever surpreender-nos que a satisfao da viva por ir receber um cntaro novo sem precisar de o pagar tenha sido a causa de moderar-se de um instante para o seguinte o desgosto que a fizera sair de casa em tarde to tristonha a fim de visitar a ltima morada do marido. Claro que, apesar de ainda estarmos a v-la parada  entrada do cemitrio, certamente regozijando-se no seu ntimo de dona de casa com o inesperado regalo, ela no deixar de ir aonde a convocaram o luto e o dever, mas talvez, afinal, quando l estiver, no chore tanto como tinha pensado. A tarde j escurece lentamente, comeam a aparecer luzes mortias dentro das casas vizinhas do cemitrio, mas o crepsculo ainda h-de durar o tempo necessrio para que a mulher possa rezar sem susto de fogos-ftuos ou de almas penadas o seu padre-nosso e a sua ave-maria, que em boa paz fique e em boa paz descanse.
Quando Cipriano Algor dobrou o ltimo prdio da povoao e olhou para o stio onde se encontrava a olaria, viu acender-se a luz exterior, uma antiga lanterna de caixa metlica dependurada por cima da porta da morada, e, embora no passasse uma s noite sem que a acendessem, sentiu desta vez que o corao se lhe reconfortava e se lhe abrandava o nimo, como se a casa estivesse a dizer-lhe, Estou  tua espera. Quase impalpveis, levadas e trazidas ao sabor das ondas invisveis que impelem o ar, umas minsculas gotculas tocaram-lhe a cara, no tardar muito que o monho das nuvens recomece a peneirar a sua farinha de gua, com toda esta humidade no sei


quando vamos conseguir que as peas sequem. Quer seja por influncia da mansido crepuscular, ou da breve visita evocadora ao cemitrio, ou at, o que seria uma compensao efectiva da sua generosidade, por ter dito  mulher de luto que lhe daria um cntaro novo, Cipriano Algor, neste momento, no pensa em decepes de no ganhar nem em medos de vir a perder. Numa hora como esta, quando pisas a terra molhada e tens to perto da cabea a primeira pele do cu, no  possvel dizerem-te coisas to absurdas como que voltes para trs com metade de loua ou que a tua filha te vai deixar sozinho um dia destes. O oleiro chegou ao cimo do caminho e respirou fundo. Recortada sobre a baa cortina de nuvens cinzentas, a amoreira-preta aparece to preta como a obriga o seu prprio nome.
A luz da lanterna no lhe alcana a copa, nem sequer lhe roa as folhas dos ramos mais baixos, s uma dbil luminosidade vai tapizando o cho at quase tocar o grosso tronco da rvore. A velha guarita do co est ali, vazia desde h anos, quando o seu ltimo habitante morreu nos braos de Justa e ela disse ao marido, Nunca mais quero um animal destes na minha casa. Na entrada escura da casota moveu-se uma cintilao e desapareceu logo. Cipriano Algor quis saber o que era aquilo, baixou-se para espreitar depois de ter dado uns passos em frente. A escurido l dentro era total. Compreendeu que estava a tapar com o corpo a luz da lanterna e desviou-se um pouco para o lado. Eram duas as cintilaes, dois olhos, um co, Ou um gineto, mas o mais provvel  que seja um co, pensou o oleiro, e devia estar no certo, da espcie lupina j no resta memria credvel por estas paragens, e os olhos dos gatos, sejam eles dos mansos ou dos monteses, como qualquer pessoa tem obrigao de saber, so mesmo olhos de gato, quando muito, e no pior dos casos, poderamos confundi-los, em mais pequeno, com os do tigre, mas um tigre adulto est claro que nunca poderia meter-se dentro de uma casota deste tamanho. Cipriano Algor no falou de gatos nem de tigres quando entrou em casa, tambm no pronunciou palavra sobre a ida ao cemitrio, e, quanto ao cntaro que vai dar  mulher de luto, entende que no  assunto para ser tratado nesta altura, o que disse  filha foi s isto, H um co l fora, fez uma pausa, como se esperasse resposta, e acrescentou, Debaixo da amoreira, na casota. Marta tinha acabado de se lavar e mudar de roupa, viera descansar um minuto, sentada, antes de comear a preparar o jantar, portanto no estaria na melhor das disposies para preocupar-se com os lugares por onde passam ou param os ces fugidos ou abandonados em suas vadiagens, Melhor deix-lo, se no  animal que goste de viajar de noite, amanh vai-se embora, disse, Tens a alguma coisa de comer que se lhe possa levar, perguntou o pai, Uns restos do almoo, uns bocados de po, gua no precisar, caiu muita do cu, Vou levar-lhos, Como queira, pai, mas lembre-se de que no nos vai largar mais a porta, Calculo que sim, se eu estivesse no lugar dele faria o mesmo. Marta deitou os restos de comida num prato velho que tinha debaixo da pedra da chamin, migou-lhes em cima um bocado de po duro e adubou tudo com um pouco de caldo, Aqui tem, e v tomando nota de que isto  apenas o princpio. Cipriano Algor agarrou no prato e j tinha um p fora da cozinha quando a filha lhe perguntou, Lembra-se do que a me disse quando o Constante morreu, que nunca mais queria ces em casa, Lembro-me, sim, mas sou capaz de jurar que se ela estivesse viva no seria o teu pai quem estaria a levar este prato ao tal co que ela no queria, respondeu Cipriano Algor, e saiu sem ter ouvido o murmrio da filha, Talvez no esteja fora de razo. A chuva tinha voltado a cair, era o mesmo enganador chove-no-molha, a mesma poeirinha de gua a bailar e a confundir as distncias, incluso a figura alvacenta do forno parecia decidida a ir-se para outras paragens, e a furgoneta, essa, tinha mais o aspecto da carroa fantasma que de um veculo moderno de motor de exploso, ainda que no de modelo recente, como sabemos. Debaixo da amoreira-preta, a gua escorregava das fo


lhas em gotas grossas e esparsas, agora uma, outra depois, ao acaso, como se as leis da hidrulica e da dinmica dos lquidos, ainda reinantes fora do precrio guarda-chuva da rvore, no tivessem aplicao ali. Cipriano Algor ps o prato da comida no cho, recuou trs passos, mas o co no saiu do abrigo,  impossvel que no tenhas fome, disse o oleiro, ou talvez sejas um daqueles ces que se respeitam, talvez no queiras que eu veja a fome que tens. Esperou ainda um minuto, depois retirou-se e entrou em casa, mas no cerrou completamente a porta. Via-se mal pela frincha, mas mesmo assim conseguiu distinguir um vulto negro que saa da guarita e se aproximava do prato, e tambm percebeu que o co, co era, no lobo nem gato, olhou primeiro na direco da casa e s depois baixou a cabea para a comida, como se pensasse que estava a dever essa considerao a quem viera, debaixo de chuva, desafiando a intemprie, matar-lhe a fome. Cipriano Algor acabou de fechar a porta e dirigiu-se  cozinha, Est a comer, disse, Se tinha muita fome, j ter acabado, respondeu Marta, a sorrir,  o mais certo, sorriu tambm o pai, se os ces de hoje so como os de antigamente. O jantar era simples, em pouco tempo estava na mesa. Foi no fim dele que Marta disse, Mais um dia sem notcias do Maral, no compreendo por que  que no telefona, ao menos uma palavra, uma simples palavra bastaria, no se lhe pedia nenhum discurso, Talvez no tenha ainda podido falar com o chefe, Ento que nos dissesse isso mesmo, Aquilo, l, no  fcil, sabe-lo muito bem, disse o oleiro, inesperadamente conciliador. A filha olhou-o surpreendida, ainda mais pelo tom da voz do que pelo significado das palavras, No  muito seu costume desculpar ou justificar o Maral, disse, Eu gosto dele, Gostar, mas no o toma a srio, A quem no consigo tomar a srio  ao guarda em que se tornou o rapaz afvel e simptico que conhecia, Agora  um homem afvel e simptico, e a profisso de guarda no  um modo de vida menos digno e honesto do que qualquer outro que igualmente o seja, No como qualquer outro, Onde est a diferena, A diferena est em que o teu Maral, como o conhecemos agora,  todo ele guarda, guarda dos ps  cabea, e suspeito de que  guarda at no corao, Pai, por favor, no pode falar assim do marido da sua filha, Tens razo, desculpa-me, hoje no deveria ser dia de censuras e recriminaes, Hoje, porqu, Fui ao cemitrio, dei um cntaro a uma vizinha e temos um co l fora, acontecimentos de grande importncia todos eles, Que histria  essa do cntaro, Ficou-lhe a asa na mo e o cntaro desfeito em estilhaos, So coisas que sucedem, nada  eterno, Mas ela teve a decncia de reconhecer que o cntaro j estava velho, e por isso achei que devia dar-lhe um novo, faz-se de conta que o outro tinha um defeito de fabrico, ou nem  preciso fazer de conta, dar  dar, dispensa explicaes, Quem  a vizinha,  a Isaura Estudiosa, aquela que ficou viva h uns meses,  uma mulher nova, No tenciono casar-me outra vez, se  nisso que ests a pensar, Se pensei, no dei por tal, mas talvez o devesse ter feito, era a maneira de o pai no ficar sozinho aqui, j que teima em no ir viver connosco no Centro, Repito que no tenciono casar-me, e muito menos com a primeira mulher que me aparea, quanto ao resto, pedir-te-ia o favor de no me estragares a noite, No era essa a minha inteno, desculpe. Marta levantou-se, recolheu os pratos e os talheres, dobrou pelos vincos a toalha e os guardanapos, est muito equivocado quem julgue que o mester de oleiro, mesmo quando  de obra grossa, como neste caso, mesmo exercida numa povoao pequena e sem graa, como j se adivinhou ser esta,  incompatvel com a delicadeza e o gosto de maneiras que distinguem as classes elevadas actuais, j esquecidas ou desde o nascimento ignorantes da brutido dos seus tetravs e da bestialidade dos tetravs deles. Estes Algores so gente de aprender bem o que lhes ensinam e capazes de us-lo depois para aprenderem melhor, e Marta, sendo da ltima gerao, mais favorecida, portanto, pelas ajudas ao desenvolvimento, j gozou da sorte grande de ir estudar



 cidade, que alguma vantagem ho-de ter sobre as aldeias os grandes ncleos de populao. E se acabou por ser oleira, foi por fora de uma consciente e manifesta vocao de modeladora, embora tambm tenha infludo na sua deciso o facto de no haver na familia irmos rapazes que continuassem a tradio familiar, sem esquecer ainda, terceira e soberana razo, o forte amor filial que nunca lhe permitiria deixar os pais ao deus-dar-e-depois-logo-se-v quando chegassem a velhos. Cipriano Algor tinha ligado a televiso, mas apagou-a pouco depois. Se nesse momento algum lhe pedisse que dissesse o que tinha visto e ouvido entre os gestos de ligar e apagar o aparelho, no saberia que responder, mas pura e simplesmente se negaria a faz-lo se a pergunta fosse outra, Em que pensa para parecer assim distrado. Diria que no senhor, que ideia, no estava distrado, s para no ter de confessar a infantilidade de que se sentia preocupado por causa do co, se estaria abrigado na casota, se, satisfeito o estmago e recuperadas as energias, teria seguido viagem,  procura de melhor comida ou de um dono que vivesse em stio menos exposto aos vendavais e s chuvas miudinhas. Vou para o meu quarto, disse Marta, tenho andado a adiar umas costuras, mas hoje ter de ser, Eu tambm no me demoro, disse o pai, estou cansado sem ter feito nada, Amassou, passou revista ao forno, alguma coisa fez, Sabes to bem como eu que vai ser preciso amassar outra vez aquele barro, e o forno no estava a precisar de trabalho de pedreiro, muito menos de cuidados de ama-seca, Os dias so todos iguais, as horas  que no, quando os dias chegam ao fim tm sempre as suas vinte e quatro horas completas, mesmo quando elas no tiveram nada dentro, mas esse no  o caso nem das suas horas nem dos seus dias, Marta filsofa do tempo, disse o pai, e deu-lhe um beijo na testa. A filha retribuiu o carinho e, sorrindo, disse, No se esquea de ir ver como est o seu co, Por enquanto  s um co que aqui veio ter e achou que a casota lhe dava jeito para se resguardar da chuva, talvez esteja doente, ou ferido, talvez tenha na coleira o nmero do telefone da pessoa a quem se deve chamar, talvez pertena a algum da povoao, se calhar bateram-lhe e ele fugiu, se foi assim, amanh de manh j c no estar, sabes como so os ces, o dono  sempre o dono mesmo quando castiga, portanto no te precipites a dizer que  o meu co, nem sequer o vi, no sei se gosto dele, Sabe que quer gostar, j  alguma coisa, Agora saste-me filsofa dos sentimentos, disse o pai, Supondo que fIcar com o co, que nome lhe vai pr, perguntou Marta,  cedo para pensar nisso, Se ele ainda c estiver amanh, deveria ser esse nome a primeira palavra que ouvisse da sua boca, No lhe chamarei Constante, foi o nome de um co que no voltar  sua dona e que no a encontraria se voltasse, talvez a este chame Perdido, o nome assenta-lhe bem, H outro que ainda lhe assentaria melhor, Qual, Achado, Achado no  nome de co, Nem Perdido o seria, Sim, parece-me uma ideia, estava perdido e foi achado, esse ser o nome, At amanh, pai, durma bem, At amanh, no fiques a costurar at tarde, tem cuidado com os olhos. Depois de a filha se ter retirado, Cipriano Algor abriu a porta que dava para fora e olhou na direco da amoreira-preta. A moinha persistente continuava a molinhar e no se percebia sinal de vida dentro da casota. Ainda l estar, perguntou-se o oleiro. Deu a si mesmo uma falsa razo para no ir ver, Era o que faltava, molhar-me por causa de um co vadio, uma vez bastou. Recolheu-se ao seu quarto e deitou-se, ainda esteve a ler durante meia hora, e adormeceu. A meio da noite acordou, acendeu a luz, o relgio da mesa-de-cabeceira marcava quatro e meia. Levantou-se, agarrou na lanterna de pilha que guardava numa gaveta e abriu a janela. Deixara de chover, viam-se estrelas no cu escuro. Cipriano Algor acendeu a lanterna e apontou o foco para a casota. A luz no era suficientemente forte para poder ver-se o que estava dentro, Mas Cipriano Algor no precisava de tanto, duas cintilaes lhe bastaram. dois olhos, e eles l estavam.


Desde que o mandaram para trs com metade da loua, que, entre parntesis se diga, ainda no foi retirada da furgoneta, Cipriano Algor passou, de uma hora para outra, a desmerecer a reputao de operrio madrugador ganhada numa vida de muito trabalho e poucas frias. Levanta-se j com o sol fora, lava-se e faz a barba com mais vagar do que o indispensvel a uma cara escanhoada e a um corpo que se habituou  limpeza, desjejua pouco mas pausado, e finalmente, sem acrscimo visvel no escasso nimo com que saiu da cama, vai trabalhar. Hoje, porm, depois de um resto da noite a sonhar com um tigre que lhe vinha comer  mo, deixou as mantas quando o sol mal comeara a pintar o cu. No abriu a janela, somente um pouco a portada interior para ver como estaria o tempo, foi isto o que pensou, ou quis pensar que pensara, mas na verdade no era seu hbito faz-lo, este homem j viveu mais do que o suficiente para saber que o tempo sempre est, com sol, como hoje promete, com chuva, como ontem cumpriu, em verdade, quando abrimos uma janela e levantamos o nariz para os espaos superiores  s para comprovar se o tempo que faz  aquele que desejvamos. Ao espreitar para fora, o que Cipriano Algor queria, sem mais prembulos seus ou alheios, era saber se o co ainda estava  espera de que lhe fossem dar outro nome. ou se, cansado da expectativa frustrada, tinha partido  procura de um amo mais diligente. Dele apenas se viam o focinho que descansava sobre as patas dianteiras cruzadas e as


orelhas cadas, mas no havia motivo para recear que o rest do corpo no continuasse dentro da guarita.  preto, diss Cipriano Algor. J quando fora levar a comida lhe havia parecido ter o animal essa cor, ou, como tambm no falta quem afirme, essa ausncia dela, mas era de noite, e se de noite at os gatos brancos so pardos, o mesmo, ou em mais tenebroso se poderia dizer de um co visto pela primeira vez debaixo d uma amoreira-preta quando uma chuva miudinha e nocturna dissolvia a linha de separao entre os seres e as coisas, aproximando-os, a eles, das coisas em que, mais tarde ou mais cedo se ho-de transformar. O co no  realmente preto, quase qu o chegou a ser no focinho e nas orelhas, mas o resto puxa para uma cor geral de cinzento, com entres sachamento de tons escuros, at aflorar o negro retinto. A um oleiro de sessenta e quatro anos, com os problemas de viso que a idade sempre ocasiona e que deixou de usar culos por causa do calor do forno, no se lhe pode censurar que tenha dito,  preto, uma' vez que antes era noite e chovia, e agora a distncia torna nebuloso o crepsculo da manh. Quando Cipriano Algor se aproximar finalmente do co ver que nunca mais poder repetir,  preto, mas tambm que pecar gravemente contra a verdade se afirmar,  cinzento, sobretudo quando descobrir que uma estreita mancha branca, como uma delicada gravata, desce pelo peito do animal at ao comeo do ventre. A voz de Marta soou do outro lado da porta, Pai, acorde, tem o co  espera, Estou acordado, vou j, respondeu Cipriano Algor, mas imediatamente se arrependeu de lhe terem sado as duas ltimas palavras, era pueril, era quase ridculo, um homem da sua idade a alvoroar-se como uma criana a quem trouxeram o brinquedo sonhado, quando todos sabemos, pelo contrrio, que em lugares como estes um co  tanto mais estimado quanto mais cabalmente demonstre a sua utilidade prtica, virtude de que os brinquedos no necessitam, e no que a sonhos se refere, se de cumpri-los se trata, no seria bastante um co a quem ainda nessa noite tinha sonhado com um tigre. Apesar da repreenso que havia dado a si prprio, Cipriano Algor no perdeu tempo desta vez com arranjos e asseios, vestiu-se rapidamente e saiu do quarto. Marta perguntou-lhe, Quer que prepare alguma coisa para ele comer, Depois, agora a comida s iria distra-lo, V l, v l domar a fera, No  nenhuma fera, pobre bicho, estive a observ-lo da janela, Eu tambm o vi, Que tal te pareceu, No creio que seja de algum daqui, H ces que nunca saem dos quintais, vivem e morrem l, salvo nos casos em que os levam ao campo para os enforcar no ramo de uma rvore ou para remat-los com uma carga de chumbo na cabea, Ouvir isso no  uma boa maneira de comear o dia, Realmente no , portanto vamos principi-lo de uma maneira menos humana, mas mais compassiva, disse Cipriano Algor saindo para o terreiro. A filha no o seguiu, deixou-se ficar entre portas, a olhar, A festa  sua, pensou. O oleiro adiantou-se alguns passos e, numa voz clara, firme, porm sem a altear demasiado, pronunciou o nome escolhido, Achado. O co j havia levantado a cabea quando o viu, e agora, escutado finalmente o nome por que esperava, saiu da casota em corpo inteiro, nem co grande nem co pequeno, um animal novo, esbelto, de plo crespo, realmente cinzento, realmente a atirar para o preto, com a estreita mancha branca que lhe divide o peito e que parece uma gravata. Achado, repetiu o oleiro, avanando mais dois passos, Achado, vem aqui. O co ficou onde estava, mantinha a cabea alta e meneava devagar a cauda, mas no se moveu. Ento o oleiro agachou-se para nivelar os seus olhos pela altura dos olhos do animal e tornou a dizer, desta vez num tom instante, intenso, como se fosse a expresso de uma necessidade pessoal sua, Achado. O co adiantou um passo, outro passo, outro ainda, sem se deter mais, at vir colocar-se ao alcance do brao de quem o chamava. Cipriano Algor estendeu a mo direita, quase a tocar-lhe as ventas, e esperou.
O co fungou algumas vezes, depois alongou o pescoo, e o


seu nariz frio foi roar as pontas dos dedos que o solicitavam. A mo do oleiro avanou lentamente para a orelha do seu lado e acariciou-a. O co deu o passo que faltava, Achado, Achado, disse Cipriano Algor, no sei que nome tinhas antes, a partir de agora o teu nome  Achado. Foi s neste momento que reparou que o animal no levava coleira e que o plo no era s cinzento, estava sujo de lama e de detritos vegetais, sobretudo as pernas e o ventre, sinal mais do que provvel de speras travessias de cultivos e descampados, no de quem tivesse viajado comodamente pela estrada. Marta tinha-se aproximado, trazia um prato com um pouco de comida para o co, nada de exageradamente substancial, apenas para confirmar o encontro e celebrar o baptismo, D-lho tu, disse o pai, mas ela respondeu, D-lho, no faltaro vezes para que lho d eu. Cipriano Algor ps o prato no cho, depois levantou-se com dificuldade, Ai os meus joelhos, quanto daria eu para voltar a ter nem que fossem os do ano passado, Tanta diferena fazem, perguntou a filha, Nesta altura da vida at um dia faz diferena, o que vale  parecer s vezes que foi para melhor. O co Achado, agora que j tem um nome no deveramos usar outro com ele, quer o de co, que pela fora do hbito ainda se veio meter adiante, quer os de animal ou bicho, que servem para tudo quanto no faa parte dos reinos mineral e vegetal, porm, uma vez por outra no nos ser possivel escapar a essas variantes, s para evitar repeties aborrecidas, que  a nica razo por que em lugar de Cipriano Algor temos andado a escrever oleiro, mas tambm homem, velho e pai de Marta. Ora, como amos dizendo, o co Achado, depois de em duas lambidelas rpidas ter feito desaparecer a comida do prato, clara demonstrao de que ainda no considerava capazmente satisfeita a fome de ontem, levantou a cabea como quem aguarda nova poro de pitana, pelo menos foi assim que Marta interpretou o gesto, por isso disse-lhe, Tem pacincia, o almoo  para depois, vai-te l entretendo com o que j tens no estmago, foi um juzo precipitado, como tantas vezes sucede nos crebros humanos, apesar do apetite remanente, que nunca negaria, no era a comida o que preocupava Achado nesse momento, o que ele pretendia era que lhe dessem um sinal do que deveria fazer a seguir. Tinha sede, que obviamente poderia ir saciar em qualquer das muitas poas de gua que a chuva deixara ao redor da casa, mas retinha-o algo a que, se estivssemos a falar de sentimentos de gente, no hesitaramos em chamar escrpulo ou delicadeza de maneiras. Se lhe tinham posto o alimento num prato, se no tinham querido que ele o tomasse grosseiramente da lama do cho, ento  porque a gua tambm deveria ser bebida de recipiente prprio. Deve ter sede, disse Marta, os ces precisam de muita gua, Tem a essas poas, respondeu o pai, no vai beber porque nao quer, Se vamos ficar com ele, no  para que ande a beber gua dos charcos como se no tivesse pouso nem casa, obrigaes so obrigaes. Enquanto Cipriano Algor se dedicava a pronunciar frases soltas, meio sem sentido, cujo nico objectivo era ir habituando o co ao som da sua voz, mas em que de propsito, com a insistncia de um estribilho, a palavra Achado voltava repetidas vezes, Marta trouxe uma malga grande de barro cheia de gua limpa, que foi pr ao lado da casota. Desafiando cepticismos, sobejamente justificados depois de milhares de relatos lidos e ouvidos sobre as vidas exemplares dos ces e seus milagres, haveremos no entanto de dizer que o Achado tornou a surpreender os novos donos ao deixar-se ficar onde estava, frente a frente com Cipriano Algor,  espera, segundo todas as aparncias, de que ele chegasse ao fim do que tinha para lhe dizer. S quando o oleiro se calou e lhe fez um gesto como a despedi-lo,  que o co se virou para trs e foi beber. Nunca conheci um co que se comportasse desta maneira, observou Marta, O pior, depois de tudo, respondeu o pai, ser dizer-me algum daqui que o co lhe pertence, No Creio que tal suceda, juraria mesmo que o Achado no pertence a estes stios, ces de rebanho e ces de guarda no fazem


o que este fez, Depois de comer vou dar uma volta por a a perguntar, Aproveite para levar o cntaro  vizinha Isaura, disse Marta sem se dar ao trabalho de disfarar o sorriso, J ti nha pensado nisso, era o que dizia o meu av, faa-se ao ced o que se poderia fazer ao tarde, respondeu Cipriano Algor enquanto olhava noutra direco. Achado acabara de beber a su gua, e porque nenhum daqueles dois parecia querer dar-lh ateno, decidiu deitar-se  entrada da casota, onde o cho es tava menos molhado.
Aps o desjejum, Cipriano Algor foi escolher um cntar ao depsito de obra feita, acondicionou-o cuidadosamente na furgoneta, ajustando-o, para que no rolasse, entre as caixas de pratos, depois entrou, sentou-se e ligou o motor. Achado alou a cabea, era manifesto que no ignorava que a um rudo destes comea sempre por suceder um afastamento, logo se guido de um desaparecimento, mas as suas anteriores experincias de vida deviam ter-lhe recordado que existe uma maneira capaz de impedir, ao menos algumas vezes, que tais calamidades aconteam. Ergueu-se todo sobre as altas pernas, abanando a cauda com fora, como se agitasse uma vergasta, e, pela primeira vez desde que aqui viera pedir asilo, Achado ladrou, Cipriano Algor conduziu devagar a furgoneta na direco da amoreira-preta e parou a pouca distncia da casota. Julgava ter compreendido o que o Achado queria. Abriu e manteve aberta a porta do outro lado, e, antes de ter tempo para o convidar a passeio, j o co estava dentro. No tinha Cipriano Algor pen sado em lev-lo consigo, a sua inteno era apenas ir de morador em morador perguntando se conheciam um co assim assim, com este plo e esta figura, com esta gravata e estas virtudes morais, e enquanto estivesse a descrever-lhe as diversas caractersticas rogaria a todos os santos do cu e a todos os demnios da terra que, por favor, s boas ou s ms, obrigasse o interrogado a responder que nunca em vida sua semelhant bicho lhe pertencera ou dele tivera a menor notcia. Com o Achado visvel dentro da furgoneta evitava-se a monotonia da descrio e poupavam-se repeties, seria bastante perguntar. Este co  seu, ou teu, consoante o grau de intimidade com o interlocutor, e ouvir a resposta, No, Sim, no primeiro caso passar sem mais demoras ao vizinho seguinte para no dar ocasio a emendas, no segundo caso observar atentamente as reaces do Achado, que no seria co para se deixar levar ao engano por quaisquer mentirosas reivindicaes de um falso dono. Marta, que ao rudo do motor de arranque da furgoneta aparecera, de mos sujas de barro,  porta da olaria, quis saber se o co tambm ia. O pai respondeu-lhe, Vai, vai, e da a um minuto estava o terreiro to deserto e Marta to sozinha como se para ele e para ela esta tivesse sido a primeira vez.
Antes de chegar  rua onde mora Isaura Estudiosa, apelido de que, tal como os de Gacho e Algor, se desconhece a razo de ser e a provenincia, o oleiro bateu  porta de doze vizinhos e teve a satisfao de ouvir de todos eles as mesmas respostas, Meu no , No sei de quem seja. A mulher de um comerciante gostou do Achado ao ponto de fazer uma generosa oferta de compra, liminarmente recusada por Cipriano Algor, e em trs casas onde ningum respondeu  chamada ouviu-se o ladrar violento dos vigias caninos, o que permitiu ao oleiro o raciocnio sinuoso de que o Achado no era dali, como se em alguma lei universal dos animais domsticos estivesse escrito que onde haja um co no possa haver outro. Cipriano Algor parou finalmente a furgoneta  porta da mulher de luto, chamou, e quando ela apareceu, vestida com a sua blusa e a sua saia negra, deu-lhe uns bons-dias muito mais sonoros do que pediria a naturalidade, as culpas do sbito desconcerto vocal tinha-as Marta por ser autora da despropositada ideia de um casamento de vivos caducos, designao merecedora de severa censura, adiante-se j, pelo menos no que se refere a Isaura Estudiosa, que no deve ter mais de quarenta e cinco anos, e se para a conta certa for preciso acrescentar al


guns mais, em verdade no se lhe notam. Ah, bons dias, senhor Cipriano, disse ela, Venho cumprir o prometido, trazer-lhe o seu cntaro, Muito obrigada, mas realmente no devia estar a incomodar-se, depois do que conversmos l no cemitrio pensei que no h grande diferena entre as coisas e as pessoas, tm a sua vida, duram um tempo, e em pouco acabam, como tudo no mundo, Ainda assim, se um cntaro pode substituir outro cntaro, sem termos de pensar no caso mais do que para deitar fora os cacos do velho e encher de gua o novo, o mesmo no acontece com as pessoas,  como se no nascimento de cada uma se partisse o molde de que saiu, por isso  que as pessoas no se repetem, As pessoas no saem de dentro de moldes, mas acho que percebo o que quer dizer, Foi conversa de oleiro, no ligue importncia, aqui o tem, e oxal no caia a asa a este to cedo. A mulher estendeu as duas mos para recolher o cntaro pelo bojo, segurou-o contra o peito e agradeceu outra vez, Muito obrigada, senhor Cipriano, foi nesse instante que viu o co dentro da furgoneta, Aquele co, disse. Cipriano Algor sentiu um choque, no lhe passara pela cabea a possibilidade de que Isaura Estudiosa fosse precisamente a dona do Achado, e agora ela tinha dito Aquele co como se o tivesse reconhecido, com uma expresso de surpresa que poderia ser a de quem finalmente havia encontrado o que procurava, imagine-se com que pouco desejo de acertar ter Cipriano Algor perguntado,  seu, imagine-se tambm o alvio com que depois ouviu a resposta, No, no  meu, mas lembro-me de o ver andar por a h dois ou trs dias, ainda o chamei, mas fez de conta que no me ouviu,  um bonito animal, Quando ontem cheguei a casa, voltando do cemitrio, dei com ele meio escondido na casota que h debaixo da amoreira, aquela que foi de um outro co que tivemos, o Constante, fazia escuro, s lhe brilhavam os olhos, Buscava um dono que lhe conviesse, No sei se serei eu o dono que lhe convm, se calhar tem-no j,  o que tenho andado a averiguar, Onde, aqui, perguntou Isaura Estudiosa, e, sem esperar resposta, acrescentou, No seu lugar no me cansaria, este co no  de c, veio de longe, de outro stio, de outro mundo, Por que diz de outro mundo, No sei, talvez por me parecer to diferente dos ces de agora, Mal teve tempo de o ver, O que vi bastou-me, e tanto assim que, se no o quiser, ofereo-me para ficar com ele, Se fosse outro co talvez no me importasse de lho deixar, mas este j decidimos recolh-lo, se no se encontrar o dono, claro, Querem-no mesmo, At lhe pusemos nome, Como se chama, Achado, A um co perdido  o nome que melhor assenta, Foi tambm o que a minha filha disse, Pois ento, se o quer para si, no procure mais, Tenho a obrigao de restitu-lo ao dono, eu tambm gostaria que me devolvessem um co que tivesse perdido, Se o fizer, estar a ir contra a vontade do animal, lembre-se de que ele quis escolher outra casa para morar, Vendo as coisas por esse lado, no digo que no tenha razo, mas a lei manda, o costume manda, No pense na lei nem no costume, senhor Cipriano, tome para si o que j  seu, Ser demasiada confiana, As vezes  preciso abusar um pouco dela, Acha ento, Acho, sim, Gostei muito de conversar consigo, Eu tambm, senhor Cipriano, At  prxima vez, At  prxima vez. Com o cntaro apertado contra o peito, Isaura Estudiosa olhou da sua porta a furgoneta que dava a volta para tornar ao caminho andado, olhou o co e o homem que conduzia, o homem fez com a mo esquerda um aceno de despedida, o co devia estar a pensar na sua casa e na amoreira-preta que lhe fazia de cu.
Assim, muito antes do que poderia ter calculado, Cipriano Algor voltou  olaria. O conselho da vizinha Isaura Estudiosa, ou Isaura, sem mais, para abreviar, tinha sido sensato, razovel, flagrantemente apropriado  situao, e, se viesse a ser aplicado ao funcionamento geral do mundo, no haveria qualquer dificuldade em enquadr-lo no plano de uma ordem de coisas a que pouco faltaria para ser considerada perfeita. O lado admi


rvel de tudo isto, porm, foi o facto de ela o ter expressado com a mais acabada das naturalidades, sem dar voltas  cabea, como quem para dizer que dois e dois so quatro no precisa de gastar tempo a pensar, primeiro, que dois e um so trs, e, depois, que trs e outro so quatro, Isaura tem razo, acima de tudo tenho de respeitar o desejo do animal e a vontade que o transformou em acto. A quem quer que seja o dono, ou, prudente correco, quem quer que tenha sido, j no lhe assistir o direito de vir com reclamaes, Este co  meu, porquanto todas as aparncias e evidncias esto demonstrando que se o Achado fosse dotado do humano dom da palavra, s uma resposta teria para lhe dar, Pois eu a este dono no o quero. Portanto, abenoado seja mil vezes o cntaro partido, abenoada a ideia de presentear a mulher de luto com um cntaro novo, e, acrescentemos como antecipao do que h-de vir mais tarde, abenoado o encontro sucedido naquela tarde hmida e morrinhenta, toda ela a escorrer gua, toda ela desconforto do' material e do espiritual, quando bem sabemos que, salvo as excepes resultantes de uma perda recente, no  esse um estado de tempo que incline os doridos a ir ao cemitrio prantear os seus defuntos. No h dvida, o co Achado tem tud a seu favor, poder ficar onde quis por todo o tempo que lhe apetecer. E h ainda um outro motivo que redobra o alvio e satisfao de Cipriano Algor, que  no ter de bater  porta da casa dos pais de Maral, moradores tambm na povoao com quem no tem as melhores relaes, que forosamente iriam a pior se passasse  porta deles sem fazer-lhes caso. Alis, est convencido de que o Achado no lhes pertence, as simpatias dos Gachos em questes caninas, desde que os conhece, sempre se inclinaram para molossos e outros ces de fila. Correu-nos bem a manh, disse Cipriano Algor para o co.
Da a poucos minutos estavam em casa. Arrumada a furgoneta, Achado olhou fixamente o dono, percebeu que por agora estava dispensado das suas obrigaes de navegador e afastou-se, no em direco  casota, mas com o ar inconfundvel de quem tivesse acabado de resolver que chegara o momento de fazer o reconhecimento dos stios. Ponho-lhe uma corrente, perguntou-se inquieto o oleiro, e depois, ao observar as manobras do co, que farejava e marcava o territrio com urina. ora aqui, ora ali, No, no creio que seja preciso t-lo atado, se quisesse j teria fugido. Entrou em casa e ouviu a voz da filha, que falava ao telefone, Espera, espera, o pai acaba de chegar. Cipriano Algor agarrou no auscultador e, sem prembulos, perguntou, H alguma novidade. Do outro lado da linha, aps um instante de silncio, Maral Gacho procedeu como quem considerava que esta no era a maneira mais adequada de iniciar uma conversa entre duas pessoas, sogro e genro, que levam uma semana das antigas sem ter notcias um do outro, por isso deu descansadamente os bons-dias, perguntou como tem passado, pai, ao que Cipriano Algor respondeu com outros bons-dias, mas secos, e, sem pausa ou outra espcie de transio, Tenho estado  espera, uma semana inteira  espera, gostaria de saber o que sentirias tu se estivesses no meu lugar, Desculpe, s esta manh  que consegui falar com o chefe do departamento, explicou Maral desistindo de fazer notar ao sogro, mesmo de modo indirecto, a imerecida brusquido com que o estava a tratar, E que foi que ele disse, Que ainda no resolveram, mas que o seu caso no  o nico, mercadorias que interessavam e deixaram de interessar  uma rotina quase diria no Centro, as palavras so dele, rotina quase diria, E tu, com que ideia ficaste, Com que ideia fiquei, Sim, o tom da voz,
O modo de olhar, se te pareceu que queria ser simptico, Deve saber, por sua prpria experincia, que do sempre a impresso de estarem a pensar noutra coisa, Sim,  certo, E se permite que eu lhe fale com franqueza total, penso que no voltaro a comprar-lhe loua, para eles estas coisas so simples, ou o produto Interessa, ou o produto no interessa, o resto  indiferente. para eles no h meio-termo, E para mim, para ns, tambm


 simples, tambm  indiferente, tambm no h meio-termo, perguntou Cipriano Algor, Fiz o que estava ao meu alcance, mas eu no passo de um simples guarda, No podias ter feito muito mais, disse o oleiro numa voz que se rompeu na ltima palavra. Maral Gacho sentiu pena do sogro ao aperceber-se da mudana de tom e tentou emendar o sombrio prognstico, Seja como for, no fechou completamente a porta, s disse que estavam a estudar o assunto, at l devemos manter a esperana, J no estou em idade de esperanas, Maral, preciso de certezas, e que sejam das imediatas, que no esperem por um amanh que pode j no ser meu, Compreendo, pai, a vida  um sobe-e-desce contnuo, tudo muda, mas no desanime, tem-nos a ns,  Marta e a mim, com olaria ou sem ela. Era fcil de compreender aonde Maral queria chegar com este discurso de solidariedade familiar, na sua ideia todos os problemas, quer os de agora quer os que surgissem no futuro, passariam a ter remdio no dia em que os trs se instalassem no Centro. Noutra ocasio e em outro estado de nimo, Cipriano Algor teria respondido com rispidez, mas agora, ou fosse por t-lo roado a resignao com a sua asa melanclica, ou porque definitivamente no se havia perdido o co Achado, ou ainda, sabe-se l, por causa de uma breve conversao de duas pessoas objectivamente separadas por um cntaro, o oleiro falou com brandura, Na quinta-feira,  hora do costume, vou-te buscar, se tiveres entretanto alguma notcia, telefona, e, sem dar tempo a que Maral respondesse, rematou o dilogo, Passo-te a tua mulher. Marta trocou algumas palavras, disse Vamos a ver como tudo isto acaba, depois despediu-se at quinta-feira e desligou. Cipriano Algor j tinha sado, estava na olaria, sentado a um dos tornos, de cabea baixa. Fora ali que uma paragem cardaca fulminante cortara a vida de Justa Isasca. Marta foi sentar-se no banco do outro torno e esperou. Ao cabo de um longo minuto o pai olhou para ela, depois desviou a vista.
Marta disse, No se demorou muito tempo na vila, De facto, no, Perguntou em todas as casas se conheciam o co, se algum seria dono dele, Perguntei numas quantas depois achei que no valia a pena continuar, Porqu,  isto um interrogatrio, No, pai,  s uma tentativa para o distrair, custa-me v-lo triste, No estou triste, Ento, desanimado, Tambm no estou desanimado, Muito bem, est como est, mas agora conte-me por que achou que no valia a pena continuar a perguntar, Pensei que se o co tinha dono na vila e fugira dele, e, podendo voltar, no voltara, era porque desejava ser livre para procurar outro, portanto eu no tinha o direito de lhe forar a vontade, Vendo as coisas por esse lado, tem razo, Foi o que eu disse, precisamente por essas palavras, Disse-o a quem. Cipriano Algor no respondeu. Depois, como a filha no fazia mais do que olh-lo tranquilamente, decidiu-se,  vizinha, Qual vizinha, A do cntaro, Ah, sim, foi levar-lhe o cntaro, Se o pus na furgoneta era para isso mesmo, Claro, Pois, Ento, se bem entendo, foi ela quem lhe explicou por que no valia a pena andar  procura do dono do Achado, Sim, foi ela, No h dvida de que  uma mulher inteligente, Parece, E l ficou com o cntaro, Achas mal, No se zangue, pai, estamos s a conversar, como queria o pai que eu achasse mal uma coisa to simples como dar um cntaro, Sim, mas temos assuntos mais graves do que este, e tu a a quereres fingir que a vida nos corre de vento em popa, Exactamente desses assuntos  que lhe quero falar, Ento no percebo por que foram precisos tantos rodeios, Porque gosto de conversar consigo como se no fosse meu pai, gosto de fazer de conta, como diz, de que somos simplesmente duas pessoas que se querem muito, pai e filha que se amam porque o so, mas que igualmente se quereriam com amor de amigos se o no fossem, Vais fazer-me chorar, olha que nesta idade as lgrimas comeam a ser traioeiras, Sabe que faria tudo para o ver feliz, Mas tentas convencer-me a ir para o Centro, sabendo que  a pior coisa que me poderia suceder, Julgava que a pior coisa que lhe poderia suceder seria ver-se separado


da sua filha, Isso no  leal, talvez devesses pedir-me desculpa, E peo, realmente no foi leal, desculpe-me. Marta levantou-se e abraou o pai, Desculpe-me, repetiu, No tem importncia, respondeu o oleiro, estivssemos ns menos infelizes, e no falaramos desta maneira. Marta puxou um banco para junto do pai, sentou-se, e, agarrando-lhe a mo, comeou a dizer, Tive uma ideia enquanto andou por a a passear o co, Explica-te, Vamos pr de parte por agora a questo do Centro, isto , a sua deciso de ir ou de no ir connosco, Acho bem, O assunto no  para amanh nem para o ms que vem, quando chegar o momento o pai decidir entre ir ou ficar, a vida  sua, Obrigado por me deixares respirar, enfim, No deixo, Que mais temos ainda, Depois de o pai ter sado vim trabalhar para aqui, primeiro tinha ido dar uma vista de olhos ao depsito e l reparei que havia falta de vasos pequenos para flores, vinha portanto disposta a fazer uns quantos, quando de repente, j com o barro em cima do torno, percebi at que ponto era absurdo continuar com este trabalho s cegas, s cegas, porqu, Porque ningum me encomendou vasos de flores pequenos ou grandes, porque ningum aguarda impaciente que eu os termine para logo vir a correr compr-los, e quando digo vasos de flores digo quaisquer das outras peas que fabricamos, grandes ou pequenas, teis ou inteis, Compreendo, mas mesmo assim teremos de estar preparados, Preparados para qu, Para quando as encomendas chegarem, E que faremos entretanto se as encomendas no chegarem, que faremos se o Centro deixar de comprar, vamos viver como, e de qu, deixamo-nos ficar  espera de que as amoras madurem e o Achado consiga caar algum coelho invlido, Tu e o Maral no tero esse problema, Pai, combinmos que no se falaria do Centro, De acordo, segue para diante, Ora bem, supondo que um milagre leve o Centro a emendar a mo, coisa em que no acredito, nem o pai se no quiser enganar-se a si mesmo, por quanto tempo iramos estar aqui de braos cruzados ou a fabricar louas sem saber para qu nem para quem, Na situao em que nos encontramos, no vejo que mais se possa fazer, Tenho uma opinio diferente, E que opinio diferente  essa, que mrifica ideia te ocorreu, Que fabriquemos outras coisas, Se o Centro vai deixar de comprar-nos umas,  mais do que duvidoso que queira comprar outras, Talvez no, talvez talvez, De que me ests a falar, mulher, De que deveramos pr-nos a fabricar bonecos, Bonecos, exclamou Cipriano Algor em tom de escandalizada surpresa, bonecos, nunca ouvi uma ideia mais disparatada, Sim, senhor meu pai, bonecos, estatuetas, manipanos, monos, bugigangos, sempre-em-ps, chame-lhes como quiser, mas no comece j a dizer que  disparate sem esperar pelo resultado dele, Falas como se tivesses a certeza de que o Centro te vai comprar essa bonecagem, No tenho a certeza de nada, salvo que no podemos continuar aqui parados,  espera de que o mundo nos caia em cima, Sobre mim j caiu, Tudo o que cair sobre si, sobre mim cai, ajude-me, que eu o ajudarei, Depois de tanto tempo a trabalhar em louas, devo ter perdido a mo de modelar, O mesmo direi eu, mas se o nosso co se perdeu para poder ser achado, como inteligentemente explicou a Isaura Estudiosa, tambm estas nossas mos perdidas, a sua e a minha, podero, quem sabe, voltar a ser achadas pelo barro,  uma aventura que vai acabar mal, Tambm acabou mal o que nao era aventura. Cipriano Algor olhou a filha em silncio, depois pegou num bocado de barro e deu-lhe o primeiro jeito de uma figura humana. Por onde comeamos, perguntou, Por onde sempre h que comear, pelo princpio, respondeu Marta.


Autoritrias, paralisadoras, circulares, s vezes elpticas, as frases de efeito, tambm jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, so uma praga maligna, das piores que tm assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo no fosse a quinta e mais dificultosa operao das aritmticas humanas, dizemos aos ablicos, Querer  poder, como se as realidades bestiais do mundo no se divertissem a inverter todos os dias a posio relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Comear pelo princpio, como se esse princpio fosse a ponta sempre visvel de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando at chegannos  outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivssemos tido nas mos uma linha lisa e contnua em que no havia sido preciso desfazer ns nem desenredar estrangulamentos, coisa impossvel de acontecer na vida dos novelos e, se uma outra frase de efeito  permitida, nos novelos da vida. Marta disse ao pai, Comecemos pelo princpio, e parecia que s fltava que um e outro se sentassem  bancada a modelar bonecos entre uns dedos subitamente geis e exactos, com a antiga habilidade recuperada de uma longa letargia. Puro engano de inocentes e desprevenidos, o princpio nunca foi a ponta ntida e precisa de uma linha, o princpio  um processo lentssimo, demorado, que exige tempo e pacincia para se perceber em que direco quer ir, que tenteia o caminho como um cego, o princpio  s o princpio, o que fez vale tanto como


nada. Da que tivesse sido muito menos categrico o que Marta lembrou a seguir, S temos trs dias para preparar a apresentao do projecto,  assim que se diz em linguagem de negcios e executivos, creio eu, Explica-te, no tenho cabea para te acompanhar, disse o pai, Hoje  segunda-feira, o pai ir buscar o Maral na quinta-feira  tarde, portanto ter de levar nesse dia ao chefe do departamento de compras a nossa proposta de fabricao de bonecos, com desenhos, modelos, preos, enfim, tudo o que possa convenc-los a comprar e os habilite a tomar uma deciso que no seja para o ano que vem. Sem notar que estava a repetir as palavras que havia dito, Cipriano Algor perguntou, Por onde comeamos, mas a resposta de Marta j no foi a mesma, Teremos de fixar-nos em meia dzia de tipos, ou ainda menos, para que no se nos complique demasiado o trabalho, calcular quantos bonecos poderemos fazer por dia, e isso depende de como os concebermos, se modelamos o barro como quem esculpe directamente na massa ou se fazemos figuras iguais de homem ou de mulher e depois as vestimos consoante as profisses, refiro-me, claro est, a bonecos de p, em minha opinio devem ser todos assim, so mais fceis de trabalhar, A que chamas tu vestir, Vestir  vestir mesmo,  colar ao corpo da figura despida as vestimentas e os acessrios que a caracterizam e lhe do individualidade, julgo que duas pessoas a trabalhar por este processo se desenvolvero mais rapidamente, depois s h que ter cuidado com a pintura, no pode haver esborratadelas, Estou a ver que pensaste muito, disse Cipriano Algor, Nem por isso, o que pensei foi depressa, E bem, No me faa corar, E muito, mesmo que digas que no, Repare como j estou corada, Felizmente para mim, s capaz de pensar depressa, de pensar muito e de pensar bem, tudo ao mesmo tempo, Olhos de pai, amores de pai, erros de pai, E que figuras crs tu que devemos fazer, No demasiado antigas, h muitas profisses que desapareceram, hoje ningum sabe para que serviam aquelas pessoas, que utilidade tinham, e julgo que tambm no devem ser figuras das de agora, para isso l esto os bonecos de plstico, com os seus heris, os seus rambos, os seus astronautas, os seus mutantes, os seus monstros, os seus superpolcias e superbandidos, e as suas armas, sobretudo as suas armas, Estou a pensar, de longe em longe tambm consigo espremer algumas ideias, embora no to boas como as tuas, Deixe-se de modstias fingidas, no lhe ficam bem, Estava a pensar em passar uma vista de olhos pelos livros ilustrados que a temos, por exemplo, aquela enciclopdia velha comprada pelo teu av, se encontrarmos l modelos que sirvam directamente para os bonecos teremos ao mesmo tempo resolvida a questo dos desenhos que terei de levar, o chefe do departamento no perceber se copimos, e mesmo que percebesse no lhe daria importncia, Sim senhor, a est uma ideia que mereceria vinte valores pela tabela escolar de antigamente, Dou-me por satisfeito com um onze, que d menos nas vistas, Vamos trabalhar.
Como ser fcil imaginar, a biblioteca da famlia Algor no  extensa em quantidade nem excelsa em qualidade. De pessoas populares, e num stio como este, apartado da civilizao, no haveria que esperar excessos de sapincia, mas, ainda assim, podem contar-se por duas ou trs centenas os livros arrumados nas prateleiras, velhos uns quantos, na meia-idade outros, e estes so a maioria, os restantes mais ou menos recentes, embora s alguns deles recentssimos. No h na povoao um estabelecimento que faa jus ao nobre e vetusto ttulo de livraria, existe apenas uma pequena loja de papelaria que se encarrega de encomendar aos editores da cidade os livros de estudo necessrios, e l muito de longe em longe alguma obra literria de que se tenha falado com insistncia na rdio e na televiso e cujo contedo, estilo e intenes corresPondam satisfatoriamente aos interesses mdios dos habitantes. Maral Gacho no  pessoa de frequentes e aturadas leituras, em todo o caso, quando aparece na olaria com um livro de


presente para Marta, tem de se reconhecer que foi capaz de perceber a diferena entre o que  bom e o que no passou de medocre, ainda que seja certo que sobre estes escorregadios conceitos de bom e de medocre nunca nos ho-de faltar motivos sobre que discorrer e discrepar. A enciclopdia que pai e filha acabam de abrir sobre a mesa da cozinha foi considerada a melhor na poca da sua publicao, enquanto hoje s poder servir para indagar em saberes fora de uso ou que, nessa altura, estavam ainda a articular as suas primeiras e duvidosas slabas. Colocadas em fila, uma aps outra, as enciclopdias de hoje, de ontem e de transantontem representam imagens sucessivas de mundos paralisados, gestos interrompidos no seu movimento, palavras  procura do seu ltimo ou penltimo sentido. As enciclopdias so como cicloramas imutveis, mquinas de mostrar prodigiosas cujos carretes se bloquearam e exibem com uma espcie de manaca fixidez uma paisagem que, assim condenada a ser s, para todo o sempre, aquilo que tinha sido, se ir tornando ao mesmo tempo mais velha, mais caduca e mais desnecessria. A enciclopdia comprada pelo pai de Cipriano Algor  to magnfica e intil como um verso de que no nos conseguimos lembrar. No sejamos, porm, soberbos e desagradecidos, recordemos a sensata recomendao dos nossos maiores, quando nos aconselhavam a guardar o que no era preciso porque, mais tarde ou mais cedo, a iramos encontrar aquilo que, sem o sabermos ento, nos viria a fazer falta.
Debruados sobre as velhas e amarelecidas pginas, respirando o odor hmido durante anos recludo, sem o toque do ar nem o bafejo da luz, na espessura macia do papel, pai e filha aproveitam hoje a lio, procuram o que necessitam naquilo que pensavam no servir mais. J encontraram no caminho um acadmico com bicrnio de plumas, espadim e bofes na camisa, j encontraram um palhao e um equilibrista, j encontraram um esqueleto de gadanha e passaram adiante, j encontraram uma amazona a cavalo e um almirante sem barco, j encontraram um toureiro e um homem de blusa, j encontraram um pugilista e o adversrio dele, j encontraram um carabineiro e um cardeal, j encontraram um caador e o seu co, j encontraram um marinheiro de folga e um magistrado, um bobo e um romano de toga, j encontraram um derviche e um alabardeiro, j encontraram um guarda-fiscal e o escriba sentado, j encontraram um carteiro e um faquir, tambm encontraram um gladiador e um hoplita, uma enfermeira e um malabarista, um lorde e um menestrel, encontraram um esgrimista e um apicultor. um mineiro e um pescador, um bombeiro e um flautista, encontraram dois fantoches, encontraram um barqueiro, encontraram um cavador, encontraram um santo e uma santa, encontraram um demnio, encontraram a santssima trindade, encontraram soldados e militares de todas as graduaes, encontraram um escafandrista e um patinador, viram uma sentinela e um lenhador, viram um sapateiro de culos, encontraram um que tocava tambor e outro que tocava corneta, encontraram uma velha de capote e leno, encontraram um velho de cachimbo, encontraram uma vnus e um apolo, encontraram um cavalheiro de chapu alto, encontraram um bispo mitrado, encontraram uma caritide e um atlante, encontraram um lanceiro montado e outro a p, encontraram um rabe de turbante, encontraram um mandarim chins, encontraram um aviador, encontraram um condottiero e um padeiro, encontraram um mosqueteiro, encontraram uma criada de avental e um esquim, encontraram um assrio de barbas, encontraram um agulheiro dos caminhos-de-ferro, encontraram um jardineiro, encontraram um homem nu com os msculos  mostra e o mapa dos sistemas nervoso e circulatrio, tambm encontraram uma mulher nua, porm esta tapava o pbis com a mo direita e os seios com a mo esquerda. Encontraram muitos mais, mas esses no convinham aos fins que tinham em vista, ou fosse porque a elaborao das figuras seria demasiado complicada no barro, ou fosse porque um inconsiderado aproveitamento das celebrida


des antigas e modernas com cujos retratos, certos, plausveis ou imaginados, a enciclopdia se ilustrava, poderia ser interpretado malevolamente como uma falta de respeito, e at dar ocasio, no caso de famosos vivos, ou de mortos famosos com herdeiros interessados e vigilantes, a ruinosos processos judiciais por ofensas, danos morais e abuso de imagem. A que vamos escolher entre esta gente toda, perguntou Cipriano Algor, lembra-te de que para mais de trs ou quatro no poderemos dar vazo, sem contar que, daqui at l, enquanto o Centro, estiver a decidir se compra ou no compra, iremos ter de praticar muito se quisermos aparecer com obra asseada, apresentvel, Em todo o caso, pai, creio que o melhor seria que lhes propusssemos seis, disse Marta, ou eles esto de acordo e ns dividiremos a produo em duas fases, ser questo de acertar os prazos de entrega, ou ento, e isso ser o mais provvel de entrada, eles prprios comearo por escolher dois ou trs' bonecos para sondar a curiosidade e ponderar a possvel resposta dos clientes, Podero ficar-se por a,  certo, mas creio, que se lhes levarmos seis desenhos teremos mais probabilidades de os convencer, o nmero conta, o nmero influi,  uma questo de psicologia, A psicologia nunca foi o meu forte, Nem o meu, mas at a prpria ignorncia  capaz de ter intuies profticas, No encaminhes essas profticas intuies ao futuro do teu pai, ele sempre preferiu conhecer em cada dia o que cada dia, por bem ou por mal, decidiu trazer-lhe, Um facto  o que o dia traz, outro facto  o que ns, por ns prprios, lhe levamos a ele, A vspera, No percebo o que quer dizer, A vspera  o que trazemos a cada dia que vamos vivendo, a vida  acarretar vsperas como quem acarreta pedras, quando j no podemos com a carga acabou-se a transportao, o ltimo dia  o nico a que no se pode chamar vspera, Quer entristecer-me, No, minha filha, mas talvez a culpada sejas tu, Culpada de qu, Contigo sempre acabo a falar de coisas srias, Ento falemos de algo muito mais srio, escolhamos os nossos bonecos. Cipriano Algor no  homem de risos, e mesmo os sorrisos francos so raros na sua boca, quando muito notam-se-lhe brevemente nos olhos como um brilho que subitamente tivesse mudado de lugar, algumas vezes tambm se puderam entrever num certo franzido dos lbios, como se tivessem de sorrir para impedir-se de sorrir. Cipriano Algor no  homem de risos, mas acabou de ver-se agora que no dia de hoje havia um riso guardado que ainda no tinha podido aparecer. Vamos l ento, disse, eu escolho um, tu escolhes outro, at termos seis, mas ateno, levando sempre em conta a facilidade do trabalho e o gosto conhecido ou presumvel das pessoas, De acordo, faa o favor de comear, O bobo, disse o pai, O palhao, disse a filha, A enfermeira, disse o pai, O esquim, disse a filha, O mandarim, disse o pai, O homem nu, disse a filha, O homem nu, no, no pode ser, ters de escolher outro, ao homem nu no o querem no Centro, Porqu, Por isso mesmo, porque est nu, Ento que seja a mulher nua, Pior ainda, Mas ela est tapada, Tapar-se desta maneira  mais do que mostrar-se toda, Estou a ficar surpreendida com o seu conhecimento destas matrias, Vivi, olhei, li, senti, Que faz a o ler, Lendo, fica-se a saber quase tudo, Eu tambm leio, Algo portanto sabers, Agora j no estou to certa, Ters ento de ler doutra maneira, Como, No serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for prpria, h quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais alm da leitura, ficam pegados  pgina, no percebem que as palavras so apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se esto ali  para que possamos chegar  outra margem, a outra margem  que importa, A no ser, A no ser, que, A no ser que esses tais rios no tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que l seja, ela, a sua prpria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que ter de chegar, Bem observado, disse Cipriano Algor, mais uma vez fica demonstrado que no convm aos velhos discutir com as geraes novas, sem


pre acabam por perder, enfim, h que reconhecer que tambm aprendem alguma coisa, Muito agradecida pela parte que me toca, Voltemos ao sexto boneco, No pode ser o homem nu, No, Nem a mulher nua, No, Ento que seja o faquir, Os faquires, em geral, como os escribas e os oleiros, esto sentados, um faquir de p  um homem igual a outro qualquer, e sentado ficaria mais pequeno que os outros, Nesse caso, o mosqueteiro, O mosqueteiro no estaria mal, mas teramos que resolver o problema da espada e das plumas do chapu, s plumas ainda se lhes poderia dar um jeito, porm a espada s pegando-a  perna, e uma espada pegada  perna mais pareceria uma tala, Ento o assrio de barbas, Sugesto aceite, ficaremos com o assrio de barbas,  fcil,  compacto, Cheguei a pensar no caador mais o seu co, mas o co iria trazer-nos complicaes ainda maiores que a espada do mosqueteiro, E a espingarda tambm, confirmou Cipriano Algor, e por falar de co, que estar o Achado a fazer, esquecemo-nos completamente dele, Dormir. O oleiro levantou-se, afastou a cortina da janela, No o vejo na casota, disse, Anda por a, a cumprir a sua obrigao de guardio da casa, a vigiar as cercanias, Se  que no se escapou, Tudo pode suceder na vida, mas no acredito. Inquieto, receoso, Cipriano Algor abriu bruscamente a porta e quase tropeou com o co. Achado estava estendido no capacho, meio atravessado no limiar, com o focinho virado para a entrada. Levantou-se quando viu aparecer o dono e esperou. Est aqui, anunciou o oleiro, Bem vejo, respondeu Marta l de dentro. Cipriano Algor comeou a fechar a porta, Est a olhar para mim, disse, No ser a nica vez, Que fao, Ou fecha a porta e o deixa l fora, ou faz-lhe sinal de que entre e fecha a porta, No brinques, No estou a brincar, ter de resolver hoje se quer ou no quer admitir o Achado em casa, sabe que, se entra, entra para sempre, O Constante tambm entrava quand lhe apetecia, Sim, mas o mais normal era preferir a independncia da casota, ao passo que este, se no me engano, precisa tanto de companhia como de po para a boca, Essa razo parece-me boa, disse o oleiro. Abriu a porta completamente e fez um gesto, Entra. Sem apartar os olhos do dono, Achado deu um passo tmido, depois, como para mostrar que no tinha a certeza de haver compreendido a ordem, deteve-se. Entra, insistiu o oleiro. O co avanou devagar e parou no meio da cozinha. Bem-vindo sejas ao lar, disse Marta, mas advirto-te de que  melhor que comeces j a conhecer o regulamento domstico, as necessidades de co, tanto as slidas como as lquidas, satisfazem-se l fora, a de comer tambm, durante o dia poders entrar e sair quantas vezes te apetea, mas a noite  para recolheres  casota, a guardar a casa, e com isto no julgues que estou disposta a gostar menos de ti que o teu dono, e a prova disto est em ter sido eu quem lhe disse que s um co precisado de companhia. Durante o tempo que durou a preleco, o Achado nunca desviou os olhos. No podia entender o que Marta queria dele, mas o seu pequeno crebro de co compreendia que para saber h que olhar e escutar. Esperou ainda uns instantes quando Marta deixou de falar, depois foi enroscar-se num canto da cozinha, porm no chegou a aquecer o stio, mal Cipriano Algor acabara de sentar-se mudou de lugar para ir estender-se junto  cadeira dele. E para que no ficassem dvidas no esprito dos donos sobre o claro sentido que tinha das suas obrigaes e das suas responsabilidades, ainda um quarto de hora no decorrera e j se levantava dali para deitar-se ao lado de Marta. Um co sabe muito bem quando algum precisa da sua companhia.
Foram trs dias de actividade intensa, de nervosa excitao, de um contnuo fazer e desfazer no papel e no barro. Nenhum deles queria admitir que o resultado da ideia e do trabalho que estavam a ter para lhe dar solidez poderia ser uma recusa seca, sem outras explicaes que dizerem-lhes, O tempo desses bonecos j passou. Nufragos, remavam em direco a uma ilha sem saberem se se tratava de uma ilha real ou do fantasma dela.


Dos dois, o mais habilidoso para o desenho era Marta, por isso foi ela quem se encarregou da tarefa de transpor para o papel os seis tipos escolhidos, aumentando-os, pelo clssico processo da quadrcula, ao tamanho exacto com que os bonecos deveriam ficar depois de cozidos, um palmo bem medido, no dos dela, que tem a mo pequena, mas do pai. Seguiu-se a operao de dar colorido aos desenhos, complicada no por exageradas preocupaes de primor na execuo, mas porque era necessrio escolher e combinar cores que no se sabia se correspondiam ao natural das figuras, uma vez que a enciclopdia, ilustrada de acordo com as tecnologias grficas do tempo, s continha gravuras a talhe-doce, minuciosas no pormenor, mas sem outros efeitos cromticos do que as variaes de um aparente cinzento resultante da impresso dos traos negros sobre o fundo invarivel do papel. De todos, o mais fcil de pintar , obviamente, a enfermeira. Touca branca, blusa branca, saia branca, sapatos brancos, tudo branco branco branco, tudo de impecvel alvura, como se se tratasse de um anjo de caridade, baixado  terra com a incumbncia de aliviar as aflies e mitigar as dores enquanto, mais tarde ou mais cedo, no tiver de ser chamado  pressa outro anjo vestido de igual para lhe mitigar e aliviar as suas prprias dores e aflies. Tambm o esquim no apresenta dificuldades por a alm, as peles que o revestem podem ser pintadas de uma cor metade bege metade pardo, cortada por uns quantos laivos esbranquiados, tudo a fingir de pele de urso virada ao contrrio, o importante  que o esquim tenha mesmo cara de esquim, que para s-lo  que veio ao mundo. Quanto ao palhao, os problemas vo ser muito mais srios, s pela razo de ser pobre. Se, em vez do maltrapilho pobrete que , fosse palhao rico, uma cor viva qualquer, brilhante, salpicada de lantejoulas distribudas ao acaso pelo barrete cnico, pela camisa e pelos cales, resolveria a questo. Mas o palhao  pobre, pobre de pobreza, veste uma trapagem sem gosto nem critrio, heterognea, ponta abaixo, ponta acima, um colete que lhe chega aos joelhos, umas calas anchas pela barriga da perna, um colarinho onde trs pescoos entrariam  larga, um lao que parece uma ventoinha, uma camisa delirante, uns sapatos como faluas. Tudo isto poder ser pintalgado  vontade, pois que, tratando-se de um palhao pobre, ningum ir perder o seu tempo a comprovar se as cores deste engendro de barro tm a decncia de respeitar as cores com que a realidade do pobre se apresenta, mesmo quando no exera de palhao. O mau  que, vistas bem as coisas, este faz-tudo no vai ser mais fcil de modelar que o caador e o mosqueteiro que tantas dvidas tinham levantado. J passar daqui ao bobo ser passar do parecido ao igual, do semelhante ao idntico, do similar ao anlogo. Diversamente aplicadas, as cores de um podem servir para o outro, e duas ou trs alteraes vestimentrias transformaro rapidamente o bobo em palhao e o palhao em bobo. Vendo bem, so figuras que tanto na indumentria como na funo quase se repetem uma  outra, a nica diferena que se observa entre elas, de um ponto de vista social,  no ser costume do palhao ir ao palcio do rei. Tambm o mandarim com a sua cabaia e o assrio com a sua tnica no vo exigir atenes especiais, com dois breves toques nos olhos a cara do esquim servir ao chins e as opulentas e onduladas barbas do assrio tornaro mais fcil o trabalho sobre a parte inferior do rosto. Marta fez trs sries de desenhos, a primeira totalmente fiel aos originais, a segunda desafogada de acessrios, a terceira limpa de pormenores suprfluos. Desta maneira facilitar-se-ia o respectivo exame a quem no Centro teria a ltima palavra sobre o destino da proposta, e, caso ela fosse aprovada, talvez ficasse reduzida, pelo menos assim se esperava, a possibilidade de futuras reclamaes por diferenas entre o apreciado no desenho e o executado no barro. Enquanto Marta no passou  terceira srie, Cipriano Algor tinha-se liniitado a seguir o andamento das operaes, impaciente por no poder aJudar, e mais ainda por ter


a conscincia de que qualquer intromisso da sua parte s iria' servir para dificultar e atrasar o trabalho. Porm, quando Marta colocou diante de si a folha de papel com que ia principiar a ltima srie de ilustraes, reuniu rapidamente as cpias iniciais e saiu para a olaria. A filha ainda teve tempo de lhe dizer, No se irrite se no lhe sair bem  primeira. Horas atrs de horas, durante o resto desse dia e parte do dia seguinte, at  hora em que teria de ir buscar Maral ao Centro, o oleiro fez, desfez e refez bonecos com figura de enfermeiras e de mandarins, de bobos e de assrios, de esquims e de palhaos, quase irreconhecveis nas primeiras tentativas, mas logo ganhando forma e sentido  medida que os dedos comearam a interpretar por sua prpria conta e de acordo com as suas prprias leis as instrues que lhes chegavam da cabea. Na verdade, so poucos os que sabem da existncia de um pequeno crebro em cada um dos dedos da mo, algures entre a falange, a falanginha e a falangeta. Aquele outro rgo a que chamamos crebro, esse com que viemos ao mundo, esse que transportamos dentro do crnio e que nos transporta a ns para que o transportemos a ele, nunca conseguiu produzir seno intenes vagas, gerais, difusas, e sobretudo pouco variadas, acerca do que as mos e os dedos devero fazer. Por exemplo, se ao crebro da cabea lhe ocorreu a ideia de uma pintura, ou msica, ou escultura, ou literatura, ou boneco de barro, o que ele faz  manifestar o desejo e ficar depois  espera, a ver o que acontece. S porque despachou uma ordem s mos e aos dedos, cr, ou finge crer, que isso era tudo quanto se necessitava para que o trabalho, aps umas quantas operaes executadas pelas extremidades dos braos, aparecesse feito. Nunca teve a curiosidade de se perguntar por que razo o resultado final dessa manipulao, sempre complexa at nas suas mais simples expresses, se assemelha to pouco ao que havia imaginado antes de dar instrues s mos. Note-se que, ao nascermos, os dedos ainda no tm crebros, vo-nos formando pouco a pouco com o passar do tempo e o auxilio do que os olhos vem. O auxilio dos olhos  importante, tanto quanto o auxlio daquilo que por eles  visto. Por isso o que os dedos sempre souberam fazer de melhor foi precisamente revelar o oculto. O que no crebro possa ser percebido como conhecimento infuso, mgico ou sobrenatural, seja o que for que signifiquem sobrenatural, mgico e infuso, foram os dedos e os seus pequenos crebros que lho ensinaram. Para que o crebro da cabea soubesse o que era a pedra, foi preciso primeiro que os dedos a tocassem, lhe sentissem a aspereza, o peso e a densidade, foi preciso que se ferissem nela. S muito tempo depois o crebro compreendeu que daquele pedao de rocha se poderia fazer uma coisa a que chamaria faca e uma coisa a que chamaria dolo. O crebro da cabea andou toda a vida atrasado em relao s mos, e mesmo nestes tempos, quando nos parece que passou  frente delas, ainda so os dedos que tm de lhe explicar as investigaes do tacto, o estremecimento da epiderme ao tocar o barro, a dilacerao aguda do cinzel, a mordedura do cido na chapa, a vibrao subtil de uma folha de papel estendida, a orografia das texturas, o entramado das fibras, o abecedrio em relevo do mundo. E as cores. Manda a verdade que se diga que o crebro  muito menos entendido em cores do que cr.  certo que consegue ver mais ou menos claramente visto o que os olhos lhe mostram, mas as mais das vezes sofre do que poderamos designar por problemas de orientao sempre que chega a hora de converter em conhecimento o que viu. Graas  inconsciente segurana com que a durao da vida acabou por dot-lo, pronuncia sem hesitar os nomes das cores a que cha ma elementares e complementrias, mas imediatamente se perde, perplexo, duvidoso, quando tenta formar palavras que possam servir de rtulos ou dsticos explicativos de algo que toca o inefvel, de algo que roa o indizvel, aquela cor ainda de todo no nascida que, com o assentimento, a cumplicidade, e no raro a surpresa dos prprios olhos, as mos e os de


dos vo criando e que provavelmente nunca chegar a receber o seu justo nome. Ou talvez j o tenha, mas esse s as mos o conhecem, porque compuseram a tinta como se estivessem a decompor as partes constituintes de uma nota de msica, porque se sujaram na sua cor e guardaram a mancha no interior profundo da derme, porque s com esse saber invisvel dos dedos se poder alguma vez pintar a infinita tela dos sonhos. Fiado do que os olhos julgaram ter visto, o crebro da cabea afirma que, segundo a luz e as sombras, o vento e a calma, a humidade e a secura, a praia  branca, ou amarela, ou dourada, ou cinzenta, ou roxa, ou qualquer coisa entre isto e aquilo, mas depois vm os dedos e, com um movimento de recolha, como se estivessem a ceifar uma seara, levantam do cho todas as cores que h no mundo. O que parecia nico era plural, o que  plural s-lo- ainda mais. No  menos verdade, contudo, que na fulgurao exaltada de um s tom, ou na sua musical modulao, esto presentes e vivos todos os outros, tanto os das cores que j tm nome como os das que ainda o esperam, do mesmo modo que uma extenso de aparncia lisa poder estar cobrindo, ao mesmo tempo que os manifesta, os rastos de todo o vivido e acontecido na histria do mundo. Toda a arqueologia de materiais  uma arqueologia humana. O que este barro esconde e mostra  o trnsito do ser no tempo e a sua passagem pelos espaos, os sinais dos dedos, as raspaduras das unhas, as cinzas e os ties das fogueiras apagadas, os ossos prprios e alheios, os caminhos que eternamente se bifurcam e se vo distanciando e perdendo uns dos outros. Este gro que aflora  superfcie  uma memria, esta depresso a marca que ficou de um corpo deitado. O crebro perguntou e pediu, a mo respondeu e fez. Marta disse-o de outra maneira, J lhe apanhou o jeito.
Vou a um negcio de homens, desta vez tens de ficar em casa, disse Cipriano Algor ao co, que correra para ele quando o viu aproximar-se da furgoneta.  claro que o Achado no necessitava que o mandassem subir, bastava que lhe deixassem aberta a porta do carro o tempo suficiente para perceber que no o expulsariam depois, mas a causa real da sobressaltada corrida, por muito estranho que possa parecer, foi ter ele suposto, em sua ansiedade de co, que o iam deixar sozinho. Marta, que sara para o terreiro conversando com o pai e o aCompanhava  furgoneta, tinha na mo o sobrescrito com os desenhos e a proposta, e embora o co Achado no tenha ideias claras sobre o que so e para que servem sobrescritos, propostas e desenhos, conhece da vida, em todo o caso, que as pessoas que se dispem a entrar em carros costumam levar consigo coisas que, em geral, mesmo antes de para eles subirem, atiram para o banco de trs. Instrudo por estas experincias, percebe-se que a memria do Achado o tenha levado a pensar que Marta iria acompanhar o pai nesta nova sada da forgoneta. Apesar de estar aqui h poucos dias, no tem dvidas de que a casa dos donos  a sua casa, mas o seu sentido de propriedade, por incipiente, ainda no o autoriza a dizer, olhando em redor, Tudo isto  meu. Alis, um co, seja qual for o tamanho, a raa e o carcter, jamais se atreveria a pronunciar palavras to brutalmente possessivas, diria, quando muito, Tudo isto  nosso, e ainda assim, revertendo ao caso particular destes


oleiros e dos seus bens mveis e imveis, o co Achado nem daqui a dez anos ser capaz de ver-se a si mesmo como terceiro proprietrio. O mximo a que talvez consiga chegar quando for co velho  ao obscuro e vago sentimento de participar em algo arriscadamente complexo e, por assim dizer, de escorregadias significaes, um todo feito de partes em que cada uma , ao mesmo tempo, a parte que  e o todo de que faz parte. Ideias aventurosas como esta, que o crebro humano, gros o modo,  mais ou menos capaz de conceber, mas que logo tem uma enorme dificuldade em trocar por midos, so o po nosso de cada dia nas diferentes naes caninas, quer de um ponto de vista meramente terico quer no que se refere s suas consequncias prticas. No se pense, contudo, que o esprito dos ces  como uma nuvem bonanosa que levemente passa, uma alvorada primaveral de suave luz, um tanque de jardim com cisnes brancos vogando, se o fosse no teria o Achado comeado, de repente, a ganir lastimeiro, E eu, e eu, dizia ele. Para responder a tal desgarramento de alma aflita, no tinha achado Cipriano Algor, apreensivo como ia pela responsabilidade da misso que o levava ao Centro, melhores palavras que Desta. vez ficas em casa, o que valeu ao angustiado animal foi ter visto Marta dar dois passos atrs depois de ter entregado o sobrescrito ao pai, assim ficou o Achado ciente de que no o iriam deixar sem companhia, na verdade, mesmo constituindo cada parte, de per si, o todo a que pertence, como cremos que j deixmos demonstrado por a + b, duas partes, desde que estejam unidas, fazem muita diferena no total. Marta acenou ao pai um cansado gesto de adeus e voltou para casa. O co no a seguiu logo, ficou  espera de que a furgoneta, depois de descer a ladeira para a estrada, desaparecesse por trs da primeira casa da povoao. Quando da a pouco entrou na cozinha, viu que a dona estava sentada na mesma cadeira em que tinha trabalhado durante estes dias. Passava os dedos pelos olhos uma e outra vez como se precisasse de alivi-los de uma sombra ou de uma dor. Decerto por estar no tenro verdor da mocidade, Achado no teve ainda tempo de adquirir opinies formadas, claras e definitivas sobre a necessidade e o significado das lgrimas no ser humano, no entanto, considerando que esses humores lquidos persistem em manifestar-se no estranho caldo de sentimento, razo e crueldade de que o dito ser humano  feito, pensou que talvez no fosse desacerto grave chegar-se  chorosa dona e pousar-lhe docemente a cabea nos joelhos. Um co mais idoso, e por essa razo, supondo que a idade est obrigada a suportar culpas duplicadas, mais cnico do que o cinismo que no pode evitar ter, comentaria com sarcasmo o afectuoso gesto, mas isso deveria ser porque o vazio da velhice o teria feito esquecer-se de que, em assuntos do corao e do sentir, sempre o demasiado foi melhor que o diminudo. Comovida, Marta passou-lhe devagar a mo pela cabea, acariciando-o, e, como ele no se retirava e continuava a olh-la fixamente, pegou num carvo e comeou a riscar no papel os primeiros traos de um esboo. Ao princpio, as lgrimas impediam-na de ver bem, mas, pouco a pouco, ao mesmo tempo que a mo ganhava segurana, os olhos foram aclarando, e a cabea do co, como se emergisse do fundo de uma gua turva, apareceu-lhe na sua inteira beleza e fora, no seu mistrio e na sua interrogao. A partir deste dia, Marta vai querer tanto ao co Achado como sabemos que j lhe quer Cipriano.
O oleiro tinha deixado para trs a povoao, as trs casas isoladas que ningum vir levantar da runa, agora ladeia a ribeira sufocada de podrido, atravessar os campos descuidados, o bosque desleixado, foram tantas as vezes que fez este caminho que mal repara na desolao que o cerca, mas hoje tem dois motivos de preocupao que justificam o seu ar absorto. Um deles, a diligncia comercial que o leva ao Centro, no necessita, obviamente, meno particular, mas o outro, que no se sabe por quanto tempo ainda continuar a afect-lo, 


o que mais lhe est desassossegando o esprito, aquele impulso, realmente inesperado e inexplicvel, ao passar junto  entrada da rua onde mora Isaura Estudiosa, de ir saber notcias do cntaro, se o uso lhe teria denunciado algum oculto defeito, se vertia, se conservava a frescura da gua. Evidentemente no  de hoje nem de ontem que Cipriano Algor conhece esta vizinha, seria at impossvel haver algum na povoao a quem ele, por razes do ofcio, no conhecesse, e, embora nunca tivesse havido, propriamente falando, o que se chama relaes de amizade com aquela famlia, os Algores pai e filha tinham acompanhado ao cemitrio o funeral do defunto Joaquim Estudioso, que dele era o apelido pelo qual Isaura, que viera de uma povoao afastada para casar-se aqui, passou tambm, como  de uso nas aldeias, a ser conhecida. Cipriano Algor lembrava-se de lhe ter dado os psames  sada do cemitrio, no mesmo stio onde meses depois tornariam a encontrar-se para trocarem impresses e promessas acerca de um cntaro partido. Era apenas mais uma viva na povoao, outra mulher para andar vestida de luto carregado durante seis meses, a que outros seis de luto aliviado se haveriam de seguir, e muita sorte tinha ela, porque tempo houve em que o carregado e o aliviado, cada um deles, pesavam sobre o corpo feminino, e, v l saber-se, sobre a alma, um ano inteiro de dias e de noites, sem falar daquelas mulheres a quem, por velhas, a lei do costume, obrigava a viverem cobertas de preto at ao ltimo dos seus dias. Perguntava-se Cipriano Algor se no largo intervalo entre os dois encontros no cemitrio alguma vez teria falado com Isaura Estudiosa, e a resposta surpreendeu-o, Se nem sequer a vi, e era certo, porm no devemos estranhar a aparente singularidade da situao, nos assuntos em que o acaso governa tanto faz viver numa cidade de dez milhes de habitantes como numa aldeia de poucas centenas de moradores, s acontece o que tiver de acontecer. Nesta altura o pensamento de Cipriano Algor tentou desviar-se para Marta, parecia que a ia responsabilizar outra vez pelas fantasias que lhe andavam a dar volta  cabea, mas a sua iseno, a sua honestidade de juzo, vigilantes, conseguiram prevalecer, No te escondas, deixa a tua filha em paz, ela s disse as palavras que querias ouvir, agora trata-se  de saber se tens para dar  Isaura Estudiosa algo mais do que um cntaro, e, tambm, no te esqueas, se ela estar disposta a receber o que imaginas ter para lhe dar, se  que consegues imaginar alguma coisa. O solilquio esbarrou nesta objeco, por ora intransponvel, e a sbita paragem foi logo aproveitada pelo segundo motivo de cuidado, trs motivos num p s, os bonecos de barro, o Centro, o chefe do departamento de compras, Vamos l ver o que isto vir a dar, murmurou o oleiro, frase sintacticamente retorcida que, se repararmos bem, igualmente poderia servir para ataviar com roupagens de distrada e tcita conivncia o excitante assunto da Isaura Estudiosa. Demasiado tarde, j vamos atravessando a Cintura Agrcola, ou Verde, como lhe continuam a chamar as pessoas que adoram disfarar com palavras a spera realidade, esta cor de gelo sujo que cobre o cho, este interminvel mar de plstico onde as estufas, talhadas pela mesma medida, se assemelham a icebergues petrificados, a gigantescas pedras de domin sem pintas. L dentro no h frio, pelo contrrio, os homens que ali trabalham asfixiam-se no calor, cozem-se no seu prprio suor, desfalecem, so como trapos encharcados e torcidos por mos violentas. Se no  tudo o mesmo dizer,  tudo o mesmo penar. Hoje a furgoneta vai vazia, Cipriano Algor j no pertence ao grmio dos vendedores pela razo irrespondvel de que o seu fabrico deixou de interessar, agora leva meia dzia de desenhos no assento ao lado, que foi onde Marta os deixou, e no no assento de trs como o co Achado sups, e esses desenhos so a nica e frgil bssola desta viagem, felizmente j tinha sado de casa quando, durante alguns momentos de todo a sentiu perdida quem esses papis tinha pintado. Diz-se que a paisagem  um estado de alma, que a paisagem


de fora a vemos com os olhos de dentro, ser porque esses extraordinrios rgos interiores de viso no souberam ver estas fbricas e estes hangares, estes fumos que devoram o cu, estas poeiras txicas, estas lamas eternas, estas crostas de fuligem, o lixo de ontem varrido para cima do lixo de todos os dias, o lixo de amanh varrido para cima do lixo de hoje, aqui, seriam suficientes os simples olhos da cara para convencer a mais satisfeita das almas a duvidar da ventura em que supunha comprazer-se.
Adiante da Cintura Industrial, na estrada, j nos terrenos baldios ocupados pelas barracas, v-se um camio queimado. No h sinais da mercadoria que transportava, apenas uns dispersos e enegrecidos restos de caixotes sem dizeres sobre o contedo e a procedncia. Ou a carga tinha ardido com o camio, ou conseguiram retir-la antes de o fogo alastrar. O cho est molhado ao redor, o que mostra que os bombeiros acudiram ao sinistro, mas, pelos vistos, chegaram tarde, uma vez que o camio ardeu todo. Estacionados  frente, h dois carros da polcia de trnsito, no outro lado da estrada um veculo militar de transporte de pessoal. O oleiro abrandou a velocidade a fim de ver melhor o que sucedera, mas os polcias, rspidos, de cara fechada, deram-lhe ordem de avanar imediatamente, apenas teve tempo de perguntar se tinha havido mortes, mas, no lhe fizeram caso. Siga, siga, gritavam, e faziam gestos violentos com os braos. Foi ento que Cipriano Algor olho para o lado e reparou que havia soldados movendo-se entre as barracas. Por causa da velocidade no conseguiu ver mais do que isto, salvo que parecia estarem a fazer sair das casas os moradores. Era evidente que desta vez os assaltantes no se contentaram com saquear. Por algum motivo ignorado, nunca tal havia sucedido antes, deitaram fogo ao camio, talvez o condutor tivesse resistido  violncia do roubo de igual para igual, ou ento os grupos organizados das barracas decidiram mudar de estratgia, embora seja difcil de perceber que diabo de proveito esperam eles tirar de uma aco violenta como esta, que, pelo contrrio, s vai servir para justificar aces igualmente violentas das autoridades, Que eu saiba, pensou o oleiro,  a primeira vez que o exrcito entra nos bairros de barracas, at agora as rusgas foram sempre coisa da polcia, alis os bairros contavam com elas, os agentes chegavam, umas vezes faziam perguntas, outras vezes no, levavam detidos dois ou trs homens, e a vida continuava, como se nada fosse, mais tarde ou mais cedo os presos acabavam por reaparecer. O oleiro Cipriano Algor vai esquecido da vizinha Isaura Estudiosa, essa a quem deu um cntaro, e do chefe do departamento de compras do Centro, esse a quem no sabe se poder convencer do atractivo esttico dos bonecos, o seu pensamento est todo posto num camio que as chamas calcinaram a tal ponto que nem vestgios deixaram da carga que levava, se a levava. Se, se. Repetiu a conjuno como quem, depois de ter tropeado numa pedra, torna atrs para voltar a tropear nela, como se a golpeasse uma e outra vez  espera de ver sair l de dentro uma centelha, mas a centelha no parecia disposta a aparecer, j Cipriano Algor tinha gasto neste pensar uns bons trs quilmetros e quase desistia, j Isaura Estudiosa se preparava para disputar o terreno ao chefe do departamento, quando de sbito a fasca saltou, a luz se fez, o camio no fora queimado pela gente das barracas, mas pela prpria polcia, era um pretexto para a interveno do exrcito, Corto a cabea se no foi isto que sucedeu, murmurou o oleiro, e ento sentiu-se muito cansado, no por ter esforado de mais a mente, mas por ver que o mundo  assim mesmo, que as mentiras so muitas e as verdades nenhumas, ou alguma, sim, dever andar por a, mas em mudana contnua, no s no nos d tempo para pensarmos nela enquanto verdade possvel, como ainda teremos primeiro de averiguar se no se tratar de uma mentira provvel. Cipriano Algor olhou de relance o relgio, se o que pretendia saber era a hora, de nada lhe serviu o gesto, porque, tendo ele sido feito


na sequncia imediata do debate entre a probabilidade das mentiras e a possibilidade das verdades, foi como se tivesse estado  espera de encontrar a concluso na disposio dos ponteiros, um ngulo recto que significaria sim, um ngulo agudo que lhe anteporia um prudente talvez, um ngulo obtuso a dizer redondamente no, um ngulo raso  melhor que no penses mais nisso. Quando, logo a seguir, tornou a olhar o mostrador, os ponteiros j s marcavam horas, minutos e segundos, tinham-se convertido novamente em autnticos, funcionais e obedientes ponteiros de relgio, Vou a tempo, disse, e era certo, ia a tempo, no fim de contas  como sempre vamos, a tempo, com o tempo, no tempo, e nunca fora do tempo, por muito que disso nos acusem. Estava agora na cidade, seguia pela avenida que o levava ao destino, adiante dele, mais veloz que a furgoneta, corria o pensamento, chefe do departamento de compras, chefe do departamento, chefe das compras, a Isaura Estudiosa, coitada dela, tinha ficado l para trs. Ao fundo, na altssima parede cinzenta que cortava o caminho, via-se um enorme cartaz branco, rectangular, onde, em letras de um azul brilhante e intenso, se liam de um lado a outro estas palavras, VIVA EM SEGURANA, VIVA NO CENTRO. Por baixo, colocada no canto direito, distinguia-se ainda uma breve linha, s duas palavras, a preto, que os olhos mopes de Cipriano Algor no conseguem decifrar a esta distncia, e no entanto elas no merecem menos considerao que as da mensagem grande, poderemos, se quisermos, design-las por complementares, mas nunca por meramente sobrevenientes, PEA INFORMAEs, era o que estavam a aconselhar. O cartaz aparece ali de vez em quando, repetindo as mesmas palavras, s variveis na cor, algumas vezes exibe imagens de famlias felizes, o marido de trinta e cinco anos, a esposa de trinta e trs, um filho de onze anos, uma filha de nove, e tambm, mas no sempre, um av e uma av, de alvos cabelos, poucas rugas e idade indefinida, todos obrigando a sorrir as respectivas dentaduras, perfeitas, brancas, resplandecentes. A Cipriano Algor afigurou-se-lhe de mau agoiro o convite, j estava a ouvir o genro a anunciar, pela centsima vez, que iriam viver para o Centro logo que alcanasse a sua promoo a guarda residente, Ainda acabaremos os trs num cartaz daqueles, pensou, para casal jovem j tm a Marta e o marido, o av seria eu se fossem capazes de convencer-me, av no h, morreu h trs anos, e por enquanto faltam os netos, mas no lugar deles poderamos pr o Achado na fotografia, um co sempre fica bem nos anncios de famlias felizes, por muito estranho que parea, tratando-se de um irracional, confere-lhes um toque subtil, porm facilmente reconhecvel, de superior humanidade. Cipriano Algor virou a furgoneta para a rua  direita, paralela ao Centro, enquanto ia pensando que no, que no poderia ser, que o Centro no aceita ces nem gatos, quando muito aceitar pssaros de gaiola, periquitos, canrios, pintassilgos, bicos-de-lacre, e de certeza peixes de aqurio, sobretudo se forem dos tropicais, daqueles que tm excesso de barbatanas, gatos no, e ces ainda menos, era o que nos faltava, deixar outra vez o pobre do Achado ao abandono, uma vez bastou, neste momento conseguiu intrometer-se no pensamento de Cipriano Algor a imagem de Isaura Estudiosa junto ao muro do cemitrio, depois com o cntaro apertado contra o peito, depois acenando da porta, mas assim como apareceu logo teve de sumir-se, j se v l adiante a entrada do andar subterrneo onde se deixam as mercadorias e onde o chefe do departamento de compras verifica as guias de remessa e as facturas e decide do que fica e no fica.
Alm do camio que estava a ser descarregado, s havia outros dois  espera de vez. O oleiro calculou que, em boa lgica, considerando que no viera para entregar mercadorias, estaria dispensado de tomar lugar na fila dos camies. O assunto que trazia era da competncia exclusiva do chefe do departamento de compras, no para ser negociado com empregados subalternos e por princpio reticentes, portanto s teria de se


apresentar no balco e anunciar ao que vinha. Arrumou a furgoneta, pegou nos papis e, num passo que queria parecer firme, mas em que qualquer observador medianamente atento saberia reconhecer o efeito de um tremor de pernas no equilbrio do corpo, atravessou a faixa de trnsito salpicada de antigas e recentes manchas de leo at ao balco de atendimento, saudou a quem estava com polidas boas tardes e pediu para falar ao senhor chefe do departamento. O empregado levou o requerimento verbal, regressou logo a seguir, J vem, disse. Tiveram de passar dez minutos antes que aparecesse finalmente, no o chefe requerido, mas um dos subchefes. A Cipriano Algor no agradou ter de contar a sua histria a algum que, em geral, no tem outra utilidade no organigrama e na prtica que servir de antepara a quem hierarquicamente estiver por cima. Valeu-lhe que a meio da explicao o prprio subchefe tivesse percebido que levar ele o assunto at ao fim s lhe daria trabalhos, e que, de uma maneira ou outra, a deciso sempre teria de ser tomada por quem para isso mesmo estava e que, por isso mesmo, ganhava o que ganhava. O subchefe, como facilmente se conclui deste tipo de comportamento,  um descontente social. Cortou bruscamente a palavra ao oleiro, agarrou na proposta e nos desenhos, e afastou-se. Tardou alguns minutos a sair pela porta por onde tinha entrado, fez de l um gesto a Cipriano Algor para se aproximar, no ser necessrio recordar uma vez mais que, nestas situaes, as pernas tendem irresistivelmente a acentuar a tremedeira que j levavam, e, depois de lhe ter dado passagem, regressou s suas prprias ocupaes. O chefe segurava a proposta na mo direita, os desenhos estavam alinhados sobre a secretria,  sua frente, como cartas de uma pacincia. Fez sinal a Cipriano Algor para que se sentasse, providncia que permitiu ao oleiro deixar de pensar nas pernas e lanar-se na exposio do seu assunto, Muito boas tardes, senhor, desculpe se venho incomod-lo no seu trabalho, mas isto foi uma ideia que a minha filha e eu tivemos, a falar verdade, mais ela do que eu. O chefe interrompeu-o, Antes que continue, senhor Algor,  meu dever inform-lo de que o Centro decidiu deixar de adquirir os produtos da sua empresa, refiro-me aos que nos vinha fornecendo at  suspenso de compras, agora  definitivo e irrevogvel. Cipriano Algor baixou a cabea, havia que ser muito cuidadoso com as palavras, sucedesse o que sucedesse no podia dizer ou fazer nada que arriscasse a possibilidade de fechar o negcio dos bonecos, por isso limitou-se a murmurar, J estava  espera disso, senhor, mas, permita-me o desabafo,  duro, depois de tantos anos de fornecedor, ter de ouvir da sua boca semelhantes palavras, A vida  assim, faz-se muito de coisas que acabam, Tambm se faz de coisas que principiam, Nunca so as mesmas. O chefe do departamento fez uma pausa, mexeu vagamente nos desenhos, como se estivesse distrado, depois disse, O seu genro veio aqui falar comigo, A meu pedido, senhor, a meu pedido, para me tirar da indeciso em que me via, sem saber se poderia ou no continuar a fabricar, Agora j sabe, Sim senhor, j sei, Deveria estar tambm ciente de que sempre foi norma do Centro, de que  mesmo ponto de honra do Centro, no aceitar presses ou interferncias de terceiros na sua actividade comercial, e menos ainda vindas de empregados da casa, No era uma presso , senhor, Mas foi uma interferncia, Peo des culpa. Outra pausa, Que mais me faltar ainda ouvir, pensou o oleiro angustiado. No Ir tardar a sab-lo, o chefe abria um registo, folheava-o, consultava uma pgina, outra, depois adicionou parcelas numa pequena calculadora, finalmente disse, Temos em armazm, j sem probabilidade de escoamento, mesmo a preos de saldo, mesmo abaixo do que nos custou, uma quantidade grande de artigos da sua olaria, artigos de todo o tipo que esto a ocupar um espao que me faz falta, motivo por que sou obrigado a dizer-lhe que proceda  retirada no prazo mximo de duas semanas, tencionava mandar que lhe telefonassem amanh, a inform-lo, Vou ter de fazer no imagino


quantas viagens, a furgoneta  pequena, Com um carreto por dia dever resolver a questo, E a quem vou eu vender agora as minhas louas, perguntou o oleiro sucumbido, O problema  seu, no meu, Estou autorizado, ao menos, a negociar com os comerciantes da cidade, O nosso contrato est cancelado, pode fazer negcios com quem quiser, Se valer a pena, Sim,' se valer a pena, a crise l fora  grave, alm disso, o chefe do departamento calou-se, pegou nos desenhos e juntou-os, depois, foi-os passando devagar, um por um, olhava-os com uma ateno que parecia sincera, como se estivesse a v-los pela primeira vez. Cipriano Algor no podia perguntar, Alm disso qu, tinha de esperar, disfarar a inquietao, no fim de contas ou desde o princpio delas, era sempre o chefe do departamento quem decidia as regras da partida, e agora o que se est a jogar aqui  um jogo desigual, em que as cartas foram todas para o mesmo lado e em que, se preciso for, os valores dos naipes variaro consoante a vontade de quem tiver a mo, caso em que o rei poder valer mais do que o s e menos do que a dama ou o valete tanto como o duque, e este mais do que toda a casa real, ainda que se deva reconhecer, para o que lhe possa servir, que, sendo seis os bonecos apresentados, o oleiro tem, se bem que resvs, a vantagem numrica a seu favor. O chefe de departamento tornou ajuntar os desenhos, p-los de lado com um gesto ausente, e, depois de olhar uma vez mais o registo terminou a frase, Alm disso, quer dizer, alm da catastrfica situao em que se encontra o comrcio tradicional, nada pro pcia a artigos que o tempo e as mudanas do gosto desacreditaram, a olaria ficar proibida de fazer negcios fora no caso de o Centro vir a encomendar os produtos que neste momen to lhe esto a ser propostos, Julgo entender, senhor, que no poderemos vender os bonecos aos comerciantes da cidade, Entende bem, mas no entende tudo, No alcano aonde quer chegar, No s no lhes poder vender os bonecos, como no ser autorizado a vender-lhes qualquer dos restantes produtos da olaria, mesmo que, admitindo essa absurda hiptese, eles lhe fossem encomendados, Compreendo, a partir do momento em que voltem a aceitar-me como fornecedor do Centro, no o poderei ser de mais ningum, Exactamente, de resto no  caso para ficar surpreendido, a regra sempre foi essa, No entanto, senhor, numa situao como a de agora, quando determinados produtos deixaram de interessar ao Centro, seria de justia conceder ao fornecedor a liberdade de procurar para eles outros compradores, Estamos no terreno dos factos comerciais, senhor Algor, teorias que no estejam ao servio dos factos e os consolidem no contam para o Centro, j agora deixe-me que lhe diga que ns tambm somos competentes para elaborar teorias, e algumas j tivemos que lanar por a, no mercado, quer dizer, mas s as que serviram para homologar e, se necessrio, absolver os factos quando eles alguma vez se portaram mal. Cipriano Algor disse a si mesmo que no devia responder ao desafio. Cair na tentao de um dize-tu-direi-eu com o chefe do departamento, eu afirmo, tu negas, eu protesto, tu contestas, acabaria por dar mau resultado, nunca se sabe quando uma palavra mal interpretada vai ter como consequncia desastrosa deitar a perder a mais subtil e mais trabalhada das dialcticas de persuaso, j o dizia a antiga sabedoria, com o teu amo no jogues as pras, que ele come as maduras e d-te as verdes. O chefe do departamento olhou-o com um meio sorriso e acrescentou, Na verdade, no sei por que lhe digo estas coisas, Falando com franqueza, senhor, tambm a mim me estranha, no passo de um simples oleiro, o pouco que tenho para vender no  to valioso que justifique gastar comigo a sua pacincia e distinguir-me com as suas reflexes, respondeu Cipriano Algor, e imediatamente mordeu a lingua, agora mesmo tinha acabado de decidir que no atiraria achas para o lume de uma conversao j manifestamente tensa, e a estava outra vez lanado numa provocao, no s directa, como InOPortuna. Pensando que desta maneira evitaria a resposta aze


da que temia, levantou-se e disse, Peo-lhe desculpa pelo tempo que lhe vim roubar, senhor, deixo-lhe os desenhos para apreciao, a no ser, A no ser, qu, A no ser que j tenha tomado a sua deciso, Que deciso, No sei, senhor, no estou no seu pensamento, A deciso de no encomendar os bonecos, por exemplo, perguntou o chefe do departamento, Sim, senhor, respondeu o oleiro sem desviar os olhos, enquanto mentalmente se ia acusando de estpido e imprudente, Ainda no tomou nenhuma deciso, Poderei perguntar-lhe se vai tardar muito que, sabe, a situao em que nos encontramos, Serei rpido cortou o chefe, talvez receba notcias amanh mesmo, Amanh Sim, amanh, no quero que v dizendo por a que o Centro no lhe deu uma ltima oportunidade, Creio poder concluir do que ouo que a deciso ser positiva, Poder ser positiva,  tudo quanto lhe posso dizer neste momento, Obrigado, senhor, Ainda no tem razes para me agradecer, Agradeo-lhe a esperana que levo,  j alguma coisa, A esperana nunca foi muito de fiar, Tambm penso o mesmo, mas que lhe havemos de fazer, a alguma coisa teremos de agarrar-nos nas horas ms, Boa tarde, senhor Cipriano Algor, Boa tarde, senhor. O oleiro ps a mo no puxador da porta, ia sair, mas o chefe do departamento ainda tinha algo para dizer, Combine a com o subchefe, esse que o mandou entrar, o plano de retirada das suas louas, lembre-se de que s dispe de duas semanas para levar de c tudo, at ao ltimo prato, Sim senhor. Esta expresso, plano de retirada, no fica bem na boca de um civil, soa mais a operao militar do que a uma rotineira devoluo de mercadorias, e, se aplicada  letra e s posies relativas da unidade Centro e da unidade olaria, tanto pode vir a resultar em providencial recuo tctico a fim de reunir foras dispersas e depois, no momento propcio, isto , aprovada a fabricao dos bonecos, retomar o ataque, como, pelo contrrio, significar o fim de tudo, a derrota em toda a linha, a debandada, o salve-se quem puder. Cipriano Algor ouvia o subchefe dizer-lhe sem pausa e sem para ele virar a cara, Todos os dias s quatro da tarde vai ter de se desembaraar sozinho ou trazer ajuda, o pessoal daqui no pode ser dispensado mesmo pagando por fora, e perguntava-se se valeria a pena estar aqui a passar por esta vergonha, ser tratado como um inhenho, um coisa-nenhuma, e ainda por cima ter de reconhecer que a razo est do lado deles, que para o Centro no tm importncia uns toscos pratos de barro vidrado ou uns ridculos bonecos a fingir de enfermeiras, esquims e assrios de barbas, nenhuma importncia, nada, zero,  isto o que somos para eles, zero. Sentou-se finalrnente na furgoneta, olhou o relgio, ainda teria de esperar quase uma hora para ir recolher o genro, veio-lhe  cabea a ideia de entrar no Centro, h muito tempo que no usa as portas do pblico, seja para olhar, seja para comprar, as compras sempre as faz Maral por causa dos descontos a que tem direito como empregado, e entrar s para olhar no , passe a redundncia, bem-visto, algum que ande a passear l dentro de mos a abanar pode estar certo de que no tardar a ser objecto de ateno especial por parte dos guardas, podia dar-se at a cmica situao de ser o seu prprio genro a interpel-lo, Pai, o que  que est aqui a fazer, se no compra nada, e ele responderia, Vou ao sector das louas para ver se ainda tm exposta por l alguma pea da Olaria Algor, saber quanto custa aquela bilha com decorao de pedacinhos de mrmore incrustados, dizer Sim senhor,  uma bonita bilha, j so poucos os artesos capazes de executar um trabalho destes, com tanta perfeio de acabamento, talvez o encarregado do sector, estimulado pelo parecer do abalizado especialista, viesse a recomendar ao departamento de compras a aquisio urgente de uma centena de bilhas, daquelas com bocadinhos de mrmore, e nesse caso no teramos ns de arriscar-nos em aventuras, de palhaos, bobos e mandarins, que no sabemos no que iro dar. Cipriano Algor no necessitou dizer a si mesmo No vou, desde h semanas que anda a diz-lo  filha e ao genro,


uma vez deveria bastar Estava imerso nestas inteis cogitaes, com a cabea apoiada no volante, quando se aproximou o guarda que velava pela sada do subterrneo e disse, Se j resol veu o assunto que tinha para tratar, faa o favor de se ir embora, isto aqui no  garagem. O oleiro disse, J sei, ligou o motor e saiu sem mais palavra. O guarda apontou o nmero da furgoneta num papel, no precisaria de o fazer, conhece-a quase desde o primeiro dia em que comeou a ser guarda neste subterrneo, mas se to ostensivamente tomou nota foi por no ter gostado daquele seco J sei, as pessoas, sobretudo se so guardas, devem ser tratadas com respeito e considerao, no Se lhes responde J sei sem mais nem menos, o velho deveria ter dito Sim senhor, que so palavras simpticas e obedientes, do para tudo, na verdade, o guarda, mais do que irritado, est desconcertado, por isso pensou que tambm ele no deveria ter dito Isto aqui no  garagem, sobretudo no tom desdenhoso com que lhe saiu, como se fosse o rei do mundo, quando nem sequer o era do sujo subterrneo em que passava os dias. Riscou o nmero e voltou para o seu posto.
Cipriano Algor procurou uma rua tranquila para fazer tempo enquanto no ia esperar o genro  porta dos servios de segurana. Arrumou a furgoneta numa esquina de onde se avistava,  distncia de trs extensos quarteires, uma nesga de uma das fachadas descomunais do Centro, precisamente a que corresponde  parte que  habitada. Exceptuando as portas que abrem para o exterior, em nenhuma das restantes frontarias h aberturas, so impenetrveis panos de muralha ond os painis suspensos que prometem segurana no podem ser responsabilizados por tapar a luz e roubar o ar a quem dentr delas vive. Ao contrrio dessas fachadas lisas, a frente virada para este lado est crivada de janelas, centenas e centenas de janelas, milhares de janelas, sempre fechadas por causa do condicionamento da atmosfera interna.  sabido que quando ignoramos a altura exacta de um edifcio, mas queremos dar uma ideia aproximada do seu tamanho, dizemos que tem um determinado nmero de andares, que podem ser dois, ou cinco, ou quinze, ou vinte, ou trinta, e por a fora, menos ou mais que estes nmeros, de um a infinito. O edifcio do Centro no  nem to pequeno nem to grande, satisfaz-se com exibir quarenta e oito andares acima do nvel da rua e esconder dez pisos abaixo dela. E j agora, uma vez que, por ter Cipriano Algor estacionado a furgoneta neste local, comemos a ponderar alguns dos nmeros que especificam o volume do Centro, digamos que a largura das fachadas menores  de cerca de cento e cinquenta metros, e a das maiores um pouco mais de trezentos e cinquenta, no levando por ora em conta, claro est, a construo do prolongamento a que se fez pormenorizada aluso no comeo deste relato. Adiantando agora um pouco mais os clculos e tomando como dado mdio uma altura de trs metros para cada um dos andares, incluindo a espessura do pavimento que os separa, encontraremos, incluindo tambm os dez pisos subterrneos, uma altura total de cento e setenta e quatro metros. Se multiplicarmos este nmero pelos cento e cinquenta metros da largura e pelos trezentos e cinquenta metros do comprimento, obteremos como resultado, salvo erro, omisso ou confuso, um volume de nove milhes cento e trinta e cinco mil metros cbicos, mais palmo menos palmo, mais ponto menos virgula. O Centro, no h uma pessoa que no o reconhea com assombro,  realmente grande. E  ali, disse Cipriano Algor entredentes, que o meu querido genro quer que eu v viver, por trs de uma daquelas janelas que no se podem abrir, dizem eles que  para no alterar a estabilidade trmica do ar condicionado, mas a verdade  outra, as pessoas podem suicidar-se, se quiserem, mas no atirando-se de cem metros de altura para a rua,  um desespero que d demasiado nas vistas e espevita a curiosidade mrbida dos transeuntes, que logo querem saber Porqu. Cipriano Algor j disse, no uma vez, mas muitas, que nunca aceitar vir morar para o Centro, que nunca renunciar


 olaria que foi do pai e do av, e at a prpria Marta, sua filha nica, que, coitada, no ter outro remdio que acompanhar o marido quando ele for promovido a guarda residente, soube compreender, h dois ou trs dias, com agradecida franqueza, que a deciso final s o pai a poder tomar, sem ser forado por insistncias e presses de terceiros, ainda que tivessem a justific-las o amor filial, ou aquela chorosa piedade que os velhos, mesmo quando a rejeitem, suscitam na alma das pessoas bem formadas. No vou, no vou, e no vou, nem que me matem, resmungou o oleiro, consciente, no entanto, de que estas palavras, precisamente por parecerem to rotundas, to terminantes, podiam estar a fingir uma convico que no fundo no sentia, a disfarar uma frouxido interior, como uma greta ainda invisvel na parede mais delgada de um cntaro. Obviamente era esta a melhor razo, j que de cntaro se voltou a falar, para que Isaura Estudiosa regressasse ao pensamento de Cipriano Algor, e foi o que de facto sucedeu, mas o caminho tomado por esse pensamento, ou raciocnio, se raciocnio houve, se no foi s a luz de um instantneo relmpago, empurrou-o para uma concluso assaz embaraosa, formulada num sonhador murmrio, Assim j no teria de vir para o Centro. O gesto contrariado de Cipriano Algor, logo a seguir a ter pronunciado estas palavras, no permite que viremos as costas  evidncia de que o oleiro, no obstante o gosto de pensar em Isaura Estudiosa que nele se tem observado, no pde evitar um movimento de humor que o parece negar. Perder tempo a explicar por que gosta seria pouco menos que intil, h coisas na vida que se definem por si mesmas, um certo homem, uma certa mulher, uma certa palavra, um certo momento, bastaria que assim o tivssemos enunciado para que toda a gente percebesse de que se tratava, mas outras coisas h, e que at podero ser o mesmo homem e a mesma mulher, a mesma palavra e o mesmo momento, que, olhadas de um ngulo diferente, a uma luz diferente, passam a determinar dvidas e perplexidades, sinais
inquietos, uma inslita palpitao, por isso a Cipriano Algor falhou de repente o gosto de pensar em Isaura Estudiosa, a culpa teve-a aquela frase, Assim j no teria de vir para o Centro, como quem dissesse, Casando-me eu com ela, teria quem me cuidasse, outra vez fica demonstrado o que j demonstrao no precisa, ou seja, aquilo que mais custa a um homem  reconhecer as suas debilidades e confess-las. Sobretudo quando elas se manifestam fora da poca prpria, como um fruto que o ramo segura mal porque nasceu demasiado tarde para a estao. Cipriano Algor suspirou, depois olhou o relgio. Eram horas de ir recolher o genro  porta dos servios de segurana.


O co Achado no gostou de Maral. Era tanto o que havia para contar, tantas as novidades, tantos os altos e baixos de esperana e de nimo vividos nestes dias, que a Cipriano Algor no ocorreu, durante o caminho entre o Centro e a olaria, falar ao genro do misterioso aparecimento do animal e suas subsequentes singularidades de comportamento. Impe, no entanto, o amor da verdade, avivado pelo escrpulo do narrador, no deixar ficar sem meno um nico e veloz afloramento do inopinado episdio  memria omissa do oleiro, que, porm, no conseguiu desenvolver-se porque Maral, com mais do que justificado pesar, interrompeu o relato do sogro para perguntar por que diabo de razes nem ele nem Marta se tinham lembrado de o informar do que estava a passar-se em casa, a ideia dos bonecos, os desenhos, as experincias de modelagem, At parece que no existo para vocs, comentou com amargura. Apanhado em falta, Cipriano Algor engrolou uma explicao em que participavam o nervosismo e a concentrao prprios de toda a criao artstica, a nenhuma amabilidade com que o faxina de servio ao telefone costumava atender as chamadas dos parentes dos guardas que viviam fora do Centro, e, finalmente, umas quantas palavras decorativas, meio atabalhoadas, para acabar de encher e rematar o discurso. Felizmente, a passagem pelo camio queimado contribuiu para desviar as atenes de um diferendo muito capaz de converter-se em querela familiar, o qual, adianta-se, de ameaa no passar, embora


Maral Gacho faa teno de retomar o assunto quando se encontrar a ss com a mulher, no quarto e com a porta fechada. Com desafogo visvel, Cipriano Algor deixou de lado os bonecos de barro para passar a expor as suspeitas que o incndio tinha feito nascer no seu esprito, posio esta que Maral, ainda agastado pela desconsiderao de que fora vtima, contestou com certa brusquido em nome da deontologia, da conscincia tica e da limpeza de processos que, por definio, sempre distinguiram as foras armadas, em geral, e as autoridades administrativas e policiais, em particular. Cipriano Algor encolheu os ombros, Dizes isso porque s guarda do Centro, fosses tu um paisano como eu, e verias as coisas doutra maneira, O facto de eu ser guarda do Centro no fez de mim um polcia ou um militar, respondeu Maral secamente, No fez, mas ficas l perto, na fronteira, Agora vai ter a obrigao de me dizer se o envergonha que um guarda do Centro esteja aqui ao seu lado, na sua furgoneta, a respirar o mesmo ar. O oleiro no respondeu logo, arrependia-se de ter cedido outra vez ao estpido e gratuito apetite de acirrar o genro, Por que fao eu isto, perguntou a si mesmo, como se no estivesse farto de conhecer a resposta, este homem, este Maral Gacho queria levar-lhe a filha, na verdade levara-lha j ao casar com ela, levara-lha sem remdio nem retorno, Ainda que, cansado de dizer no, eu acabe por ir viver no Centro com eles, pensou. Depois, falando lentamente, como se tivesse de arrastar atrs de si cada palavra, disse, Desculpa-me, no queria ofender-te, no queria ser desagradvel contigo, s vezes no o posso evitar, parece ser mais forte do que eu, e no vale a pena que me perguntes porqu, no te responderia, ou dir-te-ia mentiras, mas h razes, se as procurarmos encontramo-las sempre, razes para explicar qualquer coisa nunca faltaram, mesmo no sendo as certas, so os tempos que mudam, so os velhos que em cada hora envelhecem um dia,  o trabalho que deixou de ser o que havia sido, e ns que s podemos ser o que fomos, de repente percebemos que j no somos necessrios no mundo, se  que alguma vez o tnhamos sido antes, mas acreditar que o ramos parecia bastante, parecia suficiente, e era de certa maneira eterno pelo tempo que a vida durasse, que  isso a eternidade, nada mais do que isso. Maral no falou, apenas ps a mo esquerda sobre a mo direita do sogro, que segurava o volante. Cipriano Algor engoliu em seco, olhou a mo que, branda, mas firme, parecia querer proteger a sua, a cicatriz torcida e oblqua que dilacerava a pele de um lado a outro, marca ltima de uma queimadura brutal que no se sabe por que assombroso acaso no chegou a alcanar as veias subjacentes. Inexperiente, inbil, Maral tinha querido dar uma ajuda na alimentao do forno, fazer boa figura perante a rapariga que h poucas semanas namorava, talvez mais ainda perante o pai dela, mostrar-lhe que era um homem feito, quando na verdade mal acabara de sair da adolescncia e a nica coisa da vida e do mundo acerca da qual julgava saber tudo quanto h para saber era gostar da filha do oleiro. A quem por estas certezas passou algum dia no custar imaginar que entusisticos sentimentos foram os dele enquanto arrastava, ramo aps ramo, a lenha do telheiro, e logo a empurrava pela fornalha dentro, que supremo prmio teriam sido para ele, naqueles momentos, a surpresa encantada de Marta, o sorriso benvolo da me dela, o olhar srio e relutantemente aprovador do pai. E de sbito, sem que se chegasse a perceber porqu, considerando que, de memria de oleiros, nunca tal havia sucedido antes, uma labareda delgada, rpida e sinuosa como a lngua de uma cobra irrompeu rosnando da boca da fornalha e foi morder cruelmente a mo do rapaz, prxima, inocente, desprevenida. Foi a que nasceu a surda antipatia que a famlia Gacho passou a votar aos Algores, no s imperdoavelmente descuidados e irresponsveis, como, segundo o inflexvel juzo dos Gachos, tambm descaradamente abusadores por se terem aproveitado dos sentimentos de um moo ingnuo para o fazerem traba


lhar de graa. No  s em aldeias afastadas da civilizao que os apndices cerebrais humanos so capazes de gerar ideias assim. Marta curou muitas vezes a mo de Maral, muitas vezes a consolou e refrescou com o seu sopro, e tanto perseverou a vontade de ambos que passados anos puderam casar-se, porm no se uniram as famlias. Agora o amor deles parece estar adormecido, que lhe havemos de fazer, parece ser esse um efeito natural do tempo e das ansiedades do viver, mas se a sabedoria antiga ainda serve para alguma coisa, se ainda pode ser de alguma utilidade para as ignorncias modernas, recordemos com ela, discretamente, para que no se riam de ns, que enquanto houver vida, haver esperana. Sim,  certo, por mais espessas e negras que estejam as nuvens sobre as nossas cabeas, o cu l por cima estar permanentemente azul, mas a chuva, o granizo e os coriscos  sempre para baixo que vm, em verdade no sabe uma pessoa o que pensar quando tem de fazer-se entender com cincias destas. A mo de Maral j se retirou, entre os homens o costume  assim, as demonstraes de afecto, para serem viris, tm de ser rpidas, instantneas, h quem afirme que  por causa do pudor masculino, talvez seja, mas reconhea-se que muito mais de homem, na acepo completa da palavra, teria sido, e decerto no menos viril, parar Cipriano Algor a furgoneta para abraar ali mesmo o genro e agradecer-lhe o gesto com as nicas palavras merecidas, Obrigado por teres posto a tua mo sobre a minha, isto era o que deveria ter dito, e no estar a aproveitar-se agora da seriedade do momento para se queixar do ultimato que lhe foi imposto pelo chefe do departamento de compras, Imagina tu, deu-me quinze dias para retirar as louas todas, Quinze dias,  verdade, quinze dias, e sem ter quem me ajude, Tenho pena de no lhe poder dar uma mo, Claro que no podes, nem tens tempo nem seria conveniente para a tua carreira verem-te de moo de fretes, e o pior  no saber eu como me hei-de livrar de uns cacos que j ningum quer, Ainda poder vir a vender alguMa dessa loua, Para isso sobra a que temos na olaria, Sendo assim, parece realmente complicado, Logo verei, talvez a deixe por aqui, no caminho, A polcia no vai permitir, Se esta traquitana, em lugar de furgoneta, fosse um daqueles CAMies que levantam a caixa, seria facilimo, um botozinho elctrico, e ala, em menos de um minuto estaria tudo na valeta, Escaparia uma vez ou duas  polcia da estrada, mas acabariam por apanh-lo em flagrante, Outra soluo seria encontrar no campo uma cova, no precisaria de ser muito funda, e meter tudo l para dentro, imagina a piada que seria assistirmos, daqui a uns mil ou dois mil anos, aos debates dos arquelogos e dos antroplogos sobre a origem e as razes da presena de uma tal quantidade de pratos, canecas e panelas de barro, e sua problemtica utilidade, num stio desabitado como este, Desabitado, agora, daqui a mil ou dois mil anos no  nada impossvel que a cidade tenha chegado at onde neste momento nos encontramos, observou Maral. Fez uma pausa, como se as palavras que acabara de pronunciar tivessem exigido que volTasse a pensar nelas, e, no tom perplexo de quem, sem compreender como o havia conseguido, chegou a uma concluso logicaMente impecvel, acrescentou, Ou o Centro. Ora, sabendo-se que, na vida deste sogro e deste genro, a mofina questo do Centro tudo ter sido menos pacfica, h motivo para estranhar que as consequncias da inesperada aluso do guarda interno Maral Gacho se tivessem deixado ficar por ali, que a perigosa frase ou o Centro no tivesse feito disparar imediatamente uma nova discusso, repetindo-se todos os desentendimentos j conhecidos e o mesmo rosrio de recriminaes surdas ou explcitas. A razo de ambos terem permanecido silenciosos, supondo que  possvel, a quem, como ns, observa do lado de fora, desvelar o que, com toda a probabilidade, nem para eles foi claro, ter sido o facto de aquelas palavras constiturem, na boca de Maral, sobretudo levando em conta o contexto em que foram pronunciadas, uma novidade absolu


ta. Dir-se- que no  assim, que, pelo contrrio, ao admitir a possibilidade de o Centro fazer desaparecer num dia futuro, por imparvel absoro territorial, os campos que a furgoneta agora vai atravessando, o guarda interno Maral Gacho estaria a sublinhar, por sua prpria conta, e a aplaudir no seu foro ntimo, a potncia expansiva, tanto no espao como no tempo, da empresa que lhe paga os modestos servios. A interpretao seria vlida e arrumaria definitivamente a questo se no se tivesse dado aquela quase imperceptvel pausa, se aquele instante de aparente suspenso do pensar no correspondesse permita-se a ousadia da proposta, ao aparecimento de algum simplesmente capaz de pensar de outra maneira. Se foi assim,  fcil de compreender que Maral Gacho no tenha podido avanar logo pelo caminho que se abriu  sua frente, uma vez que esse caminho estava destinado a uma pessoa que no era ele. Quanto ao oleiro, esse leva vividos anos mais do que suficientes para saber que a melhor maneira de fazer morrer uma rosa  abri-La  fora quando ainda no passa de uma pequena promessa em boto. Guardou por conseguinte na memria as palavras do genro e fez de conta que no se tinha apercebido do verdadeiro alcance delas. No tornaram a falar at entrarem na povoao. Como de costume quando trazia do Centro o genro, Cipriano Algor parou  porta dos seus mal-avindos compadres, era s o tempo de Maral entrar, dar um beijo  me, e ao pai, se estava em casa, informar-se de como haviam passado de sade desde a ltima vez, e sair depois de ter dito, Amanh passo por c com mais vagar. Em geral, chegavam e sobravam cinco minutos para que a rotina do sentimento filial fosse cumprida, o resto das expanses e o mais substancial das conversas ficavam para o dia seguinte, umas vezes almoando, outras no, mas quase sempre sem a companhia de Marta. Hoje, porm, os cinco minutos no bastaram, nem os dez, e foram quase vinte os que tiveram de gastar-se antes que Maral reaparecesse. Entrou na furgoneta bruscamente e fechou A porta com fora. Tinha a cara sria, quase sombria, uma expresso endurecida de adulto para qual a juvenilidade das "suas feies ainda no estava preparada. Demoraste-te muito hoje, est por l algum mal, algum problema na famlia, perguntou o sogro, solcito, No, no  nada grave, desculpe-me por t-lo obrigado a esperar tanto tempo, Vens aborrecido, No  nada grave, j disse, no se preocupe. Esto quase a chegar, a furgoneta virou  esquerda para comear a subir a ladeira que leva  olaria, ao mudar de velocidade Cipriano Algor lembra-se de que passou por onde mora Isaura Estudiosa sem ter pensado nela, e  neste momento que um co vem l de cima a correr e a ladrar, segunda surpresa que Maral tem hoje, ou terceira, se a que resultou ser segunda foi a visita aos pais. Donde  que saiu este co, perguntou, Apareceu aqui h uns dias e deixmo-lo ficar,  um bicho simptico, demos-lhe o nome de Achado, embora, se pensarmos bem, os achados tenhamos sido ns, e no ele. Quando a furgoneta chegou ao final da rampa e parou, umas quantas coisas sucederam simultaneamente, ou com intervalos mnimos de tempo, Marta surgiu  porta da cozinha, o oleiro e o guarda interno saram do carro, o Achado rosnou, Marta veio para Maral, Maral foi para Marta, o co deu um rosnido profundo, o marido abraou a mulher, a mulher abraou o marido, logo beijaram-se, o co deixou de rosnar e atacou uma bota de Maral, Maral sacudiu a perna, o co no largou a presa, Marta gritou, Achado, o pai gritou o mesmo, o co largou a bota e tentou filar o tornozelo, Maral deu-lhe um pontap com inteno mas sem demasiada violncia, Marta disse, No lhe batas, Maral protestou, Ele mordeu-me,  porque no te conhece, A mim no me conhecem nem os ces, estas palavras terrveis saram da boca de Maral como se chorassem, mgoa e queixume insuportveis cada uma delas, Marta lanou as mos aos ombros do marido, No repitas isso, claro que ele no repetiu, nem era preciso, h certas coiSas que se chegam a dizer-se uma vez  para nunca mais, Marta


ouvir estas palavras dentro da sua cabea at ao ltimo dia da vida, e quanto a Cipriano Algor, se pretendssemos saber o que est a fazer neste momento, a resposta mais fcil seria, Nada, se no fosse a reveladora circunstncia de ele ter desviado rapidamente os olhos quando ouviu o que disse Maral, alguma coisa fez portanto. o co tinha-se afastado na direco da casota, mas a meio caminho parou, voltou-se e ficou a olhar. De vez em quando deixava sair um rosnido da garganta. Marta disse, No conhece o que so abraos, deve ter pensado que me estavas a fazer mal, mas Cipriano Algor, para limpar a atmosfera, acudiu com uma ideia mais trivial, Tambm poder ser que ele seja de implicar com uniformes, tm-se visto casos desses. Maral no respondeu, movia-se entre duas conscincias ntimas, a do arrependimento de ter dito palavras que ficariam para sempre e jamais como pblica confisso de um desgosto escondido at este momento no mais fundo de si mesmo, e a de uma instintiva intuio de que hav-las deixado sair desta maneira poderia significar que estava a ponto de largar um caminho para tomar por outro, embora fosse ainda muito cedo para saber em que direco este o levaria. Beijou Marta na testa e disse, Vou mudar de roupa. A tarde decaa rapidamente, seria noite em pouco mais de meia hora. Cipriano Algor disse para a filha, L falei com o sujeito das compras, Por causa do disparate do co, quase me esquecia de lhe perguntar como se passou a conversa, Disse-me que talvez amanh d uma resposta, To depressa, Custa a crer, realmente, e ainda mais custar pensar que a deciso pode vir a ser positiva, foi o que me pareceu entender, pelo menos, Oxal no se engane, A nica bela sem seno que conheo s tu, Que quer dizer, a que propsito vm agora as belas e os senes,  que depois de uma notcia boa sempre vem uma notcia m, Qual  a de agora, Terei de retirar em duas semanas as louas que eles conservam em armazm, Vou consigo para o ajudar, Nem por sonhos, se o Centro nos fizer a encomenda, todo o tempo aqui vai ser pouco. h que modelar os bonecos definitivos, fazer os moldes, trabalhar na moldagem, pintar, carregar e descarregar o forno, gostaria de entregar a primeira encomenda antes de deixar vazias as prateleiras do armazm, no seja que o homem mude de ideias, E o que fazemos com toda essa loua, No te preocupes, j combinei com o Maral, largo-a a no meio do campo, em qualquer buraco, quem quiser que a aproveite, Com tantas mudanas, a maior parte dela ficar partida,  o mais certo. O co veio e tocou com o nariz a mo de Marta, parecia estar a pedir que lhe explicassem a nova composio do agregado familiar, como em algum tempo se usou dizer. Marta ralhou, A ver como te portas daqui para diante, podes ter a certeza de que entre ti e o marido, escolho o marido. A ltima sombra da amoreira-preta recolhia-se a pouco e pouco para comear a sumir-se na sombra mais profunda da noite que se aproximava. Cipriano Algor murmurou, H que ter cuidado com o Maral, o que ele disse h bocado foi como uma facada, e Marta respondeu, tambm murmurando, Foi uma facada, doeu muito. A lanterna por cima da porta acendeu-se. Maral Gacho apareceu no limiar, tinha trocado o uniforme por uma roupa comum, de andar por casa. O co Achado olhou-o com ateno, de cabea alta avanou uns passos para ele, depois estacou'expectante. Maral aproximou-se, Pazes feitas, perguntou. O nariz frio foi roar ao de leve a cicatriz da mo esquerda, Pazes feitas. Disse o oleiro, Ora a est como eu tinha razo, o nosso Achado no gosta  de fardas, Na vida tudo so fardas, o corpo s  civil verdadeiramente quando est despido, respondeu Maral, mas j no se percebia amargura na sua voz.
Durante o jantar conversou-se muito sobre como havia ocorrido a Marta a ideia de fazer os bonecos, tambm sobre as dvidas, os temores e as esperanas que agitaram a casa e a olaria naqueles ltimos dias, e, passando a questes prticas, calcularam-se os tempos necessrios a cada fase da produo, assim como os respectivos factores de segurana, diferentes uns


e outros dos fabricos a que estavam habituados, Tudo depende da quantidade que nos for encomendada, o que convm  que no sejam nem de menos nem de mais, ser o sol para a eira e a chuva para o nabal, como no tempo em que no existiam estufas de plstico, comentou Cipriano Algor. Depois da mesa levantada, Marta mostrou ao marido os esboos que tinha feito, as tentativas, as experincias de cor, a velha enciclopdia donde havia copiado os modelos,  vista parecia pouqussimo trabalho para to grandes ansiedades, mas  preciso compreender que nas circum-navegaes da vida uma brisa amena para uns pode ser para outros uma tempestade mortal, tudo depende do calado do barco e do estado das velas. No quarto, com a porta fechada, Maral pensou que j no valia a pena pedir a Marta explicaes por no o ter informado da ideia dos bonecos, em primeiro lugar porque essa gua j levava horas que tinha passado por baixo da ponte e portanto affastara no seu curso o despeito e o mau humor, em segundo lugar porque o apoquentavam cuidados muito mais srios que o de sentir-se ou imaginar-se desfeiteado. Cuidados mais srios e no menos urgentes. Quando um homem regressa a casa e  mulher depois de uma privao de dez dias, sendo jovem como  este Maral, ou, no caso de velho ser, se ainda no pde a idade abater-lhe o nimo amatrio, o natural  querer dar satisfao imediata  tremura dos sentidos, ficando a conversa para depois. Em geral, as mulheres no esto de acordo. Se o tempo no urge especialmente, se, ao contrrio, A noite  nossa, e quem diz a noite, diz a tarde ou a manh, o mais certo  a mulher preferir que o acto amoroso se inicie por uma conversazinha pausada, sem pressas, e tanto quanto possvel alheia quela ideia fixa que, semelhante a um pio zumbidor, gira na cabea do homem. Como um cntaro profundo que lentamente se enche, a mulher vai-se aproximando do homem aos poucos e poucos, ou, talvez com mais rigorosa conformidade, fazendo-o aproximar-se dela, at que a urgncia de um e a ansiedade do outro, j declaradas, j coincidentes, j inadiveis, faam subir cantando a gua unnime. H excepes, porm, como  este caso de Maral que, por muito que quisesse puxar Marta para a cama, no o poderia fazer enquanto no despejasse o pesado saco das preocupaes que carrega, no desde o Centro, no da conversa que havia tido com o sogro durante o caminho, mas da casa dos pais. No entanto, ainda desta vez aprimeira palavra iria ser dita por Marta,  possvel que os ces no te conheam, Maral, mas a tua mulher conhece-te, No quero falar disso, Devemos falar do que di, Fui estpido e injusto, Deixemos de lado o estpido, porque no o s, fiquemo-nos pelo injusto, J o reconheci, Tambm no foste injusto, No compliquemos as coisas, Marta, por favor, o que l vai, l vai, As coisas que parecem ter passado so as que nunca acabam de passar, os injustos temos sido ns, Ns, quem, Eu e o pai, sobretudo eu, o pai tem a filha casada e medo de a perder, no precisaria de dar outra justificao, E tu, Eu sou a que no tem desculpa, Porqu, Porque te amo, e s vezes, demasiadas vezes, dou a impresso de esquecer, ou at esqueo mesmo, que  a uma pessoa concreta, completa no ser que , que devo esse amor, no a algum que tivesse de contentar-se com um sentimento meio difuso que pouco a pouco se iria resignando, como se de um inapelvel destino se tratasse,  sua prpria e mortal vaguidade, O casamento  isso, as pessoas vivem dessa maneira, basta-me olhar os meus pais, Ainda tenho outra culpa, No continues, por favor, Vamos at ao fim, Maral, j agora vamos at ao fim, Por favor, Marta, No queres que continue porque adivinhas o que tenho para dizer, Por favor, Quando disseste que a ti nem os ces te conhecem, o que estavas era a dizer  tua mulher que ela, no s no te conhece, como nada tem feito para te conhecer, enfim, digamos quase nada, No  verdade, tu conheces-me, ningum me conhece melhor do que tu, S o suficiente para ter compreendido o sentido das tuas palavras, mas nisso no fui mais inteligente do


que o meu pai, que as compreendeu logo como eu, De ns dois, a pessoa adulta s tu, eu ainda no passo de uma criana, Talvez tenhas razo, pelo menos ests a dar-me razo a mim, esta maravilhosa adulta que sou, esta sensatssima mulher de Maral Gacho, no foram capazes de perceber, quando deveriam, o que representa uma pessoa que vai ter a simplicidade e a honestidade de dizer de si mesmo que  uma criana, No serei sempre assim, No sers assim sempre, por isso, enquanto  tempo, terei de fazer tudo quanto estiver ao meu alcance para te compreender como s, e provavelmente chegar  concluso de que, em ti, ser criana , afinal de contas, uma forma diferente de ser adulto, Por este andar deixarei de saber quem sou, Cipriano Algor dir-te-ia que essa  uma daquelas coisas que nos acontecem muitas vezes na vida, Creio que comeo a entender-me com o teu pai, No imaginas, imaginas sim, quanto isso me torna feliz. Marta agarrou nas mos de Maral e beijou-lhas, depois apertou-as contra o peito, s vezes, disse, deveramos regressar a certos gestos de ternura antigos, Que sabes tu disso, no viveste nos tempos da reverncia e do beija-mo, Leio o que contam os livros,  o mesmo que l ter estado, de qualquer modo no foi em beija-mos e reverncias que pensei, Eram costumes diferentes, modos de sentir e de comunicar que j no so os nossos, Ainda que te possa parecer estranha a comparao, os gestos, para mim, so mais do que gestos, so como desenhos feitos pelo corpo de um no corpo do outro. O convite era explcito, mas Maral fez que no tinha entendido, embora compreendesse que chegara o momento de atrair Marta para si, de lhe acariciar os cabelos, de a beijar devagar na face, nas plpebras, suavemente, como se no sentisse desejo, como se estivesse s distrado, grave equvoco ser pensar assim, o que nestas ocasies sucede  ter tomado o desejo conta absoluta do corpo para dele se servir, perdoe-se o materialista e utilitrio smile, como se de uma ferramenta de uso mltiplo se tratasse, to habilitada para deslizar como para lavrar, to potente para emitir como para receber, to minuciosa para contar como para medir, to activa para subir como para descer. Que tens, perguntou Marta, subitamente irresoluta, Nada de importante, apenas uns pequenos aborrecimentos, Questes de trabalho, No, Ento, qu,  to pouco o tempo que j temos para estar juntos, ainda por cima vm meter-se na nossa vida, No vivemos numa redoma, Passei por casa dos meus pais, Algum acidente, alguma complicao. Maral acenou a cabea negativamente e prosseguiu, Comearam por mostrar-se muito interessados em saber se tenho notcia de quando espero ser promovido a guarda residente, e eu respondi que no, que nem sequer h razes seguras para afirmar que isso acontecer, Quase certo, ests, Sim, quase certo, mas at ao lavar dos cestos,  vindima, e depois, Fizeram mais uns quantos rodeios, e eu sem perceber aonde quereriam chegar, e finalmente anunciaram-me a sua grande ideia, E que grande ideia vem a ser essa, Nada mais nada menos que estarem a pensar em vender a casa para irem viver connosco, Connosco, onde, No Centro, Estou a ouvir bem, os teus pais querem ir viver no Centro, connosco, Tal e qual, E tu, que lhes disseste, Comecei por lhes fazer notar que ainda era cedo para pensar nisso, mas eles responderam-me que vender uma casa tambm no  coisa que se faa do p para a mo, que no seria depois de j estarmos instalados, tu e eu, que eles iriam comear a procurar comprador, E tu que disseste, Pensando que arrumava o assunto, disse-lhes que tencionvamos levar o teu pai quando nos mudssemos, para que no ficasse aqui sozinho, tanto mais que a olaria est a passar por um momento de crise, Disseste-lhes isso, Sim, mas no deram importncia, pouco faltou para se porem aos gritos, a chorar, falo da minha me, claro, o meu pai  pouco de sentimentalismos, o que ele fez foi protestar e barafustar, que filho sou eu que ponho as convenincias de pessoas que no so do meu sangue acima das necessidades dos meus prprios progenitores, disseram mes


mo progenitores, no sei aonde foram buscar a palavra, que nunca poderiam imaginar que algum dia teriam de ouvir da minha boca que renego aqueles a quem devo a vida, aqueles que me criaram e educaram, que  bem certo que casamento apartamento, mas desprezos  que no estavam dispostos a admitir, que em todo o caso no me ralasse eu, por enquanto ainda no precisavam de andar pelas ruas  esmola, mas que no me esquecesse de que o remorso sempre acaba por chegar, e se no vem durante a vida, vir depois da morte, e esse ainda  pior, e que oxal no venha eu a ter filhos que me castiguem pela desumanidade com que tratei hoje os meus pais, Foi a frase final, No sei se foi a frase final, devo ter-me esquecido de algumas mais, cortadas pelo mesmo molde, Deverias ter-lhes explicado que no valia a pena preocuparem-se, bem sabes que o meu pai no quer viver no Centro, Sim, mas preferi no o fazer, Porqu, Seria dar-lhes p para pensarem que so os nicos em campo, Se insistirem, no ters outro remdio, Bastar que no aceite a promoo, s precisarei de encontrar uma razo que consiga convencer o Centro, Duvido que a encontres. Estavam sentados na cama, podiam tocar-se, mas o momento das carcias havia passado, aparentemente andava to longe dali como o tempo do beija-mo e da reverncia, ou mesmo daquele outro momento em que duas mos de homem foram beijadas, e logo aconchegadas ao seio da mulher. Maral disse, Sei que no fica bem a um filho fazer uma declarao destas, mas a verdade  que no quero viver com os meus pais, Porqu, Nunca nos entendemos, nem eu a eles, nem eles a mim, So teus pais, Sim, so meus pais, naquela noite foram para a cama e deu-lhes a vontade, disso nasci, quando era pequeno recordo ter-lhes ouvido comentar, como quem se diverte a contar uma boa anedota, que ele, nessa ocasio, estava embriagado, Com vinho ou sem vinho,  disso que nascemos todos, Reconheo que  um exagero, mas repugna-me pensar que o meu pai estava bbedo quando me gerou,  como se eu fosse filho doutro homem,  como se aquele que realmente deveria ter sido meu pai no tivesse podido s-lo, como se o seu lugar tivesse sido ocupado por outro, este a quem hoje ouvi dizer que oxal venham a castigar-me os meus filhos, No foi exactamente assim que ele se expressou, Mas foi exactamente assim que pensou. Marta segurou a mo esquerda de Maral, apertou-a entre as suas, e murmurou, Todos os pais foram filhos, muitos filhos vm a ser pais, mas uns esqueceram-se daquilo que foram. e aos outros no h ningum que possa explicar-lhes o que sero, No  fcil de entender, Nem eu entendo, saiu-me assim, no faas caso, Vamos para a cama, Vamos. Despiram-se e deitaram-se. O momento das carcias voltou a entrar no quarto, pediu desculpa por se ter demorado tanto l fora, No encontrava o caminho, justificou-se, e, de repente, como aos momentos algumas vezes acontece, tornou-se eterno. Um quarto de hora depois, ainda enlaados os corpos, Marta murmurou, Maral, Que , perguntou ele, sonolento, Tenho dois dias de atraso.


No resguardado silncio do quarto, entre os lenis desfeitos pela amorosa agitao de ainda h pouco, o homem ouviu a sua mulher comunicar-lhe que tem a menstruao atrasada dois dias, e a notcia apareceu-lhe como algo inaudito e definitivamente assombroso, espcie de segundo fiat lux numa poca em que o latim deixou de ser usado e praticado, um surge et ambula vernculo que no tem ideia de para onde vai e por isso mesmo assusta. Maral Gacho, que apenas uma hora antes, ou nem tanto, em lance de comovedor abandono raramente acontecvel no sexo masculino, se tinha confessado criana, era, afinal, sem o imaginar, pai embrionrio desde h umas semanas, o que mais uma vez nos demonstra que nunca nos deveramos sentir seguros daquilo que pensamos ser porque, nesse momento, poder muito bem suceder que j estejamos a ser coisa diferente. Quase tudo o que Marta e Maral disseram um
ao outro pela noite dentro, antes de adormecerem de puro cansao, est descrito em mil e uma histrias de casais com flhos, mas a anlise concreta da situao concreta em que este matrimnio se encontra no deixou passar sem exame certas questes que lhe so particulares, como sejam a diminuda possibilidade de Marta continuar a suportar a dureza do trabalho na olaria, e, sem soluo de momento por estar dependente da nomeao esperada, a dvida sobre se a criana nascer antes ou depois da mudana para o Centro. Alegou Marta, sobre a primeira destas questes, que no acreditava que sua me, a


falecida Justa Isasca, que tinha trabalhado sem descanso at ao seu ltimo dia, decidisse desfrutar dos regalos de uma ociosidade total s pelo facto de ter engravidado, Eu prpria seria testemunha disso, se recuperasse a memria dos nove meses que vivi dentro dela, A uma criana que est na barriga da me  impossvel saber o que sucede c fora, respondeu Maral bocejando, Suponho que assim ser, mas pelo menos tens de reconhecer que seria perfeitamente natural que a criana conhecesse intimamente o que vai acontecendo no corpo da me, o problema, em minha opinio, est todo na memria, Se nem sequer nos lembramos do que sofremos no trnsito do nascimento,  a, provavelmente, que perdemos aquela primeira de todas as memrias, Ests a devanear, d-me um beijo. Antes desta delicada conversa e deste beijo, Maral tinha exprimido veementes votos por que a mudana para o Centro se fizesse antes do nascimento, Ters a melhor assistncia mdica e de enfermagem que alguma vez poderias imaginar, no existe nada que se lhe assemelhe, nem de longe nem de perto, e tanto em medicina como em cirurgia, Como sabes tudo isso, se nunca estiveste no hospital do Centro, nem sequer provavelmente l entraste, Conheo quem esteve internado, um superior meu que entrou quase a morrer e saiu como novo, h at gente de fora que mete empenhos para ser admitida, mas as normas so inflexveis, Quem te ouvir acreditar que no Centro ningum morre, Morre-se, evidentemente, mas a morte nota-se menos,  uma vantagem, no h dvida, Vers quando l estivermos, Verei qu, que a morte se nota menos,  isso que queres dizer, No estava a falar da morte, Estavas, sim senhor, A morte no me interessa para nada, estava a falar de ti e do nosso filho, do hospital onde o irs ter, Se a tua nomeao no se atrasar demasiado, Se no me promoverem em nove meses, no me promovero nunca, D-me um beijo, guarda interno, e vamos dormir, Toma l o beijo, mas h uma questo de que ainda precisamos de falar, Qual, Que a partir de hoje passas a trabalhar menos na olaria e daqui por dois ou trs meses deixas de trabalhar de todo, Achas que o meu pai pode fazer tudo, principalmente se o Centro fizer a encomenda dos bonecos, Contrata-se algum para o ajudar, Bem sabes que so penas perdidas, ningum quer trabalhar em olarias, O teu estado, O meu estado, qu, a minha me trabalhou sempre quando esteve grvida de mim, Como o sabes, Lembro-me. Riram ambos, depois Marta props, Por enquanto no falaremos disto ao meu pai, ele ficaria contentssimo, mas  prefervel que no lho digamos, Porqu, No sei, andam demasiadas coisas a rodar naquela cabea, A olaria, A olaria  s uma delas, O Centro, O Centro tambm, a encomenda que vir ou no vir, as louas que  preciso retirar, mas h outras questes, a histria de um cntaro a que se lhe soltou a asa, por exemplo, depois te contarei. Marta foi a primeira a adormecer. Maral j no estava to assustado, mais ou menos sabia por que caminho teria de ir depois do nascimento, e quando, passada quase meia hora, o sono lhe tocou com os seus dedos de fumo, deixou-se levar j com o esprito em paz, sem resistncia. O seu ltimo pensamento consciente foi para perguntar-se se Marta lhe teria falado realmente da asa de um cntaro, Que disparate, devo de estar a sonhar, pensou. Foi o que menos dormiu, mas foi o primeiro a acordar. A luz do amanhecer coava-se pelas frinchas das portadas interiores. Vais ter um filho, disse consigo mesmo, e repetiu, um filho, um filho, um filho. Logo, movido por uma curiosidade sem desejo, quase inocente, se  que ainda h inocncia nesse lugar do mundo a que chamamos cama, levantou os cobertores para olhar o corpo de Marta. Estava virada para o seu lado, com os joelhos um pouco dobrados. A parte inferior da camisa de dormir enrolava-se-lhe na cintura, a brancura do ventre mal podia distinguir-se na penumbra e desaparecia completamente na zona escura do pbis. Maral deixou descair os cobertores e compreendeu que o momento das carcias no se tinha retirado, tinha permanecido a p firme no quarto du


rante toda a noite, e ali continuava,  espera. Provavelmente tocada pelo ar frio que se deslocara com o movimento da roupa da cama, Marta suspirou e mudou de posio. Como um pssaro tenteando suavemente o stio para o seu primeiro ninho, a mo esquerda de Maral, leve, mal lhe roava o ventre. Marta abriu os olhos e sorriu, depois disse brincando, Bons dias, senhor pai, mas a sua expresso mudou de repente, tinha acabado de perceber que no estavam ss no quarto. O momento das carcias insinuara-se entre eles, metera-se entre os lenis, no sabia dizer explicitamente o que queria, mas fizeram-lhe a vontade.
Cipriano Algor j andava por fora. Dormira mal a pensar se receberia hoje a resposta do chefe do departamento de compras, e que resposta seria ela, se positiva, se negativa, se reticente, se dilatria, mas o que lhe tirou o sono por completo durante algumas horas foi uma ideia que lhe brotou na cabea a pelo meio da noite e que, como todas as que nos assaltam em horas mortas de insnia, achou ser extraordinria, magnifica, e at, no caso em apreciao, golpe de um talento negociador digno de todos os aplausos. Ao acordar das escassas duas horas de inquieto sono que o corpo desesperado havia podido subtrair  sua prpria extenuao, percebeu que a ideia, afinal, no valia nada, que o mais prudente seria no alimentar iluses acerca da natureza e do carcter de quem maneja a vara do mando, e que qualquer ordem vinda de quem estiver investido de uma autoridade acima do comum dever ser considerada como se do mais irrefragvel ditame do destino se tratasse. Na verdade, se a simplicidade  uma virtude, nenhuma ideia poderia ser mais virtuosa do que esta, como imediatamente se apreciar, Senhor chefe de departamento, diria Cipriano Algor, estive a pensar no que me disse, de ter duas semanas para retirar as louas que esto a ocupar espao no armazm, na altura no me lembrei, provavelmente por causa da emoo que senti ao perceber que havia uma leve esperana de continuar a ser fornecedor do Centro, mas depois pus-me a pensar, a pensar, e vi que no  fcil, que  at impossvel, satisfazer ao mesmo tempo as duas obrigaes, isto , retirar a loua e fazer os bonecos, sim, bem sei que ainda no disse que os encomendar, mas, na suposio de que o venha a fazer, ocorreu-me, por mero esprito previsor, propor-lhe uma alternativa que seria deixar-me livre a primeira semana para poder avanar no fabrico dos bonecos, retirar metade da loua na segunda semana, voltar aos bonecos na terceira e rematar o transporte da loua na quarta, bem sei, bem sei, no preciso que mo diga, no estou a fazer de conta de que no h uma outra opo, essa que seria comear pela loua na primeira semana, e depois ir revezando, seguir a sequncia, ora bonecos, ora loua, ora bonecos, mas creio que neste caso particular se deveriam tomar em considerao os factores psicolgicos, toda a gente sabe que o estado de esprito do criador no  o mesmo que o do destruidor, daquele que destrui, se eu pudesse comear pelos bonecos, isto , pela criao, de mais a mais na excelente disposio de nimo em que me encontro, aceitaria com outra coragem a dura tarefa de ter de destruir os frutos do meu prprio trabalho, que  o mesmo que destru-los no ter a quem os vender, e, pior ainda, no achar quem os queira, mesmo dados. Este discurso, que s trs da madrugada parecia ao seu autor conter uma lgica irresistvel, tornou-se-lhe absurdo logo ao primeiro raiar da manh, e definitivamente ridculo  denunciadora luz do sol. Enfim, o que tiver de ser, ser, disse o oleiro ao co Achado, o diabo no h-de estar sempre atrs da porta. Por causa da manifesta diferena de conceitos e da distinta natureza dos vocabulrios de um e outro, no podia o Achado aspirar sequer a uma mera compreenso preliminar do que o dono pretendia comunicar-lhe, e de certo modo ainda bem que assim era, porque, condio indispensvel para passar ao segUinte grau de entendimento, teria de lhe perguntar o que era isso do diabo, figura, entidade ou personagem, como se supe,


ausente do mundo espiritual canino desde o princpio dos tempos, e est-se mesmo a ver que, fazendo-se uma pergunta destas logo ao comeo, a discusso no teria fim. Com o aparecimento de Marta e de Maral, insolitamente risonhos, como se desta vez a noite os tivesse premiado com algo mais do que o costumado desafogo dos desejos acumulados durante os dez dias de separao, Cipriano Algor despediu os ltimos restos de mau humor, e, acto contnuo, por mrito de decursos mentais facilmente delineveis por quem conhecesse a premissa e a concluso, achou-se a pensar na Isaura Estudiosa, nela em pessoa, mas tambm no nome que usa, que no se percebe por que haveremos ns de continuar a chamar-lhe Estudiosa, se esse Estudioso lhe veio do marido, e ele est morto, Na primeira altura, pensou o oleiro, no me esquecerei de lhe perguntar qual  o apelido, o seu prprio, o de origem, o de famlia. Absorto na grave deciso que tinha acabado de tomar, diligncia das mais temerrias no territrio reservado do nome, de facto no  a primeira vez que uma histria de amor, por exemplo, para s falar destas, principia pela fatal curiosidade, Que nome  o seu, perguntou ela, Cipriano Algor no reparou logo que Maral e o co estavam a confraternizar e a jogar como velhos amigos que h muito tempo no se vissem, Era a farda, dizia o genro, e Marta repetia, Era a farda. O oleiro olhou-os com estranheza, como se todas as coisas do mundo tivessem mudado de repente de sentido, seria talvez por haver pensado na vizinha Isaura mais pelo nome que tinha do que pela mulher que era, realmente no  comum, mesmo em pensamentos distrados, trocar-se uma coisa pela outra, salvo se se trata de uma das consequncias de ter vivido muito, se calhar h coisas que s comeamos a perceber quando l chegamos, L chegamos, aonde,  idade. Cipriano Algor afastou-se em direco ao forno, ia murmurando, como uma cantilena sem significado, Marta, Maral, Isaura, Achado, depois por ordem diferente, Maral, Isaura, Achado, Marta, e outra ainda, Isaura, Marta, Achado, Maral, e outra, Achado, Maral, Marta, Isaura, enfim juntou-lhes o seu prprio nome, Cipriano, Cipriano, Cipriano, repetiu-o at perder a conta das vezes, at sentir que uma vertigem o lanava para fora de si mesmo, at deixar de compreender o sentido do que estava a dizer, ento pronunciou a palavra forno, a palavra alpendre, a palavra barro, a palavra amoreira, a palavra eira, a palavra lanterna, a palavra terra, a palavra lenha, a palavra porta, a palavra cama, a palavra cemitrio, a palavra asa, a palavra cntaro, a palavra furgoneta, a palavra gua, a palavra olaria, a palavra erva, a palavra casa, a palavra fogo, a palavra co, a palavra mulher, a palavra homem, a palavra, a palavra, e todas as coisas deste mundo, as nomeadas e as no nomeadas, as conhecidas e as secretas, as visveis e as invisiveis, como um bando de aves que se cansasse de voar e descesse das nuvens, foram pousando pouco a pouco nos seus lugares, preenchendo as ausncias e reordenando os sentidos. Cipriano Algor sentou-se num velho banco de pedra que o av fizera colocar ao lado do forno, apoiou os cotovelos nos joelhos, o queixo nas mos juntas e abertas, no olhava a casa nem a olaria, nem os campos que se estendiam para l da estrada, nem os telhados da aldeia  sua direita, olhava s o cho semeado de minsculos fragmentos de barro cozido, a terra alvacenta e granulosa que por baixo deles aparecia, uma formiga extraviada que erguia nas mandbulas potentes uma pragana com duas vezes o seu tamanho, o recorte de uma pedra de onde a fina cabea de uma lagartixa espreitou, para logo se sumir. No tinha pensamentos nem sensaes, era apenas o maior daqueles pedacinhos de barro, um torrozito seco que uma leve presso de dedos bastaria para esfarelar, uma pragana que se soltara da espiga e era transportada pelo acaso de uma forrniga, uma pedra aonde de vez em quando se acolhia um ser vivo, um escaravelho, ou uma lagartixa, ou uma iluso.
O Achado pareceu surgir do nada, no estava ali e de repente passara a estar, ps bruscamente as patas em cima dos joelhos


do dono, desmanchando-lhe a postura de um contemplador das vanidades do mundo que perde o seu tempo, ou cr ganh-lo, a fazer perguntas s formigas, aos escaravelhos e s lagartixas. Cipriano Algor passou-lhe a mo pela cabea e fez outra pergunta, Que queres, mas o Achado no respondeu, s arfava e abria a boca, como se sorrisse  inanidade da questo. Foi nesta altura que se ouviu a voz de Maral, chamando, Pai, venha, o pequeno-almoo est pronto. Era a primeira vez que o genro fazia tal coisa, algo de anormal devia de estar a suceder na casa e na vida daqueles dois, e ele no conseguia perceber o que fosse, imaginou a filha a dizer, Chama-o tu, ou ento, sucesso ainda mais extraordinrio, Maral antecipando-se, Eu chamo-o, alguma explicao ter de haver para isto. Levantou-se do banco, fez outra festa na cabea do co, e l foram. No reparou Cipriano Algor que a formiga nunca mais tornar a pisar o caminho que a deveria levar ao formigueiro, ainda conserva a pragana valentemente apertada entre as mandbulas, mas a jornada acabou-se-lhe ali, a culpa foi do trangalhadanas do Achado, que no v onde pe os ps.
Enquanto comiam, Maral, como se estivesse a responder a uma pergunta, informou que tinha telefonado aos pais para lhes dizer que um trabalho urgente o impediria de ir almoar com eles, Marta, por sua vez, expressou a opinio de que o transporte da loua no deveria comear a ser feito hoje, Desta maneira passaramos o dia juntos,  de supor que em duas semanas a diferena de um dia no ser de uma gravidade por a alm, Cipriano Algor observou que tambm j o havia pensado, principalmente por causa do chefe do departamento, que poder telefonar a qualquer hora, E  preciso que eu c esteja para o atender. Marta e Maral entreolharam-se duvidosos, e ele disse com cautela, Se eu me encontrasse no seu lugar e sabendo como o Centro funciona, no estaria to confiante, Lembra-te de que foi ele prprio quem admitiu a possibilidade de me dar a resposta hoje, Ainda assim, podiam ter sido apenas palavras da boca para fora, das que se dizem sem lhes dar demasiada importncia, No se trata de estar confiante ou no, quando o poder de decidir est nas mos doutras pessoas, quando mov-las num sentido ou noutro no depende de ns, a nica coisa que resta  aguardar. No tiveram de esperar muito tempo, o telefone tocou quando Marta levantava a mesa. Cipriano Algor precipitou-se, agarrou o auscultador com uma mo que tremia, disse, Olaria Algor, do outro lado algum, secretria ou telefonista perguntou,  o senhor Cipriano Algor, Eu prprio, Um momento, vou lig-lo ao senhor chefe do departamento, durante um arrastadssimo minuto o oleiro teve de escutar a msica de violinos que preenchia com manaca insistncia estas esperas, ia olhando a filha, mas era como se no a visse, o genro, mas era como se ali no estivesse, de sbito a msica cessou, a ligao tinha sido feita, Bons dias, senhor Algor, disse o chefe do departamento de compras, Bons dias, senhor, agora mesmo dizia eu  minha filha e ao meu genro,  o seu dia de folga, que o senhor chefe de departamento, havendo prometido, no deixaria de telefonar hoje, Das promessas cumpridas convm falar muito para fazer esquecer as outras vezes que no se cumpriram, Sim senhor, Estive a estudar a sua proposta, considerei os diversos factores, tanto os positivos como os negativos, Desculpe que o interrompa, creio ter ouvido falar de factores negativos, No negativos no sentido rigoroso do termo, direi antes factores que, sendo em princpio neutros, podero vir a representar uma influncia negativa, Tenho certa dificuldade em entender, se no se importa que lhe diga, Estou a referir-me ao facto de a sua olaria no ter qualquer experincia conhecida no fabrico dos produtos que proPe,  verdade, senhor, mas tanto a minha filha como eu sabemos modelar e, posso diz-lo sem vaidade, modelamos bem, e se  certo que nunca nos dedicmos industrialmente a esse trabalho foi porque a olaria se orientou para a fabricao de loua desde o princpio, Compreendo, mas nestas condies


no era fcil defender a proposta, Quer dizer, se me autoriza a pergunta e a interpretao, que a defendeu, Defendi, sim, E a deciso, A deciso tomada foi positiva para uma primeira fase, Ah, muito obrigado, senhor, mas tenho de lhe pedir que me explique isso da primeira fase, Significa que iremos fazer uma encomenda experimental de duzentas figuras de cada modelo e que a possibilidade de novas encomendas depender obviamente do modo como os clientes receberem o produto, No sei como lhe poderei agradecer, Para o Centro, senhor Algor, o melhor agradecimento est na satisfao dos nossos clientes, se eles esto satisfeitos, isto , se compram e continuam a comprar, ns tambm o estaremos, veja o que sucedeu com a sua loua, deixaram de se interessar por ela, e, como o produto, ao contrrio do que tem sucedido em algumas ocasies, no valia o trabalho e a despesa de os convencer de que estavam em erro, demos por terminada a nossa relao comercial,  muito simples, como v, Sim senhor,  muito simples, oxal estes bonecos de agora no venham a ter a mesma sorte, T-la-o mais tarde ou mais cedo, como tudo na vida, o que deixou de ter serventia deita-se fora, Incluindo as pessoas, Exactamente, incluindo as pessoas, eu prprio serei atirado fora quando j no servir, O senhor  um chefe, Sou um chefe, de facto, mas s para aqueles que esto abaixo de mim, acima h outros juzes, O Centro no  um tribunal, Engana-se,  um tribunal, e no conheo outro mais implacvel, Na verdade, senhor, no sei por que gasta o seu precioso tempo a falar destes assuntos com um oleiro sem importncia, Observo-lhe que est a repetir palavras que ouviu de mim ontem, Creio recordar que sim, mais ou menos, A razo  que h coisas que s podem ser ditas para baixo, E eu estou em baixo, No fui eu quem l o ps, mas est, Ao menos ainda tenho essa utilidade, mas se a sua carreira progredir, como certamente suceder, muitos mais iro ficar abaixo de si, Se tal acontecer, o senhor Cipriano Algor, para mim, tornar-se- invisvel, Como o senhor disse h pouco,  assim a vida,  assim a vida, mas por enquanto ainda sou eu quem lhe vai assinar a encomenda, Senhor, tenho mais uma questo a submeter ao seu critrio, Que questo  essa, Refiro-me  retirada da loua, Isso j est decidido, dei-lhe um prazo de quinze dias,  que entretanto tive uma ideia, Que ideia, Como o nosso interesse, o nosso e o do Centro, est em despachar a encomenda o mais rapidamente possvel, ajudaria muito se pudssemos alternar, Alternar, Quero dizer, uma semana para tirar de l a loua, outra para trabalhar nas estatuetas, e assim sucessivamente, Mas isso significaria que levaria um ms a limpar-me o armazm, em vez de quinze dias, Sim, no entanto ganharamos tempo para o adiantamento do trabalho, Disse uma semana loua, outra estatuetas, Sim senhor, Faamo-lo ento doutra maneira, a primeira semana ser para as estatuetas, a seguinte ser para loua, no fundo  uma questo de psicologia aplicada, construir sempre foi mais estimulante do que destruir, No me atrevia a pedir-lhe tanto, senhor,  muita bondade a sua, Eu no sou bom, sou prtico, cortou o chefe do departamento de compras, Talvez a bondade seja tambm uma questo de prtica, murmurou Cipriano Algor, Repita, no percebi bem o que disse, No faa caso, senhor, no era importante, Seja como for, repita, Disse que talvez a bondade seja tambm uma questo de prtica,  uma opinio de oleiro, Sim senhor, mas nem todos os oleiros a teriam, Os oleiros esto a acabar, senhor Algor, Opinies destas tambm. O chefe do departamento no respondeu logo, estaria a pensar se valeria a pena continuar a divertir-se com esta espcie de jogo do gato e do rato, mas a sua posio no mapa orgnico do Centro lembrou-lhe que as configuraes hierrquicas se definem e se mantm por e para serem escrupulosamente respeitadas, e nunca ultrapassadas ou pervertidas, sem esquecer que tratar os inferiores ou subalternos com excessiva confiana sempre acabou por minar o respeito e resultar em licena, ou, querendo usar palavras mais explcitas, sem ambiguidade, insubor-


dinao, indisciplina e anarquia. Marta, que desde h alguns momentos porfiava por atrair a ateno do pai sem o conseguir, to absorvido ele estava na disputa verbal, escrevinhara velozmente num papel duas perguntas em grandes letras e agora punha-lhas diante do nariz, Quais, Quantos. Ao l-las, Cipriano Algor levou a mo desocupada  cabea, a sua distraco no tinha desculpa, muita conversa para a conversa, muito argumentar e contra-argumentar, e do que realmente lhe interessava saber s conhecia uma parte, e mesmo assim porque o chefe do departamento de compras lho havia dito, isto , que seriam em nmero de duzentas de cada as estatuetas a encomendar.
O silncio no durou tanto quanto provavelmente estar a parecer, mas h que tornar a recordar que em um instante de silncio, mesmo que mais breve ainda do que este, muitas coisas podem acontecer, e quando, como no caso presente,  necessrio enumer-las, descrev-las, explic-las para que se chegue a compreender algo que valha a pena do sentido que tenham cada uma por si e todas juntas, logo aparece algum a contrariar que  impossvel, que no cabe o mundo no buraco de uma agulha, quando o certo  que coube nele o universo, e muito mais l caberia, por exemplo, dois universos. Porm, usando um tom circunspecto, para que o despertar do drago dorminte no seja demasiado brusco,  j tempo de que Cipriano Algor murmure, Senhor, tempo tambm de que o chefe do departamento de compras ponha ponto final e remate a uma conversao de que amanh, pelas razes expostas acima, talvez venha a arrepender-se e queira dar por no acontecida, Bom, estamos entendidos, podem comear o trabalho, a requisio segue hoje mesmo, e, finalmente, tempo de que Cipriano Algor diga que falta ainda resolver um pormenor, E que pormenor  esse, Quais so eles, senhor, Quais so eles, qu, falou de um pormenor, no de vrios, A quais vai encomendar, dos seis bonecos,  isso que me falta saber, Todos, respondeu o chefe do departamento de compras, Todos, repetiu estupefacto Cipriano Algor, mas o outro j no o ouvia, tinha desligado. Aturdido, o oleiro olhou para a filha, depois para o genro, Nunca esperei, ouvi o que ouvi e nao acredito, ele disse que vai encomendar duzentos de todos, Dos seis, perguntou Marta, Acho que sim, foi mesmo o que ele disse, todos. Marta correu para o pai e abraou-se a ele com fora, sem uma palavra. Maral tambm se aproximou do sogro, As coisas, s vezes, correm mal, mas depois vem um dia que s traz notcias boas. EstiVesse Cipriano Algor apenas um nadinha mais interessado no que se dizia, no o distrasse a alegria do trabalho agora garantido, e certamente no deixaria de querer saber de que outra ou outras boas notcias tinha sido este dia portador. Alis, o pacto de silncio ainda h poucas horas combinado entre os prometidos pais quase se rompeu ali, disso se deu conta Marta ao mover os lbios como para dizer, Pai, parece-me que estou grvida, porm conseguiu reter as palavras. No o perceberam Maral, firme no compromisso assumido, nem Cipriano, inocente de qualquer suspeita. Na verdade, uma tal revelao s poderia ser obra de quem, ademais de saber ler nos lbios, habilidade relativamente comum, fosse tambm capaz de prever o que eles vo pronunciar quando a boca ainda apenas comeou a entreabrir-se. To raro  este mgico dom como aquele outro, noutro lugar falado, de ver o interior dos corpos atravs do saco de pele que os envolve. No obstante a sedutora profundidade de ambos os temas, propcia s mais suculentas reflexes, temos de abandon-los imediatamente para dar ateno ao que Marta acabou de dizer, Pai, faa as contas, seis vezes duzentos d mil e duzentos, vamos ter de entregar mil e duzentos bonecos,  muito trabalho para duas pessoas e pouqussiimo tempo para o fazer. O exagero do nmero empalideceu a outra boa notcia do dia, a probabilidade de um filho de Maral e Marta, tida por certa, perdeu de sbito fora, voltou a ser a simples possibilidade de todos os dias, o efeito ocasional ou intencional de se terem retinido sexualmente, pelas vias


a que chamamos naturais e sem precaues, um homem e uma mulher. Disse o guarda interno Maral Gacho, meio srio, meio jocoso, Prevejo que a partir de agora desaparecerei na paisagem, espero que no se esqueam de que existo, ao menos, Nunca exististe tanto, respondeu Marta, e Cipriano Algor deixou por um momento de pensar nos mil e duzentos bonecos para perguntar a si mesmo que quereria ela dizer.
Afinal os que vivem no Centro tambm morrem, disse Cipriano Algor ao entrar em casa com o co atrs depois de ter ido levar o genro s suas obrigaes, Suponho que ningum alguma vez ter imaginado o contrrio, respondeu Marta, todos sabemos que eles tm l dentro o seu prprio cemitrio, O cemitrio no se v da rua, mas o fumo, sim, Qual fumo, O do crematrio, No Centro no h crematrio, No havia, mas agora h, Quem lho disse, O Maral, quando entrmos na avenida vi fumo a sair do telhado, era uma coisa de que se andava a falar e saiu certa, diz o Maral que comeavam a ter problemas de espao, Eu, o que estranho  o fumo, quase apostaria que a tecnologia actual o tinha eliminado, Estariam a fazer experincias, a queimar outras coisas, talvez trapos fora de moda, como os nossos pratos, Deixe de pensar nos pratos, temos muito trabalho  espera ,Vim o mais depressa que pude, foi s deixar o Maral  porta e voltar, respondeu Cipriano Algor. Omitia o pequeno desvio que lhe havia permitido passar diante da casa de Isaura Estudiosa e no se apercebia de que as suas palavras soavam a justificao improvisada, ou ento via que o eram e no conseguira evit-lo.  certo que lhe havia faltado a coragem para parar a furgoneta e ir bater  porta da viva de Joaquim Estudioso, mas essa no foi a nica razo por que, para usar uma expresso forte, se acobardou, o que ele temeu sobretudo foi o ridculo de encontrar-se diante da mulher sem saber que dizer-lhe e, em desespero de causa,


acabar por lhe perguntar pelo cntaro. Uma importante dvida ficar sem esclarecimento para todo o sempre, isto , se Cipriano Algor, no caso de ter podido falar dois minutos que fosse com Isaura Estudiosa, ainda assim teria entrado em casa a falar de mortos, fumos e crematrios, ou se, pelo contrrio, o prazer de uma amena conversao entreportas teria feito acudir ao seu esprito algum tema mais aprazvel, como o regresso das andorinhas ou a abundncia de flores que j se observa nos campos. Marta disps sobre a mesa da cozinha os seis desenhos da ltima fase preparatria, por ordem de escolha, o bobo, o palhao, a enfermeira, o esquim, o mandarim, o assrio de barbas, em tudo semelhantes queles que foram levados ao julgamento do chefe do departamento de compras, uma ou outra diferena de pormenor, ligeirssimas, no bastam para consider-los verses diferentes das mesmas propostas. Marta puxou uma cadeira para que o pai se sentasse, mas ele deixou-se ficar de p. Apoiava as mos no tampo da mesa, olhava as figuras uma aps outra, finalmente disse,  pena que no tenhamos tambm as vistas de perfil, Para qu, Dar-nos-iam uma noo mais precisa de como os devemos fabricar, A minha ideia, lembra-se, foi model-los nus e depois vestilos, No creio que seja uma boa soluo, Porqu, Ests a esquecer-te de que so mil e duzentos, Sim, bem sei, so mil e duzentos, Modelar mil e duzentas estatuetas nuas e logo vesti-las uma por uma, seria fazer e tornar a fazer, representaria o dobro do trabalho, Tem razo, fui estpida em no o ter pensado, Se vamos a isso, fui to estpido como tu, julgmos que o Centro no escolheria mais do que trs ou quatro bonecos, e tambm no nos passou pela cabea que a primeira encomenda viesse a ser to avultada, Portanto, s temos uma maneira, disse Marta, Exactamente, Modelar os seis bonecos que serviro para os moldes, coz-los, fazer as cofragens, decidir se vamos trabalhar com barbotina de enchimento ou com cama de barro, Para a barbotina no me parece que tenhamos experincia suficiente, saber teoricamente como se faz no basta, aqui sempre trabalhmos a dedo, disse Cipriano Algor, Seja ento a dedo, Quanto s cofragens, encarregam-se a a um carpinteiro, Mas primeiro h que desenhar os perfis, disse Marta, e tambm os dorsos, claro est, Vais ter de inventar, No ser complicado, apenas algumas linhas simples que guiem o essencial da modelao. Eram dois generais pacficos estudando o mapa das operaes, elaborando a estratgia e a tctica, calculando os custos, avaliando os sacrifcios. Os inimigos a abater so estes seis bonecos, meio srios meio grotescos, feitos de papel pintado, haver que for-los  rendio pelas armas do barro e da gua, da madeira e do gesso, das tintas e do fogo, e tambm pelo afago incansvel das mos, que no s para amar se necessitam elas e ele. Foi ento que Cipriano Algor disse, Uma coisa h a que deveremos dar ateno, que o molde leve apenas dois tacelos, um s a mais que fosse complicar-nos-ia o trabalho, Creio que dois sero suficientes, estes bonecos so simples, frente e costas, e j est, nem quero imaginar as dificuldades se tivssemos de atrever-nos com o alabardeiro ou o esgrimista, com o cavador ou o flautista, ou o lanceiro a cavalo, ou o mosqueteiro de chapu de plumas, disse Marta, Ou o esqueleto de asas e gadanha, ou a santssima trindade, disse Cipriano Algor, Tinha asas, A qual dos dois te referes, Ao esqueleto, Tinha, ainda que no perceba eu por que diabo a representaram alada se ela j est em toda a parte, at mesmo no Centro, como esta manh se viu, Suponho que  do seu tempo, notou Marta, o dito de que quem fala do barco quer embarcar, Esse no  do meu tempo,  do tempo do teu bisav, que nunca viu o mar, se o neto fala tanto de barco  para no se esquecer de que no quer fazer viagem nele, Trguas, senhor pai, No vejo a bandeira branca, Aqui a tem, disse Marta, e deu-lhe um beijo. Cipriano Algor juntou os desenhos, o plano da batalha estava traado, no faltava mais do que tocar o cornetim e dar a ordem de assalto, Avante, mos  obra, mas


no ltimo instante viu que estava a faltar um cravo na ferradura do cavalo do estado-maior, ora, a sorte da guerra talvez viesse a depender desse cavalo, dessa ferradura e desse cravo,  sabido que um cavalo coxo no leva recados, ou, se os leva, arrisca-se a deix-los pelo caminho. H ainda outra questo, e espero que seja a ltima, disse Cipriano Algor, De que foi que se lembrou agora, Dos moldes, J falmos dos moldes, Falmos das madres dos moldes, s das madres, e essas so para guardar, do que se trata  dos moldes de uso, no se pode pensar em moldar duzentos bonecos com um s molde, no aguentaria por muito tempo, principiaramos com um palhao desbarbado e acabaramos com uma enfermeira barbuda. Marta desviara os olhos ao ouvir as primeiras palavras, sentia que o sangue lhe estava a subir  cara e que nada podia fazer para o obrigar a regressar  espessura protectora das veias e das artrias, l onde a vergonha e o pudor se disfaram de naturalidade e de singeleza, a culpa tinha-a aquela palavra, madre, e as outras que dela nascem, me, maternidade, materno, maternal, a culpa tinha-a o seu silncio, Por enquanto no falaremos disto ao meu pai, dissera, e agora no podia ficar calada,  certo que um atraso de dois dias, ou trs, se quisermos contar j este,  nada para a maioria das mulheres, mas ela sempre tinha sido exacta, matemtica, regularssima, um pndulo biolgico, por assim dizer, se houvesse a mais mnima dvida no seu esprito no o teria comunicado logo a Maral, e agora que fazer, o pai est  espera duma resposta, o pai est a olh-la com ar de estranheza, nem sequer tinha sorrido  graa dele sobre a enfermeira barbuda, simplesmente no o ouvira, Por que ests a corar, impossvel responder-lhe que no  verdade, que no est a corar, daqui a pouco, sim, poderia diz-lo, porque subitamente ir empalidecer, contra este sangue denunciador e as suas maneiras opostas de acusar no h outro valimento que uma confisso completa, Pai, acho que estou grvida, disse, e baixou os olhos. As sobrancelhas de Cipriano Algor ergueram-se de golpe, a expresso do rosto passou-lhe da estranheza a uma perplexidade surpreendida,  confuso, depois pareceu que procurava as palavras mais apropriadas  circunstncia, mas no encontrou seno estas, Por que mo dizes agora, por que mo dizes assim, claro que ela no responder Lembrei-me de repente, para fingimentos j basta, Foi porque o pai disse a palavra madre, Eu disse realmente essa palavra, Sim, quando falou dos moldes, Tens razo, j me lembro. O dilogo deslizava rapidamente para o absurdo, para o cmico, Marta sentia uma vontade louca de rir, mas de sbito saltaram-lhe as lgrimas, as cores regressaram-lhe ao rosto, no  invulgar que abalos to opostos, to contrrios como estes tenham modos parecidos de manifestar-se, Creio que sim, pai, creio que estou grvida, Ainda no tens a certeza, Sim, tenho a certeza, Por que dizes ento que crs, Sei l, perturbao, nervosismo,  a primeira vez que sucede, O Maral j sabe, Disse-lho quando chegou, Por isso vocs estavam to diferentes do costume ontem de manh, Que ideia, foi impresso sua, estvamos como sempre, Se cuidas que a tua me e eu ficmos como sempre no teu dia, Claro que no, desculpe. A interrogao que Marta via aproximar-se desde o princpio da conversa acabou por chegar, E por que no mo tinhas dito j, Preocupaes, tem-nas o pai, e de sobra, Vs-me com cara de preocupado, agora que j sei, perguntou Cipriano Algor, Tambm no parece muito contente, observou Marta, tentando desviar o curso da fatalidade, Estou contente por dentro, muito contente mesmo, mas decerto no esperas que me ponha a danar, no  o meu estilo, Magoei-o, Magoaste, sim, se eu no tivesse usado aquela palavra madre, por quanto tempo ainda continuaria a ignorar que a minha filha est grvida, por quanto tempo olharia para ti sem saber que, Pai, por favor, Provavelmente at que se notasse, at que comeasses a enjoar, ento seria eu quem teria de te perguntar ests-doente-andas-com-a-barriga-inchada, e tu responderias que- disparate-pai-estou - grvida- no-lhe- disse-


-por-esquecimento, Pai, por favor, repetiu Marta j a chorar, hoje no devia ser um dia de lgrimas, Tens razo, estou a ser egosta, No  isso, Estou a ser egosta, mas por muito que me esforce no consigo entender por que no mo disseste, falaste de preocupaes, as minhas preocupaes so iguaizinhas s tuas, a olaria, as louas, os bonecos, o futuro, quem partilha uma coisa tambm partilha a outra. Marta passou rapidamente os dedos pelas faces molhadas, Havia uma razo, mas foi uma infantilidade minha, imaginar sentimentos que o mais provvel  no existirem, e se existem no tenho que meter-me aonde no sou chamada, Que histria  essa, que ests a querer dizer, perguntou Cipriano Algor, mas o tom da sua voz tinha-se alterado, a aluso a uns indefinidos sentimentos de cuja existncia ora se duvida, ora se acredita, perturbara-o, Falo da Isaura Estudiosa, avanou Marta como se estivesse a empurrar-se a si mesma para um banho de gua fria, Qu, exclamou o pai, Pensei que se est interessado nela, como s vezes me quer parecer, vir dizer-lhe a si que est para ter um neto poderia, compreendo que  um escrpulo absurdo, mas no pude evitar, Poderia, qu, No sei, fazer-lhe lembrar, talvez faz-lo parecer mal aos seus prprios olhos, Isto , imbecil e ridculo, Essas palavras so suas, no minhas, Por outros termos, o vivo velhadas que andava por a a dar ar  pluma, a deitar olhinhos ternos a uma mulher viva como ele, mas das novas, e de repente aparece a filha do velhadas a dar-lhe a notcia de que vai ser av, que  como quem diz deixa-te disso o teu tempo j no d para mais, limita-te a passear o netinho e a levantar as mos ao cu por teres vivido tanto, Oh pai, Ser muito difcil convenceres-me de que no havia qualquer coisa de muito parecido por trs da deciso de calares o que me deverias ter contado logo, Pelo menos, no tive m inteno, S faltaria que a tivesses, Peo desculpa, murmurou Marta sucumbida, e o choro regressou irreprimvel. O pai passou-lhe devagar a mo pelos cabelos, disse, Deixa l, o tempo  um mestre-de-cerimnias que sempre acaba por nos pr no lugar que nos compete, vamos avanando, parando e recuando s ordens dele, o nosso erro  imaginar que podemos trocar-lhe as voltas. Marta agarrou a mo que j se retirava, beijou-a, apertando-a com fora contra os lbios, Desculpe, desculpe, repetia. Cipriano Algor quis consol-la, mas as palavras que lhe saram, Deixa l, no fundo nada tem importncia, no foram com certeza as mais adequadas ao propsito. Saiu para a eira confundido pelo inevitvel pensamento de que tinha sido injusto com a filha, e, mais ainda, consciente de que acabara de dizer de si mesmo apenas o que at hoje se tinha recusado a admitir, que o seu tempo de homem j chegara ao fim, que durante estes dias a mulher chamada Isaura Estudiosa no havia sido seno uma fantasia da sua cabea, um engano voluntariamente aceite, uma ltima inveno do esprito para consolo da triste carne, um efeito abusivo da desmaiada luz crepuscular, um sopro efmero que passou e no deixou rasto, a gota minscula de chuva que veio e em breve secou. O co Achado apercebeu-se de que outra vez o dono no estava na melhor das mars, ainda ontem, quando o tinha ido buscar ao forno, lhe estranhara a expresso ausente de quem considera agradvel pensar em coisas que custam a entender. Tocou-lhe na mo com o nariz frio e hmido, na verdade algum j deveria ter ensinado este animal primitivo a levantar a pata dianteira como acabam sempre por fazer com naturalidade os ces instrudos em preceitos sociais, alis, no se conhece outra maneira de evitar que a amada mo do amo fuja bruscamente ao contacto, prova, afinal, de que nem tudo se encontra resolvido na relao entre as pessoas humanas e as pessoas caninas, talvez que aquela humidez e aquela frialdade despertem velhos medos na parte mais arcaica do nosso crebro, a viscosidade inapagvel de alguma lesma gigante, o glido e onduloso perpassar de uma serpente, o bafo glacial de uma gruta povoada por seres de outro mundo. Tanto assim  que Cipriano Algor retirou realmente a mo, embora


o facto de ter afagado logo a seguir a cabea do Achado, sendo obviamente um pedido de desculpa, deva ser interpretado como sinal de que talvez um dia deixe de reagir assim, supondo, claro est, que o tempo de vida em comum de ambos venha a ser to dilatado que possa generear em hbito o que por enquanto ainda se manifesta como instintiva repulso. O co Achado est impedido de compreender estes melindres, o uso que faz do nariz  coisa natural, que lhe veio da natureza, portanto mais saudavelmente autntica do que os apertos de mo humanos, por muito cordiais que nos paream  vista e ao tacto.
O que o co Achado quer saber  aonde ir o dono quando se determinar a sair da imobilidade meio absorta em que o v. Para o fazer perceber que est  espera de uma deciso, repete o toque do nariz, e como Cipriano Algor, logo a seguir, comeou a andar em direco ao forno, o esprito animal, que, por muito que se proteste,  o mais lgico de quantos espritos se encontram no mundo, levou Achado a concluir que na vida dos humanos uma vez no basta. Enquanto Cipriano Algor se sentava pesadamente no banco de pedra, o co dedicou-se a farejar o calhau grosso debaixo do qual a sardanisca tinha aparecido, mas as transparentes preocupaes do dono tiveram mais poder no seu nimo do que a seduo duma duvidosa caada, por isso no tardou muito a ir deitar-se ao comprido na frente dele, preparado para uma interessante conversao. A primeira palavra que o oleiro pronunciou, Acabou-se, precisa e lacnica como uma sentena sem considerandos, no parecia anunciar desenvolues ulteriores, porm, em,casos destes, o mais produtivo para um co sempre foi manter-se em silncio por todo o tempo necessrio at que o silncio dos donos se canse, os ces sabem perfeitamente que a natureza humana  tagarela por definio, imprudente, indiscreta, chocalheira, incapaz de fechar a boca e deix-la ficar fechada. Na verdade, nunca lograremos imaginar a profundidade abissal que pode alcanar a introspeco de um animal destes quando se pe a olhar parans, cuidamos que ele est a fazer simplesmente isso, a olhar, e no nos apercebemos de que s parece estar a olhar-nos, quando o certo certo  que nos viu e depois de nos ter visto se foi embora, deixou-nos a esbracejar como idiotas  superfcie de ns prprios, a salpicar de explicaes falaciosas e inteis o mundo. O silncio do co e aquele famoso silncio do universo a que em outra ocasio se fez teolgica referncia, parecendo de comparao impossvel por to desproporcionadas serem as dimenses materiais e objectivas de um e do outro, so, afinal de contas, iguaizinhos em densidade e peso especfico a duas lgrimas, a diferena s est na dor que as fez brotar, deslizar e cair. Acabou-se, tornou Cipriano Algor a dizer, e o Achado nem sequer pestanejou, demasiado bem sabia ele que o que tinha acabado no era o fornecimento de pratos ao Centro, isso j passou  histria, o caso agora mete saias, e no podem ser seno as daquela Isaura Estudiosa que ele tinha visto de dentro da furgoneta quando o dono lhe foi levar o cntaro, mulher bonita tanto de cara como de figura, embora deva observar-se que esta opinio no a formulou o Achado, isso de feio e bonito so coisas que no existem para ele, os cnones de beleza so ideias humanas, Mesmo que fosses o mais feio dos homens, diria o co Achado do seu dono se falasse, a tua fealdade no teria nenhum sentido para mim, s te estranharia realmente se passasses a ter outro cheiro ou passasses doutra maneira a mo pela minha cabea. O inconveniente das divagaes est na facilidade com que podem distrair por caminhos desviados o divagante, fazendo-o perder o fio das palavras e dos acontecimentos, como acaba de suceder ao Achado, que apanhou a frase seguinte de Cipriano Algor quando ela j ia em meio, essa  a razo, como se vai notar, de lhe faltar a maiscula, no a procurarei mais, rematara o oleiro, claro est que no se referia  dita maiscula, uma vez que no as usa quando fala, mas  mulher chamada Isaura Estudiosa, com quem, a partir deste momento, renunciou a ter trato de


qualquer espcie, Andava a proceder como um mido tonto, a partir de agora no a procurarei mais, esta foi a frase completa, mas o co Achado, embora sem se atrever a duvidar do pouco que tinha ouvido, no pde deixar de notar que a melancolia da cara do dono contrariava abertamente a determinao das palavras, porm ns sabemos que a deciso de Cipriano Algor  firme, Cipriano Algor no procurar mais Isaura Estudiosa, Cipriano Algor est agradecido  filha por lhe ter feito ver a luz da razo, Cipriano Algor  um homem feito, refeito e ainda no desfeito, no um desses adolescentes patetas que, l porque esto na idade dos entusiasmos irreflectidos, passam o tempo a correr atrs de fantasias, nvoas e imaginaes, e delas no desistem nem mesmo quando do com a cabea e os sentimentos que julgavam ter no muro dos impossveis. Cipriano Algor levantou-se do banco de pedra, parecia que lhe custava a iar o seu prprio corpo de l, nem  para admirar, que no  o mesmo o peso do que o homem sente e o que a mecanica da balana registaria, umas vezes para mais, outras vezes para menos. Cipriano Algor vai entrar em casa, mas, ao contrrio do que ficou anunciado antes, no agradecer  filha ter-lhe feito ver a luz da razo, no se pode pedir tanto a um homem que acabou de renunciar a um sonho, ainda que de to pouco alcance como era este, uma simples vizinha viva, dir sim que vai encomendar as cofragens ao carpinteiro, no que seja o mais urgente do que h para fazer, mas sempre se ganhar algum tempo, que em matria de prazos nunca os carpinteiros e os alfaiates foram de fiar, pelo menos era assim no mundo antigo, com o pronto-a-vestir e o faa-voc-mesmo o mundo mudou muito. Ainda est zangado comigo, perguntou Marta, No me zanguei, foi s uma pequena decepo, mas no vamos ficar a falar deste assunto para o resto da vida, tu e o Maral vo ter um filho, eu vou ter um neto, e tudo ser pelo melhor, cada coisa no seu lugar, j era hora de se acabarem as fantasias, quando eu voltar sentamo-nos a planear o trabalho, teremos de aproveitar o mais possvel esta semana, na que vem estarei ocupado com o transporte da loua, pelo menos uma boa parte do dia, Leve a furgoneta, disse Marta, escusa de se cansar, No vale a pena, a carpintaria no  longe. Cipriano Algor chamou o co, Vamos, bicho, e o Achado foi atrs dele, Pode ser que a encontre, pensava. Os ces so assim, quando lhes d para tal pensam por conta dos donos.


As sentidas razes de queixa de Cipriano Algor contra a impiedosa poltica comercial do Centro, extensamente apresentadas neste relato de um ponto de vista de confessada simpatia de classe que, no entanto, assim o cremos, em nenhum momento se afastou da mais rigorosa iseno de juzo, no podero fazer esquecer, ainda que arriscando um espevitar inoportuno da adormecida fogueira das conflituosas relaes histricas entre o capital e o trabalho, no podero fazer esquecer, dizamos, que o dito Cipriano Algor carrega com algumas culpas prprias em tudo isto, a primeira das quais, ingnua, inocente, mas, como  inocncia e  ingenuidade tantas vezes tem sucedido, raiz maligna das outras, foi pensar que certos gostos e necessidades dos contemporneos do av fundador, em matria de produtos cermicos, se iriam manter inalterveis per omnia saecula saeculorum ou, pelo menos, durante toda a sua vida, o que vem a dar no mesmo, se bem repararmos. J se tinha visto como o barro  amassado aqui da mais artesanal das maneiras, j se tinha visto como so rsticos e quase primitivos estes tornos, j se tinha visto como o forno l fora conserva traos de inadmissvel antiguidade numa poca moderna, a qual, no obstante os escandalosos defeitos e intolerncias que a caracterizam, teve a benevolncia de admitir at agora a existncia de uma olaria como esta quando existe um Centro como aquele. Cipriano Algor queixa-se, queixa-se, mas no parece compreender que os barros amassados j no


 assim que se armazenam, que s indstrias cermicas bsicas de hoje pouco falta para se converterem em laboratrios com empregados de bata branca tomando notas e robs imaculados cometendo o trabalho. Aqui fazem clamorosa falta, por exemplo, higrmetros que meam a humidade ambiente e dispositivos electrnicos competentes que a mantenham constante, corrigindo-a de cada vez que se exceda ou minge, no se pode mais trabalhar a olho nem a palmo, por apalpao ou farejando, segundo os atrasados procedimentos tecnolgicos de Cipriano Algor, que acaba de comunicar  filha com o ar mais natural do mundo, A pasta est boa, hmida e plstica no ponto, fcil de trabalhar, ora, perguntamos ns, como poder ele estar to seguro do que diz se s lhe ps a palma da mo em cima, se s apertou e moveu um pouco de pasta entre o dedo polegar e os dedos indicador e mdio, como se, de olhos fechados, todo entregue ao sentido interrogador do tacto, estivesse a apreciar, no uma mistura homognea de argila vermelha, caulino, slica e gua, mas o urdume e a trama de uma seda.
O mais provvel, como em um destes ltimos dias tivemos ocasio de observar e propor  considerao,  saberem-no os seus dedos, e no ele. Em todo o caso, o veredicto de Cipriano Algor deve de estar de acordo com a realidade fsica do barro, uma vez que Marta, muito mais nova, muito mais moderna, muito mais deste tempo, e que, como sabemos, tambm no tem nada de peca nestas artes, passou sem objeco a outro assunto, perguntando ao pai, Acha que a quantidade ser suficiente para os mil e duzentos bonecos, Acho que sim, mas tratarei de refor-la. Passaram  parte da olaria onde se guardavam as tintas e outros materiais de acabamento, registaram as existncias, anotaram as faltas, Vamos precisar de mais cores do que estas que temos, disse Marta, os bonecos tm de ser atractivos  vista, E  preciso gesso para os moldes, e sabo cermico, e petrleo para as pinturas, acrescentou Cipriano Algor, trazer, de uma vez tudo o que falte, para no termos de interromper o trabalho e ir a correr fazer compras. Marta tomara de sbito um ar pensativo. Que se passa, perguntou o pai, Temos um problema muito srio, Qual, Havamos decidido que se faria o enchimento das cofragens a dedo, Exactamente, Mas no falmos do fabrico das figuras propriamente ditas, ser impossvel fazer nill e duzentos bonecos a dedo, nem os moldes aguentariam, nem o trabalho renderia, seria o mesmo que querer esvaziar o mar com um balde, Tens razo, O que significa que vamos ser obrigados a recorrer ao enchimento de barbotina, No temos grande experincia, mas ainda estamos em idade de aprender,
O problema pior no  esse, pai, Ento, Lembro-me de ter lido, devemos ter por a o livro, que para fazer barbotina de enchimento no  conveniente usar uma pasta de cozedura vermelha que tenha caulino, e a nossa tem-no, pelo menos trinta por cento, Esta cabea j no serve para muito, como foi que eu no pensei nisso, No se acuse sozinho, ns no costumamos trabalhar com barbotina, Pois sim, mas so conhecimentos do jardim-de-infncia da olaria,  o b-a-b do ofcio. Olharam um para o outro desconcertados, no eram nem pai nem filha, nem futuro av nem futura me, apenas dois oleiros em risco perante a tarefa desmedida de terem de extrair do barro amassado o caulino e depois diminuir-lhe a gordura introduzindo-lhe barro magro de cozedura vermelha. Tanto mais que tal operao de alquimia, simplesmente, no  possvel. Que fazemos, perguntou Marta, vamos ver o livro, talvez que, No merece a pena, no se pode tirar o caulino do barro nem neutraliz-lo, isto que estou a dizer no tem qualquer sentido, como se tiraria ou neutralizaria o caulino, pergunto eu, a nica soluo vai ser preparar outro barro com os componentes certos, No h tempo, pai, Sim, tens razo, no h tempo. Saram da olaria, duas figuras desalentadas de quem o Achado no tentou sequer aproximar-se, e agora estavam sentados na cozinha, olhavam os desenhos que os olhavam a eles, e no viam como se poder'ia resolver o bico-de-obra, sab'iam por experincia que os barros


gordos tendem a encolher demasiado, fendem-se, deformam-se, so plsticos em excesso, brandos, moles, mas desconheciam que resultado podia isso dar na barbotina e sobretudo que consequncias negativas teria depois no trabalho acabado. Marta procurou e encontrou o livro, l vinha que para preparar a barbotina no  suficiente dissolver o barro na gua, h que usar desfloculantes, como sejam o silicato de sdio, ou o carbonato de sdio, ou o silicato de potssio, tambm a soda custica se no fosse to perigoso lidar com ela, a cermica  a arte onde verdadeiramente  impossvel separar a qumica dos seus efeitos fsicos e dinmicos, mas o que o livro no informa  o que vai acontecer aos meus bonecos se os fabricar com o nico barro que tenho, e no haver mais remdio, o outro problema  a quantidade, se fossem poucos enchiam-se os moldes a dedo, mas mil e duzentos, minha nossa senhora. Se bem entendo, disse Cipriano Algor, os requisitos principais a que deve obedecer a barbotina de enchimento so a densidade e a fluidez,  o que aqui vem explicado, disse Marta, L l, ento, Sobre a densidade, a ideal  um vrgula sete, por outras palavras, um litro de barbotina deve pesar mil e setecentos gramas,  falta de um densmetro adequado, se quiser conhecer a densidade da sua barbotina, use uma proveta e uma balana, descontando, naturalmente, o peso da proveta, E quanto  fluidez, Para medir a fluidez usa-se um viscosmetro, h-os de vrios tipos, cada um deles dando leituras assentes em escalas fundamentadas em diferentes critrios, No ajuda muito, esse livro, Ajuda, sim, d ateno, Dou, Um dos de uso mais frequente  o viscosmetro de toro cuja leitura se faz em graus Gallenkamp, Quem  esse senhor, Aqui no consta, Continua, Segundo esta escala, a fluidez ideal situa-se entre os duzentos e' sessenta e os trezentos e sessenta graus, No encontras por a nada ao alcance da minha compreenso, perguntou Cipriano Algor, Vem agora, disse Marta, e leu, No nosso caso usaremos um mtodo artesanal, emprico e impreciso, mas capaz de, com a prtica, dar uma indicao aproximada, Que mtodo  esse, Mergulhar a mo profundamente na barbotina e retir-la, deixando a barbotina escorrer pela mo aberta, a fluidez ser tida como boa quando, ao escorrer, formar entre os dedos uma membrana como a dos patos, Como a dos patos, Sim, como a dos patos. Marta ps o livro de lado e disse, No adiantmos muito, Adiantmos alguma coisa, ficmos a saber que no poderemos trabalhar sem desfloculante e que enquanto no tivermos membranas de pato no teremos barbotina de enchimento que sirva, Ainda bem que est de bom humor, O humor  como as mars, ora sobe ora desce, o meu subiu agora, veremos quanto tempo durar, Tem de durar, esta casa est nas suas mos, A casa, sim, mas no a vida, To depressa j vai descendo a mar, perguntou Marta, Neste momento hesita, duvida, no sabe bem se h-de encher ou vazar, Ento deixe-se ficar comigo, que me sinto a flutuar, como se no tivesse a certeza de ser o que julgo ser, s vezes penso que talvez fosse prefervel no sabermos quem somos, disse Cipriano Algor, Como o Achado, Sim, imagino que um co sabe menos de si prprio do que do dono que tem, nem sequer  capaz de reconhecer-se num espelho, Talvez o espelho do co seja o dono, talvez s nele lhe seja possvel reconhecer-se, sugeriu Marta, Bonita ideia, Como v, at as ideias erradas podem ser bonitas, Criaremos ces se o negcio da olaria falir, No Centro no h ces, Coitado do Centro, que nem os ces o querem,  o Centro que no quer os ces, Esse problema s poder interessar a quem l viver, cortou Cipriano Algor com voz crispada. Marta no respondeu, percebia que qualquer palavra que dissesse poderia servir de p para uma nova discusso. Pensou enquanto ia reordenando uma vez mais os cansados desenhos, Se amanh Maral chega a casa e diz que j  guarda residente, que temos de nos mudar, o que estamos a fazer aqui deixa de ter sentido, tanto far que o pai nos acompanhe como no, de uma maneira ou de outra a olaria estar sempre con


denada, mesmo que ele insistisse em ficar no poderia trabalhar sozinho, ele prprio o sabe. Que pensamentos tenham sido entretanto os de Cipriano Algor, ignora-se, e tambm no val a pena estar a inventar-lhe uns que poderiam no coincidir com os reais e efectivos, porm, na suposio de que a palavra afinal, no tenha sido dada ao homem para esconder o que pensa, algo de muito aproximado nos ser lcito concluir do que o oleiro disse, depois de um demorado silncio, O mau n  ter uma iluso, o mau  iludir-se, provavelmente tinha estado a pensar o mesmo que a filha e a concluso de um teria de ser, pela fora da lgica, a concluso do outro. De qualquer modo, acrescentou Cipriano Algor, sem se dar conta, ou talvez sim, talvez no prprio momento em que as disse se apercebesse dos matizes sibilinos daquelas trs palavras iniciais, de qualquer modo barco parado no faz viagem, suceda amanh o que suceder h que trabalhar hoje, quem planta uma rvore tambm no sabe se vir a enforcar-se nela, Com uma mar negra dessas  que o nosso bote no sai mesmo, disse Marta mas tem razo, o tempo no est a sentado  espera, temos de pr-nos ao trabalho, a minha tarefa, para j, a primeira,  desenhar os laterais e os dorsos das figuras e dar-lhes a cor, conto acab-las antes da noite se ningum me vier distrair, No esperamos visitas, disse Cipriano Algor, eu encarrego-me do almoo,  s aquecer,  suficiente que faa uma salada, disse Marta. Foi buscar as folhas de papel de desenho, as aguarelas os gods, os pincis, um pano velho para sec-los, disps tudo em boa ordem, metodicamente, sobre a mesa, sentou-se e puxou para si o assrio de barbas, Comeo por este, disse, Simplifica o mais que puderes para no haver encravamentos nem ancoragens na altura do desmolde, dois tacelos e basta, um terceiro tacelo j estaria fora do nosso alcance, No me esquecerei. Cipriano Algor ficou alguns minutos a ver a filha desenhar, depois saiu para a olaria. Ia medir-se com o barro, levantar, os pesos e os alteres de um reaprender novo, refazer a mo entorpecida, modelar umas quantas figuras de ensaio que no sejam, declaradamente, nem bobos nem palhaos, nem esquims nem enfermeiras, nem assrios nem mandarins, figuras de que qualquer pessoa, homem ou mulher, jovem ou velha, olhando-as, pudesse dizer, Parecem-se comigo. E talvez que uma dessas pessoas, mulher ou homem, velha ou jovem, pelo gosto e talvez a vaidade de levar para casa uma representao to fiel da imagem que de si prpria tem, venha  olaria e pergunte a Cipriano Algor quanto custa aquela figura de alm, e Cipriano Algor dir que essa no est para venda, e a pessoa perguntar porqu, e ele responder, Porque sou eu. Caa a tarde, no tardaria o lusco-fusco, quando Marta entrou na olaria e disse, J terminei, deixei-os a secar na mesa da cozinha. Logo, tendo reparado no trabalho executado pelo pai, duas figuras inacabadas de quase dois palmos de altura, erectas, masculina uma, feminina outra, nuas ambas, do ombro de uma delas saa uma ponta de arame, comentou, Nada mal, meu pai, nada mal, mas a nossa bonecagem no vai precisar de ser to grande, lembra-se de que tnhamos pensado em um palmo dos seus, Convir que sejam um pouco maiores do que isso, daro mais nas vistas nas prateleiras do Centro, e tambm h que contar com a reduo do tamanho dentro do forno em consequncia da perda da ltima humidade, por enquanto so s experincias, Mesmo assim gosto delas, gosto muito, e no se parecem a nada que eu tenha visto, em todo o caso a mulher lembra-me algum, Em que ficamos, perguntou Cipriano Algor, dizes que no se parecem a nada que tenhas visto e acrescentas que a mulher te lembra algum,  uma impresso dupla, de estranheza e de familiaridade, Talvez no tenha de criar ces, talvez me dedique  escultura, que  arte das mais lucrativas, segundo ouo dizer, Uma exemplar famlia de artistas, notou Marta com um sorriso de meia ironia, Felizmente, salva-se o Maral para que no venha a perder-se tudo, respondeu Cipriano Algor, mas no sorriu.


Este foi o primeiro dia da criao. No segundo dia o oleiro viajou  cidade para comprar o gesso cermico destinado aos moldes, mais o carbonato de sdio, que foi o que encontrou como desfloculante, as tintas, uns quantos baldes de plstico, teques novos de madeira e de arame, esptulas, vazadores. A questo das tintas havia sido objecto de vivo debate durante e depois do jantar do dito primeiro dia, e o ponto controverso foi se as peas deveriam ser levadas ao forno depois de pintadas, ou se, pelo contrrio, eram pintadas depois de cozidas e ao forno no voltavam mais. Num caso, as tintas tenham de ser umas, no outro, as tintas teriam de ser outras, portanto: a deciso tinha de ser tomada imediatamente, no podia ficar para a ltima hora, j de pincel na mo,  uma questo de esttica, defendia Marta,  uma questo de tempo, opunha Cipriano Algor, e de segurana, Pintar e levar ao forno dar mais qualidade e brilho  execuo, insistia ela, Mas se pintarmos a frio evitaremos surpresas desagradveis, a cor que usarmos,  a que permanecer, no estaremos dependentes da aco do calor sobre os pigmentos, tanto mais que o forno s vezes  caprichoso. Prevaleceu a opinio de Cipriano Algor, as tintas a comprar iriam ser, portanto, as que se conhecem no mercado da especialidade pelo nome de esmalte para louas, de aplicao fcil e secagem rpida, com uma grande variedade de coloridos, e quanto ao diluente, indispensvel porque a espessura original da tinta , normalmente, excessiva, se no se quiser usar um diluente sinttico, serve mesmo o petrleo de iluminao, ou de candeeiro. Marta voltou a abrir o livro da arte, procurou o captulo sobre a pintura a frio e leu, Aplica -se sobre Peas J cozidas, a pea ser lixada com lixa fina, de modo a eliminar qualquer rebarba ou outro defeito de acabamento, tornando a sua superfcie mais uniforme e permitindo uma melhor adeso de tinta nas zonas em que a pea tenha ficado excessivamente cozida, Lixar mil e duzentos bonecos vai ser o cabo dos trabalhos, Terminada esta operao, continuou Marta a ler, h que eliminar todos os vestgios do p produzido pela lixagem, usando um compressor, No temos compressor, interrompeu Cipriano Algor, Ou, embora mais moroso, mas prefervel, uma trincha de plo duro, Os velhos processos ainda tm as suas vantagens, Nem sempre, corrigiu Marta, e prosseguiu, Como sucede com quase todas as tintas do gnero, o esmalte para louas no se mantm homogneo dentro da lata por muito tempo, por isso h que mex-lo bem antes da aplicao, Isso  elementar, toda a gente sabe, passa adiante, As cores podero ser aplicadas directamente sobre a pea, mas a sua aderncia melhorar se se comear por aplicar uma subcapa, normalmente de branco fosco, No tnhamos pensado nisso,  difcil pensar quando no se sabe, Discordo, pensa-se precisamente porque no se sabe, Deixe essa apaixonante questo para outra altura, e oua-me, No fao outra coisa, A base de subcapa pode ser dada a pincel, mas poder haver vantagem em aplic-la  pistola a fim de se conseguir uma camada mais lisa, No temos pistola, Ou por meio de mergulho, Essa  a maneira clssica, de toda a vida, portanto mergulharemos, Todo o processo se desenrolar a frio, Muito bem, Uma vez pintada e seca, a pea no deve nem pode ser sujeita a qualquer tipo de cozedura, Era o que eu te dizia, o tempo que se poupa, Ainda traz outras recomendaes, mas a mais importante  de que se deve deixar secar bem uma cor antes de aplicar a seguinte, salvo se se desejarem efeitos de sobreposio e mistura, No queremos efeitos nem transparncias, queremos rapidez, isto no  pintura a leo, Em todo o caso, a cabaia do mandarim mereceria um tratamento mais cuidado, lembrou Marta, repare que o prprio desenho obriga a maior diversidade e riqueza de cores, Simplificaremos. Esta palavra fechou o debate, mas esteve presente no esprito de Cipriano Algor enquanto fazia as suas compras, a prova  que adquiriu  ltima hora uma pistola de pintar. Dado o tamanho das figuras, a subcapa no ganharia nada em ser grossa, explicou depois  filha,


penso que a pistola prestar melhor servio, um borrifo ao redor do boneco, e j est, Precisaremos de mscaras, disse Marta,' As mscaras so caras, no temos dinheiro para luxos, No  luxo,  precauo, vamos respirar no meio de uma nuvem de tinta, A dificuldade tem remdio, Qual, Farei essa parte do trabalho l fora, ao ar livre, o tempo est seguro, Por que diz farei, e no faremos, perguntou Marta, Tu ests grvida, eu no, que se saiba, Voltou-lhe o bom humor, senhor pai, Fao o que posso, percebo que h coisas que esto a fugir-me das mos e outras que ameaam faz-lo, o meu problema  distinguir entre aquelas por que ainda vale a pena lutar e aquelas que devem ser deixadas ir sem pena, Ou com pena, A pena pior, minha filha, no  a que se sente no momento,  a que se vai sentir depois, quando j no houver remdio, Diz-se que o tempo tudo cura, No vivemos bastante para lhe tirar a prova, disse Cipriano Algor, e no mesmo instante deu por que estava a trabalhar no torno sobre o qual a mulher se derrubara quando o ataque cardaco a fulminou. Ento, obrigado a isso pela sua honestidade moral, perguntou-se se nas penas gerais de que falara tambm estaria includa esta morte, ou se era certo que o tempo fizera neste particular caso, o seu trabalho de curador emrito, ou, ainda, se a pena invocada no era afinal de morte, mas de vida, mas de vidas, a tua, a minha, a nossa, de quem. Cipriano Algor modelava a enfermeira, Marta estava ocupada com o palhao, mas nem um nem outro se sentiam satisfeitos com as tentativas, estas depois de outras, talvez porque copiar seja, afinal de contas, mais difcil do que criar livremente, pelo menos poderia diz-lo assim Cipriano Algor, que com tanta veemncia e soltura de gesto havia concebido as duas figuras de homem e mulher que ali esto, envolvidas em panos molhados para que no se lhes resseque e grete o esprito que as mantm de p, estticas e contudo vivas. A Marta e a Cipriano Algor no se lhes acabar to cedo este esforo, parte do barro com que modelam agora uma figura provm de outras que tiveram de desprezar e amassar, assm  com todas as coisas deste mundo, as prprias palavras, que no so coisas, que s as desgnam o melhor que podem, e designando as modelam, mesmo se exemplarmente serviram, supondo que tal pde suceder em alguma ocasio, so milhes de vezes usadas e atiradas fora outras tantas, e depois ns, humildes, de rabo entre as pernas, como o co Achado quando a vergonha o encolhe, temos de ir busc-las novamente, barro pisado que tambm elas so, amassado e mastigado, deglutido e restitudo, o eterno retorno existe mesmo, sim senhor, mas no  esse,  este. O palhao modelado por Marta talvez se aproveite, o bobo tambm se aproxima bastante da realidade dos bobos, mas a enfermeira, que parecia to simples, to estrita, to regulamentar, resiste a deixar aparecer o volume dos seios por debaixo do barro, como se tambm ela estivesse envolvida num pano molhado de que segurasse com firmeza as pontas. Quando a primeira semana de criao estiver a ponto de terminar, quando Cipriano Algor passar  primeira semana de destruio, acarretando as louas do armazm do Centro e largando-as por a como lixos sem serventia,  que os dedos dos dois oleiros, ao mesmo tempo livres e disciplinados, comearo finalmente a inventar e a traar o caminho recto que os levar ao volume certo,  linha justa, ao plano harmonioso. Os momentos no chegam nunca tarde nem cedo, cheGam  hora deles, no  nossa, no temos de agradecer-lhes as coincidncias, quando ocorram, entre o que tinham para propor e o que ns necessitvamos. Durante a metade do dia em que o pai andar no absurdo trabalho de descarregar por intil o que carregou por escusado, Marta estar s na olaria com a sua meia dzia de bonecos praticamente terminados, ocupada agora em avivar algum ngulo esbatido e em bolear alguma curva que um toque involuntrio tivesse deprimido, igualando alturas, consolidando bases, calculando para cada uma das estatuetas a linha ptima de diviso dos respectivos tacelos. As cofragens ainda no foram entregues pelo carpinteiro, o


gesso espera dentro dos seus grandes sacos de papel grosso impermevel, mas o tempo da multiplicao j se aproxima.
Quando Cipriano Algor regressou a casa no primeiro dia da semana de destruio, mais indignado pelo vexame do que exausto pelo esforo, tinha para contar  filha a aventura ridcula de um homem a calcorrear os campos  procura de um lugar ermo onde pudesse largar a cacaria intil que transportava, como se dos seus prprios excrementos se tratasse, De calas na mo, dizia, foi assim que me senti, por duas vezes me apareceram pessoas a perguntar o que  que eu estava a fazer ali, em terreno privado, com uma furgoneta a abarrotar de loua, tive de engrolar umas explicaes sem jeito, disse que precisava de apanhar uma estrada mais alm e tinha pensado que o caminho para l chegar era por ali, que desculpasse, por favor, e j agora, se lhe agradar alguma coisa do que levo na furgoneta, terei todo o gosto em lho oferecer, um deles no quis nada, respondeu com mau modo que na sua casa coisas daquelas nem para os animais, mas o outro achou graa a uma terrina e levou-a, E onde  que acabou por ir deixar as louas, Perto do rio, Onde, Tinha pensado que uma cova natural seria o mais adequado, mas mesmo assim sempre havia o inconveniente de ficarem  vista de quem passasse, s escncaras, reconheceriam logo o produto e o fabricante, e para nossa vergonha e vexame j basta o que basta, Pessoalmente no me sinto nem vexada nem envergonhada, Talvez sentisses se tivesses estado no meu lugar desde o princpio,  provvel, sim, e que foi ento que encontrou, Precisamente a cova ideal, H covas ideais, perguntou Marta, Depende sempre do que se quiser meter l dentro, imagina neste caso um buraco grande, mais ou menos circular, de uns trs metros de profundidade e para o qual se desce em rampa fcil, com rvores e arbustos dentro, olhando de fora  como uma ilha verde no meio do campo, de inverno enche-se de gua, ainda tem um charco no fundo, Est a uns cem metros da margem do rio, disse Marta, Tambm a conheces, perguntou o pai, Conheo-a, descobri-a quando tinha dez anos, era realmente a cova ideal, de cada vez que ali entrava parecia-me que atravessava uma porta para outro mundo, J l estava quando eu tinha a tua idade, E quando a devia ter o meu av, E quando a tinha o meu, Tudo acaba por se perder, pai, durante tantos anos aquela cova foi s uma cova, uma porta mgica tambm para alguns midos sonhadores, e agora, com o entulhamento da loua, nem uma coisa nem a outra, Os cacos no so assim tantos, mulher, em pouco tempo cobri-los-o as silvas, nem se vai dar por isso, Deixou ento l tudo, Deixei, Ao menos ficam perto da povoao, qualquer dia um dos garotos daqui, se  que ainda so frequentadores da cova ideal, aparece em casa com um prato rachado, perguntam-lhe onde foi que o encontrou, e vai ver que toda a gente ir logo a correr buscar o que agora no quer, Somos feitos assim, no me admiraria. Cipriano Algor acabou a chvena de caf que a filha lhe tinha posto diante ao chegar e perguntou, Deu sinal de vida o carpinteiro, No, Tenho de l ir apertar com ele, Creio que sim, que  o melhor. O oleiro levantou-se, Vou-me lavar, disse, deu dois passos, e logo parou, Que  isto, perguntou, Isto, qu, Isto, apontava um prato coberto por um guardanapo bordado,  um bolo, Fizeste um bolo, No o fiz eu, trouxeram-no, foi um presente, De quem, Adivinhe, No estou de humor para adivinhas, Olhe que esta  das fceis. Cipriano Algor encolheu os ombros como para mostrar que se desinteressava do assunto, disse outra vez que se ia lavar, mas no se resolveu, no deu o passo que o faria sair da cozinha, na sua cabea travara-se um debate entre dois oleiros, um que argumentava que  nossa obrigao comportar-nos com naturalidade em todas as circunstncias da vida, que se algum foi amvel ao ponto de nos trazer a casa um bolo coberto por um guardanapo bordado, o prprio e normal  perguntar a quem se deveu a inesperada generosidade, e, se em resposta nos propem que adivinhemos, mais do que suspeito


ser fingir que no ouvimos, estes pequenos jogos de familia e de sociedade no tm importncia de maior, ningum se vai pr a tirar concluses precipitadas do facto de termos acertado, sobretudo porque as pessoas que crem ter motivos para-nos contemplarem com um bolo nunca podero ser muitas, s vezes uma s, isto era o que dizia um dos oleiros, mas o outro respondia que no estava disposto a desempenhar o papel de cmplice em falsas adivinhaes de circo, que ter a certeza de conhecer o nome da pessoa que havia trazido o bolo era precisamente a razo por que no o diria, e tambm que, pelo menos em alguns casos, o pior das concluses no  tanto serem ocasionalmente precipitadas, mas serem, simplesmente concluses. Ento, no quer adivinhar, insistiu Marta, sorrindo, e Cipriano Algor, ligeiramente enfadado com a filha e muito consigo mesmo, mas consciente de que a nica maneira de escapar do buraco onde se metera por seu prprio p seria reconhecer o fracasso e voltar para trs, disse, sacudidamente, e envolvendo-o em palavras, um nome, Foi a viva, a vizinh a Isaura Estudiosa, para agradecer o cntaro. Marta negou co um movimento lento da cabea, No se chama Isaura Estudiosa, corrigiu, o nome dela  Isaura Madruga, Ah, bom, fez Cipriano Algor, e pensou que j no precisaria de perguntar  interessada Afinal como  o seu nome de solteira, mas imediatamente recordou a si mesmo que, sentado no banco de pedra ao lado do forno e tendo o co Achado por testemunha, havia tomado a deciso de dar por rritos e nulos todos os ditos feitos expressados e acontecidos entre si e a viva Estudiosa, no esqueamos que a palavra pronunciada foi exactamente, Acabou-se, no se remata de modo to peremptrio um episdio da vida sentimental para dois dias depois dar o dito por no dito. O efeito imediato destas reflexes foi tomar Cipriano Algor um ar desprendido e superior, e com tal convico, que, sem que a mo lhe tremesse, pde ir levantar o guardanapo, Tem bom aspecto, disse. Foi neste momento que Marta entendeu por bem acrescentar, De certa maneira  uma lembrana de despedida. A mo baixou devagar, deixou cair delicadamente o guardanapo sobre o bolo em forma de coroa circular, Despedida, ouviu Marta perguntar, e respondeu, Sim, no caso de no conseguir trabalho aqui, Trabalho, Est a repetir as minhas palavras, pai, No sou nenhum eco, no estou a repetir as tuas palavras. Marta no fez caso da resposta, Tommos um caf, eu queria encetar o bolo mas ela no permitiu, esteve c mais de uma hora, conversmos, contou-me um pouco da vida, a histria do seu casamento, no houve tempo para saber se aquilo era felicidade ou se estava a deixar de o ser, as palavras foram dela, no minhas, enfim, se no arranjar trabalho volta para o stio donde veio e onde tem familia, Aqui no h trabalho para ningum, disse Cipriano Algor secamente,  tambm o que ela cr, por isso o bolo  como a primeira metade de uma despedida, Espero no estar em casa na altura da segunda, Porqu, perguntou Marta. Cipriano Algor no respondeu. Saiu da cozinha para o quarto, despiu-se rapidamente, lanou um relance de olhos ao que o espelho da cmoda lhe mostrava do seu corpo e meteu-se no duche. Um pouco de gua salgada misturou-se  agua doce que caa do chuveiro.


Com aprecivel e tranquilizadora unanimidade sobre o significado da palavra, os dicionrios definem como ridculo tudo quanto se mostre digno de riso e zombaria, tudo o que merea escrnio, tudo o que seja irrisrio, tudo o que se preste ao cmico. Para os dicionrios, a circunstncia parece no existir, se bem que, obrigatoriamente chamados a explicar em que consiste, lhe chamem estado ou particularidade que acompanha um facto, o que, entre parntesis, claramente nos aconselha a no separar dos factos as suas circunstncias e a no os julgar a eles sem as ponderar a elas. Seja no entanto ridculo em modo supino este Cipriano Algor que se extenua a descer a pendente da cova carregando nos braos as indesejadas louas em vez de simplesmente as lanar l de cima ao acaso, reduzindo-as in continenti a cacos, que foi como depreciativamente as classificou quando descreveu  filha os trmites e episdios da traumtica operao de transbordo. No h, porm, limites para o ridculo. Se algum dia, como Marta imaginou, um garoto da povoao resgatar do entulho e levar para casa um prato rachado, poderemos ter a certeza de que a inconveniente mazela j vinha do armazm, ou ento, por causa do inevitvel entrechocar dos barros, provocado pelas irregularidades da estrada, teria sucedido durante o transporte desde o Centro at  cova. Basta ver com que cuidados desce Cipriano Algor de cada vez o declive, com que ateno descansa no solo as diferentes peas de loua, como as arruma irms com irms, como as encaixa


quando tal  possvel e aconselhvel, bastar ver a irrisria cena que aos nossos olhos se oferece para ficarrnos habilitados a afirmar que aqui no se partiu um nico prato, nem nenhuma chvena perdeu a asa, nem nenhum bule ficou sem bico. As louas empilhadas cobrem em filas regulares o recanto de cho escolhido, rodeiam os troncos das rvores, insinuam-se entre a vegetao baixa, como se em algum livro dos grandes estivesse escrito que s desta maneira  que deveriam ficar ordenadas at  consumao do tempo e  improvvel ressurreio dos restos. Dir-se- que o comportamento de Cipriano Algor  ridculo em absoluto, mas ainda neste caso seria bom que no esquecssemos a importncia decisiva do ponto de vista, estamos a referir-nos desta vez a Maral Gacho que, na vinda a casa para o seu dia de repouso, e cumprindo o que  normal entender-se por deveres elementares de solidariedade familiar, no s ajudou o sogro na descarga da loua como tambm, sem dar qualquer mostra de estranheza ou duvidosa perplexidade, sem perguntas directas ou rodeadas, sem olhares irnicos ou compassivos, lhe seguiu tranquilamente o exemplo, chegando ao extremo de por sua prpria iniciativa ajustar um bambeamento periclitante, rectificar um alinhamento defeituoso, reduzir uma altura excessiva.  portanto natural esperar que, no caso de que Marta venha a repetir aquela pejorativa e desafortunada palavra que empregou na conversao com o pai, o seu prprio marido, graas  irrecusvel autoridade de quem com os seus olhos viu o que havia para ver, a corrija, No  entulho. E se ela, a quem vimos conhecendo como algum que de todas as coisas necessita explicao e clareza, insistir que sim senhor, que  entulho, que  esse o nome dado desde sempre aos detritos e materiais inteis que so atirados para dentro das covas a fim de as encher, excludas dessa designao as sobras humanas, que tm outro nome, certamente Maral lhe dir na sua voz sria, No  entulho, eu estive l. Nem ridculo, acrescentaria, se a questo se apresentasse.
Quando entraram em casa havia, cada uma no seu gnero, duas novidades de tomo. O carpinteiro tinha finalmente entregado as cofragens, e Marta lera no seu livro que, em caso de enchimento por via lquida, no  prudente esperar de um molde mais do que quarenta cpias satisfatrias, Quer dizer, disse Cipriano Algor, que iremos precisar de trinta moldes pelo menos, cinco para cada duzentos bonecos, ser muito trabalho antes e muito trabalho depois, e no tenho a certeza de que com a nossa falta de experincia os moldes venham a sair-nos perfeitos, Quando calcula que ter retirado a loua toda do armazm do Centro, perguntou Marta, Creio que no chegarei a precisar da segunda semana inteira, talvez dois ou trs dias sejam suficientes, A segunda semana  esta, corrigiu Maral, Sim, segunda das quatro, mas primeira do transporte, a terceira ser a segunda do fabrico, explicou Marta, Com tanta confuso de semanas que no e de semanas que sim, no admira que tu e o pai andem algo desnorteados, Cada um de ns pelas razes que lhe so prprias, eu, por exemplo, estou grvida e ainda no me habituei por completo  ideia, E o pai, O pai falar por si mesmo, se quiser, No sofro de pior desnorte que ter de fabricar mil e duzentos bonecos de barro e no saber se o irei conseguir, cortou Cipriano Algor. Estavam na olaria, alinhados na bancada os seis bonecos pareciam aquilo que dramaticamente eram, seis objectos insignificantes, mais grotescos uns do que outros pelo que representavam, mas todos iguais na sua lancinante inutilidade. A fim de que o marido pudesse v-los, Marta havia retirado os panos molhados que os envolviam, mas quase se arrependia de o ter feito, era como se aqueles obtusos manipanos no merecessem o trabalho que tinham dado, aquele repetido fazer e desfazer, aquele querer e no poder, aquele experimentar e emendar, no  verdade que s as grandes obras de arte sejam paridas com sofrimento e dvida, tambm um simples corpo e uns simples membros de argila so capazes de resistir a entregar-se aos dedos que os modelam,


aos olhos que os interrogam,  vontade que os requereu. Noutra ocasio pediria que me dessem as frias, poderia ajudar-vos em alguma coisa, disse Maral. Apesar de aparentemente completa na sua formulao, a frase continha prolongamentos problemticos que no precisaram de enunciao para serem percebidos por Cipriano Algor. O que Maral tinha querido dizer, e que, sem o ter dito, acabara por dizer mesmo, era que, estando ele  espera de uma mais ou menos previsvel promoo ao escalo de guarda residente, os seus superiores no ficariam satisfeitos se ele se ausentasse para frias precisamente nesta altura, como se a notcia pblica da sua ascenso na carreira no passasse de um episdio banal, de somenos importncia. Este prolongamento, porm, era bvio e decerto o menos problemtico de quantos outros mais houvesse. A questo essencial, involuntariamente subjacente s palavras ditas por Maral, continuava a ser a preocupao sobre o futuro da olaria, sobre o trabalho que nela se fazia e sobre as pessoas que o executavam e que, melhor ou pior, dele tinham vivido at agora. Aqueles seis bonecos eram como seis irnicos e insistentes pontos de interrogao, cada um deles a querer saber de Cipriano Algor se era to confiante que pensava dispor, e por quanto tempo, caro senhor, das foras necessrias para governar sozinho a olaria quando a filha e o genro fossem viver para o Centro, se era to ingnuo ao ponto de considerar que poderia atender com satisfatria regularidade as encomendas seguintes, no caso providencial de virem a ser feitas, e, enfim, se era suficientemente estpido para imaginar que daqui em diante as suas relaes com o Centro e o chefe do departamento de compras, tanto as comerciais como as pessoais, seriam uma contnua e perene mar de rosas, ou, como com incmoda preciso e amargo cepticismo perguntava o esquim, Crs tu que me vo querer sempre. Foi neste momento que a lembrana de Isaura Madruga passou pela mente de Cipriano Algor, pensou nela a ajud-lo como empregada no trabalho da olaria, a acompanh-lo ao Centro sentada ao seu lado na furgoneta, pensou nela em diversas e cada vez mais ntimas e apaziguadoras situaes, almoando  mesma mesa, conversando no banco de pedra, dando de comer ao co Achado, colhendo os frutos da amoreira-preta, acendendo a lanterna que est por cima da porta, afastando a dobra do lenol da cama, eram sem dvida demasiados pensamentos e demasiado aventurosos para quem nem sequer tinha querido provar do bolo. Claro est que as palavras de Maral no requeriam resposta, no tinham sido mais do que a verificao de um facto a todos evidente, foi a mesma coisa que simplesmente ter dito Gostaria de vos ajudar, mas no  possvel, no entanto Cipriano Algor achou que deveria dar expresso a uma parte dos pensamentos com que havia ocupado o silncio subsequente ao dito de Maral, no dos pensamentos ntimos, que mantm trancados na caixa-forte do seu pattico orgulho de velho, mas aqueles que, de um modo ou outro, so comuns a quantos vivem nesta casa, quer os confessem, quer no, e que podem ser resumidos em pouco mais de meia dzia de palavras, que ser que nos reserva o dia de amanh. Disse ele,  como se estivssemos a caminhar na escurido, o passo seguinte tanto poder ser para avanar como para cair, j comearemos a saber o que nos espera quando a primeira encomenda estiver  venda, a partir da poderemos deitar contas ao tempo que nos iro querer, se muito, se pouco, se nada, ser como estar a desfolhar um malmequer a ver no que d, A vida no  muito diferente disso, observou Marta, Pois no, mas o que tnhamos andado a jogar em anos passou a jogar-se em semanas ou em dias, de repente o futuro tornou-se curto, se no me engano j uma vez disse qualquer coisa parecida com isto. Cipriano Algor fez uma pausa, depois acrescentou com um encolher de ombros, Prova de que  mesmo verdade, Aqui s h dois caminhos, disse Marta, resoluta e impaciente, ou trabalhar como fizemos at agora, sem dar mais voltas  cabea do que as necessrias para o bom acabamento


da obra, ou suspender tudo, informar o Centro de que desistimos da encomenda e ficar  espera,  espera de qu, perguntou Maral, De que te promovam, de que nos mudemos para o Centro, de que o pai decida de uma vez se quer ficar ou ir connosco, o que no podemos  continuar nesta espcie de era no era andava lavrando, que j leva semanas, Por outras palavras, disse Cipriano Algor, nem o pai morre nem a gente come o caldo, Perdoo-lhe o que acaba de dizer, respondeu Marta, porque sei o que se passa dentro da sua cabea, No se zanguem, por favor, pediu Maral, para mau viver j me basta com o que tenho de aguentar na minha prpria familia, Calma, no te preocupes, disse Cipriano Algor, mesmo que aos olhos de qualquer pessoa o pudesse parecer, entre a tua mulher e mim nunca seria uma zanga real, Pois no, mas h ocasies em que me d vontade de lhe bater, ameaou Marta sorrindo, e olhem que a partir de agora ser pior, tenham os dois muito cuidado comigo, segundo me tem constado as mulheres grvidas passam facilmente por mudanas bruscas de humor, tm caprichos, manias, mimos, ataques de choro, rompantes de mau gnio, preparem-se portanto para o que sair daqui, Por mim, estou resignado, disse Maral, e logo para Cipriano Algor, E o pai, Eu j o estava h muitos anos, desde que ela nasceu, Finalmente, todo o poder  mulher, tremei vares, tremei e temei, exclamou Marta. O oleiro no acompanhou desta vez o tom jovial da filha, antes falou srio e sereno como se estivesse a recolher uma a uma palavras que tinham ficado l atrs, no lugar em que haviam sido pensadas e deixadas a madurar, no, essas palavras no foram pensadas, nem tinham de amadurecer, emergiram naquele momento do seu esprito como ra'zes que tivessem subido subitamente  superfcie do cho, O trabalho prosseguir normalmente, disse, satisfarei os nossos compromissos enquanto me for possvel, sem mais queixas nem protestos, e quando o Maral for promovido considerarei a situao, Considerar a situao, perguntou Marta, que quer isso dizer, Vista a impossibilidade de manter a olaria em funcionamento, fecho-a e deixo de ser fornecedor do Centro, Muito bem, e de que  que ir viver depois, onde, como, com quem, picou Marta, Acompanharei a minha filha e o meu genro a viver no Centro, se ainda me quiserem com eles. A imprevista e terminante declarao de Cipriano Algor teve efeitos diferentes na filha e no genro. Maral exclamou, At que enfim, e foi abraar-se com fora ao sogro, No pode imaginar a alegria que me d, disse, era um espinho que eu trazia cravado c dentro. Marta olhara o pai primeiro cepticamente, como quem no estivesse a acreditar no que ouvia, mas aos poucos o rosto foi-se-lhe iluminando de compreenso, era o trabalho prestimoso da memria a trazer-lhe  lembrana certas expresses populares correntes, certos restos de leituras clssicas, certas imagens tpicas,  verdade que no recordou tudo quanto haveria para recordar, por exemplo, queimar os barcos, cortar as pontes, cortar pelo so, cortar a direito, cortar as voltas, cortar o mal pela raiz, perdido por dez perdido por cem, homem perdido no quer conselhos, desistir  vista da meta, esto verdes no prestam, melhor um pssaro na mo que dois a voar, estas e muitas mais, e todas afinal para dizer uma s coisa, O que no quero  o que no posso, o que no posso  o que no quero. Marta aproximou-se do pai, passou-lhe a mo pela face com um afago demorado e terno, quase maternal, Ser melhor assim, se isso  o que realmente deseja, murmurou, no mostrou mais satisfao do que a pouqussima que palavras to pobres, to rasteiras, seriam capazes de comunicar, mas tinha a certeza de que o pai poderia compreender que no havia sido por indiferena que as escolhera, mas por respeito. Cipriano Algor ps as mos nos ombros da filha, depois puxou-a para si, deu-lhe um beijo na testa e, em voz baixa, pronunciou a breve palavra que ela queria ouvir ou ler-lhe nos olhos, Obrigado. Maral no perguntou Obrigado porqu, aprendera h Muito tempo que o territrio onde se moviam aquele pai e


aquela filha, mais do que apenas familiarmente particular, era de algum modo sagrado e inacessvel. No o afectava um sentimento de cime, s a melancolia de quem se sabe definitivamente excludo, porm no deste territrio, que nunca poderia pertencer-lhe, mas de um outro em que, se eles l estivessem ou se alguma vez pudesse l estar com eles, encontraria e reconheceria, enfim, o seu prprio pai e a sua prpria me. Deu por si a pensar, sem demasiada surpresa, que, uma vez que o sogro tinha decidido viver no Centro, a ideia de os pais venderem a casa da povoao e irem morar l seria irremediavelmente posta de parte, por muito que lhes custasse e por muito que protestassem, em primeiro lugar porque  uma norma inflexvel do Centro, determinada e imposta pelas prprias estruturas habitacionais internas, no admitir famlias numerosas, e em segundo lugar porque, no tendo havido nunca uma relao de entendimento entre os membros destas duas, facilmente se imagina o inferno em que se lhes iria tornar a vida se se vissem reunidas num mesmo reduzido espao. Apesar de certas situaes e de certos desabafos que poderiam induzir a uma opinio contrria, Maral no mereceria que o considerssemos como um mau filho, as culpas do desencontro de sentimentos e vontades na sua famlia no so apenas suas, e no entanto, assim uma vez mais se demonstrando at que ponto a alma humana  um poo infectado de contradies, est contente por no ter de morar na mesma casa com aqueles que lhe deram o ser. Agora que Marta j engravidou, oxal o ignoto destino no venha a confirmar nela e nele aquela antiga sentena que severamente reza, Filho s, pai sers, assim como fizeres, assim achars.  bem certo, porm, que, de uma maneira ou outra, por uma espcie de infalvel tropismo, a natureza profunda de filho impele os filhos a procurar pais de substituio sempre que, por bons ou maus motivos, por justas ou injustas razes, no possam, no queiram ou no saibam reconhecer-se nos prprios. Na verdade, apesar de todos os seus defeitos, a vida ama o equilbrio, se fosse s ela a mandar faria que a cor de ouro estivesse permanentemente sobre a cor de azul, que todo o cncavo tivesse o seu convexo, que no acontecesse nenhuma despedida sem chegada, que a palavra, o gesto e o olhar se comportassem como gmeos inseparveis que em todas as circunstncias dissessem o mesmo. Seguindo vias para cuja caracterizao pormenorizada no nos reconhecemos nem aptos nem idneos, mas de cuja existncia e intrnseca virtude comunicativa temos absoluta certeza, tanto como das nossas prprias, foi o conj'unto de observaes que acabam de ser expendidas que fez nascer em Maral Gacho uma ideia, logo transmitida ao sogro com o filial alvoroo que se adivinha,  possvel trazer o que falta da loua de uma s vez, anunciou, Nem sequer sabes quanta l temos, penso que ainda umas poucas de furgonetas, objectou Cipriano Algor, No falo de furgonetas, o que digo  que a loua no ser tanta que uma camioneta vulgar no possa resolver o assunto em uma nica carga, E onde  que iremos descobrir essa preciosa camioneta, perguntou Marta, Alugamo-la, Custa muito dinheiro, no terei que chegue, disse o oleiro, mas a esperana j lhe fazia tremer a voz, Um dia ser bastante para este trabalho, se juntarmos os nossos dinheiros, o nosso e o seu, estou convencido de que conseguiremos, e alm disso, sendo eu guarda interno, talvez me faam um desconto, no perderemos nada em tentar, S um homem a carregar e a descarregar, no sei se serei capaz, mal posso j com os braos e as pernas, No estar sozinho, eu vou consigo, disse Maral, Isso no, podem reconhecer-te, e seria mau para ti, No creio que haja perigo, s fui uma vez ao departamento de compras, se levar culos escuros e uma boina na cabea sou qualquer pessoa, A ideia  boa, muito boa, disse Marta, poderamos atirar-nos j  fabricao dos bonecos, Foi o que eu pensei, disse Maral, Tambm eu, confessou Cipriano Algor. Ficaram a olhar-se, calados, sorridentes, at que o oleiro perguntou, E quando, Amanh mes


mo, respondeu Maral, aproveitamos a minha folga, outra ocasio s daqui a dez dias, para isso no valia a pena, Amanh, repetiu Cipriano Algor, quer dizer que poderamos comear a trabalhar em cheio logo a seguir, Assim , disse Maral, e ganhar quase duas semanas, Deste-me uma alma nova, disse o oleiro, depois perguntou, Como faremos, aqui na povoao no creio que haja camionetas para alugar, Alugamo-la na cidade, sairemos de manh para termos tempo de procurar quem nos faa o melhor preo possvel, Compreendo que assim convenha, disse Marta, mas acho que deverias almoar com os teus pais, a ltima vez no foste l e eles no devem estar nada satisfeitos. Maral crispou-se, No me apetece, e alm disso, voltou-se para o sogro e perguntou, A que horas tem de comparecer no armazm, s quatro, Ora a est, almoar com os meus pais, ir daqui depois para a cidade, o caminho todo at l, alugar a camioneta e estar s quatro a recolher a loua, no d tempo, Dizes-lhes que tens necessidade absoluta de almoar mais cedo, Mesmo assim no vai dar tempo, e a par disso no me apetece, irei na prxima folga, Ao menos telefona  tua me, Telefonarei, mas no te admires se ela tornar a perguntar quando  que nos mudamos. Cipriano Algor deixara a filha e o genro a discutirem a momentosa questo do almoo faniiliar dos Gachos e aproximara-se da bancada onde estavam os seis bonecos. Com extremo cuidado retirou-lhes os panos molhados, observou-os com ateno, um a um, precisavam s de alguns ligeiros retoques nas cabeas e nos rostos, partes do corpo que, sendo as figuras de pequeno tamanho, pouco mais de um palmo de altura, inevitavelmente teriam de ressentir-se da presso dos panos, Marta se encarregar de as pr como novas, depois ficaro destapadas, a descoberto, a fim de perderem a humidade antes de serem metidas no forno. Pelo corpo dorido de Cipriano Algor passou um estremecimento de prazer, sentia-se como se estivesse para principiar o trabalho mais difcil e delicado da sua vida de oleiro, a aventurosa cozedura de uma pea de altssimo valor esttico modelada por um grande artista a quem no importou rebaixar o seu gnio s precrias condies deste lugar humilde, e que no poderia admitir, da pea se fala, mas tambm do artista, as consequncias ruinosas que resultariam da variao de um grau de calor, quer fosse por excesso quer fosse por defeito. Do que realmente aqui se ir tratar, sem grandezas nem dramas,  de levar ao forno e cozer meia dzia de estatuetas insignificantes para que reproduzam, cada uma delas, duzentas suas insignificantes cpias, h quem diga que todos nascemos com o destino traado, mas o que est  vista  que s alguns vieram a este mundo para fazerem do barro ades e evas ou multiplicarem os pes e os peixes. Marta e Maral tinham sado da olaria, ela para tratar do jantar, ele para aprofundar as relaes principiadas com o co Achado, o qual, se bem que ainda renitente a aceitar sem protesto a presena de um uniforme na famlia, parece disposto a assumir uma postura de tcita condescendncia desde que o dito uniforme seja substitudo, logo  chegada, por qualquer vestimenta de corte civil, moderna ou antiga, nova ou velha, limpa ou suja, tanto lhe faz. Cipriano Algor est agora sozinho na olaria. Provou distraidamente a solidez de uma cofragem, mudou de stio, sem necessidade, um saco de gesso, e, como se apenas o acaso, e no a vontade, lhe tivesse guiado os passos, achou-se diante das figuras que havia modelado, o homem, a mulher. Em poucos segundos o homem ficou transformado num amontoado informe de barro. Talvez a mulher tivesse sobrevivido se aos ouvidos de Cipriano Algor no soasse j a pergunta que Marta lhe faria amanh, Porqu, porqu o homem e no a mulher, porqu um e no os dois. O barro da mulher amassou-se sobre o barro do homem, so outra vez um barro s.


O primeiro acto da funo terminou, os adereos de cena foram retirados, os actores descansam do esforo da apoteose. Nos armazns do Centro no resta uma nica pea de loua fabricada pela olaria dos Algores, apenas alguma poeira vermelha esparzida nas prateleiras, nunca ser de mais recordar que a coeso das matrias no  eterna, se o contnuo roce dos invisveis dedos do tempo d fcil conta de mrmores e granitos, que no faria a simples argilas de composio precria e cozedura provavelmente irregular. A Maral Gacho no o reconheceram no departamento de compras, efeito certo da boina e dos culos escuros, mas tambm da cara por barbear, que ele de propsito havia deixado assim para rematar a eficacidade do disfarce protector, uma vez que entre as diversas caractersticas que devem distinguir todo o guarda interno do Centro se inclui um perfeito e acabado escanhoamento. No deixou em todo o caso o subchefe de estranhar a repentina melhoria do veculo transportador, atitude lgica em pessoa que mais do que uma vez se tinha permitido sorrir ironicamente  vista da vetusta furgoneta, mas j foi surpreendente, e esta  na presente circunstncia a mnima denominao possvel, o assomo de irritao mal contida que lhe subiu ao olhar e ao gesto quando Cipriano Algor o informou de que estava ali para levar o resto da loua, Toda, perguntou, Toda, respondeu o oleiro, trouxe uma camioneta e um ajudante. Se a este subchefe de demonstrado mau feitio esperasse futuro bastante no relato


que vimos cursando, certamente um destes dias nos lembraramos de lhe pedir que nos desvelasse o fundo dos seus sentimentos naquela ocasio, isto , a razo ltima de uma contrariedade, a todas as luzes ilgica, que no tinha querido ocultar ou de tal no havia sido capaz.  bem provvel que experimentasse enganar-nos dizendo, por exemplo, que se tinha habituado s visitas dirias de Cipriano Algor e que, embora por respeito  verdade no pudesse jurar que fossem amigos, em todo o caso lhe tinha ganho alguma simpatia, sobretudo por causa da pouco auspiciosa situao profissional em que o pobre diabo se encontrava. Falsidade das mais descaradas, como  evidente, porquanto, se do desvelamento do fundo passssemos  escavao do mais fundo logo nos aperceberamos de que aquilo que a mostra de exasperao do subchefe afinal delatara fora a frustrao de ver que se lhe tinha ido das mos o gozo sobre todos perverso daqueles que degustam as derrotas alheias at mesmo quando no podem tirar nenhum proveito delas. Pretextando que levariam horas a fazer o trabalho e que estavam ali a dificultar as descargas de outros fornecedores, o pssimo homem ainda tentou impedir o carregamento da camioneta, mas Cipriano Algor ps, como eloquentemente se costuma dizer, os ps  parede, perguntou quem se responsabilizaria pela despesa do aluguer do veculo no caso de ter de voltar para trs, exigiu o livro de reclamaes, e, como golpe final e desesperado, protestou que dali no sairia sem falar ao chefe do departamento.  dos manuais elementares de psicologia aplicada, captulo comportamentos, que as pessoas de mau carcter so com muita frequncia cobardes, por isso no dever surpreender-nos que o temor de ser desautorizado em pblico pelo seu superior hierrquico tenha feito mudar de um instante para outro a atitude do subchefe. Deixou sair pela boca fora uma insolncia para disfarar o desaire e retirou-se para o fundo do armazm, de onde s tornou a aparecer quando a camioneta, finalmente carregada, abandonou o subterrneo. Nem prpria nem figuradamente cantaram Cipriano Algor e Maral Gacho vitria, estavam cansados de mais para gastarem o resto do flego em gorjeios e congratulaes, o mais velho s disse, Vai-nos amargar a vida quando trouxermos a outra mercadoria, vai examinar os bonecos  lupa e rejeit-los s dzias, e o mais novo respondeu que talvez sim, mas que no era certo, que o chefe do departamento  que levava o assunto, desta j estamos livres, pai, a outra logo veremos, assim  que a vida deve ser, quando um desanima, o outro agarra-se s prprias tripas e faz delas corao. Tinham deixado a furgoneta arrumada na esquina de uma rua prxima, ainda ali ficar at voltarem de descarregar a ltima loua na cova que est perto do rio, depois iro levar a camioneta  garagem, e, exaustos, mais mortos do que vivos, um por ter perdido nos lisos corredores do Centro o salutar costume do esforo fsico, o outro pelas sobejamente conhecidas desvantagens da idade, chegaro finalmente a casa, quando a tarde j estiver a decair. Descer a receb-los ao caminho o co Achado, tambm ele dando os saltos e os latidos da sua condio, e Marta estar esperando  porta. Ela perguntar, Ento, ficou tudo resolvido, e eles respondero que sim, que tudo ficou resolvido, e logo os trs ho-de pensar, ou ho-de sentir, se h desigualdade e contradio entre o sentir e o pensar, que esta parte que acabou  a mesma que est impaciente por comear, que os primeiros, segundos e terceiros actos, tanto fazendo que sejam os das funes ou os das vidas, so sempre uma pea s.  verdade que alguns adereos foram retirados do palco, mas o barro de que vo ser feitos os adereos novos  o mesmo de ontem, e os actores, amanh, quando acordarem do sono dos bastidores, pousaro o p direito logo adiante de onde tinham deixado a marca do p esquerdo, depois assentaro o esquerdo adiante do direito, e, faam mais o que fizerem, no sairo do caminho. Apesar da fadiga dele, Marta e Maral repetiro, como se tambm esta vez fosse a primeira, os gestos, os movimentos, e os gemidos


e suspiros do amor. E as palavras. Cipriano Algor dormir sem sonhos na sua cama. Amanh de manh, como de costume, levar o genro ao trabalho. Talvez no regresso se lembre de passar pela cova perto do rio, por nenhum motivo especial, nem sequer por curiosidade, sabe perfeitamente o que l foi deixar, mas apesar disso talvez se chegue  borda da depresso, e se o fizer olhar para baixo, ento perguntar a si mesmo se no deveria cortar uns quantos ramos de rvores para cobrir melhor as louas, d a ideia de querer que ningum mais saiba o que aqui est, de querer que fiquem assim, ocultas, resguardadas, at ao dia em que novamente venham a ser precisas, ah que difcil  separarmo-nos daquilo que fizemos, seja coisa ou sonho, mesmo quando por nossas prprias mos j o destrumos.
Vou limpar o forno, disse Cipriano Algor quando chegou a casa. As experincias anteriores do co Achado fizeram-no pensar que o dono se dispunha a sentar-se outra vez no banco das meditaes, ainda andaria o pobre com o esprito turvo de conflitos, a vida a correr-lhe s avessas, nestas ocasies  quando os ces fazem mais falta, quando se vm postar diante de ns com a infalvel pergunta nos olhos, Queres ajuda, e sendo certo que,  primeira vista, no parece estar ao alcance de um animal destes dar remdio aos sofrimentos, angstias e mais aflies humanas, bem poder suceder que a causa esteja no facto de no sermos ns capazes de perceber o que esteja alm ou aqum da nossa humanidade, como se as outras aflies no mundo s pudessem lograr uma realidade apreensvel desde que medveis pelos padres das nossas prprias, ou, para usar palavras mais simples, como se s o humano tivesse existncia. Cipriano Algor no se sentou no banco de pedra, passou-lhe ao lado, depois, tendo movido um aps outro os trs grossos fechos de bronze instalados em alturas diferentes, em cima, ao meio, em baixo, abriu a porta do forno, que rangeu gravemente nos gonzos. Aps os primeiros dias de indagaes sensoriais que contentaram a curiosidade imediata de quem acabara de chegar a um novo lugar, o forno tinha deixado de atrair a ateno do co Achado. Era uma construo velha e bruta de alvenaria, com uma porta alta e estreita, de finalidade desconhecida e onde ningum vivia, uma construo que tinha na parte superior trs coisas como chamins, mas que certamente o no seriam, uma vez que delas nunca se havia desprendido qualquer instigador cheiro de comida. E agora a porta abrira-se sem esperar e o dono tinha entrado l para dentro com tanto  vontade como se tambm aquilo fosse casa sua, como a outra de alm. Deve um co, por cautela e princpio, ladrar a quantas surpresas lhe surjam na vida, porque no poder saber de antemo se as boas viro a tornar-se em ms e se as ms deixaro de ser o que foram, portanto Achado ladrou e ladrou ' primeiro com inquietao quando a figura do dono pareceu desvair-se na ltima penumbra do forno, logo feliz ao v-lo reaparecer inteiro e com a expresso mudada, so os pequenos milagres do amor, querer bem ao que se faz tambm deveria merecer esse nome. Quando Cipriano Algor tornou a entrar no forno, agora de vassoura em punho, Achado no se preocupou, um dono, bem vistas as coisas,  a modos como o sol e a lua, devemos ser pacientes quando desaparece, esperar que o tempo passe, se pouco se muito no o poder dizer um co, que no distingue duraes entre a hora e a semana, entre o ms e o ano, para um animal destes no h mais que presena e ausncia. Durante a limpeza do forno, Achado no fez meno de entrar, apartou-se a um lado para que no lhe casse em cima a chuva dos pequenos fragmentos de barro cozido, dos cacos de louas partidas que a vassoura ia empurrando para fora, e deitou-se ao comprido, com a cabea assente entre as patas. Parecia alheado, quase adormecido, mas at o menos experiente conhecedor de manhas caninas seria capaz de compreender, nada mais que pelo modo dissimulado como de vez em quando o sujeito abria e fechava os olhos, que o co Achado estava simplesmente  espera. Terminada a tarefa de limpeza, Cipriano


Algor saiu do forno e encaminhou-se para a olaria. Enquanto esteve  vista, o co no se mexeu, logo levantou-se devagar, avanou de pescoo esticado at  entrada do forno e olhou. Era uma casa estranha e vazia, de tecto em abbada, sem mveis nem adornos, forrada de paralelippedos esbranquiados, mas o que mais impressionou o nariz do co Achado foi a secura extrema do ar que l dentro se respirava e tambm a picada intensa do nico odor que nele se percebia, o cheiro final de um infinito calcinamento, que no vos surpreenda a flagrante e assumida contradio entre final e infinito, pois no era de sensaes humanas que vnhamos tratando, mas do que humanamente nos foi praticvel imaginar acerca do que um co teria sentido quando entrou pela primeira vez num forno de olaria vazio. Ao contrrio do que, por natureza, seria de esperar, Achado no deixou marcado de urina o novo stio.  verdade que principiou por obedecer ao que o instinto lhe ordenava,  verdade que chegou a alar ameaadoramente a perna, mas venceu-se, conteve-se no ltimo e derradeiro instante, quem sabe se amedrontado pelo silncio mineral que o rodeava, pela rudeza tosca da construo, pelo tom branquicento e fantasmagrico do cho e das paredes, quem sabe se, muito mais simplesmente, apenas por suspeitar que o dono usaria de violncia contra ele se viesse a encontrar conspurcado de um mijo infame o reino, o trono e o dossel do fogo, o cadinho onde a argila de cada vez sonha que se vai tornar em diamante. Com o plo do dorso arripiado, de rabo entre as pernas como se viesse corrido de longe, o co Achado saiu do forno. No viu nenhum dos donos, a casa e o campo estavam como abandonados, e a amoreira-preta, decerto por efeito do ngulo de incidncia do sol, parecia projectar uma sombra estranha, que se alastrava pelo solo como se viesse de uma rvore diferente. Ao contrrio do que em geral se pensa, os ces, por muitos cuidados e mimos de que sejam alvo, no tm a vida fcil, em primeiro lugar porque at hoje ainda no conseguiram chegar a uma compreenso ao menos satisfatria do mundo a que foram trazidos, em segundo lugar porque essa dficuldade  agravada continuamente pelas contradies e pelas instabilidades de conduta dos seres humanos com quem partilham, por assim dizer, a casa, a comida, e s vezes a cama. Desapareceu o dono, no aparece a dona, o co Achado desafoga a melancolia e a reteno da bexiga no banco de pedra que no tem mais utilidade do que a de servir para meditaes. Foi nesse momento que Cipriano Algor e Marta saram da olaria. Achado correu para eles, em momentos como este, sim, tem a impresso de que finalmente vai compreender tudo, mas a impresso no durou, nunca dura, o dono soltou-lhe um grito enorme, Fora daqui, a dona gritou alarmada, Quieto, quem poder alguma vez entender esta gente, o co Achado s daqui a pouco  que reparar que os donos levam umas figuras de barro em equilbrio sobre umas pequenas tbuas, trs cada um e em cada uma, imagine-se o desastre que sucederia se no me tivessem travado a tempo as efuses. Dirigem-se os equilibristas s longas pranchas de secagem que desde h semanas tm estado nuas de pratos, canecas, chvenas, pires, malgas, pcaros, bilhas, cntaros, vasos, e demais adereos de casa e jardim. Estes seis bonecos, que vo ficar a secar  aragem, protegidos pela sombra da amoreira-preta, mas tocados de vez em quando pelo sol que se insinua e move por entre as folhagens, so a guarda avanada de uma nova ocupao,a de centenas de figuras iguais que em batalhes cerrados viro cobrir as compridas pranchas, mil e duzentas figuras, seis vezes duzentas segundo as contas feitas na altura, mas as contas estavam erradas, a alegria da vitria nem sempre  boa conselheira, estes oleiros, apesar de trs geraes de experincia, pareciam ter-se esquecido de que  indispensvel reservar sempre, porque at a tesoura come o pano que corta, uma margem para as perdas, ele  o que cai e se parte, ele  o que se deformou, ele  o que se Contraiu ou para mais ou para menos, ele  o que o calor re


bentou por estar mal fabricada a pea, ele  o que saiu mal cozido por defeituosa circulao do ar quente, e a tudo isto, que tem que ver directamente com as contingncias fsicas de um trabalho em que h muito de arte alqumica, a qual, como sabemos, no  uma cincia exacta, a tudo isto, dizamos, haver que juntar o exame rigoroso a que, como de costume, o Centro ir sujeitar cada um dos bonecos, ainda por cima com aquele subchefe que parece t-la jurada. Cipriano Algor s se lembrou das duas ameaas, a certa e a latente, quando varria o forno,  o que tm de bom as associaes de ideias, umas vo puxando pelas outras, de carreirinha, a habilidade est em no deixar perder o fio  meada, em compreender que um caco no cho no  apenas o seu presente de caco no cho,  tambm o seu passado de quando o no era,  tambm o seu futuro de no saber o que vir a ser.
Conta-se que em tempos antigos houve um deus que decidiu modelar um homem com o barro da terra que antes havia criado, e logo, para que ele tivesse respirao e vida, lhe deu um sopro nas narinas. Alguns espritos contumazes e negativos ensinam  boca pequena, quando no ousam proclam-lo com escndalo, que, depois daquele acto criativo supremo, o tal deus no voltou nunca mais a dedicar-se s artes da olaria, maneira retorcida de denunci-lo por ter, simplesmente, deixado de trabalhar. O assunto, pela transcendncia de que se reveste,  srio de mais para que o tratemos simplistamente, exige ponderao, muita imparcialidade, muito esprito objectivo.  um facto histrico que o trabalho de modelagem, a partir daquele memorvel dia, deixou de ser um atributo exclusivo do criador para passar  incipiente competncia das criaturas, as quais, escusado seria dizer, no esto apetrechadas de suficiente sopro ventilador. O resultado foi ter-se assinado ao fogo a responsabilidade de todas as operaes subsidirias capazes de dar, tanto pela cor como pelo brilho, e at mesmo pelo som, uma razovel semelhana de coisa viva a quanto viesse a sair dos fornos. Era julgar pelas aparncias. O fogo faz muito, isso no h quem o negue, mas no pode fazer tudo, tem srias limitaes, e at mesmo algum grave defeito, como seja, por exemplo, a insacivel bulimia de que padece e que o leva a devorar e reduzir a cinzas tudo quanto encontra pela frente. Voltando porm ao tema que nos ocupa,  olaria e seu funcionamento, todos sabemos que barro hmido metido no forno  barro estoirado em menos tempo do que aquele que levar a contar. Uma primeira e irrevogvel condio estabelece o fogo se quisermos que faa o que dele esperamos, que o barro entre o mais possvel seco no forno. E  aqui que humildes regressamos ao sopro nas narinas,  aqui que teremos de reconhecer a que ponto havamos sido injustos e imprudentes quando perfilhmos e tommos para ns a mpia ideia de que o dito deus teria virado as costas, indiferente  sua prpria obra. Sim,  certo, depois disso ningum mais o tornou a ver, mas deixou-nos o que talvez fosse o melhor de si mesmo, o sopro, a aragem, a virao, a brisa, o zfiro, esses que j esto entrando suavemente pelas narinas dos seis bonecos de barro que Cipriano Algor e a filha acabam de colocar, com todo o cuidado, em cima de uma das pranchas de secagem. Escritor, afinal, alm de oleiro, o dito deus tambm sabe escrever direito por linhas tortas, no estando c ele para soprar pessoalmente, mandou quem fizesse o trabalho por sua conta, e tudo para que a ainda frgil vida destes barros no venha a extinguir-se amanh no cego e brutal abrao do fogo. Dizermos amanh  apenas, porm, uma maneira de falar, porque se  certo que um nico sopro foi suficiente na inaugurao para que o barro do homem ganhasse respirao e vida, muitos iro ser os sopros necessrios para que dos bobos, dos palhaos, dos assrios de barbas, dos mandarins, dos esquims e das enferMeiras, destes que aqui esto e dos que em filas cerradas viro alinhar-se nestas pranchas, se evapore pouco a pouco a gua sem a qual no teriam chegado a ser o que so, e possam entrar


seguros no forno para que se transformem naquilo que vo ter de ser. O co Achado levantara-se nas patas traseiras e apoiara as mos na borda da prancha para ver de mais perto os seis manipanos alinhados na sua frente. Fungou uma vez, duas vezes, e logo se desinteressou deles, mas no a tempo de evitar a palmada seca e dolorosa que o dono lhe disparou  cabea nem a repetio das duras palavras que j ouvira antes, Fora daqui, como poder ele explicar que no ia fazer mal nenhum aos bonecos, que apenas os queria ver melhor e cheirar, que no foi justo teres-me batido por to pouco, parece que no sabes que os ces no se servem s dos olhos da cara para indagar do mundo exterior, o nariz  como um olho complementar, v o que cheira, o que vale  que ela desta vez no gritou Quieto, felizmente sempre se encontra algum capaz de compreender as razes alheias, mesmo as daqueles que, por mudez de natureza ou insuficincia vocabular, no souberam ou no lhes chegou a lngua para explic-las, No era preciso bater-lhe, pai, ele s estava curioso, disse Marta. O mais provvel  que o prprio Cipriano Algor no tenha querido fazer mal ao co, saiu-lhe assim por fora do instinto, cujo, ao contrrio do que geralmente se pensa, os seres humanos ainda no perderam nem esto perto de perder. Convizinha ele paredesmeias com a inteligncia, mas  infinitamente mais rpido do que ela, por isso a pobrezinha fica tantas vezes em pouco e  desconsiderada em tantas ocasies, foi o que sucedeu neste caso, o oleiro reagiu ao medo de ver destrudo o que tanto trabalho lhe tinha dado da mesma maneira que a leoa  ansiedade de ver em perigo a cria. Nem todos os criadores se distraem das suas criaturas, sejam elas cachorros ou bonecos de barro, nem todos se vo embora e deixam no seu lugar a inconstncia de um zfiro que s sopra de vez em quando, como se ns no tivssemos esta necessidade de crescer, de ir ao forno, de saber quem somos. Cipriano Algor chamou o co, Vem c, Achado, vem c, de facto no h quem consiga compreender estes bichos, batem e vo logo acariciar aquele a quem bateram, batem-lhes e vo logo beijar a mo que lhes bateu, se calhar tudo isto no  seno uma consequncia dos problemas que vimos tendo, desde o remoto comeo dos tempos, para nos conseguirmos entender uns aos outros, ns, os ces, ns, os humanos. Achado j est esquecido da pancada que recebeu, mas o dono no, o dono tem lembrana, esquecer amanh ou daqui a uma hora, mas por enquanto no pode, em casos assim a memria  como aquele toque instantneo de sol na retina que deixa uma queimadura  superfcie, coisa leve, sem importncia, mas que molesta enquanto dura, o melhor ser chamar o co, dizer-lhe, Achado, vem c, e o Achado ir, vai sempre, se est a lamber a mo que o acaricia  porque essa  a maneira de beijar dos ces, daqui a pouco a queimadura desaparece, a viso normaliza-se, e  como se nada tivesse acontecido.
Cipriano Algor foi deitar contas  lenha e achou-a pouca. Durante anos tinha andado a comprazer-se na ideia de que haveria de chegar a hora em que o velho forno a lenha seria deitado abaixo para em seu lugar surgir um forno novo, dos modernos, desses que trabalham a gs, capazes de oferecer temperaturas altssimas, rpidos no aquecimento e de excelentes resultados na cozedura. No ntimo de si mesmo, porm, sabia que nunca tal viria a suceder, em primeiro lugar por causa do muito dinheiro que a obra exigiria, fora do seu alcance, mas tambm por outras razes menos materiais, como saber de antemo que lhe daria pena abater aquilo que o av havia construdo e depois o pai aperfeioara, se o fizesse seria como se, em sentido prprio, os apagasse de vez da face da terra, pois precisamente sobre a face da terra o forno est. Uma outra razo tinha ainda, menos confessvel, que despachava em cinco palavras, J estou velho para isso, mas que objectivamente implicava o uso dos pirmetros, das tubagens, dos pilotos de segurana, dos queimadores, isto , outras tcnicas e outros cuidados. No havia portanto mais remdio que continuar o for


no velho a ser alimentado  maneira velha, com lenha e lenha e mais lenha, talvez isto seja o que mais custa aguentar nos mesteres do barro. Tal como o fogueiro das antigas locomotivas' a vapor, que levava o tempo todo a atirar pazadas de carvo  boca da fornalha, o oleiro, pelo menos este Cipriano Algor, que no pode pagar a um ajudante, afadiga-se durante horas a meter o arcaico combustvel pelo forno adentro, ramagens que o fogo envolve e devora num instante, ramos que a chama vai mordiscando e lambendo aos poucos at os fragmentar em brasas, o melhor ainda  quando podemos regal-lo com pinhas e serrim, que ardem mais devagar e produzem mais calor. Cipriano Algor vai abastecer-se nos arredores da povoao, encomendar aos mateiros e agricultores umas quantas carradas de lenha para queimar, comprar nas serraes e carpintarias da Cintura Industrial umas quantas sacas de serradura, preferentemente de madeiras duras, como o carvalho, a nogueira e o castanheiro, e tudo isto ter ele de fazer sozinho, evidentemente no lhe passa pela cabea pedir  filha, de mais a mais estando ela grvida, que o acompanhe e ajude a subir as sacas  furgoneta, apenas levar consigo o Achado para acabarem de fazer as pazes, o que parece significar que a queimadura na memria de Cipriano Algor, afinal, ainda no estava de todo sarada. A lenha que se encontra debaixo do alpendre seria mais do que suficiente, para o cozimento das seis figuras que vo servir aos moldes, mas Cipriano Algor duvida, acha absurda, disparatada, um desbarato sem desculpa, a enorme desproporo dos meios a empregar em relao aos fins a atingir, isto , que para cozer a ninharia material de meia dzia de bonecos v ser preciso usar o forno como se de uma carga at ao tecto se tratasse. Disse-o a Marta, que lhe deu razo, e meia hora depois o remdio, Aqui o livro explica como se pode resolver o problema, at traz um desenho para que se compreenda melhor.  muito possvel que o bisav de Marta, sendo como era do tempo da outra senhora, tivesse usado alguma vez, nos primrdios da sua profisso de oleiro, o j nessa poca antiquado processo de cozedura em cova, mas a instalao do primeiro forno deveria ter vindo dispensar e de algum modo feito esquecer a rstica prtica, que j no passou ao pai de Cipriano Algor. Felizmente existem os livros. Podemos esquec-los numa prateleira ou num ba, deix-los entregues ao p e s traas, abandon-los na escurido das caves, podemos no lhes pr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles no se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que tm dentro se perca, o momento que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estar aquele livro que ensinava a cozer os barros, e o livro, finalmente convocado, aparece, est aqui nas mos de Marta enquanto o pai cava ao lado do forno uma pequena cova com meio metro de profundidade e outro tanto de largo, para o tamanho dos bonecos no  necessrio mais, depois dispe no fundo do buraco uma camada de pequenos ramos e pega-lhes fogo, as chamas sobem, afagam as paredes, reduzem-lhes a humidade superficial, logo a fogueira esmorecer, s ficaro as cinzas quentes e umas diminutas brasas, e  sobre elas que Marta, tendo passado ao pai o livro aberto na pgina, faz descer, e com extremo cuidado vai pousando, um a um, os seis bonecos da prova, o mandarim, o esquim, o assrio de barbas, o palhao, o bobo, a enfermeira, dentro da cova o ar quente anda estremece, toca as epidermes cinzentas de onde, e do interior macio dos corpos, quase toda a gua j se tinha evaporado por obra da virao e da aragem, e agora, sobre a boca da cavidade, na falta de uma grelha mais apropriada a este fim, coloca Cipriano Algor, nem demasiado juntas, nem demasiado separadas, como o livro ensina, umas barras estreitas de ferro, por onde ho-de cair as brasas resultantes da fogueira que o oleiro j comeou a atear. De to felizes que haviam ficado com o descobrimento do livro salvador, no repararam o pai e a filha que a hora quase crepuscular a que tinham comeado o traba


lho os obrigaria a alimentar a fogueira pela noite dentro, at que as brasas encham por completo a cova e a cozedura termine. Cipriano Algor disse para a filha, Tu deita-te, que eu fico a olhar pelo lume, e ela respondeu, No perderia isto por todo o ouro do mundo. Sentaram-se no banco de pedra a contemplar as chamas, de vez em quando Cipriano Algor levanta-se e vai deitar mais lenha, ramos no demasiado grossos para que as brasas caiam pelos intervalos dos ferros, quando a altura de jantar chegou Marta foi a casa preparar uma refeio ligeira, tomada depois  luz vagueante que se movia sobre a parede lateral do forno como se tambm ele estivesse a arder por dentro. O co Achado partilhou do que havia para comer, depois' deitou-se aos ps de Marta, a olhar fixamente as chamas, na sua vida tinha estado perto de outras fogueiras, mas nenhuma como esta, provavelmente querendo dizer outra coisa, as fogueiras, maiores ou mais pequenas, parecem-se todas, so lenha a arder, centelhas, ties e cinzas, o que o Achado pensava era que nunca tinha estado assim, aos ps de duas pessoas a quem entregara para sempre o seu amor de co, junto a um banco de pedra propcio a srias meditaes, como ele prprio, a partir de hoje e por experincia pessoal directa, poder testemunhar. Encher meio metro cbico de brasas leva o seu tempo, sobretudo se a lenha, como est a suceder, no veio de todo seca, a prova  de que se lhe vem ferver as ltimas seivas na extremidade dos troncos oposta quela por onde esto a queimar-se. Seria interessante, se fosse possvel, olhar l para dentro, ver se as brasas j subiram at  altura da cintura dos bonecos, mas o que se pode  imaginar como dever estar o interior da cova, vibrante e resplendente com a luz das mltiplas chamas breves que acabam de consumir os pequenos troos de lenha incandescente que vo caindo. Como a noite principiava a arrefecer, Marta foi a casa buscar um cobertor, sob o qual, deitando-o pelos ombros, pai e filha se abrigaram. Por diante no precisavam, sucedia agora o mesmo que quando, em tempos passados, subamos  lareira para nos aquecermos nas noites de Inverno, as costas tiritavam de frio enquanto a cara, as mos e as pernas escaldavam. As pernas sobretudo, por estarem mais perto do lume. Amanh comea o trabalho duro, disse Cipriano Algor, Eu ajudo, disse Marta, Ajudars, sem dvida, nem tens outro remdio, por muito que me custe, Sempre ajudei, Mas agora ests grvida, De um ms, se tanto, ainda no faz diferena, sinto-me perfeitamente, Temo que nao consigamos levar isto ao fim, Conseguiremos, Se ainda pudssemos encontrar algum que nos ajudasse, O pai mesmo o tem dito, ningum quer trabalhar em olarias, alm disso gastaramos o tempo a ensinar quem viesse e os resultados seriam tudo menos compensadores, Claro, confirmou Cipriano Algor, subitamente distrado. Tinha-se lembrado de que a Isaura Estudiosa, ou Isaura Madruga, como parece que passou a chamar-se, andava  procura de trabalho, que se no o arranjasse se iria embora da povoao, mas este pensamento no chegou a perturb-lo, de facto no poderia nem quereria imaginar a tal Madruga a trabalhar na olaria, metida no barro, as nicas luzes que ela mostra ter do ofcio  aquela maneira de abraar um cntaro contra o peito, mas isso no ajuda nada quando do que se trata  de fabricar manipanos, e no de os embalar. Para embalar, qualquer serve, pensou, mas sabia que isto no era verdade. Disse Marta, O que poderamos era chamar algum para se encarregar do trabalho da casa, de modo a deixar-me livre a mim para a olaria, No temos dinheiro para pagar a uma criada, ou empregada domstica, ou mulher-a-dias, ou l como se chame, cortou bruscamente Cipriano Algor, Uma pessoa que esteja a precisar de uma ocupao e que no se importe de ganhar pouco durante um tempo, insistiu Marta. Impaciente, o pai sacudiu o cobertor dos ombros, como se estivesse a sufocar, Se o que ests a pensar  o que eu imagino, acho melhor que a conversa fique por aqui, Falta saber se o pai o imaginou porque eu o pensei, disse Marta, ou se j o tinha pensado antes


quando eu o imaginei, No jogues com as palavras, por favor, tu tens essa habilidade, mas eu no, no a herdaste de mim, Alguma coisa nossa ter de ser de lavra prpria, em todo o caso, isso a que chamou jogar com as palavras  simplesmente um modo de as tornar mais visveis, Pois ento a essas podes voltar a tap-las, no me interessam. Marta reps o cobertor no seu lugar, aconchegou-o aos ombros do pai, J esto tapadas, disse, se um dia algum as puser outra vez  vista, garanto-lhe que no serei eu. Cipriano Algor desfez-se do cobertor, No tenho frio, disse, e foi deitar mais lenha  fogueira. Marta sentiu-se comovida ao reparar na meticulosidade com que ele colocava os troncos novos sobre as achas a arder, aplicado e escrupuloso como quem se obrigou, para expulsar incmodos pensamentos, a concentrar todo o seu poder de aten num pormenor sem importncia. No deveria ter voltado ao assunto, disse consigo mesma, muito menos agora, quando j disse que ir connosco para o Centro, alm disso, supondo que eles se entendessem ao ponto de quererem viver juntos, arranjaramos um problema de difcil ou mesmo impossvel soluo, uma coisa  ir para o Centro com a filha e o genro, outra levar a prpria mulher, em vez de uma famlia seriam duas, estou convencida de que no nos aceitariam l, o Maral j me disse que os apartamentos so pequenos, portanto teriam de ficar aqui, e viveriam de qu, duas pessoas que mal se conhecem, quanto tempo iria durar o entendimento, mais do que jogar com as palavras, o que estou  a jogar com os sentimentos dos outros, com os sentimentos do meu prprio pai, que direito tenho eu, que direito tens tu, Marta, experimenta pr-te no lugar dele, no podes, claro, ento se no podes cala-te, diz-se que cada pessoa  uma ilha, e no  certo, cada pessoa  um silncio, isso sim, um silncio, cada uma com o seu silncio, cada uma com o silncio que . Cipriano Algor regressou ao banco de pedra, ele prprio puxou o cobertor para os ombros apesar de ainda trazer na roupa o calor da fogueira, Marta chegou-se para ele, Pai, meu pai, disse, Que , Nada, no faa caso. Passava muito da uma hora quando a cova acabou de se encher. J no somos precisos aqui, disse Cipriano Algor, de manh, quando tiverem arrefecido, retiraremos as peas, vamos a ver como sairo. O co Achado acompanhou-os at  porta da casa.
Depois voltou para junto da fogueira e deitou-se. Sob a finssima pelcula de cinza, irradiando uma luz tnue, o brasido ainda palpitava. Foi s quando as brasas se apagaram de todo que o Achado fechou os olhos para dormir.


Cipriano Algor sonhou que estava dentro do seu novo forno. Sentia-se feliz por ter podido convencer a filha e o genro de que o repentino crescimento da actividade da olaria exigia mudanas radicais nos processos de elaborao e uma pronta actualizao dos meios e estruturas de fabrico, comeando pela urgente substituio do velho forno, remanescente arcaico de uma vida artesanal que nem sequer como runa de museu ao ar livre mereceria ser conservado. Deixemo-nos de saudosismos que s prejudicam e atrasam, dissera Cipriano com inusitada veemncia, o progresso avana imparvel,  preciso que nos decidamos a acompanh-lo, ai daqueles que, com medo de possveis inquietaes futuras, se deixam ficar sentados  beira do caminho a chorar um passado que nem sequer havia sido melhor do que o presente. De to redonda, perfeita e acabada que saiu, a frase reduziu os relutantes jovens. Em todo o caso, h que reconhecer que as diferenas tecnolgicas entre o forno novo e o forno velho no foram nada do outro mundo, o que o primeiro havia tido em antiquado, em moderno o tinha agora o segundo, a nica modificao que saltava realmente  vista consistia no tamanho da obra, na sua capacidade duas vezes maior, sendo certo tambm, embora no se notasse tanto, que eram diferentes, e mesmo algo anormais, as relaes de proporo que a altura, o comprimento e a largura do respectivo vo interno estabeleciam entre si. Uma vez que se trata de um sonho, no h que estranhar este ltimo ponto. Estra


nhvel, sim, por muitas liberdades e exageros que a lgica onrica autorize ao sonhador,  a presena de um banco de pedra l dentro, um banco exactamente igual ao das meditaes, e de que Cipriano Algor s pode ver a parte de trs do recosto, porquanto, insolitamente, este banco est virado para a parede do fundo, a no mais que cinco palmos dela. Deviam t-lo aqui os pedreiros para descansarem  hora do almoo, depois esqueceram-se de o levar, pensou Cipriano Algor, mas sabia que no podia ser certo, os pedreiros, e este dado  rigorosamente histrico, sempre gostaram de comer ao ar livre, at mesmo quando tiveram de trabalhar no deserto, por maioria de razes num lugar to agradavelmente campestre como este, com as pranchas de secagem debaixo da amoreira-preta, e a bela aragenzinha do meio-dia soprando. Viesses donde viesses, passars a fazer companhia ao que est l fora, disse Cipriano Algor, o problema ser levar-te daqui, para ires em braos pesas demasiado, e de arrasto dar-me-ias cabo do pavimento, no percebo que ideia foi esta de te trazerem para dentro de um forno e te colocarem desta maneira, uma pessoa sentada ficar com o nariz quase pegado  parede. Para demonstrar a si mesmo que tinha razo, Cipriano Algor deslizou suavemente entre uma das extremidades do banco e a parede lateral que lhe correspondia, e sentou-se. Teve de aceitar que o seu nariz, afinal, no corria o menor risco de esfolar-se nos tijolos refractrios, e que os joelhos, embora mais avanados no plano horizontal, tambm se encontravam a salvo de roaduras incmodas. A mo, essa sim, podia chegar  parede sem nenhum esforo. Ora, no instante preciso em que os dedos de Cipriano Algor lhe iam tocar, uma voz vinda de fora disse, No vale a pena acenderes o forno. A inesperada ordem era de Maral, como foi tambm dele a sombra que durante um segundo perpassou na parede do fundo para logo desaparecer. A Cipriano Algor pareceu um abuso e uma absoluta falta de respeito o tratamento usado pelo genro, Nunca lhe dei semelhante confiana, pensou. Fez um movimento para voltar-se e perguntar por que motivo no valia a pena acender o forno e que vem a ser isso de me tratares por tu, mas no conseguiu virar a cabea, sucede muito nos sonhos, queremos correr e percebemos que as pernas no obedecem, em geral so as pernas, desta vez foi o pescoo que se negou a dar a volta.
A sombra j no estava, a ela no podia fazer perguntas, na v e irracional suposio de que uma sombra tenha lngua para articular respostas, mas os harmnios suplementares das palavras que Maral havia proferido ainda continuavam a ressoar entre a abbada e o cho, entre uma parede e a outra parede. Antes de que as vibraes se extinguissem de todo e a dispersa substncia do silncio quebrado tivesse tempo de se reconstituir, Cipriano Algor queria conhecer as misteriosas razes por que no valia a pena acender o forno, se efectivamente fora isso o que a voz do genro dissera, agora at lhe parecia que as palavras tinham sido outras, e ainda mais enigmticas, No vale a pena que se sacrifique, como se Maral julgasse que o sogro, a quem, pelos vistos, no tinha tuteado, decidira provar no prprio corpo os poderes do fogo, antes de lhes entregar a obra das suas mos. Est doido, murmurou consigo mesmo o oleiro,  preciso que este meu genro esteja doido rematado para imaginar tais coisas, se eu entrei no forno foi apenas porque, a frase teve de interromper-se, de facto Cipriano Algor no sabia por que ali estava, nem  de estranhar, se tantas vezes isso nos acontece quando nos encontramos despertos, no saber por que fazemos ou fizemos isto ou aquilo, o que no ser quando, dormindo, sonhamos. Cipriano Algor pensou que o melhor, o mais fcil, seria levantar-se simplesmente do banco de pedra e ir l fora perguntar ao genro que diabo de conversa era aquela, mas sentiu que o corpo lhe pesava como chumbo, ou nem sequer isso, que em verdade nunca ser o peso do chumbo tanto que o no consiga erguer uma fora maior, o que ele estava era atado ao recosto do banco, atado sem cordas neM


cadeias, mas atado. Experimentou outra vez virar a cabea, mas o pescoo no lhe obedeceu, Sou como uma esttua de pedra sentada num banco de pedra olhando um muro de pedra, pensou, embora soubesse que no era rigorosamente assim, o muro, pelo menos, como os seus olhos de entendido em matrias minerais podiam perceber, no tinha sido construdo com pedras, mas com tijolos refractrios. Foi neste momento que a sombra de Maral voltou a projectar-se na parede, Trago-lhe aquela boa notcia por que ansivamos h tanto tempo, disse a voz dele, fui promovido, finalmente, a guarda residente, de modo que no vale a pena continuar com o fabrico, explica-se ao Centro que fechmos a olaria e eles entendero, mais tarde ou mais cedo teria de acontecer, portanto saia da, a camioneta j est  porta para levar os mveis, mal empregado o dinheiro que se gastou nesse forno. Cipriano Algor abriu a boca para responder, mas a sombra j se tinha ido embora, o que o oleiro queria dizer era que a diferena entre a palavra do arteso e um mandamento divino est em ter este precisado de que o passassem a escrito, e mesmo assim com os lamentveis resultados que se conhecem, e mais, que se tinha assim tanta pressa podia ir andando, expresso algo grosseira que contradizia a solene declarao feita por si ainda no h muitos dias, quando prometera  filha e ao genro que iria viver com eles se Maral fosse promovido, uma vez que a mudana de ambos para o Centro tornaria impossvel manter em funcionamento a olaria. Estava Cipriano Algor ralhando consigo mesmo por ter assegurado o que a honra nunca lhe permitiria cumprir, quando uma sombra nova apareceu sobre a parede do fundo. A fraca luz que consegue entrar pela estreita porta de um forno deste tamanho, duas sombras humanas so muito fceis de confundir, mas o oleiro soube logo de quem se tratava, nem a sombra, mais escura, nem a voz, mais espessa, pertenciam ao genro, Senhor Cipriano Algor, vim s para inform-lo de que a nossa encomenda de bonecos de barro acaba de ser cancelada, disse o chefe do departamento de compras, no sei nem quero saber por que se meteu a, se foi para se dar ares de heri romntico  espera de que uma parede lhe revele os segredos da vida, a mim parece-me simplesmente ridculo, mas se a sua inteno vai mais longe, se a sua inteno  imolar-se pelo fogo, por exemplo, saiba desde j que o Centro se recusar a assumir qualquer responsabilidade pela defuno,  que no faltaria mais, virem culpar-nos a ns dos suicdios cometidos por pessoas incompetentes e levadas  falncia por no terem sido capazes de perceber as regras do mercado. Cipriano Algor no virou a cabea para a porta, embora tivesse a certeza de que j o poderia fazer, sabia que o sonho tinha terminado, que nada o impediria de se levantar do banco de pedra quando quisesse, s uma dvida o perturbava ainda,  certo que absurda,  certo que estpida, no entanto compreensvel se tomarmos em considerao o estado de perplexidade mental em que o deixou o sonho de que teria de ir viver para o mesmssimo Centro que acabava de lhe desprezar o trabalho, e essa dvida, a ela vamos, no estvamos esquecidos, tem que ver com o banco de pedra. Cipriano Algor pergunta-se se teria levado um banco de pedra para a cama ou se ir acordar coberto de orvalho no outro banco de pedra, o das meditaes, os sonhos humanos so assim, s vezes pegam em coisas reais e transformam-nas em vises, outras vezes pem o delrio a jogar s escondidas com a realidade, por isso  to frequente confessarmos que no sabemos a quantas andamos, o sonho a puxar de um lado, a realidade a empurrar do outro, em boa verdade a linha recta s existe na geometria, e ainda assim no passa de uma abstraco. Cipriano Algor abriu os olhos. Estou na cama, pensou com alvio, e nesse instante percebeu que a memria do sonho lhe estava a fugir, que s iria conseguir reter uns quantos pedaos dele, e no soube se deveria alegrar-se com o pouco ou entristecer-se com o excessivo, tambm muitas vezes sucede isto depois de termos so


nhado. Ainda era noite, mas a primeira mudana do cu, prenunciadora da madrugada, no tardaria a manifestar-se. Cipriano Algor no voltou a adormecer. Pensou em muitas coisas, pensou que o seu trabalho se tornara definitivamente intil, que a existncia da sua pessoa deixara de ter justificao suficiente e medianamente aceitvel, Sou um trambolho para eles, murmurou, nesse instante um fragmento do sonho apareceu-lhe com toda a nitidez, como se tivesse sido recortado e colado numa parede, era o chefe do departamento de compras que lhe dizia, Se a sua inteno  imolar-se pelo fogo, caro senhor, que lhe faa muito bom proveito, aviso-o, porm, de que no faz parte das extravagncias do Centro, se algumas tem, mandar representantes e coroas de flores aos funerais dos seus ex-fornecedores. Cipriano Algor voltara a cair no sono por momentos, registe-se, a propsito, e antes que nos seja apontada a aparente contradio, que cair no sono por momentos no  o mesmo que ter adormecido, o oleiro no fizera mais do que sonhar de relance com o sonho que havia tido, e se as segundas palavras do chefe do departamento de compras no saram exactamente iguais s primeiras foi pela razo simples de que no  s na vida acordada que as palavras que dizemos dependem do humor da ocasio. Aquela antiptica e em tudo deslocada referncia a uma hipottica imolao pelo fogo teve, no entanto, o mrito de desviar o pensamento de Cipriano Algor para as estatuetas de barro deixadas a cozer na cova, e logo, por caminhos e travessas do crebro que nos seria impossvel reconstituir e descrever com suficiente preciso, para o sbito reconhecimento das vantagens do boneco oco em comparao com o boneco macio, quer no tempo a gastar quer na argila' a consumir. Esta frequente relutncia das evidncias a manifestarem-se sem se fazerem demasiado rogadas deveria ser objecto de uma profunda anlise por parte dos entendidos, que certamente andam por a, nas distintas, mas seguramente nO opostas, naturezas do visvel e do invisvel, no sentido de averiguar se no interior mais ntimo daquilo que se d a ver existir, como parece haver fortes motivos para suspeitar, algo de qumico ou de fsico com uma tendncia perversa para a negao e para o apagamento, um deslizar ameaador na direco do zero, um sonho obsessivo de vazio. Seja como for, Cipriano Algor est satisfeito consigo mesmo. Ainda h poucos minutos se considerava um trambolho para a filha e para o genro, um empecilho, um estorvo, um intil, palavra esta que diz tudo quando temos de classificar o que supostamente j no serve para nada, e ei-lo que foi capaz de produzir uma ideia cuja bondade intrnseca est de antemo demonstrada pelo facto de outros a terem tido antes e posto muitas vezes em execuo. Nem sempre  possvel ter ideias originais, j basta t-las simplesmente praticveis. Cipriano Algor gostaria de alargar o remanso da cama, aproveitar o bom sono da manh, que, talvez porque dele temos uma conscincia vaga, , de todos os sonos, o mais reparador, mas a excitao causada pela ideia que lhe havia ocorrido, a lembrana das estatuetas sob as cinzas decerto ainda quentes, e tambm, por que no o confessar, aquela precipitada informao anterior de que no tinha voltado a adormecer, tudo isto junto o fez afastar as cobertas e escorregar rapidamente para o cho, to fresco e gil como nos seus verdes anos. Vestiu-se sem fazer rudo, saiu do quarto levando as botas na mo e, p ante p, dirigiu-se  cozinha. No queria que a filha acordasse, mas acordou-a, ou ela j estaria desperta, ocupada a colar fragmentos dos seus prprios sonhos ou de ouvido  escuta do trabalho cego que a vida, segundo a segundo, carpinteirava dentro do seu tero. A voz soou ntida e clara no silncio da casa, Pai, aonde vai to cedo, No posso dormir, vou ver como saiu a cozedura, mas tu deixa-te estar, no te levantes. Marta apenas disse, Pois sim, no era nada difcil, conhecendo-o, pensar que o pai desejava estar sozinho durante a grave operao de retirar as cinzas e as estatuetas da cova, tal como uma criana que, pela calada da noite, tremen


do de susto e de excitao, avana s apalpadelas pelo corredor escuro para ir descobrir que sonhados brinquedos e prendas lhe foram postos no sapato. Cipriano Algor calou-se, abriu a porta da cozinha e saiu. A folhagem compacta da amoreira-preta retinha a noite firmemente, no a deixaria ir-se dali to cedo, o primeiro lusco-e-fusco do amanhecer ainda tardaria pelo menos meia hora. Olhou para a casota, depois girou os olhos em redor, admirado por no ver surgir o co. Assobiou baixinho, mas o Achado no se manifestou. O oleiro passou da surpresa perplexa a uma inquietao explcita, No acredito que se tenha ido embora, no acredito, murmurou. Podia gritar o nome do co, mas no o fez porque no queria alarmar a filha. Andar por a, andar por a a farejar algum bicho nocturno, disse para se tranquilizar a si mesmo, mas a verdade  que, enquanto atravessava a eira em direco ao forno, era mais no Achado que pensava do que nas ansiadas estatuetas de barro. Encontrava-se j a poucos passos da cova quando viu sair o co de debaixo do banco de pedra, Pregaste-me um valente susto, meu maroto, por que  que no vieste quando te chamei, repreendeu, mas o Achado no deu resposta, estava ocupado a espreguiar-se, a pr os msculos no seu lugar, primeiro esticou com fora as mos para a frente, baixando em plano inclinado a cabea e a coluna vertebral, logo executou o que se supe ser, no seu entendimento, um indispensvel exerccio de ajuste e compensao, rebaixando e esticando a tal ponto os quartos traseiros que mais parecia querer separar-se das patas l atrs. Toda a gente nos sabe dizer que os animais deixaram de falar h muito muito tempo, porm o que nunca se poder demonstrar  que eles no tenham continuado a fazer uso secreto do pensamento. Veja-se, por exemplo, o caso deste co Achado, como apesar da escassa claridade que aos poucos comea a descer do cu se lhe pode ler na cara o que est a pensar, nem mais nem menos A palavras loucas, orelhas moucas, quer ele dizer na sua que Cipriano Algor, com a longa experincia de vida que tem, ainda que pouco variada, no deveria precisar que lhe explicassem o que so os deveres de um co,  conhecido que as sentinelas humanas s vigiam a srio se para isso lhes for dada uma ordem terminante, ao passo que os ces, e este em particular, no esto  espera de que se lhes diga Ficas a a olhar pelo lume, poderemos ter a certeza de que, enquanto as brasas no se extinguirem, eles iro permanecer de olhos abertos. Em todo o caso haver que fazer justia ao pensamento humano, a sua consabida lentido nem sempre o impede de chegar s concluses certas, como dentro da cabea de Cipriano Algor acabou agora mesmo de suceder, acendeu-se-lhe uma luz de repente e foi graas a ela que pde ler e logo em voz alta pronunciar as palavras de reconhecimento de que o co Achado era justamente merecedor, Enquanto eu dormia no quente dos lenis, estavas tu aqui de sentinela alerta, no importa que a tua vigilncia de nada valesse  cozedura, o que conta realmente  o gesto. Quando Cipriano Algor terminou o louvor, Achado correu a alar a pata e a aliviar a bexiga, depois regressou abanando a cauda e deitou-se a pouca distncia da cova, pronto para assistir  operao de desenfornagem dos bonecos. Nesse momento a luz da cozinha acendeu-se, Marta tinha-se levantado. O oleiro voltou a cabea, no via claro no seu esprito se preferia estar sozinho ou se desejava que a filha viesse fazer-lhe companhia, mas soube-o um minuto depois, quando percebeu que ela decidira deix-lo com o papel principal at ao ltimo momento. Semelhante ao rebordo de uma abbada luminosa que viesse empurrando a escura cpula da noite, a fronteira da manh movia-se devagar para ocidente. Uma sbita virao rasteira fez rodopiar, como um espojinho, as cinzas da superfcie da cova. Cipriano Algor ajoelhou-se, afastou para um lado as barras de ferro e, servindo-se da mesma pequena p com que a cova tinha sido aberta, comeou a retirar as cinzas,  mistura com pequenos troos de carvo no consumidos. Quase imponderveis, as brancas


partculas pegavam-se-lhe aos dedos, algumas, levssimas, aspiradas pela respirao, subiram-lhe at ao nariz e obrigaram-no a fungar, tal como o Achado faz s vezes. Consoante a p se ia aproximando do fundo da cova, as cinzas tornavam-se mais quentes, mas no tanto que queimassem, estavam simplesmente tpidas, como pele humana, e macias e suaves como ela. Cipriano Algor ps de parte a p e afundou as duas mos nas cinzas. Tocou a fina e inconfundvel aspereza dos barros cozidos. Ento, como se estivesse a ajudar a um nascimento, segurou entre o polegar e os dedos indicador e mdio a cabea ainda oculta de um boneco e puxou para cima. Calhou ser a enfermeira. Sacudiu-lhe as cinzas do corpo, soprou-lhe na cara, parecia que estava a dar-lhe uma espcie de vida, a passar para ela o hausto dos seus prprios pulmes, o pulsar do seu propno corao. Depois, um a um, os restantes manipanos, o assrio de barbas, o mandarim, o bobo, o esquim, o palhao, foram retirados da cova e postos ao lado da enfermeira, mais ou menos limpos das cinzas, mas sem a benfeitoria suplementar do sopro vital. No estava ali ningum para perguntar ao oleiro os motivos da diferena de tratamento, determinados,  primeira vista, pela diferena de sexo, salvo se a interveno demirgica resultou simplesmente de a figura da enfermeira ter sido a primeira a sair do buraco, sempre, desde que o mundo  mundo, sucedeu assim, cansarem-se da criao os criadores logo que ela passou a no ser novidade. Recordando, porm, os complexos problemas de modelao com que Cipriano Algor teve de lutar quando trabalhava o peito da enfermeira, no ser demasiado temerrio presumir que a razo ltima do assopro se encontre, ainda que de modo obscuro e impreciso, nesse seu imenso esforo por chegar ao que a prpria ductilidade da argila lhe estava negaceando. V l a saber-se. Cipriano Algor tornou a encher o buraco com a terra que por natural direito lhe pertencia, calcou-a bem para que nem um punhado dela ficasse fora, e, com trs bonecos em cada mo, dirigiu-se a casa. Curioso, de cabea levantada, Achado saltitava ao lado dele. A sombra da amoreira-preta tinha-se despedido da noite, o cu comeava a abrir-se todo com o primeiro azul da manh, o sol no tardaria a aparecer num horizonte que dali no se podia alcanar.
Que tal saram, perguntou Marta quando o pai entrou, Parece que bem, afinal, mas h que limp-los da cinza que ainda trazem agarrada. Marta deitou gua num pequeno alguidar de barro, Lave-os aqui, disse. Primeira a entrar na gua, primeira a sair das cinzas, casualidade ou coincidncia, esta enfermeira poder vir a ter no futuro algumas razes de queixa, mas no por falta de atenes. Como est esse, perguntou Marta, alheia ao debate sobre gneros que tem vindo a travar-se, Bem, repetiu o pai brevemente. Estava de facto bem, com a cozedura toda por igual, uma bela cor vermelha, sem defeito, sem a mnima rachadura, e estavam igualmente perfeitas as outras estatuetas, com excepo do assrio de barbas, que apareceu com uma mancha negra nas costas, efeito felizmente restrito de um incipiente processo de carbonizao provocado por uma indesejada entrada de ar. No tem importncia, no sofrer por isso, disse Marta, e agora faa o favor de se sentar a descansar enquanto lhe preparo o pequeno-almoo, que boa madrugada leva j nesse corpo, Tocou-me a espertina, no consegui adormecer outra vez, Os bonecos podiam esperar que se fizesse dia, Mas eu no, Como diz o ditado antigo, quem tem cuidados no dorme, Ou dorme para sonhar com os cuidados que tem, Foi para no sonhar que acordou to cedo, perguntou Marta, H sonhos de que o melhor seria sair rapidamente, respondeu o pai, Foi o caso desta noite, Sim, foi o caso desta noite, Quer contar, No merece a pena, Nesta casa, os cuidados de um sempre tm sido os cuidados de todos, Mas no os sonhos, Excepto se so de cuidados, Contigo no se pode discutir, Se  assim, no perca mais tempo, conte, Sonhei que o Maral havia sido promovido e que a encomenda era cance


lada, O mais provvel da no ser o cancelamento da encomenda, Tambm o creio, mas as preocupaes engancham-se como as cerejas, uma puxa outra, e as duas um cesto cheio, quanto  promoo do Maral, sabemos que poder suceder de um momento para o outro,  certo, O sonho foi um aviso para trabalhar depressa, Os sonhos no avisam, A no ser quando os que sonham se sentem avisados, Acordou sentencioso o meu querido pai, Cada idade tem os seus defeitos, e este tem vindo a agravar-se-me nos ltimos tempos, Ainda bem, gosto das suas sentenas, vou aprendendo com elas, Mesmo quando no passam de meros jogos de palavras, como agora, perguntou Cipriano Algor, Penso que as palavras s nasceram para poderem jogar umas com as outras, que no sabem mesmo fazer outra coisa, e que, ao contrrio do que se diz, no existem palavras vazias, Sentenciosa,  doena de familia. Marta ps o pequeno-almoo na mesa, o caf, o leite, uns ovos mexidos, po torrado e manteiga, alguma fruta. Sentou-se em frente do pai, a v-lo comer. E tu, perguntou Cipriano Algor, No tenho apetite, respondeu ela, Mau sinal, no estado em que ests, Dizem que estes fastios so bastante comuns nas grvidas, Mas precisas de te alimentar bem, pela lgica deverias comer por dois, Ou por trs, se levo gmeos, Estou a falar a srio, No se preocupe, ainda me ho-de vir os enjoos e no sei quantas incomodidades mais. Houve um silncio. O co enroscou-se debaixo da mesa, finge-se indiferente aos cheiros da comida, mas  s resignao, ele sabe que a sua vez ainda tarda algumas horas. Vai j comear a trabalhar, perguntou Marta, Assim que acabe de comer, respondeu Cipriano Algor. Outro silncio. Pai, disse Marta, imagine que o Maral telefona hoje a comunicar que foi promovido, Tens algum motivo para pensar que isso ir suceder, Nenhum,  s uma hiptese, Muito bem, imaginemos ento que o telefone est a tocar neste momento, que tu te levantas e vais atender, que  o Maral a informar-nos de que passou ao grau de guarda residente, Que faria o pai nesse caso, Acabaria de comer, levaria os bonecos para a olaria e comearia a fazer os moldes, Como se nada tivesse acontecido, Como se nada tivesse acontecido, Cr que seria uma deciso sensata, no se lhe afiguraria mais consequente desistir do fabrico, virar a pgina, Amada filha,  muito possvel que a insensatez e a inconsequncia sejam para os novos um dever, para os velhos so um direito absolutamente respeitvel, Tomo nota pela parte que me toca, Mesmo que tu e Maral tenham de mudar-se para o Centro antes, eu ficarei at terminar o trabalho que me encomendaram, depois l irei ter convosco, como prometi,  uma loucura, pai, Loucura, inconsequncia, insensatez, fraca opinio tens de mim,  loucura querer fazer sozinho um trabalho destes, diga-me como imagina que me vou sentir sabendo o que se est a passar aqui, E como imaginas tu que me sentiria eu se largasse o trabalho em meio, no compreendes que nesta altura da vida no tenho muitas coisas mais a que me agarrar, Tem-me a mim, vai ter o seu neto, Desculpa-me, mas no basta, Ter de bastar quando for viver connosco, Suponho que assim ser, mas ao menos haverei terminado o meu ltimo trabalho, No seja dramtico, pai, sabe l qual vai ser e quando o seu ltimo trabalho. Cipriano Algor levantou-se da mesa. Perdeu o apetite de repente, perguntou a filha, vendo que sobrara comida no prato, Custa-me a engolir, aperta-se-me a garganta, So nervos, Deve ser isso, nervos.
O co tinha-se levantado tambm, preparado para ir atrs do dono. Ah, fez Cipriano Algor, esquecia-me dizer que o Achado ficou toda a noite debaixo do banco de pedra a vigiar o lume, Pelos vistos tambm com os ces se pode aprender alguma coisa, Sim, aprende-se sobretudo a no discutir o que deve ser feito, algumas vantagens o simples instinto haveria de ter, Est a querer dizer que  tambm o instinto que lhe manda terminar o trabalho, que nos seres humanos, ou em alguns, existe um factor de comportamento parecido ao instinto, perguntou Marta, O que eu sei  que a razo s teria um conse


lho para me dar, Qual, Que no fosse parvo, que o mundo no se acabaria pelo facto de eu no acabar os bonecos, Realmente, que importncia poderiam ter para o mundo uns quantos bonecos de argila a mais ou a menos, Aposto que no mostrarias tanta indiferena se em vez de bonecos de argila se tratasse de nonas ou quintas sinfonias, infelizmente, minha filha, o teu pai no nasceu para msico, Se realmente cr que estava a mostrar indiferena, fico triste, Claro que no, desculpa. Cipriano Algor ia a sair, mas parou ainda um momento no limiar da porta, Em todo o caso, h que reconhecer que a razo tambm  capaz de produzir ideias aproveitveis, esta noite, ao acordar, ocorreu-me que se poder economizar muito tempo e algum material se fizermos as estatuetas ocas, secam e cozem mais depressa, e poupamos no barro, Viva a razo, afinal, Olha que no sei, as aves tambm fazem os ninhos ocos e no andam por a a gabar-se.
A partir desse dia, Cipriano Algor s interrompeu o trabalho na olaria para comer e dormir. A sua pouca experincia das tcnicas f-lo desentender-se das propores de gesso e gua na fabricao dos tacelos, piorar tudo quando se equivocou nas quantidades de barro, gua e desfloculante necessrias a uma mistura equilibrada da barbotina de enchimento, verter com excessiva rapidez a calda obtida, criando bolhas de ar no interior do molde. Os trs primeiros dias foram gastos a fazer e a desfazer, a desesperar-se com os erros, a maldizer o seu desajeitamento, a estremecer de alegria sempre que lograva sair-se bem de uma operao delicada. Marta foi oferecer ajuda, mas ele pediu-lhe que o deixasse em paz, maneira de se expressar em verdade nada condizente com a realidade do que se estava a viver dentro da velha oficina, entre gessos que endureciam cedo de mais e guas que chegavam tarde ao encontro, entre pastas que no estavam suficientemente secas e caldas demasiado espessas que se recusavam a deixar-se coar, muito mais acertado teria ele sido se dissesse Deixa-me em paz com a minha guerra. Na manh do quarto dia, como se os maliciosos e esquivos duendes que eram os diferentes materiais se tivessem arrependido do modo cruel como haviam tratado o inesperado principiante na nova arte, Cipriano Algor comeou a encontrar suavidades onde antes s havia enfrentado asperezas, docilidades que o enchiam de gratido, segredos que se desvelavam. Tinha o manual auxiliar em cima da bancada,


hmido, manchado de dedadas, pedia-lhe conselho de cinco em cinco minutos, s vezes entendia mal o que havia lido, outras vezes uma sbita intuio iluminava-lhe a pgina inteira, no ser despropositado afirmar que Cipriano Algor oscilava entre a infelicidade mais dilaceradora e a mais completa das bemaventuranas. Levantava-se da cama ao primeiro alvor, despachava a desjejua em dois tempos e metia-se na olaria at  hora do almoo, depois trabalhava durante a tarde toda e pelo sero adentro, fazendo apenas um intervalo rpido para jantar, com uma frugalidade que nada ficava a dever s outras refeies. A filha protestava, Vai-me cair doente, a trabalhar dessa maneira e a comer to pouco, Estou bem, respondia ele, nunca me senti to bem na vida. Era certo e no o era.  noite, quando finalmente se ia deitar, lavado dos cheiros do esforo e das sujidades do trabalho, sentia que as articulaes lhe rangiam, que o seu corpo era uma pegada dor. J no posso o que podia, dizia consigo mesmo, mas, l muito ao fundo da sua conscincia, uma voz que tambm era sua contrariava, Nunca pudeste tanto, Cipriano, nunca pudeste tanto. Dormia como se imagina que uma pedra dever dormir, sem sonhos, sem estremecimentos, parecia at que sem respirao, descansando sobre o mundo o peso todo da sua infinita fadiga. Algumas vezes, como uma me inquieta, antecipando, sem nisso ter pensado, desassossegos futuros, Marta se levantou a meio da noite para ir ver como estava o pai. Entrava silenciosamente no quarto, aproximava-se devagarinho da cama, inclinava-se um pouco a escutar, depois saa com os mesmos cuidados. Aquele homem grande, de cabelos brancos e rosto castigado, seu pai, era tambm como um filho, saber pouco da vida quem isto se recuse a entender, as teias que enredam as relaes humanas, em geral, e as de parentesco, em particular, sobretudo as prximas, so mais complexas do que parecem  primeira vista, dizemos pais, dizemos filhos, cremos que sabemos perfeitamente de que estamos a falar, e no nos interrogamos sobre as causas profundas do afecto que ali h, ou a indiferena, ou o dio. Marta sai do quarto e vai pensando Dorme, eis uma palavra que aparentemente no fez mais do que expressar uma verificao de facto, e contudo, em cinco letras, em duas slabas, foi capaz de traduzir todo o amor que num certo momento pde caber num corao humano. Convm dizer, para ilustrao dos ingnuos, que, em assuntos de sentimento, quanto maior for a parte de grandiloquncia, menor ser a parte de verdade.
O quarto dia calhou ser aquele em que havia que ir buscar Maral ao Centro para o seu descanso, a que naturalmente chamaramos semanal se no fosse, como sabemos, decimal, isto , de dez em dez. Marta disse ao pai que iria ela, que no interrompesse o trabalho, mas Cipriano Algor respondeu-lhe que no, que nem pensasse em tal coisa, Os roubos na estrada diminuiram,  certo, mas h sempre um risco, Se h perigo para mim, tambm o haver para si, Em primeiro lugar, sou homem, em segundo lugar, no estou grvido, Respeitveis razes que s lhe ficam bem, Falta ainda a terceira razo, que  a importante, Diga, No poderia trabalhar enquanto no regressasses, por isso o trabalho no ser prejudicado, alm disso a viagem vai servir-me para espairecer a cabea, que bem precisada est, s consigo pensar em moldes, tacelos e caldas, Tambm servir para me espairecer a mim, portanto iremos ambos buscar o Maral, o Achado fica a guardar o castelo, Se  assim que queres, Deixe l, estava a brincar consigo, o pai costuma ir buscar o Maral, eu costumo ficar em casa, viva pois o costume, A srio, vamos, A srio, v. Sorriram os dois e o debate da questo central, isto , as razes objectivas e subjectivas do costume, ficou adiado.  tarde, chegada a hora, e sem ter mudado a roupa de trabalho para no perder tempo, Cipriano Algor meteu-se a caminho. Quando j ia a sair da povoao deu por que no tinha virado a cabea ao passar diante da rua onde mora a Isaura Madruga, e quando aqui se diz virar a cabea, tanto se entende para um lado como para o outro, pois


Cipriano Algor, em dias passados, umas vezes tinha olhado para ver se via, outras vezes para onde tinha a certeza de que no veria. Passou-lhe pela ideia perguntar a si mesmo como interpretava a desconcertante indiferena, mas uma pedra que estava no meio da estrada distraiu-o, e a ocasio perdeu-se. A viagem para a cidade decorreu sem dificuldades, s teve de sofrer um atraso causado por uma barragem da polcia que fazia parar um carro sim um carro no a fim de examinar os documentos dos condutores. Enquanto esperava que lhos devolvessem, Cipriano Algor teve tempo de observar que a linha de limite das barracas parecia ter-se deslocado um pouco em direco  estrada, Qualquer dia tornam a empurr-los l para trs, pensou.
Maral j estava  espera. Desculpa ter-me atrasado, disse o sogro, devia ter sado mais cedo de casa, e logo a polcia quis meter o nariz na papelada, Como est a Marta, perguntou Maral, ontem no pude telefonar, Acho que est bem, em todo o caso deverias falar-lhe, anda a comer pouco, sem apetite, ela diz que nas mulheres grvidas  normal, pode ser que seja, dessas coisas no entendo, mas se eu fosse a ti, no me fiava, Falarei, descanse, se calhar est assim por ser o princpio da gravidez, No sabemos nada, diante destas coisas somos como uma criana perdida, tens  de lev-la ao mdico. Maral no' respondeu. O sogro calou-se. O mais certo era estarem os dois a pensar o mesmo, que no hospital do Centro a observariam como em nenhum outro lugar, pelo menos  o que proclama a voz corrente, alis, sendo mulher de um empregado, nem  condio residir l para ser competentemente atendida. Passado um minuto, Cipriano Algor disse, Quando quiseres eu trago a Marta. Tinham sado da cidade, podiam circular mais depressa. Maral perguntou, Como vai o trabalho, Ainda estamos no princpio, j cozemos as estatuetas que tnhamos modelado, agora estou s voltas com os moldes, E que tal, A gente ilude-se, julga que todo o barro  barro, que quem faz uma coisa faz outra, e depois percebe que no  assim, que temos de aprender tudo desde o princpio. Fez uma pausa, para depois acrescentar, Mas estou contente,  um bocado como se estivesse a tentar nascer outra vez, descontando o exagero, Amanh dou-lhe uma ajuda, disse Maral, sei menos que pouco, mas para alguma coisa hei-de servir, No, vais estar  com a tua mulher, saiam, vo dar uma volta por a, Uma volta, no, mas amanh teremos de ir almoar a casa dos meus pais, eles ainda no sabem que a Marta est grvida, qualquer dia comea-se a notar, imagine o que eu teria de ouvir, E com razo, h que ser justo, disse Cipriano Algor. Outro silncio. O tempo est bom, observou Maral, Oxal se aguente assim duas ou trs semanas, disse o sogro, os bonecos tm de ir para o forno o mais secos que se puder. Novo silncio, este demorado. A polcia j tinha levantado a barragem, a estrada estava livre. Por duas vezes Cipriano Algor fez meno de ir falar,  terceira falou mesmo, H alguma novidade sobre a tua promoo, perguntou, Nada, por enquanto, respondeu Maral, Crs que tero mudado de ideias, No, trata-se apenas de uma questo de trmites, o aparelho burocrtico do Centro  to coca-bichinhos como o deste mundo c fora, Com patrulhas da polcia a verificar cartas de conduo, aplices de seguro e certificados de sade,  mais ou menos isso, Parece que no sabemos viver doutra maneira, Talvez no haja outra maneira de viver, O que talvez seja  demasiado tarde para haver outra maneira. No voltaram a falar at entrarem na povoao. Maral pediu ao sogro que parasse  porta da casa dos pais,  s o tempo de os avisar de que viremos almoar amanh. A espera, de facto, no foi longa, mas, uma vez mais, Maral no parecia satisfeito quando entrou na furgoneta, O que foi que se passou agora, perguntou Cipriano Algor, O que se passou  que tudo me anda a sair mal com os meus pais, No exageres, homem, a vida das famlias nunca foi o que se poderia chamar um mar de rosas, vivemos algumas horas boas, algumas horas ms, e


ainda muita sorte por quase todas serem assim-assim, Entrei, em casa s estava a minha me, o meu pai no tinha chegado, expliquei ao que ia, e para animar a conversa pus um ar ao mesmo tempo solene e alegre para prevenir que lhes faria amanh uma grande surpresa, E depois,  capaz de adivinhar qual foi a resposta da minha me, A tanto no alcanam os meus dotes adivinhatrios, Perguntou-me se a grande surpresa era irem viver comigo para o Centro, E tu, que disseste, Que no, que afinal no valia a pena estar a guardar a surpresa para amanh, ficam j a saber, disse eu, a Marta est grvida, vamos ter um filho, Ficou contente, claro, Ficou, no parava de me abraar e beijar, De que te queixas, ento,  que com eles sempre h-de haver uma nuvem escura no cu, agora  aquela ideia fixa de quererem morar no Centro, Bem sabes que no me importaria de ceder o meu lugar, Nem pense, isso est fora de questo, e no  porque eu troque os pais pelo sogro, mas porque os pais tm-se um ao outro, ao passo que o sogro iria ficar sozinho, No seria a nica pessoa neste mundo a viver s, Para a Marta, sim, garanto-lhe que o iria ser, Deixas-me sem saber como responder, H coisas que so tanto aquilo que so, que no precisam que as expliquemos. Perante uma to categrica manifestao de sabedoria bsica, o oleiro achou-se pela segunda vez sem resposta. Outro motivo teria contribudo tambm para a repentina mudeza, a circunstncia de estarem a passar, nesse preciso instante, em frente da rua da Isaura Madruga, facto a que a conscincia de Cipriano Algor, ao contrrio do que tinha sucedido na viagem de ida, no encontrou maneira de ficar indiferente. Quando chegaram  olaria, Maral teve o prazer inesperado de ver-se recebido pelo Achado como se em lugar do seu intimidador uniforme de guarda do Centro levasse postas em cima as mais pacficas e paisanas de todas as vestimentas. Ao sensvel corao do moo, ainda sofrido da mal sucedida conversao com a progenitora, tanto o comoveram as efusivas demonstraes do animal, que se abraou a ele como  pessoa a quem mais amasse. So momentos especiais, no ser preciso lembrar que a pessoa a quem Maral mais ama na vida  a sua mulher, esta que ao lado dele espera com um terno sorriso a sua vez de ser abraada, mas assim como h ocasies em que uma simples mo no ombro quase nos faz derreter em lgrimas, tambm pode acontecer que a alegria desinteressada de um co nos reconcilie por um minuto breve com as dores, as decepes e os desgostos que o mundo nos causou. Como o Achado sabe pouco de sentimentos humanos, cuja existncia, tanto no positivo quanto no negativo, se encontra satisfatoriamente provada, e Maral menos ainda de sentimentos caninos, sobre os quais so poucas as certezas e mirades as dvidas, algum ter de explicar-nos um dia por que diabo de razes, compreensveis a um lado e a outro, estiveram estes dois aqui abraados, quando nem sequer  mesma espcie pertencem. Como a fabricao de moldes era na olaria uma novidade absoluta, Cipriano Algor no poderia furtar-se a mostrar ao genro o que nestes dias havia feito, mas o seu amor-prprio, que j o levara a recusar a ajuda da filha, sofria com a ideia de que ele se poderia aperceber de algum erro, de alguma inpcia mal emendada, de qualquer dos inmeros sinais que facilmente denunciariam a agonia mental em que tinha vivido no interior daquelas quatro paredes. Embora Maral estivesse demasiado ocupado com Marta para prestar ateno a barros, silicatos de sdio, gessos, cofragens e moldes, o oleiro decidiu no trabalhar depois da ceia, fazer-lhes companhia ao sero, o que acabou por dar-lhe campo para discorrer com bastante exactido terica sobre uma matria em que, melhor do que ningum, sabia at que ponto e com que desastrosas consequncias lhe tinha falhado a prtica. Maral avisou Marta de que no dia seguinte almoariam com os pais, mas nem ao de leve tocou no penoso dilogo que havia travado Com a me, com o que dava a pensar ao sogro que se tratava de um assunto que passara ao foro privado, um problema para


analisar na intimidade do quarto do casal, no para repisar e esnuar numa conversa a trs, salvo se, com a mais louvvel das prudncias, o que Maral pretendeu foi simplesmente evitar que se casse outra e outra vez no debate sobre a espinhosa questo da mudana para o Centro, avonde temos visto como comea, avonde temos visto como costuma terminar.
Na manh seguinte, j Cipriano Algor estava entregue ao seu labor, Maral entrou na olaria, Bons dias, disse, apresenta-se o praticante. Marta vinha com ele, mas no se ofereceu para trabalhar, ainda que estivesse segura de que o pai no a mandaria embora desta vez. A olaria era como um campo de batalha onde uma s pessoa tivesse andado durante quatro dias a pelejar contra si mesma e contra tudo o que a rodeava. Isto est um bocado desarrumado, desculpou-se Cipriano Algor, no  nada como antes, quando fazamos loua tnhamos uma norma, uma rotina estabelecida,  apenas uma questo de tempo, disse Marta, com o tempo as mos e as coisas acabam por se habituar umas s outras, a partir desse dia nem as coisas atrapalham nem as mos se deixam atrapalhar,  noite sinto-me to cansado que me caem os braos s de pensar que deveria pr uma arrumao neste caos, Com todo o gosto me encarregaria eu da tarefa se no estivesse proibida de aqui entrar, disse Marta, No te proibi, protestou o pai, Com essas precisas e exactas palavras, no,  que no quero que te canses, quando for o momento de comear a pintar ser diferente, trabalhars sentada, no ters de fazer esforos, Vamos a ver se nessa altura no se lembrar de me dizer que o cheiro das tintas prejudica a criana, Est visto que com esta mulher no  possvel conversar, disse Cipriano Algor para Maral como quem se resignou a pedir ajuda, Conhece-a h mais tempo do que eu, aguente-se, mas l que isto est a precisar de uma limpeza a srio e de uma arrumao capaz, no h dvida, Posso ter uma ideia, perguntou Marta, autorizam-me os senhores a ter uma ideia, J a tiveste, rebentarias se no a deitasses c para fora, resmungou o pai. Qual , perguntou Maral, Esta manh o barro descansa, vamos pr tudo isto em condies decentes, e como o meu querido pai no quer que me canse a trabalhar, darei eu as ordens. Cipriano Algor e Maral olharam um para o outro, a ver qual deles falava primeiro, e como nem um nem outro se decidiam a tomar a palavra, acabaram por dizer em coro, Pois sim. Antes da hora de Maral e Marta terem de sair para o almoo, a olaria e tudo quanto nela se continha estava to limpo e asseado quanto se poderia esperar de um lugar de trabalho em que a lama  a matria-prima do produto fabricado. Em verdade, se juntarmos e misturarmos gua e barro, ou gua e gesso, ou gua e cimento, poderemos dar as voltas que quisermos  imaginao para lhes inventar um nome menos grosseiro, menos prosaico, menos ordinrio, mas sempre, mais cedo ou mais tarde, acabaremos por ir  palavra justa,  palavra que diz o que h para dizer, lama. Muitos deuses, dos mais conhecidos, no quiseram outro material para as suas criaes, mas  duvidoso se essa preferncia representa hoje para a lama um ponto a favor ou um ponto contra.
Marta deixou preparado o almoo do pai,  s aquecer, disse ao sair com Maral. O rudo fraco do motor da furgoneta diminuiu e desvaneceu-se rapidamente, o silncio tomou conta da casa e da olaria, durante um pouco mais de uma hora Cipriano Algor ir estar sozinho. Aliviado da excitao nervosa dos ltimos tempos, no tardou muito a notar que o estmago comeava a dar-lhe sinais de insatisfao. Foi levar primeiro a comida ao Achado, depois entrou na cozinha, destapou o tacho e cheirou. Cheirava bem e ainda estava quente. No havia nenhuma razo para esperar. Quando acabou de comer, j sentado na sua cadeira de repouso, sentiu-se em paz.  por de mais conhecido que o contentamento do esprito no  de todo insensvel a uma alimentao suficiente do corpo, porm, se neste momento Cipriano Algor se sentia em paz, se experimentava uma espcie de transporte quase jubiloso em todo o seu ser,


no era apenas devido ao facto material de haver comido. Pela ordem, contribuam tambm para esse venturoso estado de nimo o seu inegvel avano no domnio das tcnicas de moldagem, a esperana de que a partir de agora se acabem a valer os problemas ou passem a mostrar-se menos intratveis, o excelente entendimento de Marta e Maral, que, como  costume dizer-se, entra pelos olhos dentro de qualquer, e, finalmente, mas no de menor importncia, a limpeza a fundo da olaria. As plpebras de Cipriano Algor desceram devagar, ergueram-se ainda uma vez, depois outra com maior esforo, a terceira no passou de uma tentativa inteiramente desprovida de convico. Com a alma e o estmago em estado de plenitude, Cipriano Algor deixou-se deslizar para o sono. L fora,  sombra da amoreira-preta, o Achado tambm dormia. Poderiam ficar assim at ao regresso de Maral e Marta, mas de repente o co ladrou. O tom no era de ameaa nem de susto, no passava de um alerta convencional, um quem vem l por dever de cargo, Embora conhea a pessoa que acaba de chegar, tenho de ladrar porque  isso o que se espera que eu faa. No foram, no entanto, os latidos desenfadados do Achado que acordaram Cipriano Algor, mas sim uma voz, uma voz de mulher que l fora chamava, Marta, e logo perguntava, Marta, ests em casa. O oleiro no se levantou da cadeira, apenas endireitou o corpo, como se estivesse a preparar-se para fugir. O co j no ladrava. A porta da cozinha estava aberta, a mulher vinha a, aproximava-se cada vez mais, ia aparecer, se este novo encontro no  efeito de um acaso fortuito, de uma mera e casual coincidncia, se estava previsto e registado no livro dos destinos, nem mesmo um terremoto lhe poder impedir o caminho. Abanando o rabo, o Achado foi o primeiro a entrar, logo apareceu Isaura Madruga. Ah, fez ela, surpreendida. No foi fcil a Cipriano Algor levantar-se, a cadeira baixa e as pernas subitamente frouxas tiveram a culpa da figura triste que sabia estar a fazer. Disse ele, Boas tardes. Disse ela, Boas tardes, bons dias, nem sei bem a hora que . Disse ele, J passa do meio-dia. Disse ela, Pensei que fosse mais cedo. Disse ele, A Marta no est, mas faa o favor de entrar. Disse ela, No quero incomod-lo, venho noutra altura, o que me trazia c no tem urgncia. Disse ele, Foi com o Maral almoar a casa dos sogros, no se deve demorar. Disse ela, S vinha para dizer  Marta que consegui arranjar trabalho. Disse ele, Arranjou trabalho onde. Disse ela, Aqui mesmo, na povoao, felizmente. Disse ele, E em que  que vai trabalhar. Disse ela, Numa loja, a atender ao balco, podia ser pior. Disse ele, Gosta desse trabalho. Disse ela, Na vida nem sempre podemos fazer aquilo de que gostamos, o principal, para mim, era ficar c, a isto no respondeu Cipriano Algor, ficou calado, confundido pelas perguntas que, quase sem pensar, lhe tinham sado da boca, salta  vista de qualquer que se uma pessoa pergunta  porque quer saber, e se quis saber  porque algum motivo teve para isso, agora a questo de princpio que Cipriano Algor tem para deslindar na desordem dos seus sentimentos  o motivo de perguntas que, entendidas literalmente, e no se v que possa existir neste caso outro modo de entend-las, demonstram um interesse pela vida e pelo futuro desta mulher que excede em muito o que seria natural esperar de um bom vizinho, interesse esse, por outro lado, como por de mais o sabemos, em contradio radical e inconcilivel com decises e pensamentos que, ao longo destas pginas, o mesmo Cipriano Algor tem vindo a tomar e a produzir em relao a Isaura, primeiro Estudiosa e actualmente Madruga. O problema  srio e exigiria uma extensa e aturada reflexo, mas a lgica ordenativa e a disciplina do relato, ainda que uma vez ou outra possam ser desrespeitadas, ou at, quando assim convenha, o devam ser, no nos permitem que deixemos por mais tempo Isaura Madruga e Cipriano Algor nesta aflitiva situao, constrangidos, calados um diante do outro, com um co que olha para eles e no compreende o que se passa, com um relgio de parede que


dever estar a perguntar-se, no seu tiquetaque, para que querero estes dois o tempo se no o aproveitam.  preciso, portanto, fazer alguma coisa. Sim, fazer alguma coisa, mas no qualquer coisa. Poderemos e deveremos faltar ao respeito  lgica ordenativa e  disciplina do relato, mas nunca por nunca quilo que constitui o carcter exclusivo e essencial de uma pessoa, isto , a sua personalidade, o seu modo de ser, a sua prpria e inconfundvel feio. Admitem-se na personagem todas as contradies, mas nenhuma incoerencia, e neste ponto insistimos particularmente porque, ao contrrio do que soem preceituar os dicionrios, incoerncia e contradio no so sinnimos.  no interior da sua prpria coerncia que uma pessoa ou uma personagem se vo contradizendo, ao passo que a incoerncia, por ser, bem mais do que a contradio, uma constante de comportamento, repele de si a contradio, elimina-a, no se entende a viver com ela. Deste ponto de vista, ainda que arriscando-nos a cair nas teias paralisadoras do paradoxo, no deveria ser excluda a hiptese de a contradio ser, afinal, e precisamente, um dos mais coerentes contrrios da incoerncia. Ai de ns, estas especulaes, qui no de todo desfalcadas de interesse para aqueles que no se satisfaam com o aspecto superficial e consuetudinrio dos conceitos, distraram-nos ainda mais da difcil situao em que havamos deixado Cipriano Algor e Isaura Madruga, agora a ss um com o outro, porquanto o Achado, percebendo que ali no se atava nem desatava, teve por bem afastar-se e regressar  sombra da amoreira-preta para prosseguir o sono interrompido.  pois tempo de procurar uma soluo para este inadmissvel estado de coisas, fazendo, por exemplo, com que Isaura Madruga, mais resoluta pelo facto de ser mulher, pronuncie umas poucas palavras s para ver no que d, serviro estas to bem como outras, Bom, ento c vou, muitas vezes no  preciso mais, basta romper o silncio, mover ligeiramente o corpo como quem faz meno de retirar-se, pelo menos neste caso foi remdio abenoado, embora ao oleiro Cipriano Algor, lamentavelmente, no lhe tivesse ocorrido depois nada melhor do que deixar sair uma pergunta que mais tarde o ir fazer dar murros na prpria cabea, julgue cada um de ns se ter sido caso para tanto, Que notcias me d do nosso cntaro, perguntou ele, continua a prestar bom servio. Cipriano Algor infligir-se- os murros como castigo do que considerou uma estupidez sem perdo, mas esperemos que mais tarde, quando lhe passar a fria autopunitiva, recorde que Isaura Madruga no soltou uma insultante gargalhada de troa, no se riu despiedosamente, no sorriu sequer aquele minimo sorriso de ironia que a situao parecia estar a pedir, e que, pelo contrrio, se ps muito sria, cruzou os braos sobre o peito como se estivesse ainda a abraar o cntaro, esse a que Cipriano Algor, sem se dar conta do deslize verbal, tinha chamado nosso, talvez logo  noite, enquanto o sono no chega, esta palavra o interrogue sobre que inteno efectiva tinha ele tido quando a disse, se o cntaro era nosso s porque um dia tinha passado de uma mo  outra e porque dele se falava naquele momento, ou nosso por nosso ser, nosso sem rodeios, nosso apenas, nosso de ns dois, nosso e ponto final. Cipriano Algor no responder, resmungar como doutras vezes, Que estupidez, mas f-lo- de maneira automtica, em tom assaz veemente, decerto, mas sem real convico. Agora que Isaura Madruga j se retirou depois de ter dito num murmrio At qualquer dia, agora que saiu por aquela porta como uma sombra subtil, agora que o Achado, depois de lhe ter feito companhia at ao princpio da rampa que leva  estrada, acaba de entrar na cozinha com uma expresso claramente interrogativa na inclinao da cabea, no meneio da cauda e no levantar das orelhas,  que Cipriano Algor se apercebeu de que nenhuma palavra tinha respondido  sua pergunta, nem um sim, nem um no, apenas aquele gesto de abraar o prprio corpo, talvez para encontrar-se nele, talvez para o defender ou dele se defender. Cipriano Algor olhou em


redor perplexo, como se estivesse perdido, tinha as mos hmidas, o corao disparado no peito, a ansiedade de quem acaba de escapar a um perigo de cuja gravidade no chegou a ter uma noo clara. E ento deu o primeiro murro na cabea.
Quando Marta e Maral regressaram do almoo, foram encontr-lo na olaria, a deitar gesso lquido para um molde, Passou por c bem sem ns, perguntou Marta, No cheguei a morrer de saudades, se era isso que querias dizer, dei de comer ao co, almocei, descansei um pouco, e aqui estou outra vez, e l por casa, como correram as coisas, Nada de especial, disse Maral, como eu j lhes tinha dito de Marta, no houve grandes festas, os beijos e os abraos que so da praxe nestas ocasies, do resto no se falou, Melhor assim, disse Cipriano Algor, e continuou a verter a calda de gesso para dentro do molde. Tremiam-lhe um pouco as mos. J o venho ajudar, vou mudar de roupa, disse Maral. Marta no seguiu o marido. Um minuto depois, Cipriano Algor, sem olhar para ela, perguntou, Queres alguma coisa, No, no quero nada, estava apenas a ver o seu trabalho. Outro minuto passou, e foi a vez de Marta perguntar, No se sente bem, Claro que me sinto bem, Acho-o estranho, diferente, Isso  dos teus olhos, Em geral, os meus olhos esto de acordo comigo, Tens sorte, eu nunca sei com quem estou de acordo, respondeu o pai secamente. Maral no poderia demorar-se muito. Marta voltou a perguntar, Passou-se alguma coisa na nossa ausncia. O pai largou o balde no cho, limpou as mos a um trapo, e respondeu olhando a filha a direito, Apareceu a a Isaura, essa Estudiosa, ou Madruga, ou l como se chame, vinha para falar contigo, A Isaura veio c, Em mais palavras, creio ter sido o que acabei de dizer, Nem todos temos as suas capacidades analticas, e que queria ela, se se pode saber, Dar-te a notcia de que tinha encontrado trabalho, Onde, Aqui, Fico contente, fico muito contente, logo mais vou a casa dela. Cipriano Algor tinha passado a ocupar-se doutro molde, Pai, comeou a dizer Marta, mas ele interrompeu-a, Se  sobre este assunto, peo-te que no continues, o que me pediram que te transmitisse j o sabes, sobram quaisquer outras palavras, s sementes tambm as enterram, e elas acabam por nascer, desculpe se o assunto  o mesmo. Cipriano Algor no respondeu. Entre a sada da filha e o regresso do genro daria outro murro na cabea.


Que muitos dos mitos antropogenticos no prescindiram do barro na criao material do homem,  um facto j mencionado aqui e ao alcance de qualquer pessoa medianamente interessada em almanaques eu-sei-tudo e enciclopdias quase-tudo. No ser este, regra geral, o caso dos crentes das diferentes religies, uma vez que  pelas vias orgnicas da igreja de que fazem parte que eles recebem e incorporam aquela e muitas outras informaes de igual ou similar importncia. H no entanto um caso, um caso pelo menos, em que o barro precisou de ir ao forno para que a obra fosse considerada acabada. E mesmo assim depois de tentativas. Este singular criador a que nos estamos referindo e cujo nome esquecemos ignoraria provavelmente, ou no teria suficiente confiana na eficcia taumatrgica do sopro nas narinas a que um outro criador recorreu antes ou viria a recorrer depois, como nos nossos dias, alis, o fez tambm Cipriano Algor, embora sem mais inteno que a modestssima de limpar de cinzas a cara da enfermeira. Voltando, porm, ao tal criador que precisou de levar o homem ao forno, o episdio passou-se da maneira que vamos passar a explicar, por onde se ver que as frustradas tentativas a que nos referimos resultaram do insuficiente conhecimento que o dito criador tinha das temperaturas de cozedura. Comeou ele por fazer com barro uma figura humana, de homem ou de mulher  pormenor de somenos, meteu-a no forno e atiou-lhe o necessrio lume. Passado o tempo que lhe pareceu cer


to, tirou-a de l, e, meu Deus, caiu-lhe a alma aos ps. A figura tinha sado negra retinta, nada parecida com a ideia que ele tinha do que deveria ser o seu homem. No entanto, talvez porque ainda estava em comeo de actividade, no teve nimo de destruir o falhado produto da sua falta de jeito. Deu-lhe vida, supe-se que com um piparote na cabea, e mandou-o embora. Tornou a modelar outra figura, meteu-a no forno, mas desta vez teve o cuidado de se acautelar com o lume. Conseguiu-o, sim, mas demasiado, pois a figura apareceu-lhe branca como a mais branca de todas as coisas brancas. Ainda no era o que ele queria. Contudo, apesar do novo falhano, no perdeu a pacincia, deve mesmo ter pensado, indulgente, Coitado, a culpa no foi dele, enfim, deu tambm vida a este e p-lo a andar. No mundo havia j portanto um preto e um branco, mas o canhestro criador ainda no tinha logrado a criatura que sonhara. Ps uma vez mais mos  obra, outra figura humana foi ocupar lugar no forno, o problema, mesmo no existindo ainda o pirmetro, devia ser mais fcil de solucionar a partir d agora, isto , o segredo era no aquecer o forno nem de mais nem de menos, nem tanto nem to pouco, e, sendo esta conta de trs, deveria ser de vez. No foi.  certo que a nova figura no saiu preta,  certo que no saiu branca, mas, oh cus, saiu amarela. Outro qualquer talvez tivesse desistido, teria despachado  pressa um dilvio para acabar com o preto e o branco teria partido o pescoo ao amarelo, o que at se poderia con siderar como a concluso lgica do pensamento que lhe passou pela mente em forma de pergunta, Se eu prprio no sei fazer um homem capaz, como poderei amanh pedir-lhe contas dos seus erros. Durante uns quantos dias o nosso improvisado oleiro no teve coragem de entrar na olaria, mas depois como se costuma dizer, o bichinho da criao tornou a entrar com ele e ao cabo de algumas horas a quarta figura estaVa modelada e pronta a ir ao forno. Na suposio de que ento houvesse acima deste criador outro criador,  muito provvel que do menor ao maior se tivesse elevado algo assim como um rogo, uma prece, uma splica, qualquer coisa no gnero, No me deixes ficar mal. Enfim, com mos ansiosas introduziu a figura de barro no forno, depois escolheu com mincias e pesou a quantidade de lenha que lhe pareceu conveniente, eliminou a verde e a demasiado seca, tirou de uma que ardia mal e sem graa, acrescentou de outra que dava uma chama alegre, calculou com a aproximao possvel o tempo e a intensidade do calor, e, repetindo a implorao, No me deixes ficar mal, chegou um fsforo ao combustivo. Ns, humanos de agora, que temos passado por tantas situaes de ansiedade, um exame difcil, uma namorada que faltou ao encontro, um filho que se fazia esperar, um emprego que nos foi negado, podemos imaginar o que este criador teria sofrido enquanto aguardava o resultado da sua quarta tentativa, os suores que provavelmente s a proximidade do forno impediu que fossem gelados, as unhas rodas at ao sabugo, cada minuto que ia passando levava consigo dez anos de existncia, pela primeira vez na histria das diversas criaes do universo mundo ficou o prprio criador a conhecer os tormentos que nos aguardam na vida eterna, por eterna ser, no por ser vida. Mas valeu a pena. Quando o nosso criador abriu a porta do forno e viu o que l se encontrava dentro, caiu de joelhos extasiado. Este homem j no era nem preto, nem branco, nem amarelo, era, sim, vermelho, vermelho como so vermelhos a aurora e o poente, vermelho como a gnea lava dos vulces, vermelho como o fogo que o havia feito vermelho, vermelho como o mesmo sangue que j lhe estava correndo nas veias, porque a esta humana figura, por ser a desejada, no foi preciso dar-lhe o piparote na cabea, bastou ter-lhe dito, Vem, e ela por seu prprio p saiu do forno. Quem desconhea o que se passou nas posteriores idades, dir que, no obstante tal cpia de erros e ansiedades, ou, pela virtude instrutiva e educativa da experimentao, graas a eles, a histria acabou por ter um final feliz. Como em todas as coisas


deste mundo, e certamente de todos os outros, o juzo depender do ponto de vista do observador. Aqueles a quem o criador rejeitou, aqueles a quem, embora com benevolncia de agradecer, afastou de si, isto , os de pele preta, branca e amarela, prosperaram em nmero, multiplicaram-se, cobrem, por assim dizer, todo o orbe terrqueo, ao passo que os de pele vermelha, aqueles por quem se tinha esforado tanto e por quem sofrera um mar de penas e angstias, so, nestes dias de hoje, as evidncias impotentes de como um triunfo pde vir a transformar-se, passado tempo, no preldio enganador de uma derrota. A quarta e ltima tentativa do primeiro criador de homens que levou as suas criaturas ao forno, essa que aparentemente, lhe trouxe a vitria definitiva, veio a ser, afinal, a do definitivo desbarato. Cipriano Algor, tambm leitor assduo de almanaques e enciclopdias eu-sei-tudo ou quase-tudo, havia lido esta histria quando era ainda rapaz e, tendo esquecido tanta coisa na vida, desta no se esqueceu, v l saber-se porqu. Era uma lenda ndia, dos chamados peles-vermelhas, para sermos mais exactos, com a qual os remotos criadores do mito deviam, ter pretendido provar a superioridade da sua raa sobre quaisquer outras, incluindo aquelas de cuja efectiva existncia no tinham ento notcia. Sobre este ltimo ponto, antecipe-se a objeco, seria vo e intil o argumento de que, uma vez que eles no tinham conhecimento doutras raas, tambm no as poderiam ter imaginado brancas, ou pretas, ou amarelas, ou furta-cores. Puro engano. Quem assim argumentasse s demonstraria ignorar que estamos a lidar aqui com um povo de oleiros, de caadores tambm, a quem o penoso trabalho de transformar o barro numa vasilha ou num dolo havia ensinado que dentro de um forno todas as coisas podem suceder, tanto o desastre como a glria, tanto a perfeio como a misria, tanto o sublime como o grotesco. Quantas e quantas vezes, durante quantas geraes, teriam tido eles que retirar do forno peas torcidas, rachadas, feitas em carvo, cruas ou meio-cruas, todas inservveis. Em verdade, no existe uma grande diferena entre o que se passa no interior de um forno de olaria e de um forno de padaria. A massa de po no  mais do que um barro diferente, feito de farinha, fermento e gua, e, tal como o outro, vai sair cozido do forno, ou cru, ou queimado. L dentro talvez no haja diferena, desabafava Cipriano Algor, mas, c fora, garanto que nesta altura daria tudo para ser padeiro.
Os dias e as noites sucediam-se, e as tardes e as manhs.  dos livros e da vida que os trabalhos dos homens sempre foram mais longos e pesados que os dos deuses, veja-se o caso j falado do criador dos peles-vermelhas que, ao todo, no fez mais do que quatro imagens humanas, e por este pouco, ainda que com escasso xito de pblico interessado, teve entrada na histria dos almanaques, ao passo que Cipriano Algor, a quem certamente no esperam as retribuies de um registo biogrfico e curricular em letra de forma, ter de desentranhar das profundezas do barro, s nesta primeira fase, cento e cinquenta vezes mais, isto , seiscentos bonecos de origens, caractersticas e situaes sociais diferentes, trs deles, o bobo, o palhao e a enfermeira, mais facilmente definveis tambm pelas actividades que exercem, o que no sucede com o mandarim e com o assrio de barbas, que, apesar da razovel informao colhida na enciclopdia, no foi possvel averiguar o que fizeram na vida. Quanto ao esquim, supe-se que continuar a caar e a pescar.  certo que a Cipriano Algor j tanto lhe faz. Quando as estatuetas comearem a sair dos moldes, iguais em tamanho, atenuadas pela uniformidade da cor as diferenas de indumento que as distinguem, precisar de fazer um esforo de ateno para no as confundir e misturar. De to entregado ao trabalho, algumas vezes se esquecer de que os moldes de gesso tm um limite de uso, algo assim como umas quarenta utilizaes, a partir das quais os contornos principiaro a esbater-se, a perder vigor e nitidez, como se a figura se fosse a pouco e pouco cansando de ser, como se estivesse a ser atrada


a um estado original de nudez, no apenas a sua prpria como representao humana, mas a nudez absoluta do barro antes de que a primeira forma expressada de uma ideia o tivesse comeado a vestir. Para no perder tempo, tinha comeado por atirar os bonecos imprestveis para um canto, mas depois, movido por um estranho e inexplicvel sentimento de piedade e de culpa, foi busc-los, deformados e confundidos pela queda e pelo choque a maior parte deles, e arrumou-os cuidadosamente numa prateleira da olaria. Poderia ter voltado a amass-los para lhes conceder uma segunda possibilidade de vida, poderia t-los achatado sem d como quelas duas figuras de homem e mulher que ao princpio modelou, ainda est aqui o barro delas, seco, gretado, informe, e no entanto foi levantar do lixo os mal-formados engendros, protegeu-os, abrigou-os, como se menos quisesse aos seus acertos do que aos erros que no tinha sabido evitar. No levar esses bonecos ao forno, mal empregada seria a lenha que para eles ardesse, mas vai deix-los ficar at que o barro se rache e desagregue, at que os fragmentos se desprendam e caiam, e, se o tempo der para tanto, at que o p que eles sero se transforme de novo em argila ressurrecta. Marta perguntar-lhe-, Que fazem ali aquelas peas defeituosas, ao que ele apenas responder, Gosto deles, no dir Gosto delas, se o tivesse dito expuls-los-ia definitivamente do mundo para que tinham nascido, deixaria de os reconhecer como obra sua para os condenar a uma ltima e definitiva orfandade. Obra sua, e fatigosa obra, tambm so as dezenas de bonecos acabados que todos os dias vo sendo transferidos para as pranchas de secagem, l fora,  sombra da amoreira-preta, mas esses, por serem tantos e mal se distinguirem uns dos outros, no pedem mais cuidados e atenes do que os indispensveis para que no se aleijem  ltima hora. Ao Achado no houve mais remdio que at-lo para que no subisse s pranchas, onde sem nenhuma dvida cometeria o maior estropcio jamais visto na turbulenta histria da olaria, prdiga, como se sabe, em cacos e indesejveis amalgamaes. Recordemos que quando os primeiros seis bonecos, os outros, os prottipos, aqui foram postos a secar, e o Achado quis averiguar, por contacto directo, o que aquilo era, o brado e a palmada instantnea de Cipriano Algor bastaram para que o seu instinto de caador, ainda por cima excitado pela insolente imobilidade dos objectos, se retrasse sem chegar a causar danos, mas reconheamos que seria desrazovel esperar agora de um animal destes que resistisse impvido  provocao de uma horda de palhaos e mandarins, de bobos e enfermeiras, de esquims e assrios de barbas, todos malamente disfarados de peles-vermelhas. Durou uma hora a privao de liberdade. Impressionada pela expresso sentida, e mesmo de melindre, com que o Achado se tinha deixado submeter ao castigo, Marta foi dizer ao pai que a educao para alguma coisa ter de servir, mesmo quando se trate de ces, A questo  adaptar os mtodos, declarou, E como vais fazer isso, O primeiro que h que fazer  solt-lo, E depois, Se tentar subir para as pranchas, ata-se outra vez, E depois, Solta-se e ata-se tantas vezes quantas as que forem necessrias, at que aprenda,  primeira vista, pode dar resultado, em todo o caso no te deixes iludir se te parecer que j aprendeu a lio, claro que no se atrever a subir estando tu presente, mas, quando se apanhar sozinho, sem ter ningum a vigi-lo, temo que os teus mtodos educativos no tenham suficiente fora para disciplinar os instintos do av chacal que est  espreita na cabea do Achado, O avzinho chacal do Achado nem sequer se daria ao trabalho de cheirar os bonecos, passaria de largo e continuaria o seu caminho,  procura de algo que realmente pudesse ser comido, Bom, s te peo que penses no que suceder se o co subir para as pranchas, a quantidade de trabalho que vamos perder, Ser muito, ser pouco, logo se ver, mas, se tal acontecer, comprometo-me a refazer os bonecos que ficarem estragados, talvez seja essa a maneira de o convencer a deixar que o ajude, Disso no


falamos, vai l  tua experincia pedaggica. Marta saiu da olaria e, sem dizer uma palavra, soltou a corrente da coleira. Depois, deu uns passos na direco da casa, parou como distrada.
O co olhou-a e deitou-se. Marta avanou mais alguns passos, parou outra vez, e logo, decidida, entrou na cozinha, deixando a porta aberta. O co no se moveu. Marta fechou a porta.
O co esperou um pouco, depois levantou-se e, devagar, foi-se aproximando das pranchas. Marta no abriu a porta. O co olhou na direco da casa, hesitou, tornou a olhar, depois assentou as patas no bordo da prancha onde estavam a secar os assrios de barbas. Marta abriu a porta e saiu. O co baixou rapidamente as patas e ficou parado no mesmo stio,  espera. No tinha motivos para fugir, no o acusava a conscincia de ter feito algum mal. Marta agarrou-o pela coleira e, novamente sem pronunciar palavra, foi prend-lo  corrente. Depois tornou a entrar na cozinha e fechou a porta. A sua aposta era que o co tivesse ficado a pensar no que sucedera, a pensar, ou l o que seja que ele costuma fazer numa situao destas. Passados dois minutos, foi libert-lo outra vez da corrente, convinha no dar ao animal tempo para esquecer-se, a relao entre a causa e o efeito tinha de ser instalada na sua memria. O co demorou mais tempo a pr as patas na prancha, mas por fim resolveu-se, dir-se-ia que com menos convico do que antes. Da a pouco estava novamente atado. A partir da quarta vez comeou a dar sinais de perceber o que se pretendia dele, mas continuava a subir as patas  prancha, como para acabar de ter a certeza de que no as deveria l pr. Durante todo este atar e desatar, Marta no havia proferido uma nica palavra, entrava e saa da cozinha, fechava e abria a porta, a cada movimento do co, o mesmo sempre, respondia com o seu prprio movimento, sempre o mesmo, numa cadeia de aces sucessivas e recprocas que s terminaria quando um deles, graas a um movimento distinto, rompesse a sequncia. Na oitava vez que Marta fechou atrs de si a porta da cozinha, Achado avanou de novo para as pranchas, mas, chegado l, no levantou as patas para fingir que queria alcanar os assrios de barbas, ficou a olhar para a casa, imvel, esperando, como se estivesse a desafiar a dona a ser mais ousada do que ele, como se lhe perguntasse Que resposta tens tu agora para contrapor a esta genial jogada minha, a que me vai dar a vitria, e a ti te derrotar. Marta murmurava, satisfeita consigo mesma, Ganhei, tinha a certeza absoluta de que ganharia. Foi para o co, fez-lhe umas festas na cabea, disse gentilmente, Achado bonito, Achado simptico, o pai tinha vindo  porta da olaria assistir ao feliz desenlace, Muito bem, s falta saber se  definitivo, Ponho as mos no fogo em como nunca subir s pranchas, disse Marta. So pouqussimas as palavras humanas que os ces conseguem incorporar no seu vocabulrio prprio de rosnidos e latidos, s por isso, por no as entender,  que o Achado no protestou contra a irresponsvel satisfao de que os seus donos estavam a dar mostras, porquanto qualquer pessoa competente nestas matrias e capaz de apreciar de maneira isenta o que aqui se passou, diria que o vencedor da contenda no foi Marta, a dona, por muito convencida que disso esteja, mas sim o co, embora tambm devamos reconhecer que diriam precisamente o contrrio aquelas pessoas que s pelas aparncias sabem julgar. Gabe-se pois cada um da vitria que sups ter alcanado, at mesmo os assrios de barbas e os seus colegas, felizmente a salvo de agresses. Quanto ao Achado, no nos resignaremos a deix-lo por a com uma injusta reputao de perdedor. A prova provada de que a vitria foi sua  o facto de ele se ter convertido, a partir daquele dia, no mais cuidadoso dos guardies que alguma vez protegeram manipanos de barro. Valia a pena t-lo ouvido ladrar a chamar os donos quando um inesperado golpe de vento deitou abaixo meia dzia de enfermeiras.
A primeira fornada foi de trezentas estatuetas, ou melhor, de trezentas e cinquenta, j a contar com a probabilidade de estragos. No cabiam mais. Calhou coincidir com o dia de


descanso de Maral, calhou portanto ser para Maral um duro dia de trabalho. Paciente, prestvel, ajudou o sogro a arrumar os bonecos nas prateleiras interiores, encarregou-se da alimentao do forno, tarefa para gente robusta, tanto pelo esforo fsico de transportar e introduzir a lenha na fornalha como pelas horas que tinha de durar, pois um forno como este, antigo, rudimentar  luz das novas tecnologias, necessita bastante tempo para atingir a temperatura ptima de cozedura, sem esquecer que, depois de se l ter chegado, ser preciso mant-la o mais possvel estvel. Maral vai trabalhar pela noite dentro, at  hora em que o sogro, terminada a obra que se impos a si mesmo apressar na olaria, possa vir substitu-lo. Marta levou a ceia ao pai, depois trouxe-a a Maral e, sentados ambos no banco que tem servido para as meditaes, comeu com ele. Nenhum dos dois tinha apetite, cada qual por seus motivos. No te vejo comer, deves estar muito cansado, disse ela, Bastante, sim, perdi o hbito do esforo, por isso custa-me mais, disse ele, A ideia do fabrico destas estatuetas foi minha, Bem o sei, Foi minha, mas nestes ltimos dias tem-me andado a atormentar uma espcie de remorso, a toda a hora me pergunto se ter valido a pena meter-nos a fabricar bonecos, se no ser tudo isto pateticamente intil, Neste momento, o mais importante para o teu pai  o trabalho que faz, no a utilidade que tenha, se lhe tirares o trabalho, qualquer trabalho, tirar-lhe-s, de certa maneira, uma razo de viver, e se lhe disseres que o que ele est a fazer no serve para nada, o mais provvel, mesmo que a evidncia do facto lhe esteja a rebentar os olhos, ser no acreditar, simplesmente por no poder, O Centro deixou de nos comprar a loua e ele conseguiu aguentar o choque, Porque tu tiveste logo a seguir a ideia de fazer os bonecos, Pressinto que esto para chegar dias maus, ainda piores do que estes, A minha passagem a guarda residente, que j no dever tardar, ser um dia mau para o teu pai, Ele disse que viveria connosco no Centro,  verdade, mas disse-o daquela mesma maneira com que todos dizemos que um dia teremos de morrer, h uma parte da nossa mente que se recusa a admitir aquilo que sabe ser destino de todos os seres vivos, faz de conta que no  nada com ela, assim est o teu pai, diz-nos que ir viver connosco, mas, l no fundo,  como se no acreditasse, Como se estivesse  espera de que lhe aparea no ltimo instante um desvio que o leve por outro caminho, Deveria saber que para o Centro s existe um caminho, o que leva do Centro ao Centro, trabalho l, sei do que falo, No falta quem diga que a vida no Centro  um milagre de todas as horas. Maral no respondeu logo. Deu um bocado de carne ao co, que desde o princpio tinha esperado pacientemente que algum resto de comida sobrasse para ele, e s depois respondeu, Sim, tal como ao Achado deveria ter parecido obra de milagre, a estas horas da noite, a carne que acabei de lhe dar. Passou a mo pelo lombo do animal, duas vezes, trs vezes, a primeira por simples e habitual carinho, as outras com insistncia angustiada, como se fosse indispensvel sosseg-lo sem perda de tempo, mas a quem necessitava tranquilizar era a si mesmo, afastar uma ideia que lhe surgira de repente do lugar da memria onde se havia escondido, No Centro no admitem ces.  certo, no admitem ces no Centro, nem gatos, apenas aves de gaiola ou peixes de aqurio, e mesmo estes usam-se cada vez menos desde que foram inventados os aqurios virtuais, sem peixes que tenham cheiro de peixe nem gua que seja preciso mudar. L dentro nadam graciosamente cinquenta exemplares de dez espcies diferentes que, para no morrerem, tero de ser cuidados e alimentados como se fossem seres vivos,  qualidade da gua inexistente h que vigi-la, h tambm que fiscalizar-lhe a temperatura, e, para que nem tudo tenham de ser obrigaes, no s o fundo do aqurio poder ser decorado com vrios tipos de rochas e de plantas, como o feliz possuidor desta maravilha ter ao seu dispor uma gama de sons que lhe permitir, enquanto contempla os seus peixes sem tripas nem espinhas, rodear-se de


ambientes sonoros to diversos como uma praia caribenha, uma selva tropical ou uma tormenta no mar. No Centro no querem ces, pensou novamente Maral, e notou que esta preocupao estava, por instantes, a fazer desaparecer a outra, Falo-lhe nisto, no falo, comeou por inclinar-se para o sim, depois achou que seria prefervel deixar a questo para mais tarde, quando tiver mesmo de ser, quando no houver outro remdio. Tomou pois a deciso de se calar, mas, to verdade  flutuar inconstante a vontade no aqurio virtual da nossa cabea, da a menos de um minuto estava a dizer a Marta, Lembrei-me agora de que no vamos poder levar o Achado para o Centro, no aceitam l ces, vai ser um problema srio, coitado do bicho, ter de o deixar por a ao abandono, Talvez se consiga arranjar uma soluo, disse Marta, Concluo que j tinhas pensado no caso, surpreendeu-se Maral, Sim, tinha pensado, h muito tempo, E essa soluo, qual seria, Pensei que a Isaura no se importaria de tomar conta do Achado, acho at que seria para ela uma grande alegria, alm disso j se conhecem, A Isaura, Sim, a Isaura, aquela do cntaro, recordas-te, a que nos trouxe um bolo, a que veio c para falar comigo na ltima vez que fomos almoar a casa dos teus pais, A ideia parece-me boa, Creio que para o Achado ser a melhor, Falta saber se o teu pai dar o seu acordo, J se sabe que uma metade dele vai protestar, dir que no senhor, que uma mulher sozinha no  boa companhia para um co, imagino que  capaz de nos inventar uma teoria de desafinidades como esta, que com certeza haver outras pessoas que no se importaro de acolher o animal, mas tambm sabemos que a outra metade dele desejar, com todas as foras do desejo, que a primeira no ganhe, Como vo esses amores, perguntou Maral, Pobre Isaura, pobre pai, Por que dizes pobre Isaura, pobre pai, Porque est claro que ela o quer, mas no consegue passar por cima da barreira que ele levantou, E ele, Ele, ele  uma vez mais a histria das duas metades, h uma que provavelmente no pensa seno nisso, E a outra, A outra tem sessenta e quatro anos, a outra tem medo, Realmente, as pessoas so muito complicadas,  verdade, mas se fssemos simples no seramos pessoas. O Achado no estava ali, lembrara-se de sbito de que no havia na casa mais ningum para ir fazer companhia ao dono velho, sozinho l na olaria e j s voltas com os segundos trezentos bonecos da primeira entrega de seiscentos, um co v estas coisas e fazem-lhe uma confuso enorme, percebe-as mas no consegue compreend-las, tanto trabalho, tanto esforo, tanto suor, e agora no estou a referir-me  quantidade de dinheiro que se venha a ganhar no negcio, ser pouco, ser assim-assim, muito no ser certamente,  sobretudo por aquilo que Marta disse ainda h pedao, se no ser tudo isto pateticamente intil. Como j se tinha visto antes, e agora, graas ao extenso e profundo dilogo acontecido entre Marta e Maral, tivemos ocasio de ver confirmado, o banco de pedra justifica amplamente o grave e ponderoso nome que lhe pusemos, o de banco das meditaes, mas eis que a necessidade obriga,  tempo de virar as atenes para o forno, meter-lhe mais lenha pela bocarra da fornalha, com cuidado, porm, Maral, no te esqueas de que a fadiga entorpece os reflexos de defesa, aumenta-lhes o tempo que demoram a actuar, no seja que te salte outra vez l de dentro, como sucedeu naquele malfadado dia, a vbora de fogo uivante que te marcou a mo esquerda para sempre. Foi tambm isto, mais ou menos, o que Marta disse, Vou lavar a loua e deitar-me, tem tu cuidado, Maral.
No dia seguinte, de manh muito cedo, como sempre, Cipriano Algor levou Maral ao Centro na furgoneta . Tinha-lhe dito ao sarem de casa, Nem sei como te agradecer a ajuda que me deste, e Maral respondeu-lhe, Fiz o melhor que sabia, oxal tudo continue a correr bem, Estou convencido de que os prximos bonecos daro menos que fazer, arranjei uns quantos truques para simplificar o trabalho,  a vantagem de ir ganhando experincia, creio que os trezentos da nova fornada


podero estar nas pranchas de secagem em uma semana, Se daqui a dez dias, na prxima folga, j estiverem em condies de ir para o forno, conte comigo, Obrigado, queres que te diga uma coisa, tu e eu, se no fosse esta maldita crise do barro, poderamos formar uma boa parceria, largavas isso de ser guarda do Centro e dedicavas-te  olaria, Poderia ser, mas  tarde para pensar em tal, alis, lembre-se de que se o tivssemos feito, estaramos agora os dois sem trabalho, Eu ainda tenho trabalho, Pois tem. Mais adiante, j na estrada para a cidade, e depois de um longo silncio, Cipriano Algor disse, Tive uma ideia, quero saber o que pensas dela, Diga, Levar ao Centro, logo que estiverem prontos de pintura, estes primeiros trezentos bonecos, assim o Centro veria que estamos a trabalhar a srio, e comearia a vender antes da data prevista, seria bom para eles e ainda melhor para ns, escusvamos de ficar tanto tempo a aguardar os resultados, e, correndo tudo como se espera, poderamos preparar com mais tranquilidade os fabricos futuros, no de afogadilho, como teve de ser desta vez, que tal te parece a ideia, Acho que sim, acho que  uma ideia boa, disse Maral, e nesse momento lembrou-se de que tambm tinha achado boa a ideia de Marta de deixar o co entregue aos cuidados da vizinha do cntaro, Depois de te pr no teu servio vou falar com o chefe do departamento de compras, tenho a certeza de que estar de acordo, disse Cipriano Algor, Oxal, respondeu Maral, e outra vez reparou que repetira uma palavra que havia dito pouco antes,  o que est sempre a acontecer-nos com as palavras, repetimo-las constantemente, mas em alguns casos, no se sabe bem porqu, nota-se mais. Quando a furgoneta entrava na cidade Maral perguntou, Quem vai pintar agora os bonecos, Marta insiste em querer pint-los, argumenta que eu no poderei estar, ao mesmo tempo, a dizer a missa e a tocar o sino, no o disse por estas palavras, mas o sentido era o mesmo, Pai, as tintas intoxicam, Pois intoxicam, E no estado em que Marta se encontra parece-me inconveniente, Eu tratarei da subcapa, uso a pistola,  certo que dispersa a tinta no ar mas compensa pela rapidez, E depois, Depois a pintura passa a ser a pincel, no prejudica, Devia ter-se comprado ao menos uma mscara, Era cara, murmurou Cipriano Algor, como se tivesse vergonha das suas prprias palavras, Se conseguimos arranjar dinheiro para alugar a camioneta que levou do Centro o que restava da loua, tambm se arranjaria o necessrio para comprar a mscara, No pensmos, disse Cipriano Algor, depois emendou, contrito, No pensei. J iam na avenida que levava em linha recta ao Centro, apesar da distncia podiam ler-se as palavras do gigantesco anncio que l estava afixado, VOC  O NOSSO MELHOR CLIENTE, MAS, POR FAVOR, NO O V DIZER AO SEU VIZINHO. Cipriano Algor no fez qualquer comentrio, a Maral surpreendeu-o um pensamento, Divertem-se  nossa custa. Quando a furgoneta parou em frente da porta do servio de segurana, Maral disse, Depois de ter falado com o chefe do departamento passe por aqui, vou ver se lhe consigo uma mscara, Para mim no  preciso, j to disse, e a Marta s se servir dos pincis, Conhece-a to bem como eu, na primeira ocasio apanha-o distrado na olaria e quando der pelo que sucedeu ser tarde, No sei quanto tempo me irei demorar no departamento de compras, pergunto depois aqui por ti@ ou ento entro e procuro-te, No entre, no vale a pena entrar, deixarei a mscara ao meu colega da porta, Como queiras, At daqui a dez dias, At daqui a dez dias, Cuide-me da Marta, pai, Cuidarei, sim, vai descansado, olha que no lhe queres mais do que eu, Se  mais ou se  menos no sei, quero-lhe da outra maneira, Maral, Diga, D-me um abrao, por favor. Quando Maral saiu da furgoneta levava os olhos hmidos. Cipriano Algor no deu nenhum murro na cabea, s disse para si mesmo com um meio sorriso triste, A isto pode chegar um homem, ver-se a implorar um abrao como uma criana carecida de amor. Ps a furgoneta em andamento, deu a volta ao quarteiro, agora mais extenso em consequencia do alargamen


to do Centro, Daqui a pouco tempo j ningum se lembrar do que existia aqui antes, pensou. Quinze minutos mais tarde, estranho como algum que, tendo regressado, aps longa ausncia, a um lugar, nele no encontra mudanas que objectivamente justifiquem esse sentimento, mas que apesar disso no pode furtar-se a ele, descia a rampa do subterrneo. Depois de avisar o guarda da entrada de que viera pedir uma informao, e no para descarregar, arrumou a furgoneta na via lateral. J havia uma fila comprida de camies  espera, alguns deles enormes. Ainda faltavam quase duas horas para que o servio de recepo de mercadorias abrisse. Cipriano Algor acomodou-se no assento e tentou dormir. O ltimo olhar que tinha deitado pela vigia, antes de vir para a cidade, mostrara que o processo de cozedura j havia terminado, agora s tinham que deixar o forno arrefecer a seu gosto, sem pressas, paulatinamente, como quem vai pelo seu prprio p. Para adormecer, ps-se a contar os bonecos como se estivesse a contar carneiros, principiou pelos bobos e contou-os a todos, depois passou aos palhaos e conseguiu lev-los tambm ao fim, cinquenta daqueles, cinquenta destes, pelos que sobejavam, os da proviso para estragos, no se interessou, logo quis passar aos esquims, mas meteram-se-lhe  frente, sem explicao, as enfermeiras e, na luta que teve de travar para as repelir, adormeceu. No era a primeira vez que vinha terminar o seu sono da manh no subterrneo do Centro, no era a primeira vez que o acordava, amplificado e multiplicado pelos ecos, o estrondo dos motores dos camies. Desceu da furgoneta e avanou para o balco de atendimento pessoal, disse quem era, disse que vinha para um esclarecimento, falar com o chefe, se for possvel,  um assunto importante, acrescentou. O empregado que o atendia olhou-o com ar de dvida, era mais do que evidente que no poderiam ser importantes nem o assunto nem a pessoa que estava na sua frente, sada de uma miservel furgoneta que dizia por fora Olaria, por isso respondeu que o chefe estava ocupado, Em reunio, precisou, e ocupado iria continuar toda a manh, que dissesse portanto ao que vinha. O oleiro explicou o que havia a explicar, no se esqueceu, para impressionar o interlocutor, de aludir  conversa telefnica que havia tido com o chefe do departamento, e finalmente ouviu o outro dizer, Vou perguntar a um subchefe. Temeu Cipriano Algor que lhe sasse o malvado que lhe tinha amargado a vida, mas o subchefe que apareceu era educado e atento, concordou que se tratava de uma excelente ideia, Bem lembrado, sim senhor,  bom para vocs e ainda melhor para ns, enquanto vo fabricando a segunda entrega de trezentos e preparando a produo dos restantes seiscentos, quer o faam em duas entregas, como no presente caso, quer de uma s vez, iremos ns observando o acolhimento do pblico comprador, as reaces ao novo produto, os comentrios explcitos e implcitos, dar-nos- at tempo para promovermos uns inquritos, orientados segundo duas vertentes, em primeiro lugar, a situao prvia  compra, isto , o interesse, a apetncia, a vontade espontnea ou motivada do cliente, em segundo lugar, a situao decorrente do uso, isto , o prazer obtido, a utilidade reconhecida, a satisfao do amor-prprio, tanto de um ponto de vista pessoal como de um ponto de vista grupal, seja ele familiar, profissional ou qualquer outro, a questo, para ns essencialssima, consiste em averiguar se o valor de uso, elemento flutuante, instvel, subjectivo por excelncia, se situa demasiado abaixo ou demasiado acima do valor de troca, E quando isso sucede, que fazem, perguntou Cipriano Algor por perguntar, ao que o subchefe respondeu em tom condescendente, Meu caro senhor, suponho que no est  espera de que eu lhe v descobrir aqui o segredo da abelha, Sempre ouvi que o segredo da abelha no existe, que  uma mistificao, um falso mistrio, uma fbula que ficou por inVentar, um conto que podia ter sido e no foi, Tem razo, o segredo da abelha no existe, mas ns conhecemo-lo. Cipriano Algor retraiu-se como se tivesse sido vtima de uma agres


so inesperada. O subchefe sorria, insistia complacente que a ideia era boa, mesmo muito boa, que ficava  espera da primeira entrega e que depois j lhe daria notcias. Oprimido, sob uma inquietante impresso de ameaa, Cipriano Algor entrou na furgoneta e saiu do subterrneo. A ltima frase do subchefe dava-lhe voltas na cabea, O segredo da abelha no existe, mas ns conhecemo-lo, no existe, mas conhecemo-lo, conhecemo-lo, conhecemo-lo. Vira cair uma mscara e percebera que por trs dela estava outra exactamente igual, compreendia que as mscaras seguintes seriam fatalmente idnticas s que tivessem cado,  verdade que o segredo da abelha no existe, mas eles conhecem-no. No poderia falar desta sua perturbao a Marta e a Maral porque eles no entenderiam, e no entenderiam porque no tinham estado ali com ele, do lado de fora do balco, a ouvir um subchefe de departamento explicar o que  valor de troca e valor de uso, possivelmente o segredo da abelha reside em criar e impulsionar no cliente estmulos e sugestes suficientes para que os valores de uso se elevem progressivamente na sua estimao, passo a que se seguir em pouco tempo a subida dos valores de troca, imposta pela argcia do produtor a um comprador a quem foram sendo retiradas pouco a pouco, subtilmente, as defesas interiores resultantes da conscincia da sua prpria personalidade, aquelas que antes, se alguma vez existiu um antes intacto, lhe proporcionaram, embora precariamente, uma certa possibilidade de resistncia e autodomnio. A culpa desta laboriosa e confusa explanao  toda de Cipriano Algor, que, sendo aquilo que , um simples oleiro sem carta de socilogo nem preparo de economista, se atreveu, dentro da sua rstica cabea, a correr atrs de uma ideia, acabando por se reconhecer, em resultado da falta de um vocabulrio adequado e por causa das graves e patentes imprecises na propriedade dos termos que teve de utilizar, incompetente para a transpor a uma linguagem bastantemente cientfica que talvez nos permitisse, finalmente, compreender, o que ele tinha querido dizer na sua. Ficar para as recordaes de Cipriano Algor este outro momento de desconcerto de vida e de desacerto do seu entendimento dela, quando, tendo ido um dia ao departamento de compras do Centro a fazer a mais simples das perguntas, de l regressou com a mais complexa e obscura das respostas, e to tenebrosa e obscura era, que nada poderia ter sido mais natural que perder-se ele nos labirintos do seu prprio crebro. Ao menos fica salva a inteno. Em seu abono Cipriano Algor sempre poder alegar que fez tudo o que estava ao alcance da sua condio de oleiro para tentar desenredar o sentido oculto da sibilina frase do subchefe sorridente, e se mesmo para si era evidente que no o tinha conseguido, ao menos deixara ficar bem claro a quem atrs viesse que, pelo caminho que ele havia tomado, no se chegava a nenhuma parte. Estas coisas so para quem sabe, pensou Cipriano Algor, sem conseguir calar o seu desassossego interior. Em todo o caso, dizemos ns, outros fizeram menos e presumiram de mais.
O embrulho que Maral tinha deixado ao guarda da porta continha duas mscaras, no uma. Para o caso de se avariar o sistema purificador do ar em alguma delas, dizia o bilhete. E novamente o pedido, Cuide-me da Marta, por favor. Era quase a hora do almoo. Uma manh perdida, pensou Cipriano Algor, lembrando-se dos moldes, do barro que esperava, do forno que perdia calor, das filas de bonecos l dentro. Depois, no meio da avenida, conduzindo de costas viradas para a parede do Centro onde a frase, Voc  o nosso melhor cliente mas no o v dizer ao seu vizinho, traava com descaro irnico o diagrama relacional em que se consumava a cumplicidade inconsciente da cidade com o enganamento consciente que a manipulava e absorvia, passou-lhe pela cabea, a Cipriano Algor, a ideia de que no fora s esta manh a perder-se, que a obscena frase do subchefe havia feito desaparecer o que restava da realidade do mundo em que aprendera e se acostumara


a viver, que a partir de hoje tudo seria pouco mais que aparncia, iluso, ausncia de sentido, interrogaes sem resposta. D vontade de atirar com a furgoneta contra um muro, pensou. Perguntou-se por que no o fazia e por que nunca, provavelmente, o viria a fazer, depois ps-se a enumerar as suas razes. Apesar de esta se encontrar deslocada no contexto da anlise, pelo menos em princpio  precisamente por se encontrarem ainda com vida que as pessoas se suicidam, a primeira das razes fortes de Cipriano Algor para no o fazer era o facto de estar vivo, logo a seguir apareceu a sua filha Marta, e to junta, to cingida  vida do pai, que foi como se tivesse entrado ao mesmo tempo, depois veio a olaria, o forno, e tambm o genro Maral, claro, que  to bom moo e gosta tanto da Marta, e o Achado, ainda que a muita gente parea escandaloso diz-lo, e objectivamente no se possa explicar, at um co  capaz de fazer agarrar uma pessoa  vida, e mais, e mais, e mais qu, Cipriano Algor no encontrava nenhumas outras razes, no entanto tinha a impresso de que ainda lhe estava a faltar uma, que ser, que no ser, de sbito, sem avisar, a memria atirou-lhe  cara o nome e o rosto da mulher falecida, o nome e o rosto de Justa Isasca, porqu, se Cipriano Algor do que estava  procura era de razes para no atirar a furgoneta contra um muro e se j as tinha encontrado em nmero e substncia bastantes, a saber, ele prprio, Marta, a olaria, o forno, Maral, o co Achado, e ainda a amoreira-preta, por esquecimento no mencionada antes, era absurdo que a ltima delas, essa inesperada razo de cuja existncia ele inquietamente se havia apercebido como uma sombra ou uma negaa, fosse algum que tinha deixado de pertencer a este mundo,  verdade que no se trata de uma pessoa qualquer, sempre  a mulher com quem esteve casado, a companheira de trabalho, a me da sua filha, mas, ainda assim, por muito talento dialctico que se deite na panela, ser difcil de sustentar que a recordao de um morto possa ser razo para que um vivo decida continuar vivo. Um amador de provrbios, adgios, anexins e outras mximas populares, desses j raros excntricos que imaginam saber mais do que aquilo que lhes ensinaram, diria que anda aqui gato escondido com o rabo de fora. Com desculpa do inconveniente e desrespeitoso da comparao, diremos que a cauda do felino, no caso em exame,  a falecida Justa, e que para encontrar o que falta do gato no seria preciso mais do que dar a volta  esquina. Cipriano Algor no o far. No entanto, quando chegar  povoao, deixar a furgoneta  porta do cemitrio, onde no tinha voltado a entrar desde aquele dia, e dirigir-se-  sepultura da mulher. Estar ali uns minutos a pensar, talvez para agradecer, talvez a perguntar, Por que foi que apareceste, talvez a ouvir perguntar, Por que foi que apareceste, depois levantar a cabea e olhar em redor como a procurar algum. Com este sol, hora de almoar, no ser provvel.


A primeira meia centria a sair do forno foi a dos esquims, que eram os que estavam mais  mo, logo  entrada. Uma afortunada casualidade, na imediata opinio de Marta, Para treinar no poderia ter melhor comeo, so fceis de pintar, mais fceis do que estes s as enfermeiras, que vo de branco vestidas. Quando as estatuetas arrefeceram de todo, transportaram-nas para as pranchas de secagem, onde Cipriano Algor, armado com a pistola de pulverizar e resguardado por trs do filtro da mscara, metodicamente as veio cobrir com a brancura mate da sobrecapa. De si para si, resmungou que no valia a pena andar com aquilo a tapar-lhe a boca e o nariz, Bastava que me pusesse a favor do vento, e a tinta iria para longe, no me tocaria, mas logo pensou que estava a ser injusto e desagradecido, sem esquecer que com este bom tempo que vem fazendo no faltaro a dias em que no correr uma aragem. Terminada a sua parte de trabalho, Cipriano Algor ajudou a filha a instalar as tintas, o recipiente do petrleo, os pincis, os desenhos coloridos que serviram de modelo, trouxe o banco onde ela se deveria sentar, e mal a viu dar a primeira pincelada observou, Isto foi mal pensado, com os bonecos postos assim em fileira, como esto, ters de deslocar constantemente o banco ao longo da prancha, vais-te cansar, o Maral disse, Que  que o Maral disse, perguntou Marta, Que deves ter muito cuidado, evitar as fadigas, A mim o que me cansa  ter de ouvir tantas vezes a mesma recomendao,  para teu bem,


Repare, se eu puser diante de mim uma dzia de bonecos, v, ficam todos ao meu alcance e s terei de mudar o banco quatro vezes, alis at me faz bem mexer-me, e agora que j lhe expliquei o funcionamento desta cadeia de montagem ao contrrio, lembro-lhe que no h nada mais prejudicial a quem trabalha do que a presena dos que nada fazem, como nesta ocasio me parece ser o seu caso, No me esquecerei de te dizer o mesmo quando estiver a trabalhar, J o disse, isto , fez pior, expulsou-me, Vou-me embora, no se pode falar contigo, Duas coisas antes de que se v, a primeira  que se existe algum com quem pode falar,  precisamente comigo, E a segunda, D-me um beijo. Ainda ontem Cipriano Algor pediu um abrao ao genro, agora  Marta que pede um beijo ao pai, algo estar para suceder a esta famlia, s falta que comecem a aparecer no cu cometas, auroras boreais e bruxas a galope nas vassouras, que o Achado uive toda a noite  lua, mesmo sem haver lua, que de uma hora para a outra se torne estril a amoreira-preta. Salvo se tudo isto no  mais do que um efeito de sensibilidades excessivamente impressionveis, a de Marta porque est grvida, a de Maral porque est grvida Marta, a de Cipriano Algor por todas as razes que conhecemos e algumas que s ele sabe. Enfim, o pai beijou a filha, a filha beijou o pai, ao Achado concederam-lhe um pouco das atenes que pedia, no se poder queixar. Como  costume dizer, no h-de ser nada. Entrou Cipriano Algor na olaria para dar comeo  moldagem dos trezentos bonecos da segunda entrega, e Marta,  sombra da amoreira-preta, sob o olhar consciencioso do Achado, que regressara s suas responsabilidades de guardio, preparou-se para levar por diante a pintura dos esquims. No podia, tinha-se esquecido de que primeiro era necessrio lixar os bonecos, desbastar-lhes as rebarbas, as irregularidades de superfcie, os defeitos de acabamento, depois limp-los do p, e, como um azar nunca vem s e um esquecimento em geral faz lembrar outro, tambm no os poderia pintar como pensara, passando de uma cor a outra, sucessivamente, sem interrupo. at  ltima pincelada. Recordava a pgina do manual, l onde claramente ensinava que s quando uma cor estiver bem seca  que se dever aplicar a seguinte, Agora, sim, fazia-me arranjo uma cadeia de montagem a srio, disse, os bonecos a passarem na minha frente uma vez para receberem o azul, outra vez para o amarelo, logo para o violeta, logo para o preto, e o vermelho, e o verde, e o branco, e a bno final, aquela que traz dentro de si todas as cores do arco-da-velha, Que Deus te ponha a virtude, que eu, por mim, fiz o que pude, e no ser tanto pela virtude adicional com que Deus, sujeito como qualquer comum mortal a esquecimentos e imprevidncias, contribua para a coroao dos esforos cometidos, mas pela conscincia humilde de que se no chegmos a fazer melhor foi simplesmente porque de tal no ramos capazes. Argumentar com o que tem de ser foi sempre uma perda de tempo, para o que tem de ser os argumentos no passam de conjuntos mais ou menos casuais de palavras que esperam receber da ordenao sintctica um sentido que elas prprias no esto seguras de possuir. Marta deixou o Achado a olhar pelos bonecos e, sem mais debates com o inevitvel, foi  cozinha buscar a nica folha de lixa fina que sabia haver em casa, Isto gasta-se num instante, pensou, terei de comprar umas quantas mais. Se tivesse espreitado  porta da olaria, veria que as coisas no estavam a correr bem por ali. Cipriano Algor gabara-se a Maral de ter inventado uns quantos truques para apressar a obra, o que, de um ponto de vista, por assim dizer, global, era verdade, mas a rapidez no tardara a mostrar-se incompatvel com a perfeio, do que viria a resultar um nmero de bonecos defeituosos muito maior do que o verificado na primeira srie. Quando Marta voltou ao seu trabalho j os primeiros estropiados tinham sido recolhidos  prateleira, mas Cipriano Algor, feitas as contas entre o tempo que ganhava e os bonecos que perdia, decidiu no renunciar aos seus fecundos mas no irrepreensveis nem


alguma vez explicados truques. E assim foram passando os dias. Aos esquims seguiram-se os palhaos, depois saram as enfermeiras, e logo os mandarins, e os assrios de barbas, e finalmente os bobos, que eram os que estavam junto  parede do fundo. Marta descera no segundo dia  povoao para comprar duas dzias de folhas de lixa. Era neste estabelecimento que Isaura tinha comeado a trabalhar, como Marta sabia j desde que a fora visitar logo aps o perturbador encontro, emocionalmente falando, entenda-se, que a vizinha tivera com o pai. Estas mulheres no se vem muito, mas h motivos de sobra para que venham a tornar-se grandes amigas. Com discrio, de modo que as palavras no pudessem chegar aos ouvidos do dono da loja, Marta perguntou a Isaura se estava a sentir-se bem naquele trabalho e ela respondeu-lhe que sim, que se sentia bem, A gente habitua-se, disse. Falara sem contentamento, mas com firmeza, como se quisesse deixar claro que o gosto nada tinha que ver com a questo, que fora a vontade, e, s ela, o que pesara na sua deciso de aceitar o emprego. Marta recordava o que lhe ouvira tempos atrs, Qualquer trabalho, desde que possa continuar a viver aqui. A pergunta que Isaura fez depois, enquanto ia enrolando as folhas de lixa, frouxamente como  aconselhvel, percebeu-a Marta como um eco, distorcido mas ainda assim reconhecvel, daquelas palavras, E l em casa, como vo todos, Cansados, com muito trabalho, mas no geral bem, o Maral, coitado, teve de trabalhar no forno no dia de folga, suponho que ainda andar por l com os rins arrasados. As folhas de lixa estavam enroladas. Enquanto recebia o dinheiro e fazia o troco, Isaura, sem levantar os olhos, perguntou, E o pai. Marta s conseguiu responder que o pai estava bem, um pensamento angustioso atravessara-lhe de sbito o crebro, Que vai esta mulher fazer da vida quando nos formos embora. Isaura despedia-se, tinha de atender outro cliente, D l cumprimentos, disse, se naquele momento Marta lhe tivesse perguntado, Que vai fazer da sua vida quando ns nos formos embora, talvez respondesse como ainda h pouco, sossegadamente, A gente habitua-se. Sim, ouvimos dizer muitas vezes, ou dizemo-lo ns prprios, A gente habitua-se, dizemo-lo, ou dizem-no, com uma serenidade que parece autntica, porque realmente no existe, ou ainda no se descobriu outro modo de deitar c para fora com a dignidade possvel as nossas resignaes, o que ningum pergunta   custa de qu se habitua a gente. Marta saiu da loja quase desfeita em lgrimas. Com uma espcie de remordimento desesperado, como se estivesse a acusar-se de haver enganado Isaura, pensava, Mas ela no sabe nada, nem sequer sabe que estamos prestes a ir-nos daqui.
Por duas vezes esqueceram-se de pr de comer ao co. Lembrando-se dos seus tempos de indigncia, quando a esperana no dia de amanh era o nico conduto que lhe restava nas muitas horas em que o estmago ansiara por alimento, o Achado no reclamou, desinteressado das suas obrigaes de vigilante, estendeu-se ao lado da casota,  da sabedoria antiga que corpo deitado aguenta muita fome,  espera, pacientemente, de que um dos donos desse uma palmada na testa e exclamasse,  diabo, esquecemo-nos do co. No  caso para admirar, uma vez que, durante aqueles dias, at de si prprios se tinham esquecido. Mas foi graas a essa total entrega s respectivas tarefas, roubando horas ao sono, ainda que Cipriano Algor nunca tivesse deixado de protestar contra Marta, Tens de descansar, tens de descansar, foi graas a esse esforo paralelo que os trezentos bonecos sados do forno estavam lixados, escovados, pintados e secos, todos eles, quando chegou o dia em que Cipriano Algor devia ir buscar o genro ao Centro, e que os outros trezentos, escorreitos e aprumados no seu barro cru, sem mazelas visveis, estavam, tambm eles, com a ajuda do calor e da brisa, livres de humidades e preparados para a cozedura. A olaria parecia descansar de uma grande fadiga, o silncio tinha-se deitado a dormir.  sombra da amoreira-preta,


pai e filha olhavam os seiscentos bonecos alinhados nas pranchas e parecia-lhes que tinham produzido obra asseada. cipriano Algor disse, Amanh no trabalho na olaria, o Maral no ter de se ver sozinho com o servio todo do forno, e Marta disse, Acho que deveramos descansar alguns dias antes de nos lanarmos  segunda parte da encomenda, e Cipriano Algor perguntou, Que tal trs dias, e Marta respondeu, Ser melhor do que nada, e Cipriano Algor tornou a perguntar, Como te sentes, e Marta respondeu, Cansada, mas bem, e Cipriano Algor disse, Pois eu sinto-me como nunca, e Marta disse, Deve ser isso que costumamos designar por satisfao do dever cumprido. Ao contrrio do que poderia ter parecido, no havia nenhuma ironia nestas palavras, o que nelas soava era to-s um cansao a que teria apetecido chamar infinito se no fosse de tal maneira manifesto e desproporcionado o exagero da qualificao. Seja como for, no era tanto do corpo que ela se sentia cansada, mas de assistir impotente, sem recurso, ao desconsolo amargo e  mal escondida tristeza do pai, aos seus altos e baixos de humor, aos seus patticos arremedos de segurana e autoridade,  afirmao categrica e obsessiva das prprias dvidas, como se acreditasse que dessa maneira as conseguiria tirar da cabea. E havia aquela mulher, a Isaura, a Isaura Madruga, a vizinha do cntaro, a quem no outro dia no respon dera mais que Est bem  pergunta que ela tinha murmurado de olhos baixos, enquanto contava as moedas, E o pai, quando o que deveria ter feito era lev-la dali por um brao, subir com ela  olaria, entrar com ela onde o pai trabalhava, dizer Aqui est, e depois fechar a porta e deix-los l dentro at que as palavras lhes pudessem servir para alguma coisa, uma vez que os silncios, coitados deles, no passam disso mesmo, silncios, ningum ignora que, muitas vezes, at os que pareceram eloquentes deram azo, com as mais srias e s vezes fatais consequncias, a erradas interpretaes. Somos demasiadO medrosos, demasiado cobardes para nos aventurarmos a um acto desses, pensou Marta contemplando o pai que parecia ter adormecido, estamos demasiado presos na rede das chamadas convenincias sociais, na teia de aranha do prprio e do imprprio, se se soubesse que eu o tinha feito logo me viriam dizer que atirar uma mulher  cara de um homem, a expresso seria esta,  uma absoluta falta de respeito pela identidade alheia, e ainda por cima uma irresponsvel imprudncia, sabe-se l o que lhes iria suceder no futuro, a felicidade das pessoas no  uma coisa que se fabrique hoje e de que possamos ter a certeza de que ainda durar amanh, um dia encontramos por a desunido algum daqueles a quem havamos unido e arriscamo-nos a que nos digam A culpa foi sua. Marta no quis render-se a este discurso do senso comum, fruto consequente e cptico das duras batalhas da vida,  uma estupidez deixar perder o presente s pelo medo de no vir a ganhar o futuro, disse consigo mesma, e logo acrescentou, Alis, nem tudo est para suceder amanh, h coisas que s depois de amanh, Que disseste, perguntou o pai rapidamente, Nada, respondeu, tenho estado quietinha e calada para no o acordar, No dormia, Pois parecia-me que sim, Disseste que h coisas que s depois de amanh, Que estranho, eu disse realmente isso, perguntou Marta, No sonhei, Ento sonhei eu, devo ter adormecido e acordado logo, os sonhos so assim, sem ps nem cabea, ou antes, tm cabea e tm ps, mas quase sempre os ps vieram de um lado e a cabea do outro,  o que explica que os sonhos sejam to difceis de interpretar. Cipriano Algor levantou-se, Est a chegar-se a hora de recolher o Maral, mas estive aqui a pensar que talvez valha a pena ir um pouco mais cedo e passar pelo departamento de compras, aviso-os de que os primeiros trezentos j esto prontos e combinamos a entrega, Parece-me bem, disse Marta. Cipriano Algor foi mudar de roupa, ps uma camisa lavada, trocou de sapatos, e em menos de dez minutos estava a entrar na furgoneta, At logo, disse, At logo, pai, v com cuidado, E volte com mais cuidado ain


da, escusas de o dizer, Sim, ainda com mais cuidado, porque passam a ser dois,  o que sempre digo e sempre hei-de dizer, contigo no se pode discutir nem argumentar, encontras resposta para tudo. O Achado veio perguntar ao dono se desta vez poderia ir com ele, mas Cipriano Algor disse-lhe que no, que tivesse pacincia, as cidades no so o melhor que h para os ces.
Uma depois de tantas, a viagem no teria tido histria se no fosse o inquieto pressentimento do oleiro de que algo de mau estava para suceder. Casualmente tinha-se lembrado do que ouvira  filha, H coisas que s depois de amanh, umas quantas palavras soltas, sem causa nem sentido aparentes, que ela no tinha sabido ou no tinha querido explicar, Duvido queestivesse a dormir, mas no percebo o que a ter levado a sugerir que sonhara, pensou, e logo, na continuao da frase recordada, deixou que o seu pensamento prosseguisse por aquele mesmo caminho e comeasse a entoar dentro da cabea uma ladainha obsessiva, H coisas que s depois de amanh, h coisas que s amanh, h coisas que j hoje, depois retomava a sequncia invertendo-a, H coisas que j hoje, h coisas que s amanh, h coisas que s depois de amanh, e tantas vezes o foi repetindo e repetindo que acabou por perder o som e o sentido, o significado de amanh e de depois de amanh, ficou-lhe s na cabea, como uma lmpada de alarme a acender e apagar, J hoje, j hoje, j hoje, hoje, hoje, hoje. Hoje qu, perguntou-se com violncia, tentando reagir contra o absurdo nervosismo que lhe fazia tremer as mos no volante, estou a ir para a cidade para recolher o Maral, vou ao departamento de compras para informar que a primeira parte da encomenda est pronta para ser entregue, tudo isto que estou a fazer  habitual,  corrente,  lgico, no tenho nenhum motivo para inquietaes, e vou a conduzir com cuidado, o trnsito  pouco, os assaltos na estrada acabaram, pelo menos nO se tem ouvido falar deles, portanto nada poder suceder-me que no seja a monotonia de sempre, os mesmos passos, as mesmas palavras, os mesmos gestos, o balco das compras, o subchefe sorridente ou o outro mal-educado, ou ento o chefe, se no est em reunio e lhe d o capricho para me receber, depois a porta da furgoneta que se abre, o Maral que entra, Boas tardes, pai, Boas tardes, Maral, que tal te foi o trabalho esta semana, no sei se a dez dias se poder chamar semana, mas no conheo outra maneira, Na forma do costume, dir ele, Acabmos a primeira srie de bonecos, j combinei a entrega com o departamento de compras, direi eu, Como est a Marta, perguntar ele, Cansada, mas bem, responderei eu, e estas palavras tambm as andamos a dizer constantemente, no me admiraria nada que ao passar-nos deste mundo para o outro ainda consigamos arranjar foras para responder a algum que se tivesse sado com a imbecil ideia de nos perguntar como nos sentimos, A morrer, mas bem,  o que diremos. Para se distrair da companhia dos aziagos pensamentos que teimavam em importun-lo, Cipriano Algor experimentou dar ateno  paisagem, fazia-o em desespero de causa porque sabia muito bem que nada de tranquilizador lhe poderia ser oferecido pelo deprimente espectculo das estufas de plstico estendidas a perder de vista, de um lado e do outro, at ao horizonte, como melhor se distinguia do alto da pequena lomba que a furgoneta neste momento trepava. E  a isto que chamam Cintura Verde, pensou, a esta desolao, a esta espcie de acampamento soturno, a esta manada de blocos de gelo sujo que derretem em suor os que trabalham l dentro, para muita gente estas estufas so mquinas, mquinas de fazer vegetais, realmente no tem nenhuma dificuldade,  como uma receita, misturam-se os ingredientes adequados, regula-se o termstato e o higrmetro, carrega-se num boto e da a pouco sai uma alface. Claro que o desagrado de Cipriano Algor no o impede de reconhecer que foi graas a estas estufas que passou a ver verduras no prato durante todo o ano, o que ele no pode su


portar  que se tenha baptizado com a designao de Cintura Verde um lugar onde essa cor, precisamente, no se encontra, salvo nas poucas ervas que se deixam crescer do lado de fora das estufas. Por acaso ficarias mais feliz se os plsticos fossem verdes, perguntou-lhe de chofre o pensamento que labuta no patamar inferior do crebro, aquele irrequieto pensamento que nunca se dar por satisfeito com o que pensou e decidiu o do patamar de cima, mas Cipriano Algor, a esta pergunta pertinentssima, preferiu no dar resposta, fez de conta que no tinha ouvido, talvez por causa de um certo tom de impertinncia que as perguntas pertinentes, s pelo facto de terem sido feitas, e por muito que se pretenda disfar-las, automaticamente tomam. A Cintura Industrial, semelhante, cada vez mais, a uma construo tubular em expanso contnua, a uma armao de tubos projectada por um furioso e executada por um alucinado, no lhe beneficiou a disposio, embora, v l, do > mal o menos, o seu inquieto e turvo pressentimento tivesse passado a rosnar em surdina. Notou que o alinhamento visvel dos bairros de barracas estava agora muito mais perto da estrada, como um formigueiro que voltasse ao carreiro depois'. da chuva, pensou, com um encolher de ombros, que os assaltos aos camies no tardariam a recomear, e, enfim, fazendo um esforo enorme para arredar a sombra que viera sentada ao seu lado, entrou no trnsito confuso da cidade. Ainda no eram horas de recolher Maral, tinha tempo de sobejo para ir ao departamento de compras. No pediu para falar ao chefe, sabia bem que o assunto que ali o levava no era mais do que um pretexto para se fazer lembrado, um recado de passagem, para que no se esquecessem de que existia, de que a uns trinta quilmetros dali havia um forno a cozer barro diligentemente, e uma mulher a pintar, e o pai dela a moldear, todos com os olhos postos no Centro, e no me venha dizer a mim que os fornos no tm olhos, tm-nos sim senhor, se no os tivessem no saberiam o que esto a fazer, olhos pois, o que no se parecem  com os nossos. Atendeu-o o subchefe do outro dia, aquele simptico e sorridente, Ento o que o traz por c hoje, perguntou, Os trezentos bonecos esto prontos, vinha perguntar quando quer que os traga, Quando quiser, amanh mesmo, Amanh no sei se poderei, o meu genro estar em casa a gozar a folga, aproveita para me aj'udar a enfornar os outros trezentos, Ento depois de amanh, o mais depressa que possa, tive uma ideia que quero pr em prtica rapidamente, Refere-se aos meus bonecos, Exactamente, lembra-se de que lhe tinha falado de um inqurito, Lembro-me, sim senhor, aquele sobre a situao prvia  compra e sobre a situao decorrente do uso, Parabns, tem boa memria, Para a minha idade no est mal, Pois esta ideia, alis aplicada j a outros casos com resultados muito apreciveis, consistir em distribuir por um determinado nmero de potenciais compradores, consoante o universo social e cultural que vier a ser definido, uma certa quantidade de bonecos, e averiguar depois que opinio lhes mereceu o artigo, digo assim para simplificar, o esquema das nossas perguntas  mais complexo, como deve calcular, No tenho experincia, senhor subchefe, nem nunca perguntei, nem nunca me perguntaram, Estou at a pensar em utilizar no inqurito estes seus primeiros trezentos, selecciono cinquenta clientes, faculto grtis a cada um a coleco completa de seis, e em poucos dias estarei ciente da opinio que formaram sobre o produto, Grtis, perguntou Cipriano Algor, quer dizer que no mos vo pagar, De modo algum, caro senhor, a experincia  da nossa conta, seremos ns, portanto, a assumir os custos, no queremos o seu prejuzo. O alvio sentido por Cipriano Algor fez retirar-se, de momento, a preocupao que irrompera bruscamente no seu esprito, isto , Que suceder se o resultado do inqurito me for desfavorvel, se a maioria dos clientes inquiridos, ou todos eles, resolverem as perguntas todas em uma nica e definitiva resposta, Isto no interessa. Ouviu-se a si mesmo dizendo, Obrigado, no s por educao, tambm por


justia tinha de o dizer, pois no  todos os dias que aparece algum a tranquilizar-nos com a benvola informao de que no quer o nosso prejuzo. A inquietao tinha voltado a mord-lo no estmago, mas agora era ele prprio que no deixara sair a pergunta da boca, iria dali como se levasse no bolso uma carta de prego para ser aberta no alto mar e em que o seu destino j havia sido apontado, traado, escrito, hoje, amanh, depois de amanh. O subchefe tinha perguntado, O que o traz por c hoje, depois dissera, Amanh mesmo, depois conclura, Ento seja depois de amanh,  certo que as palavras so assim mesmo, vo e voltam, e vo, e voltam, e voltam, e vo, mas porqu estavam estas aqui  minha espera, porqu saram comigo de casa e no me largaram em todo o caminho, no amanh, no depois de amanh, mas hoje, agora mesmo. De sbito, Cipriano Algor detestou o homem que se encontrava na sua frente, este subchefe simptico e cordial, quase afectuoso, com quem no outro dia tinha podido conversar praticamente de igual para igual, salvadas, claro est, as bvias distncias e diferenas de idade e condio social, nenhuma delas, porm, ao que havia parecido ento, impedientes de uma relao fundada no respeito mtuo. Se te espetam uma faca na barriga, ao menos que tenham a decncia moral de te mostrarem uma cara que seja conforme com a aco assassina, uma cara qque ressumbre dio e ferocidade, uma cara de furor demente, at mesmo de frieza desumana, mas, por amor de Deus, que no@ te sorriam enquanto te estiverem a rasgar as tripas, que no te desprezem a esse ponto extremo, que no te dem esperanas falsas, dizendo por exemplo, No se preocupe, isto no  nada, com meia dzia de pontos ficar fino como antes, ou ento, Desejo sinceramente que o resultado do inqurito lhe seja favorvel, poucas coisas me dariam maior satisfao, creia-me. Cipriano Algor acenou vagamente com a cabea, num gesto que tanto poderia significar sim como no, que talvez nem significado tivesse, depois disse, Tenho de ir buscar o meu genro.
Saiu do subterrneo, deu a volta ao Centro e foi estacionar a furgoneta  vista da porta do servio de segurana. Maral tardou mais do que era habitual, parecia nervoso ao entrar no carro, Boas tardes, pai, disse, e Cipriano Algor disse, Boas tardes, que tal te foi o trabalho esta semana, Na forma do costume, respondeu Maral, e Cipriano Algor disse, Acabmos a primeira srie de bonecos, j combinei a entrega com o departamento de compras, Como est a Marta, Cansada, mas bem. No voltaram a falar at  sada da cidade. E foi s quando j iam  altura das barracas que Maral disse, Pai, acabam de me informar que fui promovido, sou guarda residente do Centro a partir de hoje. Cipriano Algor virou a cabea para o genro, olhou-o como se o estivesse a ver pela primeira vez, hoje, no depois de amanh, nem amanh, hoje, tinha razo o pressentimento. Hoje, qu, perguntou-se, a ameaa que se vai esconder nas perguntas do inqurito, ou esta de agora, finalmente consumada depois de ter andado a prometer durante tanto tempo. Tem-se visto, embora menos na vida real do que nos livros em que se contam histrias, que uma surpresa sbita pode tirar por momentos a voz  pessoa surpreendida, mas uma meia surpresa que se deixou ficar em silncio, porventura a fingir, porventura a querer que a tomem por surpresa completa, no dever, em princpio, ser tomada em considerao. Ateno, s em princpio. Desde sempre sabemos que este homem que vai a conduzir a furgoneta no tinha nenhuma dvida de que a temida notcia acabaria por chegar um dia, mas  compreensvel que hoje, colocado como o puseram entre dois fogos, se tenha visto de repente sem foras para decidir a qual deles deveria ir acudir em primeiro lugar. Revelemos, porm, desde j, embora sabendo que prejudicaremos a regularidade da ordem a que os acontecimentos devem submeter-se, que Cipriano Algor no comunicar, nestes dias prximos, quer ao genro quer  filha, uma s palavra acerca da inquietante conversa que teve com o subchefe do departamento de compras. Vir a fa


lar do assunto, sim, mas mais para diante, quando tudo estiver perdido. Agora apenas diz ao genro, Parabns, calculo que estars satisfeito, palavras banais e quase indiferentes que no deveriam ter necessitado tanto tempo para manifestar-se, e Maral no as agradecer, como no confirmar se est satisfeito como o sogro calculou, ou um pouco menos, ou um pouco mais, o que ele diz  to srio como uma mo estendida, Para si no  uma boa notcia. Cipriano Algor compreendeu o propsito, olhou de lado com um meio sorriso que parecia burlar-se da sua prpria resignao, e disse, Nem sequer as melhores notcias so boas para toda a gente, Ver como tudo se h-de resolver da melhor maneira, disse Maral, No te preocupes, ficou resolvido no dia em que vos disse que iria viver convosco no Centro, a palavra est dada, foi dita e no volta atrs, Viver no Centro no  nenhum degredo, disse Maral, No sei como ser viver no Centro, sab-lo-ei quando para l for, mas tu, sim, tu j o sabes, e da tua boca nunca se ouviu uma explicao, um relato, uma descrio que me fizesse perceber, o que se chama realmente perceber, isso que, to seguro de ti, afirmaste no ser um degredo, O pai j esteve no Centro, Poucas vezes, e sempre de passagem, apenas como um comprador que sabia o que queria, Creio que a melhor explicao do Centro ainda seria consider-lo como uma cidade dentro de outra cidade, No sei se ser a melhor explicao, de qualquer modo no  suficiente para que eu perceba o que h dentro do Centro, O que h  o mesmo que se encontra numa cidade qualquer, lojas, pessoas que passam, que compram, que conversam, que comem, que se distraem, que trabalham, Queres tu dizer, exactamente como na aldeola atrasada em que vivemos, Mais ou menos, no fundo trata-se de uma questo de tamanho, A verdade no pode ser to simples, Suponho que h algumas verdades simples,  possvel, mas no acredito que as possamos reconhecer dentro do Centro. Houve uma pausa, depois Cipriano Algor disse, E j que estamos a falar de tamanhos,  curioso que de cada vez que olho c de fora para o Centro tenho a impresso de que ele  maior do que a prpria cidade, isto , o Centro est dentro da cidade, mas  maior do que a cidade, sendo uma parte  maior que o todo, provavelmente ser porque  mais alto que os prdios que o cercam, mais alto que qualquer prdio da cidade, provavelmente porque desde o princpio tem estado a engolir ruas, praas, quarteires inteiros. Maral no respondeu logo, o sogro tinha acabado de dar expresso quase visual  confusa sensao de perdimento que se apoderava dele de cada vez que regressava ao Centro depois da folga, sobretudo durante as rondas nocturnas com a iluminao reduzida, percorrendo as galerias desertas, descendo e subindo nos elevadores, como se vigiasse o nada para que continuasse a ser nada. No interior de uma grande catedral vazia, se levantarmos os olhos para as abbadas, para as obras superiores, temos a impresso de que ela  mais alta do que a altura a que vemos o cu num campo aberto. Ao cabo de um silncio, Maral disse, Creio que compreendo a sua ideia, e deixou-se ficar por ali, no queria alimentar no esprito do sogro uma corrente de pensamentos que o poderia levar a fechar-se por trs de uma nova linha de resistncia desesperada. Mas as preocupaes de Cipriano Algor tinham-se encaminhado noutra direco, Quando fazem a mudana, O mais breve possvel, j vi o apartamento que me foi destinado,  mais pequeno do que a nossa casa, mas isso compreende-se, por muito grande que o Centro seja, o espao no  infinito, tem de ser racionalizado, Achas que caberemos l todos, perguntou o oleiro desejando que o genro no se apercebesse do tom de melanclica ironia que no ltimo momento se entremetera nas palavras, Cabemos, fique descansado, para uma familia como a nossa o apartamento chega  vontade, respondeu Maral, no precisaremos de dormir  vez. Cipriano Algor pensou, Aborreci-o, teria sido prefervel no lhe fazer a pergunta. At chegarem a casa no voltaram a falar. Marta recebeu a notcia sem manifestar


qualquer sentimento. O que se sabe que ir acontecer, de uma certa maneira  como se tivesse acontecido j, as expectativas fazem mais do que anular simplesmente as surpresas, embotam as emoes, banalizam-nas, tudo o que se desejava ou temia j havia sido vivido enquanto se desejou ou temeu. Foi durante o jantar que Maral deu uma importante informao de que se havia esquecido, e essa desagradou francamente a Marta, Queres dizer que no poderemos levar daqui as nossas coisas, Algumas sim, as de decorao da casa, por exemplo, mas no as mobilias, nem as louas, nem os vidros, nem os talheres, nem as toalhas, nem as cortinas, nem as roupas de cama, o apartamento j tem tudo o que se necessita, Portanto mudana, mudana, aquilo a que chamamos uma mudana, no haver, disse Cipriano Algor, Mudam-se as pessoas,  essa a mudana, Vamos deixar esta casa com tudo o que tem dentro, disse Marta, Bem vs que no h outro remdio. Marta pensou um pouco, depois teve de aceitar o inevitvel, Virei c uma vez por outra para abrir as janelas, arejar os quartos, uma casa fechada  como uma planta que se esqueceram de regar, morre, seca, estiola. Quando acabaram de comer, e antes que Marta se levantasse para retirar os pratos, Cipriano Algor disse, Tenho estado aqui a pensar. A filha e o genro entreolharam-se, como se transmitissem um ao outro palavras de alarme, Nunca se sabe o que pode sair dali quando ele se pe a pensar. A minha primeira ideia, continuou o oleiro, tinha sido que o Maral me ajudasse amanh no trabalho do forno, Peo licena para lhe recordar que ficou combinado que teramos trs dias de descanso, lembrou Marta, Os teus comeam amanh j, E os seus, Os meus tambm no vo tardar, s tero de esperar um pouco, Bem, essa foi a primeira ideia, e a segunda qual , ou a terceira, perguntou Marta, Arrumamos no forno, logo de manh, os bonecos que esto por cozer, mas no o acendemos, depois tratarei eu disso, a seguir vocs ajudam-me a carregar na furgoneta os bonecos j prontos, e enquanto eu os levo ao Centro e volto, ficam tranquilos aqui, sem um pai e um sogro a meter-se onde no  chamado, Foi esse o acordo que fez com o departamento de compras, entregar os bonecos amanh, perguntou Maral, no foi essa a impresso com que fiquei, pensei que os levaramos connosco depois, quando formos os trs, Assim  melhor, respondeu Cipriano Algor, ganha-se tempo, Ganha-se por um lado e perde-se por outro, os outros bonecos vo-se atrasar, No se atrasaro muito, acendo o forno logo que chegar a casa depois de regressar do Centro, sabe-se l se no ser a ltima vez, Que ideia a sua, ainda temos seiscentos bonecos para fazer, disse Marta, No estou to certo disso, Porqu, Em primeiro lugar, a mudana, o Centro no  pessoa para ficar  espera de que o sogro do guarda residente Maral Gacho termine uma encomenda, embora haja que dizer que, com tempo, supondo que o houvesse, eu poderia acab-la sozinho, e em segundo lugar, Em segundo lugar, qu, perguntou Maral, Na vida, h sempre alguma coisa que vem de trs do que aparece em primeiro lugar, s vezes temos a impresso de saber o que , mas quereramos ignor-lo, outras vezes nem sequer imaginamos o que poder ser, mas sabemos que est l, Deixe de falar como um orculo, por favor, disse Marta, Muito bem, cale-se o orculo, fiquemo-nos ento por aquilo que vinha em primeiro lugar, o que pretendi dizer foi que se a mudana tiver de ser feita com brevidade no haver tempo para resolver o problema dos seiscentos bonecos que faltam, Seria uma questo a conversar com o Centro, disse Marta dirigindo-se ao marido, mais trs ou quatro semanas no devem fazer-lhes diferena, fala com eles, se levaram tanto tempo a decidir a tua promoo, bem podem agora ajudar-nos nisto, alis seria ajudarem-se a si prprios porque ficariam com a encomenda completa, No falo, no vale a pena, disse Maral, temos dez dias exactos para fazer a mudana, nem mais uma hora,  do regulamento, o prximo dia de descanso j terei de o passar no apartamento, Tambm o poderias vir passar aqui,


disse Cipriano Algor,  tua casa de campo, Pareceria mal, ser promovido a guarda residente e ausentar-me do Centro logo na primeira folga, Dez dias  pouco tempo, disse Marta, Talvez fosse pouco tempo se tivssemos de levar os mveis e o resto, mas as nicas coisas que realmente vamos mudar so os corpos com as roupas que vestimos, e esses estariam a entrar no apartamento em menos de uma hora se fosse preciso, Sendo assim, que faremos ao que est por cumprir da encomenda, perguntou Marta, O Centro o sabe, o Centro o anunciar quando achar que  a ocasio, disse o oleiro. Auxiliada pelo marido, Marta levantou a mesa, depois foi  porta para sacudir a toalha, demorou-se um pouco a olhar para fora, e quando voltou disse, H ainda uma questo que est por resolver e que no poder ser deixada para a ltima hora, Que questo  essa, perguntou Maral, O co, respondeu ela, O Achado, rectificou Cipriano Algor, e Marta continuou, Uma vez que no somos pessoas para o matar, ou para o deixar ao abandono, h que dar-lhe um destino, confi-lo a algum,  que no Centro no se aceitam animais, esclareceu Maral com vista ao sogro, Nem um cgado familiar, nem sequer um canrio, nem ao menos uma terna rolinha, quis saber Cipriano Algor, Parece que de repente deixou de lhe interessar a sorte do co, disse Marta, Do Achado, Do co, do Achado,  a mesma coisa, o que importa  decidir o que iremos fazer com ele, por mim, digo j que tenho uma proposta, E eu uma inteno, cortou Cipriano Algor, acto contnuo levantou-se e foi para o quarto. Reapareceu passados alguns minutos, atravessou a cozinha sem pronunciar palavra e saiu. Chamou o co, Anda da, vamos dar uma volta, disse. Desceu com ele a rampa, chegado  estrada virou para a esquerda, na direco oposta  da povoao, e meteu-se pelo campo. O Achado no largava os calcanhares do dono, devia estar a lembrar-se dos seus tempos de infeliz vagabundagem, quando o escorraavam dos quintais e at mesmo uma sede de gua lhe negavam. Embora no tenha nada de medroso, embora no o assustem as sombras da noite, preferiria estar agora deitado na casota, ou, melhor ainda, enroscado na cozinha, aos ps de um deles, no diz um deles por indiferena, como se tanto fizesse, mas sim Porque aos outros dois tambm os guardaria ao alcance da vista e do Olfacto, e porque poderia trocar de stio quando lhe apetecesse sem que a harmonia e a felicidade do momento sofressem com a mudana. No foi muito longe o passeio. A pedra em que Cipriano Algor acabou de se sentar vai fazer as vezes do banco das meditaes, foi para isso que ele saiu de casa, se tivesse ido acolher-se ao autntico a filha v-lo-ia da porta da cozinha e no tardaria a acudir a perguntar-lhe se estava bem, so cuidados que evidentemente se agradecem, mas a natureza humana est feita de to estranha maneira que at os mais sinceros e espontneos movimentos do corao se podem tornar importunos em certas circunstncias. Do que Cipriano Algor pensou no merece a pena falar porque j o tinha pensado em outras ocasies e desse pensar se deixou informao mais do que suficiente. Se algo de novo aqui aconteceu foi ele ter deixado escorregar pela cara abaixo umas quantas custosas lgrimas, h um ror de tempo que elas andavam l represadas, sempre vai no vai a ponto de se derramarem, afinal estavam prometidas para esta hora triste, para esta noite sem lua, para esta solido que no se resignou. O que realmente no foi nenhuma novidade, porque j tinha sucedido uma outra vez na histria das fbulas e dos prodgios da gente canina, foi ter-se chegado o Achado a Cipriano Algor para lhe lamber as lgrimas, gesto de consolao suprema que, em todo o caso, Por muito comovente que nos parea, capaz at de tocar os coraes menos propensos a manifestaes de sensibilidade, no nos deveria fazer esquecer a crua realidade de que o sabor a sal que nelas est to presente  apreciado em grado sumo pela generalidade dos ces. Uma coisa, porm, no tira a outra, se perguntarmos ao Achado se foi por causa do sal que ele lambeu a cara de Cipriano Algor,


provavelmente responder-nos- que no merecemos o po que comemos, que somos incapazes de ver mais longe que a ponta do nosso nariz. Ali ficaram por mais de duas horas o co e o seu dono, cada qual com os seus pensamentos, j sem lgrimas que um chorasse e o outro secasse, quem sabe se  espera de que a rotao do mundo voltasse a pr todas as coisas nos seus lugares, sem esquecer algumas que at agora ainda no conseguiram encontrar stio.
Na manh seguinte, como tinham decidido, Cipriano Algor levou os bonecos acabados ao Centro. Os outros j se encontravam no forno,  espera da sua vez. Cipriano Algor levantara-se cedo, ainda a filha e o genro dormiam, e quando finalmente Maral e Marta, estremunhados, se mostraram  porta da cozinha, metade do servio estava feito. Tomaram o pequeno-almoo juntos trocando frases de circunstncia, quer mais caf, passa-me a o po, ainda h marmelada, depois Maral foi ajudar o sogro ao que faltava, logo se ocupou do delicado trabalho de acomodar os trezentos bonecos prontos nas caixas que dantes eram usadas no transporte da loua. Marta disse ao pai que iria com Maral a casa dos sogros, era preciso inform-los da prxima mudana, vamos a ver como recebero a notcia, de qualquer modo no ficariam l para comer, Provavelmente j estaremos aqui quando voltar do Centro, concluiu. Cipriano Algor disse que levaria o Achado consigo, e Marta perguntou-lhe se era em algum da cidade que estava a pensar quando ontem  noite disse que tambm tinha uma ideia para resolver o problema do co, e ele respondeu que no, mas que seria um caso a estudar, dessa maneira o Achado ficaria perto deles, poderiam v-lo sempre que quisessem. Marta observou que no constava dos seus conhecimentos que o pai tivesse amigos chegados na cidade, pessoas de tanta confiana que merecessem, disse com inteno a palavra merecessem, ficar com um animal a quem naquela casa se estimava como a


uma pessoa. Cipriano Algor respondeu que no se lembrava de haver dito alguma vez que tinha amigos chegados na cidade, e que se levava o co consigo era para se distrair de pensamentos que no queria ter. Marta disse que se ele tinha pensamentos desses deveria partilh-los com a filha que ali estava, ao que Cipriano Algor respondeu que falar-lhe dos pensamentos que tinha seria como chover no molhado, porque ela os conhecia to bem ou melhor do que ele prprio, no palavra a palavra, claro est, como o registo de um gravador, mas no mais profundo e essencial, e ento ela disse que, em sua humilde opinio, a realidade era precisamente ao contrrio, que de essencial e profundo nada sabia e que muitas das palavras que lhe ouvira no passavam de cortinas de fumo, circunstncia por outro lado nada estranhvel porque as palavras, muitas vezes, s para isso servem, mas h pior ainda, que  quando elas se calam de todo e se convertem num muro de silncio compacto, diante desse muro no sabe uma pessoa o que h-de fazer, Ontem  noite fiquei aqui  sua espera, ao cabo de uma hora o Maral foi para a cama, e eu esperando, esperando, enquanto o meu senhor pai andava a passear com o co l no sei por onde, Por a, pelo campo, Claro, pelo campo, realmente no h nada mais agradvel do que andar pelo campo  noite, sem ver onde estamos a pr os ps, Devias ter-te deitado, Foi o que acabei por fazer, naturalmente, antes que me transformasse em esttua, Ento est tudo certo, no se fala mais no assunto, No est tudo certo, no senhor, Porqu, Porque o pai me roubou o que eu mais desejava naquele momento, E que era, V-lo voltar, apenas isso, v-lo voltar, Um dia compreenders, Espero bem que sim, mas no com palavras, por favor, estou farta de palavras. Os olhos de Marta brilhavam rasos de gua, No faa caso, disse, ao que parece, ns, as frgeis mulheres, no sabemos comportar-nos doutra maneira quando estamos grvidas, vivemos tudo de maneira exagerada. Maral gritou da eira que a carga j estava terminada, que podia ir quando quisesse. Cipriano Algor saiu, subiu para a furgoneta e chamou o Achado. O co, a quem no tinha passado pela cabea a possibilidade de semelhante fortuna, saltou como um raio para o lado do dono e ali ficou, sentado, sorridente, de boca aberta e lngua de fora, feliz pela viagem que comeava, nisto, como em tantas outras coisas, so os seres humanos como os ces, pem todas as suas esperanas no que vem a a virar a esquina, e depois dizem que logo se ver. Quando a furgoneta desapareceu por trs das primeiras casas da povoao, Maral perguntou, Zangaste-te com ele,  o mesmo problema de sempre, se no falamos somos infelizes, e se falamos desentendemo-nos, H que ter pacincia, no  necessria uma excepcional agudeza de viso para perceber que o teu pai est a ver-se a si mesmo como se vivesse numa ilha que se vai tornando mais pequena em cada dia que passa, um pedao, outro pedao, repara que acaba de ir levar os bonecos ao Centro, depois voltar a casa para acender o forno, mas estas coisas anda a faz-las como se duvidasse da razo de ser que tiveram alguma vez, como se desejasse que lhe aparea um obstculo impossvel de transpor para poder dizer enfim acabou-se, Creio que tens razo, No sei se tenho razo, o que tento  pr-me no seu lugar, dentro de uma semana tudo quanto estamos a ver aqui perder grande parte do significado que tinha, a casa continuar a ser nossa, mas nela no viveremos, o forno no manter o seu nome de forno se no houver quem lho d todos os dias, a amoreira-preta persistir em criar as suas amoras, mas no ter ningum que venha apanh-las, se nem a mim mesmo, que no nasci nem me criei debaixo daquele tecto, me vai ser fcil separar-me disto, que no se dir do teu pai, Viremos aqui muitas vezes, Sim,  casa de campo, como ele lhe chamou ironicamente, Existir outra soluo, perguntou Marta, desistes de ser guarda e vens trabalhar na olaria connosco, a fazer loua que ningum quer, ou bonecos que ningum vai querer por muito tempo, Tal como esto as coisas, para mim tambm s existe


uma soluo, a de ser guarda residente do Centro, Tens o que querias ter, Quando pensava que era isso o que queria, E agora, Nos ltimos tempos aprendi com o teu pai algo do que me faltava conhecer, talvez no te tenhas apercebido, mas  meu dever avisar-te de que o homem com quem ests casada  muito mais velho do que parece, No me ds nenhuma novidade, tive o privilgio de assistir ao envelhecimento, disse Marta, sorrindo. Mas depois o rosto tornou-se-lhe grave,  verdade que se nos aperta o corao pensando que vai ser preciso deixar tudo isto, disse. Estavam debaixo da amoreira-preta, sentados, juntos, numa das pranchas de secagem, olhavam na sua frente a casa, a olaria que a ela se encostava, se virassem um pouco a cabea veriam por entre a folhagem a porta do forno aberta, a manh est bonita, de sol, mas fresca, talvez o tempo v mudar. Sentiam-se bem, apesar da tristeza, sentiam-se quase felizes, daquela melanclica maneira que a felicidade, no raro, escolhe para manifestar-se, mas de sbito Maral levantou-se da prancha de secagem e exclamou, J me tinha esquecido, os meus pais, temos de ir falar com os meus pais, aposto dobrado contra singelo que vo tornar  ideia de que eles  que deveriam ir viver no Centro, e no o teu pai, Estando eu presente, o mais provvel  no falarem disso,  uma questo de delicadeza, de bom gosto, Espero que sim, espero que venhas a ter razo.
No a teve. Quando Cipriano Algor, regressando de levar os bonecos ao Centro, atravessava a povoao em direco a casa, viu a filha e o genro que caminhavam  sua frente. Ele tinha posto um brao por cima dos ombros dela e parecia consol-la. Cipriano Algor parou a furgoneta, Entrem, disse, no mandou o Achado para o banco de trs porque sabia que eles quereriam estar juntos. Marta tentava enxugar as lgrimas enquanto Maral lhe ia dizendo, No te rales, sabes como eles so, se eu adivinhasse que isto se ia passar no te teria trazido, Que foi que aconteceu, perguntou Cipriano Algor, O mesmo que no outro dia, que querem ir viver para o Centro, que o merecem mais do que outras pessoas, que j  tempo de desfrutarem da vida, no lhes importou nada que Marta ali estivesse, foi uma cena realmente deplorvel, peo desculpa por eles. Desta vez Cipriano Algor no repetiu que estava disposto a fazer a troca, seria como escarafunchar uma dor nova sobre uma ferida velha, apenas perguntou, E como acabou a discusso, Disse-lhes que o apartamento que me est atribudo , basicamente, para um casal com um filho, que quando muito se poder admitir a presena de mais uma pessoa da familia, desde que para a sua acomodao seja utilizado um pequeno compartimento que em princpio foi destinado a arrecadaes, mas duas pessoas nunca, porque no caberiam l, E eles, Quiseram saber o que sucederia se vissemos a ter outros filhos, e eu respondi-lhes com a verdade, que nesse caso o Centro nos mudaria para um apartamento maior, e eles perguntaram por que motivo, ento, no o podem fazer j, tendo em conta que os pais do guarda residente tambm pretendem ir viver com ele, E tu, Disse-lhes que a pretenso no havia sido apresentada em devido tempo, que h regras, prazos, regulamentos a cumprir, mas que talvez l mais para diante seja possvel voltar a estudar o assunto, Conseguiste convenc-los, No creio, em todo o caso a ideia de que mais tarde podero vir a mudar-se para o Centro melhorou-lhes ligeiramente o humor, At  prxima ocasio, Sim, a prova  que no deixaram de me ir dizendo que a culpa de o assunto no ter sido tratado a tempo no era deles, Os teus pais no tm nada de parvos, Sobretudo a minha me, no fundo esta guerra  muito mais dela que dele, sempre foi dura de roer. Marta tinha deixado de chorar, E tu, como te sentes, a pergunta era de Cipriano Algor, Humilhada e envergonhada, primeiro foi a humilhao de ter de assistir a uma discusso que ia contra mim directamente, mas em que no podia intervir, agora  vergonha o que tenho, Explica-te, Queiramo-lo, ou no, o direito deles  igual ao nosso,


somos ns quem est a torcer as coisas para que eles no possam mudar-se para o Centro, Ns, no, eu, cortou Maral, sou eu que no quero viver com os meus pais, tu e o teu pai no tm nada que ver com isto, Mas somos cmplices de uma injustia, Eu sei que a minha atitude parecer censurvel vista de fora, mas foi de livre e consciente vontade que a tomei para evitar maiores males, se eu prprio no quero viver com os meus pais, muito menos quererei que a minha mulher e o meu filho os tenham de sofrer, o amor une, mas no a todos, e pode at suceder que os motivos de uns para a unio sejam precisamente os motivos de outros para a desunio, E como irs tu ter a certeza de que os nossos motivos vo inclinar-se para o lado da unio, perguntou Cipriano Algor, S h uma razo para que eu esteja feliz por no ser seu filho, respondeu Maral, Deixa-me adivinhar, No  difcil, Porque se o fosses no estarias casado com Marta, Exactamente, adivinhou. Riram-se ambos. E Marta disse, Espero que nesta altura o meu filho j tenha tomado a sbia deciso de nascer filha, Porqu, perguntou Maral, Porque a pobre me no teria foras para suportar sozinha e desamparada a suficincia do pai e do av. Repetiu-se o riso, felizmente no andavam por ali os pais de Maral, pensariam que os Algores se riam  sua custa, enganando o filho a tal ponto que o faziam rir tambm daqueles que lhe haviam dado o ser. As ltimas casas da povoao tinham ficado j para trs. O Achado ladrou de contentamento ao ver surgir no alto da encosta o telhado da olaria, a amoreira-preta, a parte de cima de uma parede lateral do forno. Dizem os entendidos que viajar  importantssimo para a formao do esprito, no entanto no  preciso ser-se uma luminria do intelecto para perceber que os espritos, por muito viajeiros que sejam, precisam de voltar de vez em quando a casa porque s nela  que conseguem ganhar e conservar uma ideia passavelmente satisfatria acerca de si mesmos. Marta disse, Vamos aqui a falar de incompatibilidades familiares, de vergonhas, de humilhaes, de vaidades, de montonas e mesquinhas ambies, e no temos um pensamento para este pobre animal que no pode imaginar que daqui a dez dias j no estar connosco.
Eu penso, disse Maral. Cipriano Algor no falou. Soltou a mo direita do volante e, como faria a uma criana, passou-a pela cabea do co. Quando a furgoneta parou junto ao alpendre da lenha, Marta foi a primeira a sair, Vou fazer o almoo, disse.
O Achado no esperou que lhe abrssem a porta do seu lado, esgueirou-se entre os dois assentos da frente, saltou por cima das pernas de Maral e disparou na direco do forno, com a bexiga subitamente sobressaltada a reclamar urgente satisfao. Maral disse, Agora que ficmos sozinhos, conte-me como foi a entrega da mercadoria, Sem novidade, na forma do costume, entreguei as guias, descarreguei as caixas, fez-se a contagem, o empregado que atendia examinou os bonecos um por um e no achou nada de mal, nenhum estava partido e as pinturas no tinham uma beliscadura, fizeste um excelente trabalho quando os embalaste, Nada mais, Por que perguntas, Desde ontem que tenho a impresso de que o pai anda a esconder alguma coisa, Contei-te o que se passou, no escondi nada, Neste momento no me estava a referir  entrega da mercadoria, ando com esta ideia desde que me foi buscar ao Centro, Referias-te a qu, ento, No sei, estou  espera de que me explique, por exemplo, os enigmticos subentendidos da conversao de ontem  noite, durante o jantar. Cipriano Algor ficou calado, tamborilava com os dedos sobre o arco do volante como se estivesse a decidir, consoante viesse a ser par ou mpar o nmero final do rufo, que resposta daria. Finalmente disse, Vem comigo. Saiu da furgoneta e, seguido de Maral, avanou para o forno. Tinha j a mo posta num dos manpulos dos fechos, mas deteve-se um instante e pediu, No dirs a Marta uma nica palavra do que vais ouvir, Prometo, Nem uma s palavra, J prometi. Cipriano Algor abriu a porta do forno. A claridade do dia fez aparecer bruscamente as estatuetas agrupadas e


alinhadas, cegas pela escurido, antes, cegas pela luz, agora. Cipriano Algor disse,  possvel,  mesmo at muito provvel, que estes trezentos bonecos no cheguem a sair daqui, Ora essa, porqu, perguntou Maral, O departamento de compras resolveu fazer um inqurito para avaliar o grau de interesse dos clientes, os bonecos que lhes levei hoje serviro para isso, Um inqurito por causa de uns bonecos de barro, perguntou Maral, Assim me foi explicado por um dos subchefes, Aquele que embirrava consigo, No, outro, um com ares de simptico, sorridente, um que fala connosco como se nos quisesse meter no corao. Maral pensou um pouco e disse, No fundo,  indiferente, tanto nos faz, de qualquer modo j estaremos a viver no Centro daqui por dez dias, Crs, de facto, que  indiferente, que tanto nos faz, perguntou o sogro, Repare, se o resultado do inqurito vier a sair positivo, ainda haver tempo para acabar estes bonecos e entreg-los, quanto ao resto da encomenda, como  lgico, ficar automaticamente cancelado pelo facto irrefutvel de a olaria deixar de fabricar, E se o resultado sair negativo, Pois ento d vontade de dizer que melhor ainda, poupa-lhes, a si e a Marta, o trabalho de terem de cozer os bonecos e pint-los. Cipriano Algor fechou devagar a porta do forno e disse, Esqueces alguns aspectos da questo,  certo que insignificantes, Quais, Esqueces a bofetada de veres que te rejeitam o fruto do teu trabalho, esqueces que se no fosse o acaso de estes nefastos sucessos coincidirem com a mudana para o Centro ficaramos na mesma situao em que nos encontrmos quando eles deixaram de comprar a loua, e ento sem a esperana absurda de que uns ridculos bonecos de barro ainda nos pudessem salvar a vida,  com o que  que temos de viver, no com o que seria ou poderia ter sido, Admirvel e pacfica filosofia, essa tua, Desculpe-me se no sou capaz de alcanar mais, Eu tambm no alcano muito longe, mas nasci com uma cabea que sofre da incurvel doena de justamente se preocupar com o que seria ou com o que poderia ter sido, E que foi que ganhou com essa preocupao, perguntou Maral, Tens razo, nada, como tu muito bem me fizeste lembrar  com o que  que temos de viver, no com as fantasias do que poderia ter sido, se fosse. Aliviado j da urgncia fisiolgica e com as pernas desentorpecidas pelas correrias desatinadas que dera pelas cercanias, o Achado aproximou-se com o rabo a abanar, mostra habitual de contentamento e de cordialidade, mas que, desta vez, tendo em conta a aproximao da hora do almoo, significava outra instante necessidade do corpo. Cipriano Algor acariciou-o, torcendo-lhe levemente uma orelha, Temos de esperar que a Marta nos chame, rapaz, no parece bem que o co da casa coma antes dos donos dela, h que respeitar a hierarquia, disse. Depois, para Maral, como se a ideia lhe tivesse ocorrido naquele instante, Acenderei o forno hoje, Tinha dito que s o acenderia amanh, quando regressasse do Centro, Pensei melhor, ser uma maneira de estar ocupado enquanto vocs descansam, ou, se preferirem, peguem na furgoneta e vo dar por a um passeio, provavelmente, depois da mudana, no lhes apetecer sair da nova casa to cedo, e ainda menos para estas bandas, Se viremos c, ou no, e quando,  assunto para ver depois, o que quero que me diga  se realmente acredita que sou homem para ir dar uma volta com a Marta e deix-lo aqui sozinho a atirar lenha  fornalha, Posso faz-lo sem ajuda, Claro que sim, mas, j agora, se no se importa, eu tambm gostaria de ser parte activa nesta ltima vez que o forno  acendido, se vai mesmo ser a ltima vez, Comeamos depois do almoo, se  assim que queres, De acordo, Recorda, por favor, nem uma palavra sobre o assunto do inqurito, Esteja sossegado. Com o co atrs, encaminharam-se para casa, e estavam a poucos metros quando Marta apareceu  porta da cozinha, Vinha cham-los, disse, o almoo est pronto, Primeiro vou dar de comer ao co, a viagem deve ter-lhe aberto o apetite, disse o pai, A comida dele est ali, apontou Marta. Cipriano Algor agarrou no tacho e disse, Vem comi


go, Achado, o que te salva  no seres uma pessoa, se o fosses j tinhas comeado a desconfiar dos cuidados e atenes com que ultimamente andamos a tratar-te. A tigela do Achado estava, como sempre, ao lado da casota, e foi para l que Cipriano Algor se dirigiu. Deitou o contedo do tacho para dentro dela e ficou um momento a ver o co comer. Na cozinha, Maral dizia, Vamos acender o forno depois do almoo, Hoje, estranhou Marta, O teu pai no quer deixar o trabalho para amanh, No havia pressa, tnhamos trs dias de descanso, Ele l tem as suas razes, E, como de costume, as razes que ele tem, s ele as conhece. Maral achou prefervel no responder, a boca  um rgo que ser tanto mais de confiana quanto mais silencioso se mantiver. Da a pouco Cipriano Algor entrou na cozinha. A comida j estava na mesa, Marta servia. Da a pouco o pai dir, Acenderemos o forno hoje, e Marta responder, Bem sei, o Maral disse-me.
Por estas ou outras palavras j aqui foi lembrado que todos os dias passados foram vsperas e todos os dias futuros o ho-de ser. Tornar a ser vspera, ao menos por uma hora,  o desejo impossvel de cada ontem que passou e de cada hoje que est passando. Nenhum dia conseguiu ser vspera durante todo o tempo que sonhava. Ainda ontem estiveram Cipriano Algor e Maral Gacho a meter lenha na fornalha, algum que andasse por aqueles stios e no estivesse a par da realidade dos factos poderia muito bem ter pensado, julgando que acertava, L esto eles novamente, vo levar a vida toda naquilo, e agora ei-los na furgoneta que ainda tem a palavra Olaria escrita nas chapas laterais da carroaria, a caminho da cidade e do Centro, e com eles est Marta, sentada ao lado do condutor, que desta vez  o seu marido. Cipriano Algor vai sozinho no banco de trs, o Achado no veio, ficou a guardar a casa.  manh, mas muito cedo, o sol ainda no nasceu, a Cintura Verde no tardar a aparecer, logo ser a Cintura Industrial, logo os bairros de barracas, logo a terra-de-ningum, logo os prdios em construo na periferia, enfim a cidade, a grande avenida, o Centro finalmente. Qualquer caminho que se tome vai dar ao Centro. Nenhum dos passageiros da furgoneta abrir a boca durante toda a viagem. Pessoas no geral to loquazes, como so estas, parece agora que no tm nada para dizer umas s outras. De facto, compreende-se que no valha a pena falar, perder tempo e gastar saliva a articular discursos, frases, palavras e slabas quando aquilo que um est a pensar tambm j est a ser pensado pelos outros. Se Maral, por exemplo, disser, Vamos ao Centro para ver a casa onde passaremos a morar, Marta dir, Curiosa coincidncia, eu ia a pensar o mesmo, e ainda que Cipriano Algor negasse, Pois eu no, o que eu ia a pensar  que no entrarei, que ficarei c fora  vossa espera, mesmo assim, por mais peremptrio que o tom nos soasse aos ouvidos, no lhe deveramos fazer maior caso, Cipriano Algor tem sessenta e quatro anos, j lhe passou a idade dos amuos de criana e ainda tem bastante para viver antes que lhe chegue o tempo dos amuos de velho. O que Cipriano Algor pensa realmente  que no ter outro remdio seno acompanhar a filha e o genro, mostrar a melhor cara possvel aos comentrios de ambos, dar opinies se lhas pedirem, enfim, como se dizia nos antigos romances e dramas, esgotar o clice da amargura at s fezes. Graas  hora matutina, Maral encontrou stio para deixar a furgoneta apenas a uns duzentos metros do Centro, ser outra vida quando j estiverem a morar, os guardas residentes tm direito ao usufruto de seis metros quadrados de garagem l dentro. Chegmos, disse sem necessidade Maral quando puxou o travo da furgoneta. O Centro no se via dali, mas apareceu-lhes logo pela frente ao virarem a esquina da rua onde haviam deixado o carro. Quis a casualidade que este fosse o lado, a parte, a face, o extremo, o topo em que habitam os residentes. A viso no constitua novidade para nenhum dos trs, mas h uma grande diferena entre olhar apenas por olhar, e olhar ao mesmo tempo que algum


nos est a dizer, Duas daquelas janelas so nossas, S duas, perguntou Marta, No nos podemos queixar, h apartamentos que s tm uma, disse Maral, isto sem falar dos que as tm para o interior, O interior de qu, O interior do Centro, claro, Queres tu dizer que h apartamentos cujas janelas do para o interior do prprio Centro, Fica sabendo que h muitas pessoas que os preferem, acham que a vista dali  infinitamente mais agradvel, variada e divertida, ao passo que do outro lado so sempre os mesmos telhados e o mesmo cu, Seja como for, quem viva nesses apartamentos s conseguir ver o andar do Centro que coincidir com a altura a que mora, notou Cipriano Algor, mas menos por interesse real prprio do que para no parecer que se tinha retirado ostensivamente da conversa, O p-direito dos pavimentos comerciais  alto, os espaos so desafogados e amplos, o que tenho ouvido dizer  que as pessoas no se cansam do espectculo, sobretudo as mais idosas, Nunca dei pela existncia dessas janelas, precipitou-se a dizer Marta para estorvar o previsvel comentrio do pai sobre as distraces que mais convm aos velhos, Esto disfaradas pela pintura, disse Maral. Seguiam ao longo da frontaria onde se encontrava a entrada reservada ao pessoal de segurana, Cipriano Algor caminhava dois relutantes passos atrs, como se estivesse a ser puxado por um fio invisvel. Sinto-me nervosa, disse Marta baixinho para que o pai no percebesse, Vers como depois de c estarmos tudo ser fcil,  questo de nos habituarmos, respondeu Maral tambm em voz baixa. Um pouco mais adiante, j natural, Marta perguntou, Em que andar  o apartamento, No trigsimo quarto, To alto, Ainda h mais catorze andares por cima de ns, Um pssaro numa gaiola pendurada  janela poder imaginar que est em liberdade, Estas janelas no se podem abrir, Porqu, Por causa do ar condicionado, Evidentemente. Tinham chegado  porta. Maral entrou adiante, deu os bons-dias aos dois vigilantes de planto, disse de passagem, A minha mulher, o meu sogro, e abriu o guarda-vento que dava acesso ao interior. Entraram num ascensor, Vamos buscar a chave, disse Maral. Saram no segundo andar, percorreram um corredor comprido e estreito, de paredes cinzentas, com portas espaadas de um lado e do outro. Maral abriu uma delas. Aqui  a minha seco, disse. Saudou aos colegas de piquete, apresentou novamente, A minha mulher, o meu sogro, depois acrescentou, Viemos ver o apartamento. Dirigiu-se a um armrio onde estava escrito o seu nome, abriu-o, pegou num molho de chaves e disse para Marta, Estas so. Entraram noutro ascensor. Tem duas velocidades, explicou Maral, comearemos pela lenta. Premiu o boto respectivo, depois o que tinha o nmero vinte, Vamos primeiro at ao vigsimo andar para terem tempo de apreciar, disse. A parte do ascensor virada para o interior era toda envidraada. O ascensor ia atravessando vagarosamente os pavimentos, mostrando sucessivamente os andares, as galerias, as lojas, as escadarias de aparato, as escadas rolantes, os pontos de encontro, os cafs, os restaurantes, os terraos com mesas e cadeiras, os cinemas e os teatros, as discotecas, uns ecrs enormes de televiso, infinitas decoraes, os jogos electrnicos, os bales, os repuxos e outros efeitos de gua, as plataformas, os jardins suspensos, os cartazes, as bandeirolas, os painis publicitrios, os manequins, os gabinetes de provas, uma fachada de igreja, a entrada para a praia, um bingo, um casino, um campo de tnis, um ginsio, uma montanha-russa, um zoolgico, uma pista de automveis elctricos, um ciclorama, uma cascata, tudo  espera, tudo em silncio, e mais lojas, e mais galerias, e mais manequins, e mais jardins suspensos, e coisas de que provavelmente ningum conhece os nomes, como uma ascenso ao paraso. E esta velocidade para que serve, para gozar as vistas, perguntou Cipriano Algor, A esta velocidade os elevadores so usados apenas como meio complementar de vigilncia, disse Maral, No chegam para isso os guardas, os detectores, as cmaras de vdeo, e o resto da tralha bisbilho


teira, tornou a perguntar Cipriano Algor, Passam por aqui todos os dias muitas dezenas de milhares de pessoas,  necessrio manter a segurana, respondeu Maral com o rosto tenso e um reproche de contrariedade na voz, Pai, disse Marta, deixe de espicaar, por favor, No te preocupes, disse Maral, ns sempre nos entendemos, mesmo quando parea que no. O ascensor continuava a subir lentamente. A iluminao dos andares ainda est reduzida ao mnimo, vem-se poucas pessoas, algum empregado que madrugou por necessidade ou por gosto, falta pelo menos uma hora para que as portas sejam abertas ao pblico. Os habitantes que trabalham no Centro no precisam de se apressar, os que tm de sair no atravessam os espaos comerciais e de lazer, descem directamente dos seus apartamentos s garagens subterrneas. Maral carregou no boto rpido quando o ascensor parou, da a poucos segundos estavam no trigsimo quarto andar. Enquanto percorriam o corredor que levava  parte residencial, Maral explicou que havia elevadores para uso exclusivo dos moradores, e que se hoje tinham utilizado este fora por terem tido que passar a recolher a chave. A partir deste momento, as chaves ficam connosco, so nossas, disse. Ao contrrio do que Marta e o pai teriam esperado encontrar, no havia apenas um corredor a separar os blocos de apartamentos com vista para fora daqueles que tinham vista para dentro. Havia, sim, dois corredores, e, entre eles, um outro bloco de apartamentos, mas este com o dobro da largura dos restantes, o que, trocada a explicao em midos, quer dizer que a parte habitada do Centro  constituda por quatro sequncias verticais paralelas de apartamentos, dispostas como placas de baterias ou de colmeias, as interiores ligadas costas com costas, as exteriores ligadas  parte central pelas estruturas das passagens. Marta disse, Estas pessoas no vem a luz do dia quando esto em casa, As que moram nos apartamentos voltados para o interior do Centro tambm no, respondeu Maral, Mas essas, como tu disseste, sempre se podem distrair com as vistas e o movimento, ao passo que estas daqui esto praticamente enclausuradas, no deve ser nada fcil viver nestes apartamentos, sem luz do sol, a respirar ar enlatado durante todo o dia, Pois olha que no falta a quem os prefira, acham-nos muito mais cmodos, mais apetrechados de facilidades, s para dar-te alguns exemplos, todos eles tm aparelhagens de raios ultravioleta, regeneradores atmosfricos, e reguladores de temperatura e de humidade to rigorosos que  possvel ter em casa, de noite e de dia, em qualquer estao do ano, uma humidade e uma temperatura constantes, Felizmente que no nos calhou um apartamento destes, no sei se conseguiria viver muito tempo dentro dele, disse Marta, Os guardas residentes tm de dar-se por satisfeitos com um apartamento comum, dos que tm janelas, Jamais imaginaria eu que ser sogro de um guarda residente do Centro seria a melhor das fortunas e o maior dos privilgios que a vida me tinha reservado, disse Cipriano Algor. Os apartamentos estavam identificados como se fossem habitaes de hotel, com a diferena da introduo de um hfen entre o nmero do andar e o nmero da porta. Maral meteu a chave, abriu e afastou-se para o lado, Faam o favor de entrar, chegmos a casa, disse em voz alta, fingindo um entusiasmo que no sentia. No estavam contentes nem excitados pela novidade. Marta deteve-se no limiar, depois deu trs passos inseguros, olhou em redor. Maral e o pai deixaram-se ficar atrs dela. Aps uns momentos de hesitao, como se tivesse dvidas sobre o que seria mais conveniente fazer, dirigiu-se sozinha  porta mais prxima, olhou para dentro e seguiu adiante. O seu primeiro conhecimento da casa foi assim, passando rapidamente do quarto de dormir  cozinha, da cozinha ao quarto de banho, da sala de estar que ser tambm comedor, ao pequeno compartimento que foi destinado ao pai, No h lugar para a criana, pensou, e logo, Enquanto for pequena ficar connosco, depois veremos, provavelmente passar-nos-o para outra casa. Voltou  entra


da, onde Maral e Cipriano Algor tinham ficado  espera. J a tinhas visto, perguntou ao marido, J, Que te pareceu, A mim, bem, deves ter reparado que as mobilias so novas,  tudo novo, como te tinha dito, e a si, pai, que lhe parece, No posso dar opinio acerca do que no vi, Ento venha, eu sirvo-lhe de guia. Notava-se que estava tensa, nervosa, to fora do seu estado de esprito habitual que foi anunciando as designaes dos compartimentos como se lhes proclamasse os louvores, Aqui  o quarto do casal, aqui  a cozinha, aqui  o quarto de banho, aqui  a sala de estar que tambm servir de sala de jantar, aqui  o confortvel e espaoso aposento em que o meu querido pai dormir e gozar um merecido descanso, no se v stio para pr a menina quando for crescidinha, mas enquanto cresce e no cresce h-de encontrar-se uma soluo. No gostas da casa, perguntou Maral,  a casa que vamos ter, no adianta ficar a discutir se se gosta muito, ou pouco, ou nada, como quem desfolha malmequeres. Maral voltou-se para o sogro a pedir- lhe ajuda, no disse nada, apenas ps nele os olhos, H que reconhecer que a casa no parece nada mal, disse Cipriano Algor, est como nova, a mobilia  de boa madeira, obviamente os mveis teriam de ser diferentes dos nossos, agora usam-se assim, de tons claros, no so como aqueles que temos l, que parecem ter sido passados pelo forno, quanto ao resto a gente sempre se habitua, a gente habitua-se sempre. Marta franziu as sobrancelhas enquanto escutava a arenga do pai, deu aos lbios um jeito de sorriso e foi comear outra volta  casa, desta vez abrindo e fechando gavetas e armrios, a avaliar os contedos. Maral fez um gesto de agradecimento ao sogro, depois olhou o relgio e avisou, Est a aproximar-se a hora de me apresentar ao servio. Marta disse l de dentro, No tardo, vou j, so estas as vantagens dos pequenos apartamentos, solta-se com todas as cautelas um suspiro que se trazia c dentro e acto contnuo algum no outro extremo da casa denuncia, Suspiraste, no negues. E ainda se encontra quem se queixe dos guardas, das cmaras de vdeo, dos detectores e restante tralha. A visita  casa estava feita, e, pela diferena entre o ar com que tinham entrado e o ar com que estavam a sair, sem que pretendamos devassar o segredo dos coraes, parecia ter valido a pena. Desceram directamente do trigsimo quarto andar ao piso trreo porque, no estando ainda Marta e o pai providos dos documentos que os haveriam de habilitar como residentes, Maral tinha de acompanh-los  sada. Mal ainda haviam dado os primeiros passos depois de as portas do elevador se terem fechado, Cipriano Algor disse, Que sensao to estranha, parece-me sentir o cho a vibrar debaixo dos ps. Parou, apurou a orelha e acrescentou, E tenho a impresso de que ouo qualquer coisa como um rudo de mquinas escavadoras, De facto so escavadoras, disse Maral apressando o passo, trabalham em turnos seguidos de seis horas, sem parar, esto a uns bons metros da superfcie, Alguma obra, disse Cipriano Algor, Sim, corre que vo ser instalados novos armazns frigorficos, e algo mais possivelmente, talvez outros parques de estacionamento, aqui nunca se acabam as obras, o Centro cresce todos os dias mesmo quando no se d por isso, se no  para os lados,  para cima, se no  para cima,  para baixo, Calculo que daqui a pouco, quando tudo comear a funcionar, no se dar pelo rudo das escavadoras, disse Marta, Com a msica, os anncios dos artigos nos altifalantes, os rumores das conversas das pessoas, as escadas rolantes a subir e a descer sem parar, ser como se l no estivessem. Tinham chegado  porta. Maral disse que telefonaria logo que houvesse novidades, que entretanto conviria ir adiantando o necessrio para a mudana, apartando para trazer s o que seja estritamente indispensvel, Agora que j viram o espao de que dispomos, devem ter percebido que no sobra lugar para muita coisa. Estavam no passeio, iam despedir-se, mas Marta ainda disse, Na realidade,  como se no houvesse mudana, a casa da olaria continua a ser nossa, o que podemos trazer de l  o


mesmo que nada, o que est a suceder  algo como despirmo-nos de uma roupa para vestir outra, uma espcie de carnaval mascarado, Sim, observou o pai, aparentemente  assim, mas, ao contrrio daquilo que geralmente se cria e sem pensar se afirmava, o hbito faz realmente o monge, a pessoa tambm  feita pela roupa que leva, poder no se notar logo, mas  s questo de dar tempo ao tempo. Adeus, adeus, disse Maral enquanto se despedia da mulher com um beijo, tm o caminho todo para filosofar, aproveitem. Marta e o pai dirigiram-se para onde tinham deixado a furgoneta. Na fachada do Centro, por cima das suas cabeas, um novo e gigantesco cartaz proclamava, VENDER-LHE-AMOS TUDO QUANTO VOC NECESSITASSE SE NO PREFERSSEMOS QUE VOC PRECISASSE DO QUE TEMOS PARA VENDER-LHE.
Durante o regresso a casa, ou, como Marta havia dito para a diferenar da outra,  casa da olaria, pai e filha, apesar da instigao meio zombeteira meio carinhosa de Maral, falaram pouco, pouqussimo, embora o mais simples exame das mltiplas probabilidades decorrentes da situao sugira que tenham pensado muito. Adiantar-nos, por temerrias suposies, ou por aventurosas dedues, ou, pior ainda, por inconsideradas adivinhaes, ao que eles pensaram, no seria, em princpio, se considerarmos a presteza e o descaro com que em relatos desta natureza se desrespeita o segredo dos coraes, no seria, dizamos, tarefa impossvel, mas, uma vez que esses pensamentos, mais cedo ou mais tarde, tero de vir a expressar-se em actos, ou em palavras que a actos conduzam, pareceu-nos prefervel passar adiante e aguardar tranquilamente que sejam os actos e as palavras a manifestar os pensamentos. Para o primeiro deles nem tivemos de esperar muito. Pai e filha tinham almoado calados, o que significar que novos pensamentos se estiveram ajuntar aos do caminho, e de repente ela decidiu quebrar o silncio, Aquela sua ideia de descansarmos trs dias era excelente e, alm de ser de agradecer, tinha toda a justificao na altura, mas a promoo do Maral veio alterar completamente a situao, repare que no temos mais do que uma semana para organizar a mudana e pintar as trezentas estatuetas j cozidas que esto no forno, ao menos essas temos obrigao de entreg-las, Tambm pensei na bonecagem, mas cheguei a


uma concluso diferente da tua, No compreendo, O Centro j l tem uma avanada de trezentos bonecos, por agora devero ser suficientes, estatuetas de barro no so jogos de computador nem pulseiras magnticas, as pessoas no se empurram aos gritos de quero o meu esquim, quero o meu assrio de barbas, quero a minha enfermeira, Muito bem, calculo que os clientes do Centro no iro andar  pancada por causa do mandarim, ou do bobo, ou do palhao, mas isso no quer dizer que no devamos acabar o trabalho, Claro que no, o que no me parece, no entanto,  que merea a pena precipitarmo-nos, Torno a recordar-lhe que s temos uma semana para tudo, No me tinha esquecido, Ento, Ento, tal como tu prpria disseste  sada do Centro, no fundo  como se no fosse haver mudana nenhuma, a casa da olaria, assim lhe chamaste, est aqui, e, estando a casa, evidentemente est a olaria com ela, Eu sei que o pai  grande apreciador de enigmas, No sou apreciador de enigmas, gosto das coisas claras, Tanto me faz, no aprecia enigmas, mas  enigmtico, de modo que lhe ficaria muito reconhecida se me explicasse aonde quer chegar, Quero chegar precisamente onde j estamos neste momento, onde estaremos por uma semana mais e espero que por muitas outras depois, No me faa perder a pacincia, por favor, Por favor digo eu,  to simples como dois e dois serem quatro, Na sua cabea, dois e dois sempre foram cinco, ou trs, ou qualquer nmero, tudo menos quatro, Vais-te arrepender, Duvido, Imagina ento que no pintamos as estatuetas, que nos mudamos para o Centro e as deixamos ficar no forno tal como se encontram, J imaginei, Morar no Centro, como o Maral explicou com muita clareza, no  um desterro, as pessoas no esto l encarceradas, so livres de sair quando quiserem, passar o dia todo na cidade ou no campo e voltar  noite. Cipriano Algor fez uma pausa e olhou curiosamente a filha sabendo que ia assistir ao despertar da sua compreenso. Assim sucedeu, Marta disse sorrindo, Dou a mo  palmatria, na sua cabea dois e dois tambm podem ser quatro, Eu disse que era simples. Viremos acabar o trabalho quando for preciso, e desta maneira no teremos de cancelar a encomenda das seiscentas estatuetas que ainda faltam,  s questo de combinar com o Centro uns prazos de entrega que convenham a ambos os lados, Exactamente. A filha aplaudiu o pai, o pai agradeceu o aplauso. E at, disse Marta, de sbito entusiasmada pelo oceano de possibilidades positivas que se lhe abrira diante, supondo que o Centro continua a manter o interesse pelos bonecos, poderemos prosseguir com a laborao, no teremos de fechar a olaria, Exactamente, E quem diz bonecos, tambm dir alguma outra ideia que nos ocorra e os convena a eles, ou acrescentar outras figuras s seis que temos, Assim . Enquanto pai e filha saboreiam as fagueiras perspectivas que uma vez mais acabam de demonstrar-nos que o diabo nem sempre est atrs da porta, aproveitemos ns a pausa para examinar a real valia e o real significado dos pensamentos de um e do outro, desses dois pensamentos que, aps to prolongado silncio, finalmente se expressaram. Prevenimos, porm, desde j, que no ser possvel chegar a uma concluso, ainda que provisria, como o so todas, se no comearmos por admitir uma premissa inicial certamente chocante para as almas rectas e bem formadas, mas no por isso menos verdadeira, a premissa de que, em muitos casos, o pensamento manifestado foi, por assim dizer, atirado para a linha da frente por um outro pensamento que no considerou oportuno manifestar-se. Quanto a Cipriano Algor, no ser nada difcil perceber que alguns dos seus inslitos procedimentos esto a ser motivados pelas preocupaes que o atormentam sobre o resultado do inqurito, e que, portanto, ao recordar  filha que, mesmo estando a viver no Centro, poderiam vir trabalhar na olaria, o que quis foi simplesmente dissuadi-la de pintar os bonecos, no venha a dar-se o caso de chegar a amanh ou depois uma ordem do subchefe sorridente ou do seu superior mximo a anular a entrega, e ela tenha de sofrer o des


gosto de deixar o trabalho por acabar, ou, se acabado, imprestvel. Mais surpreendente seria o comportamento de Marta, a impulsiva e de certo modo desconforme alegria perante a duvidosa suposio de vir a olaria a manter-se em actividade, se no fosse possvel estabelecer uma relao entre esse comportamento e o pensamento que lhe deu origem, um pensamento que tem vindo a persegui-la tenazmente desde que entrou no apartamento do Centro e que ela j jurou a si mesma no confessar a ningum, nem mesmo ao pai, apesar de o ter aqui to prximo, nem, imagine-se, ao seu prprio marido, apesar de todo o bem que lhe quer. O que passou pela cabea de Marta e l ganhou raiz ao cruzar a soleira da porta do seu novo lar, naquele altssimo trigsimo quarto andar de mveis claros e duas vertiginosas janelas a que no tinha tido a coragem de chegar-se, foi que no suportaria viver ali dentro para o resto da sua vida, sem mais certezas que ser a mulher do guarda residente Maral Gacho, sem mais amanh que a filha que cr trazer dentro de si. Ou o filho. Pensou nisto durante todo o caminho at chegarem  casa da olaria, continuou a pensar enquanto ia preparando o almoo, ainda pensava quando, por falta de apetite, empurrava com o garfo, de um lado para outro, a comida no prato, continuava a pensar quando disse ao pai que, antes de se mudarem para o Centro, tinham a obrigao estrita de terminar as estatuetas que estavam  espera no forno. Terminar as estatuetas era pint-las, e pintar era justamente o trabalho que lhe competia a ela fazer, ao menos que lhe fossem dados ainda trs ou quatro dias para estar sentada debaixo da amoreira-preta, com o Achado deitado ao seu lado, a rir de boca aberta e lngua de fora. Como se de uma ltima e desesperada vontade ditada por um condenado se tratasse, no pedia nada mais do que isto, e de repente, com uma simples palavra, o pai abrira-lhe a porta para a liberdade, afinal poderia vir do Centro sempre que quisesse, abrir a porta da sua casa com a chave da sua casa, reencontrar nos mesmos lugares tudo quanto aqui tivesse deixado, entrar na olaria para verificar se o barro tinha a humidade conveniente, depois sentar-se ao torno, confiar as mos  argila fresca, s agora  que compreendia que amava estes lugares como uma rvore, se pudesse, amaria as razes que a alimentam e levantam no ar. Cipriano Algor olhava a filha, lia no seu rosto como nas pginas de um livro aberto, e o corao doa-lhe do engano com que a teria estado iludindo se os resultados do inqurito viessem a ser a tal ponto negativos que levassem o departamento de compras do Centro a desistir dos bonecos de uma vez para sempre. Marta tinha-se levantado da cadeira, viera dar-lhe um beijo, um abrao, Que ser daqui a uns dias, pensou Cipriano Algor, retribuindo-lhe os carinhos, porm as palavras que pronunciou foram outras, foram aquelas de sempre, Como os nossos avs mais ou menos acreditavam, enquanto houver vida, teremos garantida a esperana. O tom conformado com que as deixou sair teria talvez feito reconsiderar Marta se ela no estivesse to entregue s suas prprias e felizes expectativas. Desfrutemos ento em paz os nossos trs dias de descanso, disse Cipriano Algor, em verdade bem os tnhamos merecido, no estamos a roub-los a ningum, depois comearemos a organizar a mudana, D o exemplo e v dormir uma sesta, disse Marta, ontem andou todo o santssimo dia a trabalhar no forno, hoje teve de se levantar cedo, mesmo para um pai como o meu a resistncia tem limites, quanto  mudana, l chegaremos, isso  assunto da dona da casa. Cipriano Algor retirou-se para o quarto, despiu-se em lentos gestos de uma fadiga que no era s do corpo e estendeu-se na cama soltando um fundo suspiro. No se conservou assim muito tempo. Soergueu-se na almofada e olhou  sua volta como se fosse a primeira vez que tinha entrado neste quarto e precisasse de fix-lo na lembrana por alguma obscura razo, como se esta fosse tambm a ltima vez que aqui viria e pretendesse que a memria lhe servisse de alguma coisa mais no futuro que recordar-lhe aquela mancha na parede, aquela risca de luz no soalho,


aquele retrato de mulher sobre a cmoda. L fora o Achado ladrou como se tivesse ouvido um desconhecido a subir a rampa, mas logo se calou, o mais provvel era ter apenas respondido, sem especial interesse, ao ladrar de qualquer co distante, ou ento quis simplesmente fazer-se lembrado, deve pressentir que anda no ar alguma coisa que no  capaz de entender. Cipriano Algor fechou os olhos para convocar o sono, mas a vontade deles foi outra. No h nada mais triste, mais miseravelmente triste do que um velho a chorar.
A notcia chegou ao quarto dia. O tempo havia mudado, de vez em quando caa uma chuvada forte que alagava em um minuto a eira e rufava nas folhas crespas da amoreira-preta como dez mil baquetas de tambor. Marta tinha andado a fazer a lista de coisas que em princpio deveriam ser levadas para o apartamento, mas com a conscincia vivssima, em cada momento, da contradio entre dois impulsos que jogavam dentro de si, um que lhe dizia a mais perfeita das verdades, isto , que uma mudana no ser mudana se no houver algo para mudar, outro que simplesmente a aconselhava a deixar tudo como estava, Tanto mais, recorda, que tornars c muitas vezes para trabalhares e respirares o ar do campo. Quanto a Cipriano Algor, com o propsito de limpar da cabea a teia das inquietaes que o levavam durante o dia a olhar para o relgio dezenas de vezes, ocupara-se a varrer e lavar a olaria de uma ponta  outra, recusando de novo a ajuda que Marta lhe tinha vindo oferecer, Logo seria eu quem teria de ouvir o Maral, disse.
O Achado foi mandado h bocado para a casota depois de ter sujado lamentavelmente o cho da cozinha com a lama que trouxe agarrada s patas na primeira incurso que decidiu fazer l fora para aproveitar uma aberta. A gua nunca ser tanta que lhe v entrar em casa, mas, pelo sim pelo no, o dono meteu-lhe debaixo quatro tijolos, transformando em palafita pr-histrica um actual e corriqueiro refgio canino. Estava-se nisto quando a campanha do telefone tocou. Marta atendeu, no primeiro instante, ao ouvir a voz dizer de l, Fala do Centro, pensou que fosse Maral, pensou que lhe fossem passar a chamada, mas no foram essas as palavras que se seguiram, O senhor chefe do departamento de compras quer falar com o senhor Cipriano Algor. Em geral, uma secretria conhece o assunto que o seu patro vai tratar quando lhe pede que faa uma ligao telefnica, mas uma telefonista propriamente dita no sabe nada de nada, por isso  que tem aquela voz neutra, indiferente, de quem deixou de pertencer a este mundo, em todo o caso faamos-lhe a justia de pensar que algumas vezes teria carpido lgrimas de pena se pudesse adivinhar o que sucedeu depois que tivesse dito mecanicamente, Podem falar. O que Marta comeou por imaginar foi que o chefe do departamento de compras vinha exprimir a sua contrariedade pela demora na entrega das trezentas estatuetas em falta, quem sabe se tambm das seiscentas nem sequer ainda comeadas, e quando, aps dizer  telefonista, Um momento, correu a chamar o pai  olaria, levava a ideia de soltar-lhe de passagem uma rpida palavra crtica sobre o erro que se cometera no prosseguindo o trabalho assim que a primeira srie de bonecos ficara terminada. A palavra recriminatria, porm, ficou-lhe presa na lingua quando viu como o rosto do pai se transtornava ao ouvi-la anunciar,  o chefe do departamento de compras, quer falar consigo. Cipriano Algor no achou que devesse correr, j deveria reconhecer-se mrito bastante na firmeza dos passos que o levavam  barra do tribunal onde ia ser lida a sua sentena. Pegou no telefone que a filha tinha deixado sobre a mesa, Sou eu, Cipriano Algor, a telefonista disse, Muito bem, vou p-lo em comunicao, houve um silncio, um zumbido tnue, um estalido, e a voz do chefe do departamento de compras, sonora, cheia, soou do outro lado, Boas tardes, senhor Cipriano Algor, Boas tardes, senhor, Suponho que calcula por que motivo lhe estou a telefonar hoje, Supe bem, senhor, queira continuar, Tenho diante de mim os resultados e as concluses do


inqurito acerca dos seus artigos, que um dos subchefes do departamento, com a minha aprovao, decidiu promover, E esses resultados quais foram, senhor, perguntou Cipriano Algor, Lamento inform-lo de que no foram to bons quanto desejaramos, Se assim , ningum o poder lamentar mais do que eu, Temo que a sua participao na vida do nosso Centro tenha chegado ao fim, Em todos os dias se comeam coisas, mas, tarde ou cedo, todas acabam, No quer que lhe leia daqui os resultados, Interessam-me mais as concluses, e essas j fiquei a conhec-las, o Centro no comprar mais as nossas estatuetas. Marta, que tinha escutado com ansiedade cada vez maior as palavras do pai, levou as mos  boca como para segurar uma exclamao. Cipriano Algor fez-lhe gestos a pedir calma, ao mesmo tempo que ia respondendo a uma pergunta do chefe do departamento de compras, Compreendo o seu desejo de que no fique nenhuma dvida no meu esprito, estou de acordo com o que acaba de dizer, que apresentar concluses sem a exposio prvia dos motivos que levaram a elas, poderia ser entendido como uma maneira pouco habilidosa de disfarar uma deciso arbitrria, o que no seria nunca, evidentemente, o caso do Centro, Ainda bem que concorda comigo,  difcil no concordar, senhor, V tomando ento nota dos resultados, Queira dizer, O universo de clientes sobre o qual viria a incidir o inqurito ficou definido  partida pela excluso daquelas pessoas que pela idade, pela posio social, pela educao e pela cultura, e tambm pelos seus hbitos conhecidos de consumo, fossem previsvel e radicalmente contrrias  aquisio de artigos deste tipo,  bom saber que se tommos esta deciso, senhor Algor, foi para no o prejudicar logo de entrada, Muito obrigado, senhor, Dou-lhe um exemplo, se tivssemos seleccionado cinquenta jovens modernos, cinquenta rapazes e raparigas do nosso tempo, pode ter a certeza, senhor Algor, de que nem um nico quereria levar para casa um dos seus bonecos, ou se os levasse seria para os usar em coisas como o tiro ao alvo, Compreendo, Escolhemos vinte e cinco pessoas de cada sexo, de profisses e rendimentos mdios, pessoas de antecedentes familiares modestos, ainda ligadas a gostos tradicionais, e em cujas casas a rusticidade do produto no fosse destoar demasiado, E mesmo assim,  verdade, senhor Algor, mesmo assim os resultados foram maus, Pacincia, senhor, Vinte homens e dez mulheres responderam que no gostavam de bonecos de barro, quatro mulheres disseram que talvez comprassem se fossem maiores, trs poderiam comprar se fossem mais pequenos, dos cinco homens que restavam, quatro disseram que j no estavam em idade de brincar e o outro protestou pelo facto de trs das estatuetas representarem estrangeiros, ainda por cima exticos, e quanto s oito mulheres que ainda falta mencionar, duas declararam-se alrgicas ao barro, quatro tinham ms recordaes desta espcie de objectos, e s as duas ltimas responderam agradecendo muito a possibilidade que lhes tinha sido proporcionada de decorarem gratuitamente a sua casa com uns bonequitos to simpticos, h que acrescentar que se trata de pessoas idosas que vivem ss, Gostaria de conhecer os nomes e as direces dessas senhoras para lhes agradecer, disse Cipriano Algor, Lamento, mas no estou autorizado a revelar dados pessoais dos inquiridos,  uma condio estrita de qualquer averiguao deste tipo, respeitar o anonimato das respostas, Talvez possa dizer-me, em todo o caso, se essas pessoas vivem no Centro, A quem se refere, a todas as pessoas, perguntou o chefe do departamento de compras, No senhor, apenas s duas que tiveram a bondade de achar simpticos os nossos bonecos, disse Cipriano Algor, Tratando-se de um dado no particularmente substancial, suponho que no estarei a trair a deontologia que preside aos inquritos se lhe disser que essas duas mulheres vivem fora do Centro, na cidade, Muito obrigado pela informao, senhor, Serviu-lhe de algo, Infelizmente no, senhor, Ento para que queria saber, Podia ser que tivesse a oportunidade de as encontrar e agradecer-lhes pessoalmente,


vivendo elas na cidade ser quase impossvel, E se vivessem aqui, Quando, logo ao princpio desta conversa, me disse que a minha participao na vida do Centro tinha chegado ao fim, estive quase a interromp-lo, Porqu, Porque, ao contrrio do que pensa, e apesar de no quererem ver mais as louas e os bonecos deste oleiro, a minha vida continuar ligada ao Centro, No percebo, faa o favor de se explicar melhor, Dentro de cinco ou seis dias estarei a residir a, o meu genro foi promovido a guarda residente e eu irei viver com a minha filha e com ele, Alegra-me essa notcia e dou-lhe os meus parabns, afinal o senhor  um homem de muita sorte, no se poder queixar, acaba por ganhar tudo quando julgava que tinha perdido tudo, No me queixo, senhor, Ser caso para proclamar que o Centro escreve direito por linhas tortas, se alguma vez lhe sucede ter de tirar com uma mo, logo acode a compensar com a outra, Se bem me lembro, isso das linhas tortas e de escrever direito por elas era o que se dizia de Deus, observou Cipriano Algor, Nos tempos de hoje vai dar praticamente no mesmo, no exagerarei nada afirmando que o Centro, como perfeito distribuidor de bens materiais e espirituais que , acabou por gerar de si mesmo e em si mesmo, por necessidade pura, algo que, ainda que isto possa chocar certas ortodoxias mais sensveis, participa da natureza do divino, Tambm se distribuem l bens espirituais, senhor, Sim, e nem pode imaginar at que ponto, os detractores do Centro, alis cada vez menos numerosos e cada vez menos combativos, esto absolutamente cegos para o lado espiritual da nossa actividade, quando a verdade  que foi graas a ela que a vida pde ganhar um novo sentido para milhes e milhes de pessoas que andavam por a infelizes, frustradas, desamparadas, e isto, quer se queira quer no, acredite em mim, no foi obra da matria vil, mas de esprito sublime, Sim senhor, Apraz-me dizer-lhe, senhor Algor, que encontrei na sua pessoa algum com quem, mesmo em situaes difceis como a de agora, sempre me deu prazer conversar sobre estas e outras questes srias, tomo-as muito a peito pela dimenso transcendente que, de algum modo, acrescentam ao meu trabalho, espero que a partir da sua prxima mudana para o Centro nos possamos ver outras vezes e continuar a trocar ideias, Eu tambm, senhor, Boas tardes, Boas tardes. Cipriano Algor pousou o telefone no descanso e olhou para a filha. Marta estava sentada, com as mos no regao, como se de sbito tivesse precisado de aconchegar a primeira e ainda mal perceptvel redondez do ventre. Deixam de comprar, perguntou, Sim, fizeram um inqurito entre os clientes e o resultado saiu negativo, J no compraro sequer os trezentos bonecos que esto no forno, No. Marta levantou-se, foi at  porta da cozinha, olhou a chuva que no parava de cair, e de l, virando um pouco a cabea, perguntou, No tem nada para me dizer, Tenho, respondeu o pai, Ento fale, sou toda ouvidos. Cipriano Algor veio encostar-se  ombreira da porta, respirou fundo, depois principiou, No estava desprevenido, sabia que isto poderia acontecer, foi um dos prprios subchefes do departamento que me disse que iriam fazer um inqurito para avaliar a disposio dos clientes em relao s estatuetas, o mais provvel, at,  que a ideia tenha nascido do prprio chefe, Portanto, andei enganada nestes trs dias, enganada por si, meu pai, a sonhar com uma olaria em funcionamento, a imaginar-nos a sair do Centro de manh cedo, chegar aqui e arregaar as mangas, respirar o cheiro do barro, trabalhar ao seu lado, ter o Maral comigo nos dias de folga, No quis que sofresses, Estou a sofrer duas vezes, a sua boa inteno no me poupou nenhuma delas, Peo perdo, E, por favor, no perca tempo a pedir-me que lhe perdoe, sabe bem que sempre estar perdoado por mim, faa o que fizer, Se a deciso fosse ao contrrio, se o Centro decidisse afinal comprar os bonecos, nunca virias a conhecer o risco em que tnhamos estado, Agora j deixou de ser um risco,  uma realidade, Temos a casa, poderemos vir quando quisermos, Sim, temos a casa, uma casa com vista para o cemitrio, Que cemitrio, A olaria, o forno,


as pranchas de secagem, a parga da lenha, o que era e j deixou de ser, quer maior cemitrio do que esse, perguntou Marta,  beira das lgrimas. O pai ps-lhe a mo sobre o ombro, No chores, reconheo que foi um erro no te ter contado o que se passava. Marta no respondeu, recordava a si mesma que no tinha o direito de censurar o pai, que ela tambm tinha um segredo que guardava do marido, que nunca lhe contaria, Como vais conseguir agora, perdida que est a esperana, viver naquele apartamento, perguntava-se. O Achado tinha sado da casota, caam-lhe em cima as grossas gotas de gua que escorregavam da amoreira-preta, mas no se afoitava. Tinha as patas sujas, o plo a pingar e a certeza de no ser bem recebido. E, contudo, era dele que precisamente se falava na porta da cozinha. Quando o viu aparecer e parar a olhar, Marta tinha perguntado, Que vamos fazer com aquele co. Tranquilamente, como se se tratasse de um assunto j mil vezes discutido e ao qual no teria valido a pena voltar, o pai respondeu, Perguntarei  vizinha Isaura Madruga se quer ficar com ele, No sei se o estou a ouvir bem, repita, por favor, o pai disse mesmo que ir perguntar  vizinha Isaura Madruga se quer ficar com o Achado, Ouviste perfeitamente, foi isso o que eu disse,  Isaura Madruga, Se fazes muita questo nisso, eu responderei  Isaura Madruga, ento tu tornars a perguntar  Isaura Madruga, e ficaremos assim o resto da tarde, Foi uma surpresa enorme, A surpresa no pode ser assim to grande,  a mesma pessoa a quem tu pensavas deix-lo, A surpresa no  a pessoa, para mim a surpresa  que tenha sido o pai a ter essa ideia, No h mais ningum na povoao, nem se calhar no mundo, a quem eu deixasse o Achado, preferiria mat-lo. Expectante, abanando o rabo lentamente, o animal continuava a olhar de longe. Cipriano Algor baixou-se e chamou, Achado, vem aqui. Esparrinhando gua para todos os lados, o co comeou por se sacudir todo, como se s decente e apresentvel  que estivesse autorizado a ir ao dono, depois deu uma rpida corrida para se achar, no instante seguinte, com a cabeorra apoiada ao peito de Cipriano Algor, com tanta fora que parecia querer passar-lhe para o lado de dentro. Foi ento que Marta perguntou ao pai, Para que tudo seja perfeito, para que no seja s ter o Achado abraado a si, diga-me se falou ao Maral da questo do inqurito, Falei, Ele no me contou nada, Pela mesma razo por que eu no to tinha contado. Chegado o dilogo a este ponto, talvez se esteja  espera de que Marta responda, Realmente, pai, parece impossvel, ter-lho dito a ele, e a mim deixar-me na ignorncia dos factos, as pessoas em geral reagem assim, ningum gosta de ser deixado  margem, desconsiderado no seu direito  informao e ao conhecimento, no entanto, l muito de longe em longe, ainda se vai topando com alguma rara excepo neste fastidioso mundo de repeties, como lhe poderiam ter chamado os sbios rficos, pitagricos, esticos e neoplatnicos se no tivessem preferido, com potica inspirao, dar-lhe o mais bonito e sonoro nome de eterno retorno. Marta no protestou, no fez uma cena, limitou-se a dizer, Ficaria zangada consigo se no tivesse contado ao Maral. Cipriano Algor despegou-se do co, mandou-o regressar  casota, e disse, Uma vez por outra, acerto. Ficaram a olhar a chuva que no parava de cair, a ouvir o monlogo da amoreira-preta, e ento Marta perguntou, Que poderamos fazer por aqueles bonecos que esto no forno, e o pai respondeu, Nada. Seca, cortante, a palavra no deixou dvidas, Cipriano Algor no proferiu, no lugar dela, uma daquelas frases correntias que, por quererem assumir-se como definitivamente negativas, no se importam de levar dentro de si duas negaes, o que, segundo a abalizada opinio dos gramticos, a converteria em rotunda afirmao, como se uma dessas frases, esta por exemplo, No podemos fazer nada, estivesse a dar-se ao incmodo de se negar a si mesma para significar que, afinal de contas, ainda seria possvel fazer alguma coisa.
Maral telefonou depois do jantar, Estou a falar-te de casa, disse, deixei hoje a camarata do pessoal da segurana e esta


noite j dormirei na nossa cama, Melhor assim, estars satisfeito, claro, Sim, e tenho notcias para dar, Ns tambm, disse Marta, Por quais principiamos, pelas minhas ou pelas vossas, perguntou ele, O melhor seria comear talvez pelas ms, e deixar as boas, se as houver, para o final, As minhas no so boas nem ms, so notcias, simplesmente, Ento comearei pelas daqui, esta tarde comunicaram-nos do Centro que no compram as estatuetas, fizeram um inqurito e a concluso foi negativa. Houve um silncio do outro lado. Marta esperou. Depois Maral disse, Sabia desse inqurito, Sei que sabias, o pai contou-me, Eu temia que o resultado viesse a ser esse, O temor confirmou-se, Ests aborrecida comigo por no te ter dito o que se passava, Nem contigo nem com ele, as coisas so assim, h que fazer um esforo para as compreender e aceitar, o que mais me custou foi ter perdido a iluso de que, mesmo estando ns a viver no Centro, poderamos continuar a trabalhar na olaria, Nunca pensei nessa possibilidade, No foi uma ideia que nascesse da minha cabea, saiu em conversa com o pai, Mas ele no poderia estar seguro de que os bonecos fossem aceites, Quis poupar-me, como tu, o resultado do engano foi eu ter andado feliz como uma avezinha durante estes dias,  motivo para dizer que no se perdeu tudo, enfim, no choremos aquele leite derramado que tantas lgrimas tem feito correr no mundo, fala-me das notcias que tinhas para nos dar, Concederam-me trs dias para a mudana, incluindo o da folga, que desta vez vai calhar a uma segunda-feira, portanto irei daqui na sextafeira ao fim da tarde, de txi, no vale a pena que o teu pai me venha buscar, preparamos tudo no sbado, e no domingo de manh iamos as velas, O que  preciso levar j est apartado, disse Marta com uma voz distrada. Houve um novo silncio. No ests contente, perguntou Maral, Estou, estou contente, respondeu Marta. Depois repetiu, Estou, estou contente. L fora, o co Achado ladrou, alguma sombra da noite se devia ter movido.
A furgoneta estava carregada, as janelas e as portas da olaria e da casa j tinham sido fechadas, s faltava, como havia dito Maral dias antes, iar as velas. Contrado, com a expresso tensa, parecendo subitamente mais velho, Cipriano Algor chamou o co. Apesar do tom de angstia que um ouvido atento poderia distinguir nela, a voz do dono fez alterar para melhor o nimo do Achado. Andara por ali, perplexo, inquieto, a correr de um lado a outro, a cheirar as malas e os embrulhos que eram trazidos da casa, latia com fora para chamar a ateno, e a estava como os seus pressentimentos tinham sado certos, algo de singular, de fora do comum, se estivera preparando nos ltimos tempos, e agora chegara a hora em que a sorte, ou o destino, ou o acaso, ou a instabilidade das vontades e sujeies humanas, iriam decidir da sua existncia. Deitara-se ao p da casota, com a cabea alongada sobre as patas,  espera. Quando o dono disse, Achado, vem, julgou que o estivessem a chamar para subir  furgoneta como outras vezes havia sucedido, sinal de que afinal nada teria mudado na sua vida, de que o dia de hoje iria ser igual ao de ontem, como  sonho constante dos ces. Estranhou que lhe pusessem a trela, no era costume quando viajavam, mas a estranheza aumentou, tornou-se confuso, quando a dona e o dono mais novo lhe vieram passar a mo pela cabea, ao mesmo tempo que murmuravam palavras incompreensveis e em que o seu prprio nome de Achado soava de maneira inquietadora, embora


o que estavam a dizer-lhe no fosse to mau assim, Viremos ver-te qualquer dia. Um puxo leve f-lo entender que tinha de seguir o dono, a situao voltara a tornar-se clara, a furgoneta era para os outros donos, com este o passeio seria a p. Mesmo assim, a trela continuava a surpreend-lo, mas tratava-se de um pormenor sem importncia. Quando chegassem ao campo, o dono iria deix-lo solto para correr atrs de qualquer bicho vivente que lhe aparecesse pela frente, mesmo que no fosse mais que a bagatela de uma sardanisca. A manh est fresca, o cu nublado, mas sem ameaar chover. Chegados  estrada, em lugar de virar  esquerda, para o campo aberto, como esperava, o dono virou  direita, iriam portanto  povoao. Por trs vezes, no caminho, o Achado teve de travar bruscamente o passo. Cipriano Algor ia como em geral todos vamos em circunstncias parecidas a estas, quando nos pomos a discutir ociosamente com o nosso ser ntimo se queremos ou no queremos o que obviamente se tornou claro que de facto queremos, comea-se uma frase e no se termina, pra-se de repente, corre-se como se se fosse salvar o pai da forca, pra-se outra vez, o mais paciente e dedicado dos ces acabar por perguntar-se se no lhe convir um dono mais resoluto. Mal sabe este, porm, como  terrninante a resoluo que o leva. Cipriano Algor j est  porta de Isaura Madruga, avana a mo para chamar, hesita, avana outra vez, nesse instante a porta abre-se como se tivesse estado  sua espera, e no era certo, Isaura Madruga ouviu a campainha e veio ver quem era. Bons dias, senhora Isaura, disse o oleiro, Bons dias, senhor Algor, Desculpe ter vindo incomod-la em sua casa, mas tenho um assunto que queria tratar consigo, um grande favor a pedir-lhe, Entre, Poderamos falar aqui mesmo, no  preciso entrar, Ora essa, passe, no faa cerimnia, O co tambm pode entrar, perguntou Cipriano Algor, tem as patas sujas, O Achado  como se fosse da famlia, somos velhos conhecidos. A porta fechou-se, a penumbra da pequena sala fechou-se sobre eles. Isaura fez um gesto a indicar uma cadeira, sentou-se ela prpria. Tenho a impresso de que j sabe ao que venho, disse o oleiro enquanto fazia deitar o co aos seus ps,  possvel, Talvez a minha filha tenha tido alguma conversa consigo, Acerca de qu, Acerca do Achado, No, nunca falmos do Achado nesse sentido que diz, Que sentido, Esse que disse, termos tido uma conversa, falou-se com certeza do Achado mais do que uma vez, mas no para ter propriamente uma conversa sobre ele. Cipriano Algor baixou os olhos, O que lhe venho pedir  que fique com o Achado na minha ausncia, Vo-se embora, perguntou Isaura, Agora mesmo, como calcula no podemos levar o co, no Centro no admitem animais, Eu fico com ele, Sei que o cuidar como se fosse seu, Cuid-lo-ei melhor do que se fosse meu, porque  seu. Sem pensar no que fazia, talvez para aliviar os nervos, Cipriano Algor tinha tirado a trela ao co. Creio que lhe deveria pedir desculpa, disse, Porqu, Porque nem sempre fui bem-educado consigo, A minha memria recorda outras coisas, a tarde em que o encontrei no cemitrio, o que falmos sobre a asa do cntaro que se soltara, a sua vinda a minha casa de propsito para me trazer um cntaro novo, Sim, mas depois disso tornei-me incorrecto, grosseiro, e no foi uma vez nem duas que tal aconteceu, No tinha importncia, Tinha, A prova de que no a teve  estar agora aqui, Mas a ponto de deixar de estar, Sim, a ponto de deixar de estar. Nuvens escuras deviam ter tapado o cu, a penumbra dentro de casa tornou-se mais densa, o natural seria Isaura levantar-se agora da cadeira para ir acender a luz. Contudo, no o fez, no por indiferena ou por qualquer razo subterrnea, somente porque no se tinha apercebido de que mal conseguia distinguir as feies de Cipriano Algor, sentado ali mesmo  sua frente,  curta distncia do seu brao se se inclinasse um pouco para diante. O cntaro continua a provar bem, a fazer a gua fresca, perguntou Cipriano Algor, Como no primeiro dia, respondeu Isaura, e foi neste momento que percebeu como esta


va escura a sala, Devia acender a luz, disse a si mesma, mas no se levantou. Nunca lhe tinham dito que a muitas pessoas no mundo se lhes mudou radicalmente o destino por esse gesto to simples que  o de acender ou apagar a luz, quer fosse uma candeia antiga, ou uma vela, ou um candeeiro de petrleo, ou uma lmpada das modernas,  certo ter pensado que deveria levantar-se, que assim o estavam impondo as convenincias, mas o corpo negava-se, no se movia, recusava-se a cumprir a ordem da cabea. Esta era a penumbra que havia faltado a Cipriano Algor para que se atrevesse finalmente a declarar, Gosto de si, Isaura, e ela respondeu com uma voz que parecia dorida, E no dia em que se vai embora  que mo vem dizer, Seria intil t-lo feito antes, tanto, no fim de contas, como estar a faz-lo agora, E no entanto acabou de o dizer, Era a ltima ocasio, tome-o como uma despedida, Porqu, No tenho nada para lhe oferecer, sou uma espcie a caminho da extino, no tenho futuro, no tenho sequer presente, Presente tem-no, esta hora, esta sala, a sua filha e o seu genro que o vo levar, esse co a deitado aos seus ps, Mas no essa mulher, No perguntou, Nem quero perguntar, Porqu, Repito, porque no tenho nada para lhe oferecer, Se o que disse ainda h pouco foi sentido e pensado, tem o amor, O amor no  casa, nem roupa, nem comida, Mas comida, roupa e casa, por si ss, no so amor, No joguemos com as palavras, um homem no vai pedir a uma mulher que se case com ele se no tem meios para ganhar a vida,  o seu caso, perguntou Isaura, Sabe bem que sim, a olaria fechou e eu no aprendi a fazer outra coisa, Mas vai viver s sopas do seu genro, No tenho mais remdio, Tambm poderia viver do que a sua mulher ganhasse, Quanto tempo duraria o amor nesse caso, perguntou Cipriano Algor, No trabalhei enquanto estive casada, vivi do que o meu marido ganhava, Ningum achava mal, era esse o costume, mas ponha um homem nessa situao e conte-me o que se passar depois, Teria ento o amor forosamente de morrer por causa disso, perguntou Isaura,  por razes to simples como essa que o amor se acaba, No estou em situao de lhe poder responder, falta-me a experincia. Discretamente, o Achado levantou-se, em sua opinio a visita de cortesia j se estava a prolongar demasiado, agora queria voltar  casota,  amoreira-preta, ao banco das meditaes. Cipriano Algor disse, Tenho de ir, esto  minha espera, Assim nos despedimos, perguntou Isaura, Viremos de vez em quando, saber como est o Achado, ver se a casa ainda est de p, no  um adeus at nunca mais. Tornou a enganchar a trela e passou-a s mos de Isaura, Aqui lho deixo,  apenas um co, porm Nunca saberemos que ontolgicas consideraes se dispunha Cipriano Algor a desenvolver depois da conjuno que deixou suspensa no ar, porque a sua mo direita, aquela que segurava a ponta da trela, perdeu-se ou deixou-se encontrar entre as mos de Isaura Madruga, essa mulher que ele no tinha querido incluir no seu presente e que, no obstante, lhe dizia agora, Gosto de si, Cipriano, sabe que gosto muito de si. A trela escorregou para o cho, sentindo-se livre o Achado afastou-se para ir fungar um rodap, quando da a pouco virou a cabea percebeu que a visita se tinha desviado do caminho, que j no  simples cortesia aquele abrao, nem aqueles beijos, nem aquela respirao entrecortada, nem aquelas palavras que, embora por muito diferente razo, tambm comeam mas no conseguem acabar. Cipriano Algor e Isaura tinham-se levantado, ela chorava de alegria e mgoa, ele balbuciava, Voltarei, voltarei,  realmente uma pena que a porta da rua no se abra de par em par para que a vizinhana possa verificar e passar palavra de como a viva do Estudioso e o velho da olaria se amam de um verdadeiro e finalmente confessado amor. Com voz que recuperara algo do seu tom natural, Cipriano Algor repetiu, Voltarei, voltarei, h-de haver uma soluo para ns, A nica soluo  ficares, disse Isaura, Sabes bem que no posso, Estaremos aqui  tuaespera, o Achado e eu. O co no compreendia por que motivo es


taria a mulher a segurar a trela que o prendia, estando os trs a andar em direco  porta, sinal evidente de que o dono e ele iriam enfim sair, no compreendia por que razo a trela ainda no tinha passado  mo de quem, por direito, lha tinha posto. O pnico subia-lhe das tripas  garganta, mas, ao mesmo tempo, os membros tremiam-lhe por causa da excitao resultante do plano que o instinto de sbito lhe delineara, livrar-se com um estico violento quando a porta fosse aberta e, logo, triunfante, esperar l fora que o dono fosse ao seu encontro. A porta s se abriu depois doutros abraos e doutros beijos, doutras palavras murmuradas, porm a mulher segurava-o com firmeza, enquanto dizia, Tu ficas, tu ficas, assim so as coisas do falar, o mesmo verbo que havia sido incapaz de reter Cipriano Algor era o que no deixava agora que o Achado se escapasse. A porta fechou-se, separou o animal do seu amo, mas, assim so as coisas do sentir, a angstia do desarrimo de um no podia, ao menos neste momento, esperar simpatia nem correspondncia na lacerada felicidade do outro. No vem longe o dia em que saberemos como foi que se passou a vida do Achado na sua nova casa, se lhe foi cmodo ou custoso adaptar-se  sua nova dona, se o bom trato e o afecto sem limites que ela lhe ofereceu bastaram para faz-lo esquecer a tristeza de haver sido abandonado injustamente. Agora a quem teremos de seguir  a Cipriano Algor, nada mais que segui-lo, ir atrs dele, acompanhar o seu passo sonmbulo. Quanto a imaginar como  possvel juntarem-se em uma pessoa sentimentos to contrapostos como, no caso que temos vindo a apreciar, a mais profunda das alegrias e o mais pungente dos desgostos, para depois descobrir ou criar aquele nico nome com que passaria a ser designado o sentimento particular consequente a essa juno,  uma tarefa que muitas vezes foi empreendida no passado e que em cada uma delas se resignou, como um horizonte que se vai incessantemente deslocando, a no alcanar sequer o limiar da porta das inefabilidades que esperam deixar de o ser. A expresso vocabular humana no sabe ainda, e provavelmente no o saber nunca, conhecer, reconhecer e comunicar tudo quanto  humanamente experimentvel e sensvel. H quem afirme que a causa principial desta serissima dificuldade reside no facto de os seres humanos serem no fundamental feitos de argila, a qual, como as enciclopdias prestimosamente nos explicam,  uma rocha sedimentar detrtica formada por fragmentos minerais minsculos, do tamanho de um/duzentos e cinquenta e seis avos de milmetro. At hoje, por mais voltas que se dessem s linguagens, no se conseguiu achar um nome para isto.
Entretanto, Cipriano Algor chegou ao fim da rua, virou para a estrada que dividia a povoao ao meio e, nem andando nem arrastando-se, nem correndo nem voando, como se estivesse a sonhar que queria libertar-se de si mesmo e esbarrasse continuamente com o seu prprio corpo, chegou ao alto da rampa onde a furgoneta o esperava com o genro e a filha. O cu, antes, parecera no estar para aguadas, mas agora tinha comeado a cair uma chuva indecisa, indolente, que talvez no viesse para durar, mas que exacerbava a melancolia destas pessoas apenas a uma volta de roda de se separarem dos lugares queridos, o prprio Maral sentia que se lhe contraa de inquietao o estmago. Cipriano Algor entrou na furgoneta, sentou-se ao lado do condutor, no lugar que lhe tinha sido deixado, e disse, Vamos. No pronunciaria outra palavra at chegarem ao Centro, at entrarem no monta-cargas que os levou com as malas e os embrulhos ao trigsimo quarto andar, at abrirem a porta do apartamento, at Maral exclamar, C estamos, s nessa altura abriu a boca para emitir uns poucos sons organizados, contudo no lhe saiu nada que fosse da sua lavra, limitou-se a repetir, com um pequeno aditamento retrico, a frase do genro,  verdade, c estamos. Por sua vez, Marta e Maral pouco tinham dito entre eles durante o caminho. As nicas palavras merecedoras de registo nesta histria, e ainda assim


por alto, de modo puramente acidental, por se reportarem a pessoas de quem apenas temos ouvido falar, foram as que trocaram quando a furgoneta ia a passar em frente da casa dos pais de Maral, Avisaste-os de que amos hoje, perguntou Marta, Sim, anteontem, quando vim do Centro, estive c pouco tempo, tinha o txi  espera, No queres parar, tornou ela a perguntar, Estou cansado de discusses, farto at  ponta dos cabelos, Mesmo assim, Lembra-te da maneira como se comportaram quando viemos os dois, com certeza no querers que a cena se repita, disse Maral,  uma pena, seja como for so os teus pais,  uma expresso muito curiosa, essa, Qual, Seja como for, Diz-se assim, Pois diz, palavras que  primeira vista parecem no passar de um adorno de frase em todos os sentidos dispensvel, acabam por meter medo quando nos pomos a pensar nelas e compreendemos aonde querem chegar, Seja como for, disse Marta,  outra maneira disfarada de dizer que remdio, que lhes havemos de fazer, j que assim tem de ser, ou simplesmente resignao, que  a palavra forte, Enfim, sempre teremos de viver com os pais que temos, disse Maral, Sem nos esquecermos de que algum vai viver com os pais que seremos, concluiu Marta. Foi ento que Maral olhou para a sua direita e disse, sorrindo, Claro que esta conversa de pais e filhos mal-avindos no tem nada que ver consigo, mas Cipriano Algor no respondeu, limitou-se a acenar a cabea vagamente. Sentada atrs do marido, Marta via o pai quase de perfil. Que se ter passado com a Isaura, pensou, com certeza no foi apenas chegar l, deixar o Achado e voltar, pela demora algo mais tero dito um ao outro, daria no sei o qu para saber em que vai a cismar, o rosto parece sereno, mas ao mesmo tempo  o de algum que no est completamente em si, de algum que escapou a um perigo e se surpreende de ainda estar vivo. Ficaria a saber muito mais se pudesse olhar o pai de frente, ento talvez dissesse, Conheo essas lgrimas que no caem e se consomem nos olhos, conheo essa dor feliz, essa espcie de felicidade dolorosa, esse ser e no ser, esse ter e no ter, esse querer e nao poder. Mas ainda seria cedo para que Cipriano Algor lhe respondesse. Tinham sado da povoao, deixado j para trs as trs casas em runas, agora cruzavam a ponte sobre a ribeira de guas escuras e malcheirosas. L adiante, no meio do campo, onde se avistam aquelas rvores juntas, escondido pelas moitas de silvas,  que est o tesouro arqueolgico da olaria de Cipriano Algor. Qualquer diria que passaram dez mil anos desde que ali foram descarregadas as derradeiras sobras de uma antiga civilizao.
Quando na manh seguinte ao seu dia de folga Maral desceu do trigsimo quarto andar para se apresentar ao servio como guarda j para todos os efeitos residente, o apartamento estava arrumado, limpo, posto em ordem, com os objectos trazidos da outra casa nos seus lugares prprios e  espera de que os habitantes comecem, sem resistncia, a ocupar tambm os lugares que no conjunto lhes competem. No vai ser fcil, uma pessoa no  como uma coisa que se larga num stio e ali se deixa ficar, uma pessoa mexe-se, pensa, pergunta, duvida, investiga, quer saber, e se  verdade que, forada pelo hbito da conformao, acaba, mais tarde ou mais cedo, por parecer que se submeteu aos objectos, no se julgue que tal submisso , em todos os casos, definitiva. A primeira questo que os novos habitantes tero de resolver, com excepo de Maral Gacho que continuar no seu conhecido e rotineiro trabalho de velar pela segurana das pessoas e dos bens institucionalmente ou ocasionalmente relacionados com o Centro, a primeira questo, dizamos, ser encontrar uma resposta satisfatria para a pergunta, E agora o que  que vou fazer. Marta leva s suas costas o governo da casa, quando lhe chegar a hora ter um filho para criar, e isso ser mais do que bastante para a manter ocupada durante muitas horas do dia e algumas das da noite. No entanto, sendo as pessoas, como acima ficou assinalado, alm de sujeitos de um fazer, sujeitos tambm de um pensar,


no deveremos surpreender-nos se ela vier a perguntar a si mesma, no meio de um trabalho que j lhe tivesse ocupado uma hora e ainda tivesse de ocupar-lhe mais duas, E agora o que  que eu vou fazer. Em todo o caso,  Cipriano Algor quem se encontra confrontado com a pior das situaes, a de olhar para as mos e saber que no servem para nada, a de olhar para o relgio e saber que a hora que vem ser igual a esta em que est, a de pensar no dia de amanh e saber que ser to vazio como o de hoje. Cipriano Algor no  um adolescente, no pode passar o dia estendido numa cama que mal cabe no seu pequenssimo quarto, a pensar em Isaura Madruga, a repetir as palavras que disseram um ao outro, a reviver, se se pode dar to ambicioso nome s imateriais operaes da memria, os beijos e os abraos que se tinham dado. No faltar quem pense que a melhor medicina para os males de Cipriano Algor seria ele descer agora mesmo  garagem, meter-se na furgoneta e ir fazer uma visita a Isaura Madruga, que, mais do que certo, estar a passar, l longe, por iguais ansiedades do corpo e do esprito, e que para um homem na situao em que ele se encontra e a quem a vida j no reserva triunfos industriais e artsticos de primeira ou segunda importncia, ter ainda uma mulher de quem goste e que j confessou retribuir-lhe o gosto,  a mais excelsa das bnos e das sortes. Ser no conhecer Cipriano Algor. Assim como j nos tinha dito que um homem no vai pedir a uma mulher que se case com ele se nem sequer tem meios para garantir a sua prpria subsistncia, tambm agora nos diria que no nasceu para se aproveitar de circunstncias beneficiosas e comportar-se como se um suposto direito s satisfaes resultantes desse aproveitamento, alm de justificado pelas qualidades e virtudes que o exornam, lhe fosse igualmente devido pelo facto de ser homem e de ter posto a sua ateno de homem e os seus desejos numa mulher. Por outras palavras, mais francas e directas, aquilo a que Cipriano Algor no est disposto, ainda que tenha de vir a custar-lhe todas as penas e amarguras da solido,  a representar perante si mesmo o papel do sujeito que periodicamente vai visitar a amsia e regressa de l sem mais sentimentais recordaes que as de uma tarde ou uma noite passadas a agitar o corpo e a sacudir os sentidos, deixando  sada um beijo distrado numa cara que perdeu a maquilhagem, e, no caso particular que nos vem ocupando, uma festa na cabea de um canino, Ento at  prxima, Achado. Contudo, ainda tem Cipriano Algor dois recursos para escapar  priso em que de sbito viu converter-se o apartamento, no falando do mero e pouco duradouro paliativo que seria ir de vez em quando at  janela e olhar o cu por trs das vidraas. O primeiro recurso  a cidade, isto , Cipriano Algor, que sempre viveu na insignificante aldeia que mal ficmos a conhecer e que da cidade no conhece mais do que aquilo que lhe ficava no trajecto, poder agora gastar o seu tempo a passear, a vadiar, a dar ar  pluma, expresso figurada e caricatural que deve ter vindo de um tempo passado, quando os fidalgos e senhores da corte usavam penas nos chapus e saam a arejar-se com eles e com elas. Tambm tem ao seu dispor os parques e jardins pblicos da cidade onde se costumam reunir homens de idade pelas tardes, homens que tm a cara e os gestos tpicos dos reformados e dos desempregados, que so dois modos distintos de dizer o mesmo. Poder juntar-se e acamaradar com eles, e entusiasticamente jogar as cartas at ao lusco-fusco, at j no ser possvel aos seus olhos mopes distinguir se as pintas ainda so vermelhas ou j se tornaram pretas. Pedir a desforra, se perder, conced-la-, se ganhar, as regras no jardim so simples e aprendem-se depressa. O segundo recurso, escusado seria diz-lo,  este prprio Centro em que vive. Conhece-o, evidentemente, desde antes, em todo o caso menos bem do que conhece a cidade, porque nunca conseguiu guardar na memria os trajectos das poucas vezes que aqui entrou, sempre com a filha, para fazer algumas compras. Agora, por assim dizer, o Centro  todo seu,


foi-lhe posto numa bandeja de som e luz, pode vaguear por ele tanto quanto lhe apetea, regalar-se de msica fcil e de vozes convidativas. Se, quando aqui vieram para conhecer o apartamento, tivessem utilizado um ascensor do lado oposto, teriam podido apreciar, durante a vagarosa subida, alm de novas galerias, lojas, escadas rolantes, pontos de encontro, cafs e restaurantes, muitas outras instalaes que em interesse e variedade nada ficam a dever s primeiras, como sejam um carrocel com cavalos, um carrocel com foguetes espaciais, um centro dos pequeninos, um centro da terceira idade, um tnel do amor, uma ponte suspensa, um comboio fantasma, um gabinete de astrlogo, uma recepo de apostas, uma carreira de tiro, um campo de golfe, um hospital de luxo, outro menos luxuoso, um boliche, um salo de bilhares, uma bateria de matraquilhos, um mapa gigante, uma porta secreta, outra com um letreiro que diz experimente sensaes naturais, chuva, vento e neve  discrio, uma muralha da china, um taj-mahal, uma pirmide do egipto, um templo de karnak, um aqueduto das guas livres que funciona as vinte e quatro horas do dia, um convento de mafra, uma torre dos clrigos, um fiorde, um cu de vero com nuvens brancas vogando, um lago, uma palmeira autntica, um tiranossurio em esqueleto, outro que parece vivo, um himalaia com o seu evereste, um rio amazonas com ndios, uma jangada de pedra, um cristo do corcovado, um cavalo de tria, uma cadeira elctrica, um peloto de execuo, um anjo a tocar trombeta, um satlite de comunicaes, um cometa, uma galxia, um ano grande, um gigante pequeno, enfim, uma lista a tal ponto extensa de prodgios que nem oitenta anos de vida ociosa bastariam para os desfrutar com proveito, mesmo tendo nascido a pessoa no Centro e no tendo sado dele nunca para o mundo exterior.
Excluda por manifesta insuficincia a contemplao da cidade e dos seus telhados por trs das janelas do apartamento, eliminados os parques e os jardins por no ter Cipriano Algor chegado ainda a um estado de nimo que se possa classificar como de desespero  boca fechada ou de nusea absoluta, postas de lado, pelas poderosas razes j expendidas, as tentadoras mas problemticas visitas de desafogo sentimental e fsico a Isaura Madruga, o que restava ao pai de Marta, se no queria passar o resto da vida a bocejar e a dar, figuradamente, com a cabea nas paredes do seu crcere interior, era lanar-se  descoberta e  investigao metdica da ilha maravilhosa para onde o tinham trazido depois do naufrgio. Todas as manhs, portanto, depois da desjejua, Cipriano Algor lana  filha um At logo apressado, e, como quem vai para o seu trabalho, umas vezes subindo ao ltimo tecto, outras vezes descendo ao nvel do cho, utilizando dos ascensores, consoante as suas necessidades de observao, ora a velocidade mxima, ora a velocidade minima, avanando por corredores e passadios, atravessando sales, rodeando enormes e complexos conjuntos de vitrinas, montras, expositores e escaparates com tudo o que existe para comer e para beber, para vestir e para calar, para o cabelo e para a pele, para as unhas e para os plos, para o de cima e para o de baixo, para suspender do pescoo, para pendurar das orelhas, para enfiar nos dedos, para tilintar nos pulsos, para fazer e para desfazer, para cozer e para coser, para pintar e para despintar, para aumentar e para diminuir, para engrossar e para adelgaar, para estender e para encolher, para encher e para esvaziar, e dizer isto  o mesmo que nada ter dito, uma vez que tambm no seriam suficientes oitenta anos de vida ociosa para ler e analisar os cinquenta e cinco volumes de mil e quinhentas pginas de formato a-quatro cada um que constituem o catlogo comercial do Centro. Evidentemente, no so os artigos expostos o que mais interessa a Cipriano Algor, alis, comprar no  assunto da sua responsabilidade e competncia, para isso l est quem o dinheiro ganha, isto , o genro, e quem depois o gere, administra e aplica, isto , a filha. Ele  o que vai de mo nas algibeiras,


parando aqui e ali, perguntando o caminho a um guarda, porm, mesmo que tropece com ele, nunca a Maral, para que no transpaream os laos de familia, e, sobretudo, aproveitando-se da mais preciosa e invejada das vantagens de morar no Centro, que  a de poder gozar grtis ou a preos reduzidos das mltiplas atraces que se encontram  disposio dos clientes. Fizemos j dessas atraces dois sbrios e condensados relatos, o primeiro sobre aquilo que se viu do ascensor do lado de c, o segundo sobre aquilo que se poderia ter visto do ascensor do lado de l, porm, por um escrpulo de objectividade e de rigor informativo, recordaremos que, tanto num caso como no outro, nunca fomos alm do trigsimo quarto andar. Por cima deste, como se recordaro, ainda assenta um universo de mais catorze. Tratando-se de pessoa com um esprito razoavelmente curioso, quase no seria preciso dizer que os primeiros passos da investigao de Cipriano Algor se encaminharam  misteriosa porta secreta, que no entanto misteriosa teve de continuar a ser, uma vez que, apesar dos insistentes toques de campainha e de alguns repeniques com os ns dos dedos, ningum apareceu l de dentro a indagar o que pretendia. A quem teve de dar prontas e completas explicaes foi a um guarda que, atrado pelo rudo ou, mais provavelmente, guiado pelas imagens do circuito interno de vdeo, lhe foi perguntar quem era e o que fazia naquele local. Cipriano Algor explicou que morava no trigsimo quarto andar e que, andando por ali a passear, sentira a sua ateno despertada pelo letreiro da porta, Simples curiosidade, senhor, simples curiosidade de quem no tem mais nada que fazer. O guarda pediu-lhe o carto oficial de identidade, o carto que o acreditava como residente, comparou a cara ao retrato incorporado em cada um, examinou  lupa as impresses digitais apostas nos documentos, e, para terminar, recolheu uma impresso do mesmo dedo, que Cipriano Algor, aps ter sido devidamente industriado, premiu contra o que seria um leitor do computador porttil que o guarda extrara de uma bolsa que levava a tiracolo, ao mesmo tempo que ia dizendo, No se preocupe, so formalidades, em todo o caso aceite-me um conselho, no torne a aparecer por aqui, poderia arranjar complicaes para a sua vida, ser curioso uma vez basta, de resto nem vale a pena, no h nada de secreto por trs desta porta, em tempos, sim, houve-o, agora j no, Se  como diz, por que  que no retiram a chapa, perguntou Cipriano Algor, Serve de chamariz para ficarmos a saber quem so as pessoas curiosas que moram no Centro. O guarda esperou que Cipriano Algor se afastasse uma dezena de metros, depois seguiu-o at que encontrou um colega, a quem, para evitar ser reconhecido, passou a misso, Que fez ele, perguntou o guarda Maral Gacho, disfarando a preocupao, Estava a chamar  porta secreta, No  grave, isso acontece vrias vezes todos os dias, disse Maral, com alvio, Sim, mas a gente tem de aprender a no ser curiosa, a passar de largo, a no meter o nariz aonde no foi chamada,  uma questo de tempo e de habilidade, Ou de fora, disse Maral, A fora, salvo em casos muito extremos, deixou de ser precisa, claro que eu podia t-lo detido para interrogatrio, mas o que fiz foi dar-lhe bons conselhos, usar a psicologia, Tenho de ir atrs dele, disse Maral, no seja que se me escape, Se notares algo de suspeito, informa-me, para anexar ao relatrio, assinaremos os dois. Foi-se embora o outro guarda, e Maral, depois de ter acompanhado de longe o deambular do sogro at dois andares acima, deixou-o ir. Perguntava a si mesmo o que seria mais adequado, se falar com ele e recomendar-lhe todo o cuidado no seu divagar pelo Centro, ou simular que no havia tido conhecimento do pequeno incidente e fazer votos por que no sucedessem outros mais graves. A deciso que tomou foi esta, mas como Cipriano Algor, ao jantar, lhe contou, rindo, o que se tinha passado, no teve outro remdio que assumir o papel de mentor e pedir-lhe que se comportasse de modo a no atrair as atenes de quem quer que fosse, guardas ou no guardas,  a nica


maneira correcta de proceder para quem aqui vive. Ento Cipriano Algor tirou do bolso um papel, Copiei estas frases de alguns cartazes expostos, disse, espero no ter chamado a ateno de nenhum espia ou observador, Tambm o espero, disse Maral de mau humor,  suspeito copiar frases que esto expostas para os clientes lerem, perguntou Cipriano Algor, L-las  normal, copi-las no, e tudo o que no seja normal , pelo menos, suspeito de anormalidade. Marta, que at a no tinha participado na conversa, pediu ao pai, Leia l as frases. Cipriano Algor alisou o papel em cima da mesa e comeou a ler, Seja ousado, sonhe. Olhou para a filha e para o genro, e como eles no pareciam dispostos a comentar, continuou, Viva a ousadia de sonhar, esta  uma variante da primeira, e agora vm as outras, uma, ganhe operacionalidade, duas, sem sair de casa os mares do sul ao seu alcance, trs, esta no  a sua ltima oportunidade mas  a melhor, quatro, pensamos todo o tempo em si  a sua altura de pensar em ns, cinco, traga os seus amigos desde que comprem, seis, connosco voc nunca querer ser outra coisa, sete, voc  o nosso melhor cliente mas no o diga ao seu vizinho, Essa esteve l fora, na fachada, disse Maral, Agora est dentro, os clientes devem ter gostado, respondeu o sogro. Que mais encontrou nessa sua aventurosa explorao, perguntou Marta, Acabars por adormecer se me ponho a falar, Ento, adormea-me, O que mais me divertiu, comeou Cipriano Algor, foram as sensaes naturais, Que  isso, Tenta imaginar, Tentarei, Entras numa sala de acolhimento, pagas o teu bilhete, a mim cobraram-me s dez por cento, fizeram-me um desconto de quarenta e cinco por cento por ser residente e outro desconto igual por ter mais de sessenta anos, Parece que  estupendo ter-se mais de sessenta anos, disse Marta, Exactamente, quanto mais velho fores, mais lucras, quando morreres ests rico, E que aconteceu depois, perguntou Maral impaciente, Nunca l entraste, estranhou o sogro, Sabia que existia, mas nunca entrei, no tive tempo, Ento no fazes ideia do que tens andado a perder, Se no conta vou dormir para a cama, ameaou Marta, Bom, depois de teres pago e de te darem um impermevel, um gorro, umas botas de plstico e um guarda-chuva, tudo colorido, tambm podes ir de negro, mas ters de pagar um extra, passas a um vestirio onde uma voz no altifalante te manda pr as botas, o impermevel e o gorro, e logo entras numa espcie de corredor onde as pessoas se alinham em filas de quatro, mas com bastante espao entre elas para se poderem mover  vontade, ramos uns trinta, havia alguns que se estreavam, como eu, outros que, segundo julguei perceber, iam ali de vez em quando, e pelo menos cinco deles deviam ser veteranos, a um ouvi mesmo dizer Isto  como uma droga, prova-se e fica-se enganchado. E depois, perguntou Marta, Depois comeou a chover, primeiro umas gotitas, depois um pouco mais forte, todos abrimos os guarda-chuvas, e a a voz do altifalante deu-nos ordem para que avanassemos, e no se pode descrever,  preciso t-lo vivido, a chuva comeou a cair torrencialmente, de repente arma-se uma ventania, vem uma rajada, outra, h guarda-chuvas que se viram, gorros que se escapam da cabea, as mulheres a gritar para no rirem, os homens a rir para nao gritarem, e o vento aumenta,  como um tufo, as pessoas escorregam, caem, levantam-se, tornam a cair, a chuva torna-se dilvio, gastmos uns bons dez minutos a percorrer calculo eu que uns vinte e cinco ou trinta metros, E depois, perguntou Marta bocejando, Depois voltmos para trs e logo comeou a cair neve, ao princpio uns flocos dispersos que pareciam fiapos de algodo, depois mais e mais grossos, caam na nossa frente como uma cortina que mal deixava ver os colegas, alguns continuavam com os guarda-chuvas abertos, o que s servia para atrapalhar ainda mais, finalmente chegmos ao vestirio e ali havia um sol que era um resplendor, Um sol no vestirio, duvidou Maral, Nessa altura j no era vestirio, mas assim como uma campina, E essas foram as sensaes naturais, perguntou Marta,


Sim, No  nada que no se veja todos os dias l fora, Esse foi precisamente o meu comentrio quando estvamos a devolver o material, mas teria sido melhor deixar-me ficar calado, Porqu, Um dos veteranos olhou para mim com desdm e disse Tenho pena de si, nunca poder compreender. Ajudada pelo marido, Marta comeou a levantar a mesa. Amanh ou depois vou  praia, anunciou Cipriano Algor, A j eu estive uma vez, disse Maral, E como  aquilo, Gnero tropical, faz muito calor e a gua  tpida, E a areia, No h areia, o piso  de plstico a fazer as vezes, de longe at parece autntico, Mas ondas no h, claro, Pois a  que se engana, tem l no interior um mecanismo que produz uma ondulao igualzinha  do mar, No me digas, Digo, As coisas que os homens so capazes de inventar, Sim, disse Maral,  um bocado triste. Cipriano Algor levantou-se, deu duas voltas por ali, pediu um livro  filha e quando ia a entrar no seu quarto disse, Estive l em baixo, o cho j no vibra, e no se ouve o rudo das escavadoras, e Maral respondeu, Devem ter terminado o trabalho.
Marta tinha proposto ao marido que o primeiro dia de folga desde que estavam a viver no Centro fosse aproveitado em ir buscar  casa da olaria umas quantas coisas que, segundo ela, estavam a fazer falta, Numa mudana normal leva-se tudo o que se tem, mas o nosso caso no foi esse, alis, estou convencida de que teremos de l ir outras vezes, e no fundo at tem certa graa, podemos passar a noite na nossa cama e vir na manh seguinte, como fazias dantes. Maral respondeu que no lhe parecia bem estarem a criar uma situao em que acabariam por no saber onde realmente moravam, O teu pai parece querer dar-nos a impresso de que anda muito divertido a descobrir os segredos do Centro, mas eu conheo-o, atrs daquela cara a cabea continua a trabalhar, No me disse uma nica palavra sobre o que se passou em casa da Isaura, fechou-se totalmente, e no foi esse nunca o seu costume, de uma maneira ou outra, mesmo irritado, mesmo com maus modos, sempre acabava por se abrir comigo, penso que se fssemos agora a casa talvez lhe servisse de aj'uda, com certeza quereria ver como est o Achado, conversaria outra vez com ela, Muito bem, se essa  a tua ideia, iremos, mas lembra-te do que te vou dizer, ou moramos aqui, ou moramos na olaria, pretender viver como se os dois lugares fossem um s, ser como morar em parte nenhuma, Talvez para ns v ter de ser assim, Assim, como, Morar em parte nenhuma, Todas as pessoas precisam de uma casa, e ns no somos excepo, A casa que


tnhamos foi-nos tirada, Continua a ser nossa, Mas no como o foi antes, Agora a casa  esta. Marta olhou em redor e disse, No creio que o venha a ser alguma vez. Maral encolheu os ombros, pensou que estes Algores so gente difcil de compreender, mas que, ainda assim, por nada deste mundo os trocaria. Dizemos ao teu pai, perguntou, S  ltima hora, para no ficar a moer-se por dentro durante muito tempo e a envenenar o sangue.
Cipriano Algor no chegou a saber que a filha e o genro tinham projectos para ele. O dia de folga de Maral Gacho foi cancelado, e o mesmo sucedeu aos seus colegas de turno. Sob sigilo absoluto, aos guardas residentes, e s a eles, por serem considerados mais dignos de confiana, foi comunicado que as obras para a construo dos novos depsitos frigorficos tinham posto  mostra no piso zero-cinco algo que iria exigir uma cuidadosa e demorada investigao, Por agora, o acesso ao lugar est condicionado, disse o comandante aos guardas, dentro de alguns dias uma equipa mista de especialistas estar a trabalhar l, haver gelogos, arquelogos, socilogos, antroplogos, mdicos legistas, tcnicos de publicidade, disseram-me mesmo que fazem parte do grupo dois filsofos, no me perguntem porqu. Fez uma pausa, passou os olhos pelos vinte homens alinhados na sua frente, e continuou, Esto proibidos de falar seja a quem for do que acabei de lhes comunicar nem do que vierem a ter conhecimento no futuro, e quando digo seja a quem for  mesmo seja a quem for, mulher, filhos, pais, segredo total e absoluto  o que vos estou a exigir, entendido, Sim senhor, responderam em coro os homens, Muito bem, a entrada da gruta, tinha-me esquecido de dizer que se trata de uma gruta, estar guardada dia e noite, sem interrupo, em turnos de quatro horas, neste quadro podem ver a ordem por que ser feita a vigilncia, so cinco horas da tarde, s seis comeamos. Um dos homens levantou a mo, queria saber se era possvel, quando tinha sido descoberta a gruta e quem estivera a guard-la desde ento, A responsabilidade pela segurana, disse, s passar a ser nossa a partir das seis horas, portanto no se nos poder responsabilizar por algo incorrecto que tiver sucedido antes, A entrada da gruta foi descoberta hoje de manh quando se estava a mover manualmente a terra, o trabalho foi interrompido acto contnuo e a administrao informada, a partir desse momento trs engenheiros da direco de obras mantiveram-se no local todo o tempo, H alguma coisa dentro da gruta, quis saber outro guarda, Sim, respondeu o comandante, tereis ocasio de ver do que se trata com os vossos prprios olhos,  perigoso, convm irmos armados, perguntou o mesmo guarda, Tanto quanto se sabe, no existe qualquer perigo, no entanto, por precauo, no deveis tocar nem chegar-vos demasiado perto, ignoramos as consequncias que poderiam resultar de um contacto, Para ns ou para o que l est, decidiu-se Maral a perguntar, Para uns e para outros, H mais do que um na gruta, Sim, disse o comandante, e o seu rosto mudou de expresso. Depois, parecendo fazer um esforo sobre si mesmo, continuou, E agora, se no tm outras questes a pr, tomem nota do seguinte, em primeiro lugar, quanto  dvida de ir armado ou no, considero suficiente que levem o basto, no porque pense que tenham necessidade de o usar, mas para que se sintam mais confiantes, o basto  como uma pea de roupa fundamental, sem ele o guarda fardado sente-se nu, em segundo lugar, quem no estiver de vigia dever vestir-se  paisana e circular por todos os andares a fim de escutar conversas que tenham ou paream ter alguma relao com a gruta, no caso de tal suceder, embora as probabilidades sejam praticamente inexistentes, o servio central dever ser informado de imediato, tomaremos as providncias necessrias.
O comandante fez uma pausa e concluiu,  tudo quanto precisavam de saber, e, uma vez mais, ateno  palavra de ordem, sigilo absoluto,  a vossa carreira que est em jogo. Os guardas aproximaram-se do quadro em que se encontravam esta


belecidos os turnos de vigilncia, Maral viu que o seu era o nono, portanto estaria de planto entre as duas da madrugada e as seis da manh do segundo dia depois deste. L em baixo, a trinta ou quarenta metros de profundidade, no se notaria a diferena entre o dia e a noite, certamente no haveria mais do que trevas cortadas pela luz crua dos projectores e das gambiarras. Enquanto o elevador o levava ao trigsimo quarto andar, ia pensando no que poderia dizer a Marta sem faltar demasiado ao compromisso que assumira, a proibio parecia-lhe absurda, uma pessoa tem, mais do que o direito, a obrigao de confiar na sua prpria famlia, porm, isto so teorias, por mais voltas que der ao assunto no ter outro remdio que acatar o mandado, ordens so ordens. O sogro no estava em casa, devia andar nas suas exploraes de criana curiosa,  procura dos sentidos das coisas e com astcia suficiente para os encontrar por mais escondidos que estivessem. Disse a Marta que tinha mudado temporariamente de servio, agora devia ir  paisana' no seria para sempre, uns dias apenas. Marta perguntou porqu e ele respondeu que no estava autorizado a dizer, que era confidencial, Dei a minha palavra de honra, justificou, e no era verdade, o comandante no lhe havia exigido que se comprometesse pela honra, so frmulas de outro tempo e de outro costume que de vez em quando nos saem sem pensar, como acontece com a memria, que sempre tem mais para nos dar do que o pouqussimo que lhe reclamamos. Marta no respondeu, abriu o guarda-roupa e retirou do cabide um dos dois fatos que o marido tinha, Suponho que este servir, disse, Serve perfeitamente, disse Maral, satisfeito por estarem de acordo sobre este importante ponto. Pensou que o melhor seria avis-la j do resto, resolver a questo de uma vez, se se encontrasse no lugar do colega que daqui a pouco entrar de vigia teria de estar a comunicar a Marta neste preciso momento, Tenho um servio das seis s dez, no me perguntes nada,  segredo, esta mesma frase serve, s  preciso mudar-lhe as horas e os dias, Tenho um servio depois de amanh, das duas da madrugada s seis da manh, no me perguntes nada,  segredo. Marta olhou-o intrigada, A essa hora o Centro est fechado, Bem, no vai ser propriamente no Centro, Ento vai ser fora,  dentro, mas no  no Centro, No compreendo, Preferiria que no me fizesses perguntas, S estou a dizer que no percebo como pode alguma coisa acontecer, ao mesmo tempo, dentro e fora de um lugar,  nas escavaes destinadas aos armazns frigorficos, mas no direi mais nada, Encontraram petrleo, uma mina de diamantes ou a pedra que marca o stio do umbigo do mundo, perguntou Marta, No sei o que encontraram, E quando o virs a saber, Quando for o meu turno de guarda, Ou quando perguntares aos teus colegas que tiverem l estado antes, Fomos proibidos de falar uns com os outros sobre o assunto, disse Maral, desviando os olhos porque estas no eram palavras que merecessem o nome de verdadeiras, mas sim uma verso interessada das ordens e recomendaes do comandante, livremente adaptada s suas dificuldades retricas de ocasio, Grande mistrio, pelos vistos, disse Marta, Parece que sim, condescendeu Maral, enquanto tentava acertar com preocupao exagerada os punhos da camisa para que aparecessem com a largura justa por baixo das mangas do casaco. Vestido  civil mostrava mais idade do que realmente tinha. Vens jantar, perguntou Marta, No tenho nenhuma ordem em contrrio, mas, se no puder vir, telefono. Saiu antes que a mulher se lembrasse de fazer outras perguntas, aliviado por ter conseguido escapar  insistente curiosidade dela, mas tambm desgostoso porque a conversao no tinha sido, da sua parte, um recomendvel modelo de lealdade, Fui leal, sim senhor, protestou consigo mesmo, avisei-a logo de que se tratava de um segredo. Apesar da veemncia e da razo que assistia ao seu protesto, Maral no conseguiu convencer-se. Quando, passada mais de uma hora, Cipriano Algor, ainda mal recuperado dos sustos do comboio fantasma, regressou a casa, Marta perguntou-lhe, Viu o


seu genro, No, no vi, Provavelmente, mesmo que o visse, no seria capaz de o reconhecer, Porqu, Veio mudar de roupa, agora anda a fazer vigilncia vestido  civil, Essa  nova, Foram as ordens que recebeu, Vigilncia  civil no  vigilncia,  espionagem, sentenciou o pai. Marta contou-lhe o que sabia, que era quase nada, mas foi quanto bastou para que Cipriano Algor sentisse esfumar-se-lhe o interesse pelo rio amazonas com ndios aonde tinha feito teno de viajar no dia seguinte,  estranho, desde o princpio que tive como um pressentimento de que alguma coisa se estava a preparar aqui, Que quer dizer com isso, desde o princpio, perguntou Marta, Aquele cho que senti tremer, vibrar, o barulho das mquinas escavadoras, recordas-te, quando viemos ver o apartamento, Estvamos bem arranjados se tivssemos pressentimentos de cada vez que ouvimos uma mquina escavadora a trabalhar, como aquele rudo de mquina de costura que cramos ouvir na parede da cozinha e que a me dizia ser o sinal da condenao de uma costureira, pobre coitada, pelo pecado de ter trabalhado ao domingo, Mas desta vez parece que bateu certo, Parece que sim, disse Marta, repetindo palavras do marido, Veremos o que ele ter para contar quando vier, disse Cipriano Algor. No ficaram a saber mais. Maral fechou-se nas respostas que j havia dado, repetiu-as uma e outra vez, e por fim resolveu pr ponto final no assunto, Serei o primeiro, se insistirem, a achar que a ordem  disparatada, mas foi a que recebi, e sobre isto no h mais que falar, Ao menos diz-nos por que foi que de repente passaram a patrulhar  paisana, pediu o sogro, Ns no fazemos patrulhas, velamos pela segurana no Centro, nada mais, Muito bem, seja isso, No tenho nada a acrescentar, no pergunte, por favor, cortou Maral, irritado. Olhou para a mulher como a perguntar-lhe por que motivo estava calada, por que no o defendia, e ela disse, O Maral tem razo, pai, no insista, e, dirigindo-se a ele, ao mesmo tempo que o beijava na testa, Desculpa-nos, ns, os Algores, somos um pouco brutos. Depois do jantar, viram um programa de televiso transmitido pelo canal interno do Centro, exclusivo para os residentes, depois recolheram-se aos quartos. J com as luzes apagadas, Marta tornou a pedir desculpa, Maral deu-lhe um beijo, e se no seguiu adiante com segundos e terceiros foi por ter percebido a tempo que, por esse caminho, acabaria por lhe contar tudo. Sentado na sua cama, com a luz acesa, Cipriano Algor pensara e tornara a pensar, para concluir que tinha de descobrir o que se passava nas profundezas do Centro, que, se havia ali outra porta secreta ao menos desta vez no poderiam dizer -lhe que do outro lado dela no havia nada. Voltar  carga com Maral no valia a pena, alm disso era uma injustia que estavam a fazer ao pobre moo, se tinha ordens para no falar e as cumpria, devia era ser felicitado por isso, no submet-lo s variadas e impudicas modalidades de chantagem sentimental em que as famlias so exmias, eu sou teu sogro, tu s meu genro, conta-me tudo, Marta tinha razo, pensou, ns, os Algores, somos bastante brutos. Amanh deixaria tranquilo o rio amazonas com ndios e dedicar-se-ia a percorrer o Centro de uma ponta  outra a ouvir as conversas da gente. No essencial, um segredo  mais ou menos como a combinao de um cofre, embora no tenhamos conhecimento dela sabemos que se compe de seis dgitos, que  possvel at que se repita algum ou alguns deles, e que por muito numerosas que sejam as sequencias possiveis, no so infinitas. Como em todas as coisas da vida  uma questo de tempo e de pacincia, uma palavra aqui, outra palavra acol, um subentendido, uma troca de olhares, um sbito silncio, pequenas gretas dispersas que se vo abrindo no muro, a arte do devassador est em saber aproxim-las, em eliminar as arestas que as separam, chegar sempre um momento em que nos perguntaremos se o sonho, a ambio, a esperana secreta dos segredos no sero, afinal, a possibilidade, ainda que vaga, ainda que longnqua, de deixarem de o ser. Cipriano Algor despiu-se, apagou a luz, pensou que


iria ter uma noite de insnia, mas ao cabo de cinco minutos j dormia num sono to espesso, to opaco, que nem sequer a Isaura Madruga havia podido vir espreitar  ltima porta que nele se cerrava.
Quando Cipriano Algor saiu do quarto, mais tarde do que era seu hbito, o genro j tinha sado para o trabalho. Ainda meio sonolento, deu os bons-dias  filha, sentou-se para tomar o pequeno-almoo, e nesse instante o telefone tocou. Marta foi atender e voltou logo,  para si. O corao de Cipriano Algor deu um salto, Para mim, quem  que pode querer falar comigo, perguntou, j certssimo de que a filha lhe iria responder,  a Isaura, mas o que ela disse foi,  do departamento de compras, um subchefe. Indeciso entre a decepo de a chamada no vir de quem gostaria e o alvio de no ter de explicar  filha a razo destas intimidades com a vizinha, embora no devamos esquecer que poderia simplesmente tratar-se de algum assunto referente ao Achado, a tristeza da ausncia, por exemplo, Cipriano Algor dirigiu-se ao telefone, disse quem era e da a pouco tinha no outro extremo da linha o subchefe simptico, Foi uma surpresa para mim saber que tinha passado a viver no Centro, como v, o diabo nem sempre est atrs da porta,  um ditado velho, mas muito mais verdadeiro do que se imagina, De facto assim , disse Cipriano Algor, O motivo desta chamada  pedir-lhe que passe por aqui hoje  tarde para lhe pagarmos as estatuetas, Que estatuetas, As trezentas que nos tinha entregado para o inqurito, Mas esses bonecos no foram vendidos, portanto no h nada a pagar, Meu caro senhor, disse o subchefe com inesperada severidade na voz, permita-nos que sejamos ns os juzes dessa questo, seja como for fique desde j sabendo que ainda quando um pagamento represente um prejuzo de mais de cem por cento, como aconteceu neste caso, o Centro liquida sempre as suas contas,  uma questo de tica, uma vez que agora vive connosco poder comear a compreender melhor, Muito bem, s no percebo como um prejuzo sobe a mais de cem por cento, Por no pensarem nestas coisas  que as economias familiares vo  runa, Foi pena no o ter sabido antes, Aponte l, em primeiro lugar vamos pagar as estatuetas pelo exacto valor que nos foi debitado, nem um centavo menos, At a j alcanou o meu entendimento, Em segundo lugar, obviamente, tambm teremos de pagar o inqurito, isto , os materiais usados, as pessoas que analisaram os dados, o tempo que tudo isso levou, ora, se quiser pensar que esses materiais, essas pessoas e esse tempo poderiam estar a ser aplicados em tarefas rentveis, no necessitar ser dotado de grande inteligncia para chegar  concluso de que se tratou de facto de uma perda superior a cem por cento, considerando aquilo que no se vendeu e aquilo que se gastou para concluir que no o deveramos vender, Lamento ter dado tanto prejuzo ao Centro, So os ossos do ofcio, umas vezes perde-se, outras vezes ganha-se, de qualquer modo no foi grave, tratava-se de um negcio minsculo, Eu poderia, disse Cipriano Algor, invocar tambm os meus prprios escrpulos ticos para me negar a receber por um trabalho que as pessoas se recusaram a comprar, mas o dinheiro faz-me arranjo,  uma boa razo, a melhor delas, Passarei por a  tarde, No precisa de perguntar por mim, v directamente  caixa, esta  a ltima operao comercial que fazemos com a sua extinta empresa, queremos que fique com as melhores recordaes, Muito obrigado, E agora desfrute do resto da vida, est no lugar ideal para isso, Tambm me tem parecido, senhor, Aproveite a mar de sorte,  o que estou a fazer. Cipriano Algor pousou o telefone, Pagam-nos os bonecos, disse, no perdemos tudo. Marta fez um gesto de cabea que poderia significar qualquer coisa, conformidade, discordncia, indiferena, e retirou-se para a cozinha. No te sentes bem, perguntou o pai, assomando-se  porta, S um pouco cansada, ser da gravidez, Encontro-te aptica, alheada, deverias distrair-te, dar umas voltas por a, Como o pai, Sim, como eu, Interessa-lhe muito tudo o que a


h fora, perguntou Marta, pense duas vezes antes de me responder, Bastou-me pensar uma, no me interessa nada, apenas finjo, Consigo mesmo, claro, J s bastante crescida para saberes que no h outra maneira, embora o parea, no  com os outros que fingimos,  sempre com ns prprios ' Alegra-me estar a ouvi-lo da sua boca, Porqu, Porque confirma o que andava a pensar de si no assunto da Isaura Madruga, A situao modificou-se, Ainda mais me alegra, Se a ocasio chegar direi, agora sou como o Maral, uma boca fechada.
A expedio auricular de Cipriano Algor no obteve qualquer resultado, depois, durante o almoo, por uma espcie de acordo tcito, nenhum dos trs ousou tocar no melindroso assunto das escavaes e do que l teria sido encontrado. Sogro e genro saram ao mesmo tempo, Maral para retomar o seu trabalho de escuta e espionagem, to infrutfero, provavelmente,como havia sido, a um e a outro, o da manh, e Cipriano Algor para perguntar, pela primeira vez, como do interior do Centro se chegava ao departamento de compras. Percebeu que o seu distintivo de residente, tambm ele com retrato e impresso digital, lhe proporcionaria certas facilidades de circulao, quando o guarda a quem fez a pergunta lhe indicou o caminho como se da coisa mais natural do mundo se tratasse, V por este corredor, sempre a direito, quando chegar ao fim dele s ter de seguir as indicaes, no tem nada que errar, disse. Estava no piso trreo, em algum ponto do percurso teria de baixar ao nvel do subterrneo onde, em tempos mais felizes, juzo que de certeza o subchefe simptico no partilharia, se apresentava para descarregar os seus pratos e as suas canecas. Uma seta e uma escada rolante disseram-lhe por onde ir. Estou a descer, pensou. Estou a descer, estou a descer, repetia, e logo, Que estupidez,  evidente que estou a descer, para isso  que as escadas servem quando no esto a servir para subir, numa escada, aqueles que no descem, sobem, e aqueles que no sobem, descem. Parecia ter alcanado uma concluso irrespondvel, daquelas para que no existe qualquer possibilidade de contestao lgica, mas de sbito, com a fulgurncia e a instantaneidade do relmpago, um outro pensamento lhe cruzou a cabea, Descer, descer at l. Sim, descer l. A deciso que Cipriano Algor acaba de tomar  de que esta noite intentar ir aonde Maral est a fazer a sua guarda, entre as duas da madrugada e as seis da manh, no esqueamos. O bom senso e a prudncia, que nestas situaes sempre tm uma palavra a dizer, j lhe perguntaram como imagina ele que, sem conhecer os caminhos, conseguir chegar a um lugar to recndito, e ele respondeu que as combinaes e composies dos acasos, sendo efectivamente muitssimas, no so infinitas, e que sempre valer mais arriscar-nos a subir  figueira para tentar alcanar o figo do que deitar-nos  sombra dela e esperar que ele nos caia na boca. O Cipriano Algor que se apresentou na caixa do departamento de compras depois de por duas vezes se ter perdido, apesar da ajuda das setas e dos letreiros, no foi aquele que j nos havamos acostumado a conhecer. Se as mos lhe tremeram tanto, no foi pela excitao mesquinha de estar a receber pelo seu trabalho um dinheiro com que no tinha contado, mas porque as ordens e as orientaes do crebro, ocupado agora em assuntos de mais transcendente importncia, chegavam desconexas, confusas, contraditrias aos respectivos terminais. Quando regressou  rea comercial do Centro parecia um pouco mais tranquilo, a agitao tinha-lhe passado para o lado de dentro. Dispensado de preocupar-se com as mos, o crebro maquinava sucessivamente astcias, manhas, ardis, estratagemas, tramas, subtilezas, ia mesmo ao ponto de admitir a possibilidade de recorrer  telecinesia para, num pice, transportar do trigsimo quarto andar  misteriosa escavao este corpo impaciente que tanto lhe anda a custar a governar.
Embora ainda tivesse por diante largas horas de espera, Cipriano Algor resolveu ir para casa. Quis dar  filha o dinheiro que recebera, mas ela disse, Guarde-o para si, no me faz fal


ta, e depois perguntou, Quer um caf, Pois sim,  uma boa ideia. O caf foi feito, passado para uma chvena, bebido, tudo indica que por agora no vai haver mais palavras entre eles, parece, como Cipriano Algor tem pensado algumas vezes, embora destes seus pensamentos no tenhamos deixado registo na altura prpria, que a casa, esta onde agora vivem, tem o dom maligno de fazer calar as pessoas. No entanto, ao crebro de Cipriano Algor, que j teve de pr de lado, por carncia de adestramento suficiente, o recurso  telecinesia, -lhe indispensvel uma certa e determinada informao sem a qual o seu plano para a incurso nocturna ir, pura e simplesmente, por gua abaixo. Por isso lana a pergunta, enquanto, como se estivesse distrado, vai mexendo com a colher o resto de caf que ficou no fundo da chvena, Sabes a que profundidade se encontra a escavao, Por que quer sab-lo, Simples curiosidade, nada mais, Maral no falou disso. Cipriano Algor disfarou o melhor que pde a contrariedade e disse que ia dormir uma sesta. Passou a tarde toda no quarto e s saiu quando a filha o foi chamar para comer, j Maral estava sentado  mesa. At ao final do jantar, tal como sucedera no almoo, no se falou da escavao, foi s quando Marta lembrou ao marido, Devias dormir at  hora de desceres, vais passar a noite em claro, e ele respondeu,  demasiado cedo, no tenho sono, que Cipriano Algor, aproveitando a deixa inesperada, repetiu a sua pergunta, A que profundidade est essa escavao, Por que quer saber, Para ter uma ideia, por mera curiosidade. Maral hesitou antes de responder, mas pareceu-lhe que a informao no devia fazer parte do grupo das estritamente confidenciais, O acesso faz-se pelo piso zero-cinco, disse por fim, Pensei que as escavadoras tivessem andado a trabalhar muito mais fundo, Em todo o caso sempre so quinze ou vinte metros abaixo do cho, disse Maral, Tens razo,  uma boa profundidade. No se tornou a falar do assunto. Maral no dera a impresso de ficar contrariado por causa da rpida conversa, pelo contrrio, dir-se-ia at que havia ficado algo aliviado por ter podido, sem entrar em matrias perigosas e reservadas, falar um pouco de uma questo que o traz preocupado, como facilmente se lhe nota. Maral no  mais medroso do que o comum das pessoas, mas no lhe agrada nada a perspectiva de passar quatro horas metido num buraco, em absoluto silncio, sabendo o que tem atrs de si. No fomos treinados para uma situao destas, dissera-lhe um dos seus colegas, oxal os especialistas de que falou o comandante se apresentem rapidamente para sermos tirados deste servio, Tiveste medo, perguntou Maral, Medo, o que se chama medo, talvez no, mas aviso-te j de que te vais sentir, a cada momento, como se algum atrs de ti te fosse pr uma mo no ombro, No seria o pior que poderia acontecer, Depende da mo, se queres que te fale com toda a franqueza, so quatro horas a lutar com um desejo louco de fugir, de escapar, de desaparecer dali, Homem prevenido vale por dois, assim j fico a saber o que me espera, No sabes, s imaginas, e mal, corrigiu o colega. Agora  uma e meia da madrugada, Maral est a despedir-se de Marta com um beijo, ela pede-lhe, No te demores depois de acabares o turno, Virei a correr, amanh conto-te tudo, prometo. Marta acompanhou-o  porta, beijaram-se ainda uma vez, depois voltou para dentro, arrumou primeiro algumas coisas, e foi-se deitar. No tinha sono. Dizia a si mesma que no havia motivo para preocupaes, que j outros guardas tinham estado de planto ao stio e nada acontecera, quantas vezes sucedeu armarem-se por d c aquela palha uns mistrios terrveis, como se fossem autnticas bichas-de-sete-cabeas, e quando l se foi ver ao p no eram mais do que fumo, vento, iluso, vontade de acreditar no incredvel. Os minutos passavam, o sono andava por longe, Marta tinha acabado de dizer a si mesma que faria melhor em acender a luz e pr-se a ler um livro, quando lhe pareceu ouvir que se abria a porta do quarto do pai. Como ele no tinha o hbito de se levantar durante a noite, apurou o ouvido, pro


vavelmente queria ir ao quarto de banho, porm, os passos, da a pouco, comearam a soar, cautelosos mas perceptveis, na pequena sala de entrada. Talvez v  cozinha beber gua, pensou. O rudo inconfundvel do trinco da fechadura f-la levantar-se rapidamente. Enfiou  pressa a bata e saiu. O pai tinha a mo no puxador da porta. Aonde vai a estas horas, perguntou Marta, Por a, disse Cipriano Algor, Tem o direito de ir aonde quiser,  maior e vacinado, mas no pode ir-se sem uma palavra, como se no houvesse mais ningum na casa, No me faas perder tempo, Porqu, tem medo de chegar depois das seis, perguntou Marta, Se j sabes aonde quero ir, no precisas de mais explicaes, Ao menos pense que pode vir a criar problemas ao seu genro, Como tu prpria disseste, sou maior e vacinado, o Maral no pode ser responsabilizado pelos meus actos, Talvez os patres dele viessem a ser de outra opinio, Ningum me ver, e no caso de aparecer algum a mandar-me para trs digo-lhe que padeo de sonambulismo, As suas graas vm totalmente fora de propsito neste momento, Ento falarei a srio, Espero bem que sim, Passa-se l em baixo algo que preciso de saber, Seja o que for que haja no poder ficar secreto por toda a vida, o Maral disse-me que nos contaria tudo, quando voltasse do turno, Muito bem, mas a mim uma descrio no me basta, quero ver com os meus prprios olhos, Sendo assim, v, v, e no me atormente mais, disse Marta, j a chorar. O pai aproximou-se dela, passou-lhe um brao pelos ombros, abraou-a, Por favor, no chores, disse, o pior de tudo, sabes,  j no sermos os mesmos desde que nos mudmos para aqui. Deu-lhe um beijo, depois saiu fechando a porta devagar. Marta foi buscar uma manta e um livro, sentou-se num dos pequenos sofs da sala, cobriu os joelhos. No sabia quanto tempo iria durar a espera.
O plano de Cipriano Algor no podia ser mais simples. Tratava-se de descer num monta-cargas at ao piso zero-cinco e a partir da entregar-se  sorte e ao acaso. Com muito menos armas se ganharam batalhas, pensou. E com muito mais se perderam, acrescentou por escrpulo de imparcialidade. Tinha reparado que os monta-cargas, provavelmente pelo facto de se destinarem quase em exclusivo ao transporte de materiais, no estavam providos de cmaras de vdeo, pelo menos que se desse por elas, e se alguma houvesse, daquelas minsculas e disfaradas, o mais certo era que a ateno dos vigilantes da central se encontrasse fixada nos acessos exteriores e nos andares comerciais e de atraces. Se estivesse equivocado, no tardaria a sab-lo. Em primeiro lugar, supondo que os andares de habitao acima do nvel do solo formavam um bloco com os dez andares subterrneos, convinha-lhe usar o monta-cargas que mais perto estivesse da fachada interior para no ter de perder tempo  procura de um caminho entre os mil contentores de todo o tipo e tamanho que imaginava guardados abaixo do cho, em particular no tal piso zero-cinco que lhe interessava. No entanto, no ficou demasiado surpreendido quando se encontrou com um espao amplo, aberto, despejado de mercadorias, que obviamente se destinava a facilitar o acesso ao lugar da escavao. Um pano da parede mestra, entre dois pilares, tinha sido demolido, por ali se entrava. Cipriano Algor olhou o relgio, eram duas horas e quarenta e cinco minutos. Apesar de reduzida, a iluminao permanente do piso subterrneo no deixava perceber se alguma luz no interior da escavao amortecia o negrume da bocarra que o ia engolir. Deveria ter trazido uma lanterna, pensou. Ento lembrou-se de ter lido um dia que a melhor maneira de aceder a um lugar s escuras, se se quiser ver imediatamente o que est l dentro,  fechar os olhos antes de entrar e abri-los depois. Sim, pensou,  mesmo o que devo fazer, fecho os olhos e caio por ali abaixo, at ao centro da terra. No caiu. Quase rente ao cho,  sua esquerda, havia uma luminosidade tnue que nao tardou a substancializar-se, passos andados, numa fiada de lmpadas dispostas em gambiarra. Iluminavam uma rampa de terra que ia


formar ao fundo um patamar donde nascia outro lano. To espesso, to denso era o silncio que Cipriano Algor podia ouvir o bater do seu prprio corao. Vamos l, pensou, o Maral vai levar o maior susto da sua vida. Comeou a descer a rampa, chegou ao patamar, desceu a rampa seguinte, um patamar mais, a parou. L adiante, dois focos colocados num extremo e no outro, de modo que a luz no fosse dar em cheio no interior, mostravam a forma oblonga da entrada de uma gruta. Num terrapleno  direita encontravam-se duas pequenas escavadoras. Maral estava sentado num escabelo, ao lado dele uma mesa sobre a qual havia uma lanterna. Ainda no tinha visto o sogro. Cipriano Algor saiu da meia penumbra do ltimo patamar e disse em voz alta, No te assustes, sou eu. Maral levantou-se precipitadamente, quis falar mas a garganta no deu passagem s palavras, no era caso para menos, que lhe atire a primeira pedra quem achar que diria com toda a calma do mundo, Ol, ento por c. Foi s quando o sogro se encontrava na sua frente que Maral, ainda que a custo, conseguiu articular, Que faz aqui, que estpida ideia foi essa de vir c abaixo, porm, ao contrrio do que mandaria a lgica, no havia zanga na voz, o que nela se notava, alm do alvio natural de quem finalmente no est a ser ameaado por uma assombrao nefasta, era uma espcie de satisfao envergonhada, algo assim como um emocionado sentimento de gratido que talvez algum dia venha a confessar-se. Que faz aqui, repetiu, Vim ver, disse Cipriano Algor, E no pensou nos problemas que me cairo em cima se se chega a saber, no pensou que isto pode custar-me o emprego, Dirs que o teu sogro  um idiota chapado, um irresponsvel que deveria estar internado numa casa de doidos, metido numa camisa-de-foras, Ganharia muito com essas explicaes, no h dvida. Cipriano Algor virou os olhos para a cavidade e perguntou, Viste o que h ali dentro, Vi, respondeu Maral, Que , Avalie por si mesmo, tem aqui uma lanterna, se quiser, Vens comigo, No, eu tambm fui sozinho, H algum carreiro traado, alguma passagem, No, o que tem  de seguir sempre pela esquerda e no perder o contacto com a parede, l ao fundo encontrar o que veio procurar. Cipriano Algor acendeu a lanterna e entrou. Esqueci-me de fechar os olhos, pensou. A luz indirecta dos focos ainda permitia ver uns trs ou quatro metros de cho, o resto era negro como o interior de um corpo. Havia um declive no muito pronunciado, mas irregular. Cautelosamente, roando a parede com a mo esquerda, Cipriano Algor comeou a descer. Em certa altura pareceu-lhe perceber que havia  sua direita algo que poderia ser uma plataforma e um muro. Disse para si mesmo que quando voltasse averiguaria de que se tratava, Provavelmente  uma obra que fizeram para reter as terras, e continuou a descer. Tinha a impresso de que j andara muito, talvez uns trinta ou quarenta metros. Olhou para trs, para a boca da gruta. Recortada contra a luz dos focos, parecia realmente distante, No andei tanto, pensou, o que estou  a ficar desorientado. Percebia que o pnico tinha comeado, insidiosamente, a raspar-lhe os nervos, to valente que se imaginara, to superior a Maral, e agora estava quase a ponto de virar costas e correr aos tropees pela pendente acima. Encostou-se  rocha, respirou fundo, Nem que tenha de morrer aqui, disse, e recomeou a andar. De repente, como se tivesse girado sobre si mesma em ngulo recto, a parede apresentou-se na sua frente. Havia alcanado o final da gruta. Baixou o foco da lanterna para se certificar da firmeza do solo, deu dois passos e ia a meio do terceiro quando o joelho direito foi chocar em algo duro que o fez soltar um gemido. Com o choque a luz oscilou, diante dos olhos surgiu-lhe, num instante, o que parecia um banco de pedra, e logo, no instante seguinte, alinhados, uns vultos mal definidos apareceram e desapareceram. Um violento tremor sacudiu os membros de Cipriano Algor, a sua coragem fraquejou como uma corda a que se estivessem rompendo os ltimos fios, mas dentro de si ouviu um grito que o


chamava  ordem, Recorda, nem que morras. A luz trmula da lanterna varreu devagar a pedra branca, tocou ao de leve uns panos escuros, subiu, e era um corpo humano sentado o que ali estava. Ao lado dele, cobertos com os mesmos panos escuros, mais cinco corpos igualmente sentados, erectos todos como se um espigo de ferro lhes tivesse entrado pelo crnio e os mantivesse atarraxados  pedra. A parede lisa do fundo da gruta estava a dez palmos das rbitas encovadas, onde os globos oculares teriam sido reduzidos a um gro de poeira. Que  isto, murmurou Cipriano Algor, que pesadelo  este, quem eram estas pessoas. Aproximou-se mais, passou lentamente o foco da lanterna sobre as cabeas escuras e ressequidas, este  homem, esta  mulher, outro homem, outra mulher, e outro homem ainda, e outra mulher, trs homens e trs mulheres, viu restos de ataduras que pareciam ter servido para lhes imobilizar os pescoos, depois baixou a luz, ataduras iguais prendiam-lhes as pernas. Ento, devagar, muito devagar, como uma luz que no tivesse pressa de aparecer, mas que viesse para mostrar a verdade das coisas at aos seus mais escuros e recnditos desvos, Cipriano Algor viu-se a entrar outra vez no forno da olaria, viu o banco de pedra que os pedreiros l tinham deixado esquecido e sentou-se nele, e outra vez escutou a voz de Maral, porm estas palavras agora so diferentes, chamam e tornam a chamar, inquietas, l de longe, Pai, est a ouvir-me, responda-me. A voz retumba no interior da gruta, os ecos vo de parede a parede, multiplicam-se, se Maral no se cala por um ninuto no ser possvel ouvirmos a voz de Cipriano Algor a dizer, distante, como se ela prpria j fosse tambm um eco, Estou bem, no te preocupes, no me demoro. O medo havia desaparecido. A luz da lanterna acariciou uma vez mais os mseros rostos, as mos s pele e osso cruzadas sobre as pernas, e,mais do que isso, guiou a prpria mo de Cipriano Algor quando ela foi tocar, com respeito que seria religioso se no fosse humano simplesmente, a fronte seca da primeira mulher. 
No havia mais que fazer ali, Cipriano Algor tinha compreendido Como o caminho circular de um calvrio, que sempre ir encontrar um calvrio adiante, a subida foi lenta e dolorosa.
Maral descera ao seu encontro, estendeu-lhe a mo para o ajudar, ao sarem da escurido para a luz vinham abraados e no sabiam desde quando. Exaurido de foras, Cipriano Algor deixou-se cair no escabelo, inclinou a cabea sobre a mesa e, sem rudo, mal se lhe notava o estremecer dos ombros, comeou a chorar. Deixe l, pai, eu tambm chorei, disse Maral. Da a pouco, mais ou menos recomposto da emoo, Cipriano Algor olhou o genro em silncio, como se naquele momento no tivesse maneira melhor de lhe dizer que o estimava, depois perguntou, Sabes o que  aquilo, Sei, li alguma coisa em tempos, respondeu Maral, E tambm sabes que o que ali est, sendo o que , no tem realidade, no pode ser real, Sei, E contudo eu toquei com esta mo na testa de uma daquelas mulheres, no foi uma iluso, no foi um sonho, se agora l voltasse iria encontrar os mesmos trs homens e as mesmas trs mulheres, as mesmas cordas a at-los, o mesmo banco de pedra, a mesma parede em frente, Se no so os outros, uma vez que eles no existiram, quem so estes, perguntou Maral, No sei, mas depois de os ver fiquei a pensar que talvez o que realmente no exista seja aquilo a que damos o nome de no existncia. Cipriano Algor levantou-se devagar, as pernas ainda lhe tremiam, mas, no geral, as foras do corpo tinham voltado. Disse, Quando descia tive a impresso de ver em certa altura algo que poderia ser um muro e uma plataforma, se tu pudesses mudar a orientao de um desses focos, no precisou de terminar a frase, Maral ps-se a girar um volante, a accionar um manpulo, e logo a luz se estendeu pelo cho fora at ir bater na base de um muro que atravessava a gruta de lado a lado, mas sem chegar s paredes. No havia qualquer plataforma, apenas uma passagem ao longo do muro. S falta uma coisa, murmurou Cipriano Algor. Avanou alguns passos e de repente


estacou, Aqui est, disse. No cho via-se uma grande mancha negra, a terra estava requeimada naquele local, como se durante muito tempo tivesse ardido ali uma fogueira. Deixou de valer a pena continuar a perguntar se eles existiram ou no, disse Cipriano Algor, as provas esto aqui, cada qual tirar as concluses que achar justas, eu j tirei as minhas. O foco voltou ao seu lugar, a escurido tambm, depois Cipriano Algor perguntou, Queres que fique a fazer-te companhia, No, obrigado, disse Maral, volte para casa, a Marta deve de estar por l aflita, a pensar o pior, At logo, ento, At logo, pai, fez uma pausa, e logo, com um sorriso meio constrangido, como o de um adolescente que no mesmo instante em que se entrega se retrai, acrescentou, Obrigado por ter vindo.
Cipriano Algor olhou o relgio quando chegou ao piso zero-cinco. Eram quatro e meia. 0 monta-cargas levou-o ao trigsimo quarto andar. Ningum o tinha visto. Marta abriu-lhe a porta silenciosamente, com os mesmos cuidados tornou a fech-la, Como est o Maral, perguntou, Est bem, no te preocupes, tens ali um grande homem, que to digo eu, Que h l em baixo, Deixa que me sente primeiro, estou como se tivesse levado uma tareia, estes esforos j no so para a minha idade, Que h l em baixo, tornou a perguntar Marta depois de se terem sentado, L em baixo h seis pessoas mortas, trs homens e trs mulheres, No me surpreende, era exactamente o que eu calculava, que deveria tratar-se de restos humanos, sucede com frequncia nas escavaes, o que no compreendo  por que foram todos estes mistrios, tanto segredo, tanta vigilncia, os ossos no fogem, e no creio que roubar esses merecesse o trabalho que daria, Se tivesses descido comigo compreenderias, alis ainda ests a tempo de ir l abaixo, Deixe-se de ideias, No  fcil deixar-se de ideias depois de se ter visto o que eu vi, Que foi que viu, quem so essas pessoas, Essas pessoas somos ns, disse Cipriano Algor, Que quer dizer, Que somos ns, eu, tu, o Maral, o Centro todo, provavelmente o mundo, Por favor, explique-se, D-me ateno, escuta. A histria levou meia hora a ser contada. Marta ouviu-a sem interromper uma nica vez. No fim, apenas disse, Sim, creio que tem razo, somos ns. No falaram mais at chegar Maral. Quando ele entrou, Marta abraou-se-lhe com fora, Que vamos fazer, perguntou, mas Maral no teve tempo de responder. Em voz firme, Cipriano Algor dizia, Vocs decidiro a vossa vida, eu vou-me embora.


As suas coisas esto aqui, disse Marta, no era muito, cabem  larga na mala mais pequena, at parece que sabia que viria apenas por trs semanas, Chega uma altura da vida em que deveria bastar ser ainda capaz de levar s costas o prprio corpo, disse Cipriano Algor, A frase  bonita, sim senhor, mas o que eu gostaria era que me dissesse de que vai viver, Olhai os lrios do campo, que no fiam nem tecem, Tambm  bonita essa frase, por isso  que eles nunca conseguiram passar de lrios, s uma cptica raivosa, uma repugnante cnica, Pai, por favor, estou a falar a srio, Desculpa, Eu compreendo que tenha sido um choque para si, como tambm, mesmo sem ter l estado, o foi para mim, compreendo que aqueles homens e aquelas mulheres so muito mais do que simples pessoas mortas, No continues, por eles serem muito mais do que simples pessoas mortas  que no quero continuar a viver aqui, E ns, e eu, perguntou Marta, Decidireis da vossa vida, eu j decidi da minha, no vou ficar o resto dos dias atado a um banco de pedra e a olhar para uma parede, E como viver, Tenho o dinheiro que pagaram pelos bonecos, dar para um ou dois meses, depois logo verei, No me referia ao dinheiro, de uma maneira ou outra no lhe faltar o necessrio para se alimentar e vestir, o que quero dizer  que ter de viver sozinho, Tenho o Achado, e vocs iro fazer-me uma visita de vez em quando, Pai, Que , A Isaura, Que tem que ver a Isaura com isto, O pai disse-me que a situao entre ambos tinha mu


dado, no explicou como nem porqu, mas disse-mo, E  verdade, Sendo assim, Sendo assim, qu, Poderiam viver juntos, quero eu dizer. Cipriano Algor no respondeu. Agarrou na mala, C vou ento, disse. A filha abraou-se a ele, Iremos l na primeira folga do Maral, entretanto v dando notcias, quando chegar telefone-me para me dizer como encontrou a casa, e o Achado, no se esquea do Achado. Com um p fora da porta, Cipriano Algor disse ainda, D um abrao ao Maral, J lho tinha dado, j se tinha despedido dele, Sim, mas d-lhe outro. Quando chegou ao fim do corredor, voltou-se para trs. A filha estava l ao fundo, entreportas, fazia-lhe um gesto de adeus com uma mo enquanto tapava a boca com a outra para no estalar em soluos. At breve, disse, mas ela no o ouviu. O monta-cargas levou-o  garagem, agora era preciso ver onde tinham deixado estacionada a furgoneta e se ela arrancava depois de trs semanas sem se mexer, s vezes as baterias pregam partidas, Era o que faltava, pensou, inquieto. No aconteceu o que temia, a furgoneta fez a sua obrigao.  certo que no conseguiu pegar  primeira nem  segunda, mas s trs arrancou com um rudo digno doutro motor. Minutos depois Cipriano Algor estava na avenida, no tinha propriamente o caminho aberto  sua frente, mas poderia ter sido muito pior, apesar da lentido era a prpria corrente do trfego que o levava. No admirava que o trnsito fosse intenso, os automveis gostam imenso dos domingos e para o dono de um carro torna-se quase impossvel resistir  chamada presso psicolgica, ao automvel basta-lhe estar ali, no precisa falar Enfim, a cidade ficou para trs, os bairros da periferia j l vo, daqui a pouco aparecero as barracas, em trs semanas tero chegado  estrada, no, ainda lhes faltam uns trinta metros, e logo est a Cintura Industrial, quase tudo parado, s umas poucas fbricas que parecem fazer da laborao contnua a sua religio, e agora a triste Cintura Verde, as estufas pardas, cinzentas, lvidas, por isso  que os morangos devem ter perdido a cor, no falta muito para que sejam brancos por fora como j o vo sendo por dentro e tenham o sabor de qualquer coisa que no saiba a nada. Viremos agora  esquerda, l ao longe, onde se vem aquelas rvores, sim, aquelas que esto juntas como se fossem um ramalhete, h uma importante estao arqueolgica ainda por explorar, sei-o de fonte limpa, no  todos os dias que se tem a sorte de receber directamente uma informao destas da boca do prprio fabricante. Cipriano Algor j perguntou a si mesmo como foi possvel que se tivesse deixado encerrar durante trs semanas sem ver o sol e as estrelas, a no ser, torcendo o pescoo de um trigsimo quarto andar com janelas que no se podiam abrir, quando tinha aqui este rio,  certo que malcheiroso e minguado, esta ponte,  certo que velha e mal amanhada, e estas runas que foram casas de gente, e a aldeia onde tinha nascido, crescido e trabalhado, com a sua estrada ao meio e a praa  desbanda, aqueles que ali vo, aquele homem e aquela mulher, so os pais de Maral, ainda no os tnhamos visto em tanto tempo que leva esta histria,  vista ningum dir que tm o mau feitio que se lhes atribui e de que deram bastas provas,  esse o perigo das aparncias, quando nos enganem ser sempre para pior. Cipriano Algor passara o brao para fora da janela da furgoneta e acenava-lhes como se fossem os seus melhores amigos, teria sido melhor que o no fizesse, agora o mais provvel  irem a pensar que fez pouco deles, e no foi verdade, a inteno no era essa, o que sucede  que Cipriano Algor vai contente, daqui a trs minutos ver a Isaura e ter o Achado nos braos, se no for precisamente ao contrrio o acontecimento, quer dizer, a Isaura nos braos e o Achado aos saltos,  espera de que lhe dem ateno. A praa ficou para trs, de repente, sem avisar, apertou-se-lhe o corao a Cipriano Algor, ele sabe da vida, ambos o sabem, que nenhuma doura de hoje ser capaz de minorar o amargor de amanh, que a gua desta fonte no poder matar-te a sede naquele


deserto, No tenho trabalho, no tenho trabalho, murmurou, e essa era a resposta que deveria ter dado, sem mais adornos nem subterfgios, quando Marta lhe perguntou de que iria viver, No tenho trabalho. Nesta mesma estrada, neste mesmo lugar, como no dia em que vinha do Centro com a notcia de que no lhe comprariam mais loua, Cipriano Algor diminuiu a velocidade da furgoneta. No queria chegar, queria j ter chegado, e entre uma coisa e outra a est a esquina da rua onde mora a Isaura Madruga, a casa  aquela alm, de sbito a furgoneta teve muita pressa, de sbito estacou, de sbito irrompeu dela Cipriano Algor, de sbito subiu os degraus, de sbito tocou  campanha. Tocou uma vez, duas, trs vezes. Ningum apareceu a abrir a porta, ningum deu sinal l de dentro, no veio a Isaura, no ladrou o Achado, o deserto que era para amanh tinha-se adiantado para hoje. E deviam de estar aqui os dois, hoje  domingo, no se trabalha, pensou. Desconcertado regressou  furgoneta, cruzou os braos sobre o volante, o normal seria ir falar com os vizinhos, mas ele nunca tinha gostado de dar a saber a sua vida, na verdade, quando estamos a perguntar por algum estamos a dizer acerca de ns prprios muito mais do que se poderia imaginar, o que nos vale  que as pessoas perguntadas, na sua maioria, no tm o ouvido preparado para perceber o que se oculta por trs de palavras aparentemente to inocentes como estas, Viu por acaso a Isaura Madruga. Dois minutos depois reconhecia que, reflectindo bem, to suspeito deveria ser estar parado  espera em frente da casa como ir, com ademane de falsa naturalidade, perguntar ao primeiro vizinho se, por casualidade, tinha dado pela sada de Isaura. Vou procurar por a, pensou, pode ser que os encontre. O giro pela povoao resultou intil, a Isaura e o Achado pareciam ter-se sumido da face da terra. Cipriano Algor resolveu ir para casa, voltaria a tentar ao fim da tarde, Foram a algum lado, pensou. O motor da furgoneta cantou a cano do regresso ao lar, o condutor j via asfrondes mais altas da amoreira, e de repente, como um relmpago negro, o Achado veio l de cima, a ladrar, a correr pela ladeira abaixo como se tivesse enlouquecido, o corao de Cipriano Algor esteve a uma pulsao do desfalecimento, e no foi por causa do animal, este amor, por muito grande que seja, no chega a tanto, foi por pensar que o Achado no estaria sozinho, e que, se no estava sozinho, s havia uma pessoa no mundo que poderia estar com ele. Abriu a porta da furgoneta, de um salto o co subiu-lhe aos braos, sempre era certo que seria ele o primeiro, e lambia-lhe a cara e no o deixava ver o caminho, esse no alto do qual aparece atnita Isaura Madruga, suspenda-se agora tudo, por favor, que ningum fale, que ningum se mexa, que ningum se intrometa, esta  a cena comovedora por excelncia, o carro que vem subindo a ladeira, a mulher que deu dois passos e de repente no pde mais andar, vejam-na como tem as mos apertadas contra o peito, Cipriano Algor que saiu da furgoneta como se entrasse num sonho, o Achado que vai atrs dele e se lhe enrola nas pernas, porm no acontecer nada de mal, era o que faltava, deixar-se cair inesteticamente uma das personagens principais no momento culminante da aco, este abrao e este beijo, estes beijos e estes abraos, quantas vezes h-de ser preciso recordar-vos que aquele mesmo amor que devora est suplicando que o devorem, sempre foi assim, sempre, mas h ocasies em que damos mais por isso. Foi num intervalo entre dois beijos que Cipriano Algor perguntou, E como  que ests aqui, mas Isaura no respondeu logo, havia outros beijos a dar e a receber, to urgentes como o primeiro de todos eles, enfim encontrou flego bastante para dizer, O Achado fugiu logo no dia em que te foste embora, abriu um buraco na sebe do quintal e veio para aqui, no houve maneira de o obrigar a voltar, estava decidido a esperar-te at no sei quando, o remdio foi deix-lo ficar, trazer-lhe a comida e a gua, fazer-lhe um pouco de companhia, em


bora eu ache que no precisava dela. Cipriano Algor procurava nos bolsos a chave da casa, enquanto ia pensando e imaginando, Vamos entrar os dois, vamos entrar juntos, e tinha-a finalmente na mo quando viu que a porta estava aberta, que  como devem de estar as portas para quem, vindo de longe, chega, no precisou de perguntar porqu, Isaura dizia-lhe tranquilamente, Marta deixou-me uma chave para que viesse de vez em quando arejar a casa, limp-la de algum p, assim, com isto do Achado, passei a vir todos os dias, de manh, antes de ir para a loja, e ao fim da tarde, depois de acabar o trabalho. Pareceu que ainda tinha algo mais a acrescentar, mas os lbios fecharam-se-lhe com firmeza como para trancar a passagem s palavras, No saireis da, ordenavam, porm elas juntaram-se, uniram foras, e o mais que o pudor pde conseguir foi fazer baixar a cabea a Isaura e reduzir-lhe a voz a um murmrio, Uma noite fiquei a dormir na tua cama, disse. Entendamo-nos, este homem  oleiro, trabalhador manual portanto, sem finezas de formao intelectual e artstica tirando as necessrias ao exerccio da sua profisso, de uma idade j mais do que madura, criou-se num tempo em que o mais corrente era terem as pessoas de sofrear, cada uma em si mesma e todas em toda a gente, as expresses do sentimento e as ansiedades do corpo, e se  certo que no seriam muitos os que no seu meio social e cultural poderiam pr-lhe um p adiante em matria de sensibilidade e de inteligncia, ouvir dizer assim de supeto, da boca de uma mulher com quem nunca jazera em intimidade, que dormiu, ela, na sua cama dele, por muito energicamente que estivesse a andar em direco  casa onde o equvoco caso se produziu, por fora haveria de suspender o passo, olhar com pasmo a ousada criatura, os homens, confessemo-lo de uma vez, nunca acabaro de entender as mulheres, felizmente que este conseguiu, sem saber bem como, descobrir no meio da sua confuso as palavras exactas que a ocasio pedia, Nunca mais dormirs noutra. Realmente, esta frase era assim que tinha de ser, perder-se-ia todo o efeito se ele tivesse dito, por exemplo, como quem pe a sua assinatura num acordo de convenincias, Bom, j que tu foste dormir  minha cama, irei eu dormir  tua. Tinha-se abraado novamente Isaura a Cipriano Algor depois do que ele dissera, no custa nada imaginar com que entusiasmo o fazia, mas ele teve um sbito sobressalto em que os sentimentos da paixo, ao parecer, no tinham parte, Esqueci-me de tirar a mala do carro, foi s isto o que disse. Sem prever ainda as consequncias do prosaico acto, levando o Achado aos saltos atrs de si, abriu a porta da furgoneta e agarrou na mala. Teve a primeira intuio do que iria acontecer quando entrou na cozinha, a segunda quando entrou no quarto, mas a certeza certa s a teve quando Isaura, com uma voz que se esforava por no tremer, lhe perguntou, Vieste para ficar. A mala estava no cho,  espera de algum que a abrisse, mas essa operao, se bem que necessria, podia ficar para mais tarde. Cipriano Algor fechou a porta. H momentos assim na vida, para que o cu se abra  preciso que uma porta se feche. Meia hora depois, j em paz, como uma praia de onde se vai retirando a mar, Cipriano Algor contou o que se havia passado no Centro, a descoberta da gruta, a Imposio de segredo, a vigilncia, a descida  escavao, o negrume l dentro, o medo, os mortos atados ao banco de pedra, as cinzas da fogueira. Ao princpio, quando o vira subir a ladeira na furgoneta, Isaura pensou que Cipriano voltava para casa por no ter podido aguentar mais a separao e a ausencia, e essa ideia, como  de calcular, afagou o seu ansioso corao de amante, mas agora, com a cabea descansando no cncavo do ombro dele, sentindo a mo dele na sua cintura, as duas razes pareceram-lhe igualmente justas, e, alm disso, se nos dermos ao trabalho de observar que h pelo menos uma face, a da insuportabilidade, em que uma e outra se tocam e se tornam comuns, passa automaticamente a no existir qualquer motivo srio para


afirmar que as duas razes so contraditrias entre si. Isaura Madruga no  particularmente versada em histrias antigas e invenes mitolgicas, mas s precisou de duas palavras simples para compreender o essencial da questo. Embora as conheamos j, no se perde nada em deix-las escritas outra vez, ramos ns.
 tarde, como fora combinado, Cipriano Algor telefonou a Marta para lhe dizer que havia chegado bem, que a casa estava como se a tivessem deixado ontem, que ao Achado pouco faltara para endoidecer de felicidade, e que a Isaura mandava um abrao. Donde est a falar, perguntou Marta, De casa, evidentemente, E Isaura, A Isaura est aqui ao meu lado, queres falar com ela, Falarei, mas diga-me primeiro o que se passa, A que te referes, A isso mesmo, a estar a Isaura a, Desagrada-te, No diga disparates e deixe-se de dar voltas  nora, responda-me, A Isaura fica comigo, E o pai fica com quem, Ficamos um com o outro, se era o que querias ouvir. Do outro lado, houve um silncio. Depois Marta disse, Deu-me uma grande alegria, Pelo tom ningum o dir, O tom no tem que ver com estas palavras, mas com outras, Quais, O dia de amanh, o futuro, Teremos tempo de pensar no futuro, No finja, no feche os olhos  realidade, sabe perfeitamente que o presente acabou para ns, Vocs esto bem, ns c nos havemos de arranjar, Nem eu estou bem nem est bem o Maral, Porqu, Se a no h futuro, tambm no o haver aqui, Explica-te melhor, por favor, Tenho um filho a crescer-me na barriga, se ele alguma vez quiser, quando for senhor das suas aces, viver num stio como este, ter feito o que era sua vontade, mas, pari-lo eu aqui, no, Deverias ter pensado nisso antes, Nunca  demasiado tarde para emendar um erro, mesmo quando as consequncias j no tm remdio, e estas ainda o podero ter, Como, Primeiro teremos de conversar muito, Maral e eu, depois logo se ver, Pensa bem, no te precipites, O erro, meu pai, tambm pode ser a consequncia de ter pensado bem, alm disso, que eu saiba, no est escrito em nenhuma parte que precipitar-se tem forosamente de levar a maus resultados, Espero que nunca te enganes, No sou to ambiciosa, s quereria no me enganar esta vez, e agora, se me d licena, ponto final no dilogo do pai e da filha, chame-me a a Isaura, que tenho muito que falar com ela. Cipriano Algor passou o telefone e saiu para a eira. Ali est a olaria onde um resto de barro solitrio se vai ressecando, ali est o forno onde trezentos bonecos perguntam uns aos outros por que diabo os fizeram, ali est a lenha que inutilmente esperar que a levem  fornalha. E Marta que diz, Se aqui no haver futuro, a tambm no o h. Cipriano Algor conheceu hoje a felicidade, o cu aberto do amor que declarado se consumou, e agora a esto novamente as nuvens de tempestade, as sombras malignas da dvida e do temor, basta ver que aquilo que o Centro lhe pagou pelas estatuetas, mesmo que apertem o cinto at ao ltimo furo, no chegar para mais de dois meses, e que a diferena entre o que a empregada de balco Isaura Madruga ganha na loja e o zero deve ser praticamente outro zero. E depois, perguntou, olhando a amoreira-preta, e ela respondeu, Depois, velho amigo, como sempre, o futuro.
Quatro dias depois Marta voltava a telefonar, Apareceremos a amanh  tarde. Cipriano Algor fez umas contas rpidas, Mas a folga do Maral no devia ser para agora, Pois no, Ento, Guarde as perguntas para quando chegarmos, Queres que vos v buscar, No vale a pena, tomaremos um txi. Cipriano Algor disse a Isaura que lhe parecia estranha a visita, Salvo se, acrescentou, a distribuio das folgas teve de ser alterada por causa de alguma confuso burocrtica que a descoberta da gruta tenha provocado, mas nesse caso o natural seria ela t-lo dito e no mandar-me a mim guardar as perguntas para quando c estiverem, Um dia passa depressa, disse Isaura, amanh saberemos. Afinal, o dia no passou to rapidamente


quanto Isaura pensava. Vinte e quatro horas a pensar so muitas, vinte e quatro horas se diz porque o sonho no  tudo,  noite, provavelmente, h outros pensamentos na nossa cabea que puxam uma cortina e continuam a pensar sem ningum saber. Cipriano Algor no se tinha esquecido das categricas palavras de Marta referidas ao filho que est para nascer, Pari-lo eu aqui, no, uma frase absolutamente explcita, sem rodeios, no um daqueles conjuntos de sons vocais mais ou menos organizados que at quando afirmam parecem estar a duvidar de si mesmos. A concluso, portanto, em boa lgica, s poderia ser uma, Marta e Maral iam deixar o Centro. Se o fizerem, ser um disparate, dizia Cipriano Algor, de que  que vo viver depois, Essa mesma pergunta se nos poderia fazer a ns, disse Isaura, e nem por isso me vs preocupada, Acreditas na divina providncia que vela pelos desvalidos, No, o que creio  que h ocasies na vida em que devemos deixar-nos levar pela corrente do que acontece, como se as foras para lhe resistir nos faltassem, mas de sbito percebemos que o rio se ps a nosso favor, ningum mais deu por isso, s ns, quem olha julgar que estamos a ponto de naufragar, e nunca a nossa navegao foi to firme, Oxal que a ocasio em que nos encontramos seja uma dessas. No tardaria muito a saber-se. Marta e Maral saram do txi, descarregaram do porta-bagagem alguns volumes, menos do que aqueles que antes tinham levado para o Centro, o Achado desafogou a emoo em duas arrebatadas voltas  amoreira-preta, e quando o carro desceu a ladeira para regressar  cidade Maral disse, J no sou empregado do Centro, pedi a demisso de guarda. Cipriano Algor e Isaura no acharam que tivessem de manifestar surpresa, que ainda por cima soaria a falso, mas pelo menos uma pergunta estavam obrigados a fazer, uma daquelas perguntas inteis sem as quais parece que no podemos viver, Tens a certeza de que foi o melhor para vocs, e Maral respondeu, No sei se foi o melhor ou o pior, fiz o que devia ser feito, e no fui o nico, tambm se demitiram outros dois colegas, um externo e um residente, E o Centro, como reagiram eles, Quem no se ajusta no serve e eu tinha deixado de ajustar-me, as duas ltimas frases j foram ditas depois do jantar, E quando sentiste que tinhas deixado de ajustar-te, perguntou Cipriano Algor, A gruta foi a ltima gota, como tambm o foi para si, E para esses teus colegas, Sim, tambm para eles. Isaura tinha-se levantado e comeado a levantar a mesa, mas Marta disse, Deixa estar, depois arrumamos as duas, temos de decidir o que vamos fazer, A Isaura, disse Cipriano Algor,  de opinio de que nos deveramos deixar levar pela corrente do que acontece, que sempre chega um momento em que percebemos que o rio est a nosso favor, Eu no disse sempre, corrigiu Isaura, disse que h ocasies, de todo o modo no faam caso,  s uma fantasia que me passou pela cabea, Para mim serve, aprovou Marta, pelo menos parece-se muito com o que nos tem vindo a suceder, Que iremos fazer ento, perguntou o pai, O Maral e eu vamos procurar a nossa vida longe daqui, est decidido, o Centro acabou, a olaria j tinha acabado, de uma hora para a outra passmos a ser como estranhos neste mundo, E ns, perguntou Cipriano Algor, No deve esperar que seja eu a aconselhar-lhes o que tero de fazer, Entendo bem se pensar que ests a propor que nos separemos, Entende mal, o que eu digo  que as razes de uns podem no ser as razes de todos, Posso dar uma opinio, sugerir uma ideia, perguntou Isaura, na verdade no sei se j tenho esse direito, estou na famlia nem h meia dzia de dias, e mesmo assim sinto-me como se tivesse vindo  experincia, como se tivesse entrado pela porta das traseiras, J por c andavas h meses, desde aquele famoso cntaro, disse Marta, quanto ao resto das palavras que disseste o meu pai que responda, A no ser que ela parece ter uma opinio para dar, uma ideia para sugerir, nada mais ouvi, portanto qualquer apreciao minha neste momento estaria com certeza fora do


debate, disse Cipriano Algor, Que ideia era essa tua, perguntou Marta, Tem que ver com aquela fantasia da corrente que nos leva, disse Isaura, Explica-te, E  a coisa mais simples do mundo, J sei qual  a ideia, interrompeu Cipriano Algor, Qual , perguntou Isaura, Vamos tambm, Exacto. Marta respirou fundo, Para ter ideias aproveitveis, no h como ser mulher, Convm no nos precipitarmos, disse Cipriano Algor, Que queres dizer, perguntou Isaura, Tens a tua casa, o teu emprego, E da, Largar assim tudo, virar as costas, J tinha largado tudo antes, j tinha virado as costas antes, quando apertei aquele cntaro contra o peito, realmente era preciso que fosses homem para no compreenderes que te estava a apertar a ti, as ltimas palavras quase se perderam numa sbita irrupo de soluos e de lgrimas. Cipriano Algor estendeu timidamente a mo, tocou-lhe num brao, e ela no pde evitar que o choro redobrasse, ou talvez precisasse de que assim acontecesse, s vezes no so suficientes as lgrimas que j chormos, temos de pedir-lhes por favor que continuem.
Os preparativos ocuparam todo o dia seguinte. Primeiro de uma casa, logo da outra, Marta e Isaura escolheram o que acharam necessrio para uma viagem que no tem destino conhecido e que no se sabe como nem onde terminar. A furgoneta foi carregada pelos homens, auxiliados pelos ladridos de estmulo do Achado, nada inquieto hoje com o que era, com clareza total, uma nova mudana, porque na sua cabea de co no podia sequer entrar a ideia de que estivessem para o abandonar segunda vez. A manh da partida apareceu com o cu grisalho, tinha chovido de noite, na eira havia, aqui e alm, pequenas poas de gua, e a amoreira-preta, para sempre agarrada  terra, ainda gotejava. Vamos, perguntou Maral, Vamos, disse Marta. Subiram para a furgoneta, os dois homens  frente, as duas mulheres atrs, com o Achado ao meio, e quando Maral ia pr o carro em movimento, Cipriano Algor disse bruscamente, Espera. Saiu da furgoneta e dirigiu os passos para o forno, Aonde vai, perguntou Marta, Que ir ele fazer, murmurou Isaura. A porta do forno foi aberta, Cipriano Algor entrou. Quando da a pouco saiu vinha em mangas de camisa e servia-se do casaco para transportar algo pesado, uns quantos bonecos, no poderia ser outra coisa, Quer lev-los de recordao, disse Maral, mas enganava-se, Cipriano Algor aproximou-se da porta da casa e comeou a dispor as estatuetas no cho, de p, firmes na terra molhada, e quando as colocou a todas voltou ao forno, nessa altura j os outros viajantes tinham descido da furgoneta, nenhum deles fez perguntas, um a um entraram tambm no forno e trouxeram bonecos para fora, Isaura correu  furgoneta para buscar um cesto, um saco, qualquer coisa, e os bonecos iam pouco a pouco ocupando o espao em frente da casa, e ento Cipriano Algor entrou na olaria e retirou com todo o cuidado da prateleira as estatuetas defeituosas que ali tinha juntado, e reuniu-as s suas irms escorreitas e ss, com a chuva tornar-se-o em lama, e depois em p quando o sol a secar, mas esse  o destino de qualquer de ns, agora j no  s diante da casa que as estatuetas esto de guarda, tambm defendem a entrada da olaria, no fim sero mais de trezentos bonecos olhando a direito, palhaos, bobos, esquims, mandarins, enfermeiras, assrios de barbas, at agora o Achado ainda no deitou abaixo nenhum, o Achado  um co consciente, sensvel, quase humano, no precisa que lhe expliquem o que se est a passar aqui. Cipriano Algor foi fechar a porta do forno, disse, Agora podemos ir-nos. A furgoneta fez a manobra e desceu a ladeira. Chegando  estrada virou  esquerda. Marta chorava com os olhos secos, Isaura abraava-a, enquanto o Achado se enroscava a um canto do assento por no saber a quem acudir. Alguns quilmetros andados, Maral disse, Escreverei aos meus pais quando pararmos para almoar. E logo, dirigindo-se a Isaura e ao sogro, Havia um cartaz, daqueles grandes, na fachada do Centro,


so capazes de adivinhar o que ele dizia, perguntou, No temos ideia, responderam ambos, e ento Maral disse, como se recitasse, BREVEMENTE, ABERTURA AO PBLICO DA CAVERNA DE PLATO, ATRACO EXCLUSIVA, NICA NO MUNDO, COMPRE J A SUA ENTRADA.

Fim
